{"id":175,"date":"2008-10-17T22:05:44","date_gmt":"2008-10-18T01:05:44","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/10\/placebo\/"},"modified":"2021-02-06T11:42:24","modified_gmt":"2021-02-06T14:42:24","slug":"placebo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2008\/10\/17\/placebo\/","title":{"rendered":"Placebo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\">\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-760 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/08\/placebo5-300x247.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/08\/placebo5-300x247.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/08\/placebo5.jpg 567w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Modificado do livro <a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=NJ0uu9xTiIIC&amp;dq=fletcher+epidemiology+clinical&amp;pg=PP1&amp;ots=kQKMvevrAZ&amp;sig=QBlbt5pUVmJQ_gvEnzw3YNSIFqY&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;resnum=4&amp;ct=result#PPP1,M1\">Clinical Epidemiology<\/a> &#8211; The Essentials &#8211; 3 ed.<\/p>\n<p><strong>Placebo<\/strong> \u00e9 o futuro da segunda conjuga\u00e7\u00e3o latina do verbo <em>placeo<\/em> que pode ser traduzido como agradar, aprazer. Tem a mesma raiz de <strong>prazer<\/strong>, portanto. Placebo pode ser traduzido como &#8220;eu agradarei&#8221; e indica medica\u00e7\u00e3o sem princ\u00edpio ativo com o intuito \u00fanico de &#8220;agradar&#8221; o paciente.<br \/>\nO placebo \u00e9 um dos recursos mais controversos da medicina, e tamb\u00e9m um dos mais poderosos. Tido como comprova\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca da &#8220;cura pela mente&#8221;, \u00e9 adorado e odiado por m\u00e9dicos e cientistas, sendo que ambos o consideram indispens\u00e1vel. Explico.<br \/>\nUma medica\u00e7\u00e3o placebo produz o chamado <strong>efeito placebo<\/strong>. Trata-se de conseguir o efeito medicamentoso esperado (p.ex. analgesia, melhora da depress\u00e3o, etc) sem utilizarmos uma medica\u00e7\u00e3o com efeito farmacol\u00f3gico espec\u00edfico. O efeito placebo tem diferentes significados para pesquisadores e cl\u00ednicos. Pesquisadores est\u00e3o interessados em isolar os efeitos de determinadas drogas de modo a correlacionar tais efeitos com as teorias correntes e associ\u00e1-las a rela\u00e7\u00f5es de causas e efeitos. Consideram o efeito placebo como a linha de base da a\u00e7\u00e3o de qualquer medicamento, a partir do qual o efeito terap\u00eautico deva ser medido. Cl\u00ednicos, por outro lado, desejam o efeito placebo e sempre tentam maximiz\u00e1-lo nos tratamentos que prescrevem. O interessante \u00e9 que toda medica\u00e7\u00e3o tem, al\u00e9m de seu efeito terap\u00eautico real, uma parcela vari\u00e1vel de efeito placebo. No caso dos antibi\u00f3ticos o efeito espec\u00edfico \u00e9 muito maior que o placebo. J\u00e1 quando falamos por exemplo de medica\u00e7\u00f5es psicoativas, a hist\u00f3ria \u00e9 outra. \u00c9 dif\u00edcil saber exatamente o quanto do efeito de uma medica\u00e7\u00e3o antidepressiva \u00e9 placebo ou espec\u00edfico. Da\u00ed as complicadas pesquisas que s\u00e3o realizadas &#8220;cegando&#8221; pacientes e m\u00e9dicos sobre quem est\u00e1 utilizando placebo ou a droga a ser estudada. \u00c9 \u00f3bvio que o cl\u00ednico est\u00e1 interessado no efeito espec\u00edfico da droga, mas se o efeito placebo puder dar uma m\u00e3ozinha tamb\u00e9m, ele n\u00e3o vai ficar chateado. O importante \u00e9 a melhora do paciente.