{"id":192,"date":"2008-11-07T15:29:35","date_gmt":"2008-11-07T18:29:35","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/11\/acromegalia-ii\/"},"modified":"2008-11-07T15:29:35","modified_gmt":"2008-11-07T18:29:35","slug":"acromegalia-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2008\/11\/07\/acromegalia-ii\/","title":{"rendered":"Acromegalia II"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center\">\n<div align=\"center\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"yetisyn_rysunek65.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/yetisyn_rysunek651.jpg\" class=\"mt-image-center\" style=\"margin: 0pt auto 20px;text-align: center\" height=\"280\" width=\"276\" \/> <br \/><span style=\"font-family: Courier New\">Desenho de m\u00e1scara mortu\u00e1ria escavada no Peru com tra\u00e7os de acromegalia<\/span><\/div>\n<p><big><big><\/big><\/big>\n<\/p>\n<div style=\"text-align: left\">Muitos diagn\u00f3sticos em medicina s\u00e3o feitos atrav\u00e9s do <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/01\/diagnostico_e_intuicao.php\">m\u00e9todo de reconhecimento de padr\u00f5es<\/a>. O m\u00e9dico olha para um paciente e, ao conseguir subtrair as diferen\u00e7as, rearranja as similaridades em um formato de tal modo a poder compar\u00e1-lo com outro j\u00e1 previamente visto. Quando a compara\u00e7\u00e3o faz sentido, est\u00e1 feito o diagn\u00f3stico. Parece simples, mas depende de experi\u00eancia pr\u00e9via e principalmente, como t\u00eam mostrado estudos recentes, da capacidade de rearranjar as informa\u00e7\u00f5es em m\u00faltiplos formatos, verificar sua coer\u00eancia, e compar\u00e1-las com in\u00fameros diagn\u00f3sticos diferenciais. Os diagn\u00f3sticos diferenciais s\u00e3o uma lista de patologias cab\u00edveis no caso espec\u00edfico. Mais que erudi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica \u00e9 uma forma do m\u00e9dico manter outras portas abertas, um tipo de plano B, caso o diagn\u00f3stico no qual ele aposta, n\u00e3o se confirme em avalia\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p>Todas as doen\u00e7as que d\u00e3o sinais e\/ou deformidades mais ou menos caracter\u00edsticas s\u00e3o afeitas ao diagn\u00f3stico por reconhecimento de padr\u00e3o. Principalmente, quando a deformidade \u00e9 facial. H\u00e1 exemplos cl\u00e1ssicos: hansen\u00edase (antigamente conhecida como lepra), neurofibromatose ou doen\u00e7a de von Recklinghausen (a doen\u00e7a do homem-elefante) e, claro, a acromegalia (ver figura). No caso espec\u00edfico desta \u00faltima, meu calv\u00e1rio, os diagn\u00f3sticos diferenciais s\u00e3o extremamente escassos. Na verdade, existe apenas um diagn\u00f3stico diferencial para a acromegalia, o que seria uma grande not\u00edcia se esse diagn\u00f3stico n\u00e3o se constitu\u00edsse propriamente de um estado patol\u00f3gico. Na verdade, nem uma doen\u00e7a seria. Seria apenas uma constata\u00e7\u00e3o. O&nbsp; reconhecimento de padr\u00e3o da acromegalia esbarra em apenas um \u00fanico &#8220;diagn\u00f3stico&#8221; diferencial: a fei\u00fara. Um tipo espec\u00edfico de fei\u00fara de tra\u00e7os grosseiros e primitivos em total oposi\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o vigente de beleza. \u00c9 um grande desafio despir-se de todo tipo de preconceitos, em especial os machistas, infiltrados em suas vis\u00f5es de mundo e utilizar conhecimentos isentos de ju\u00edzos morais para tomar decis\u00f5es puramente t\u00e9cnicas!<\/p>\n<p>Eu fazia parte do <em>staff <\/em>cl\u00ednico de um hospital universit\u00e1rio que atendia a comunidade acad\u00eamica e seus funcion\u00e1rios. Nas tardes de