<br \/>\nNa verdade, o efeito espec\u00edfico de cada droga prescrita \u00e9 s\u00f3 uma parte da melhora que o paciente pode alcan\u00e7ar. Olhando para a figura acima, vemos que uma parcela da melhora pode ser atribu\u00edda \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o natural de uma doen\u00e7a &#8211; sim, h\u00e1 doen\u00e7as nas quais a cura \u00e9 espont\u00e2nea! Outras vezes, apenas o fato de observarmos um grupo de pacientes e outros n\u00e3o, pode justificar uma melhora cl\u00ednica nos pacientes observados. Esse efeito \u00e9 chamado de <strong>Hawthorne<\/strong> em homenagem ao local (sub\u00farbio de Chicago) onde foi descrito pela primeira vez (j\u00e1 comentamos esse assunto no <a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/eccemedicus\/2008\/06\/22\/in-silico-clinical-trials\/\">post<\/a>). O restante da melhora cl\u00ednica alcan\u00e7ada pode ent\u00e3o, ser finalmente atribu\u00eddo aos efeitos placebo e espec\u00edfico do medicamento.<br \/>\nA conversa fica interessante quando perguntamos quais s\u00e3o os mecanismos de a\u00e7\u00e3o de um placebo. Dependendo do interpelado, a resposta vai variar da metaf\u00edsica a neurofisiologia, da psicologia motivacional ao simples condicionamento skinneriano. O fato \u00e9 que os mecanismos de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o bem estabelecidos, o que envolve o placebo com uma aura de certo misticismo. Isso permite as v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, usos e mal-usos j\u00e1 citados.<br \/>\nCom todos esses comemorativos, a hist\u00f3ria do placebo \u00e9 digna de um roteiro hollywoodiano. Quase t\u00e3o antiga quanto a pr\u00f3pria medicina, atravessou s\u00e9culos e s\u00e9culos de pr\u00e1tica m\u00e9dica ajudando seres humanos necessitados, sobreviveu ao Esclarecimento que demoliu o pensamento m\u00e9dico gal\u00eanico, resistiu \u00e0 tecnologiza\u00e7\u00e3o da medicina e \u00e9 hoje, ferramenta indispens\u00e1vel de uma racionalidade m\u00e9dica ultra-moderna, que depende dele, placebo, para valida\u00e7\u00e3o de suas verdades<em>.<\/em><br \/>\nMe perguntaram certa vez se o uso de placebo era \u00e9tico. Como se estiv\u00e9ssemos a ludibriar o paciente com uma p\u00edlula de a\u00e7\u00facar. Primeiro, que n\u00e3o prescrevemos p\u00edlulas de a\u00e7\u00facar (tampouco, de farinha)! Segundo que, como j\u00e1 se disse, todo medicamento tem uma a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e um efeito placebo, em maior ou menor grau. Na realidade, acho que a pergunta \u00e9 mal-posta.\u00a0 \u00c9tica \u00e9 diferente de Epistemologia. Como justificar a eticidade de uma inten\u00e7\u00e3o? O placebo nos faz lembrar da humanidade que est\u00e1 envolvida na intera\u00e7\u00e3o entre dois mam\u00edferos primatas: um sentindo-se mal e outro, com a melhor das inten\u00e7\u00f5es. Dado que ambos primatas envolvidos t\u00eam uma imagina\u00e7\u00e3o sublime, a complexidade na qual a rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 \u00e9 compar\u00e1vel aos sentimentos que eles t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte ou ao amor. Um imagina que o outro vai cur\u00e1-lo. O outro imagina que vai, pelo menos, aliviar o sofrimento de seu semelhante. Nesse jogo de inten\u00e7\u00f5es \u00e9 que a medica\u00e7\u00e3o com efeito placebo alto ou baixo atua.<br \/>\nPor isso, considero o placebo como uma das maiores inven\u00e7\u00f5es da medicina. Uma meta-inven\u00e7\u00e3o, na verdade, j\u00e1 que atua na fonte das invencionices da estranha esp\u00e9cie humana que adoece como todas, mas resiste como nenhuma, em morrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modificado do livro Clinical Epidemiology &#8211; The Essentials &#8211; 3 ed. Placebo \u00e9 o futuro da segunda conjuga\u00e7\u00e3o latina do verbo placeo que pode ser traduzido como agradar, aprazer. Tem a mesma raiz de prazer, portanto. 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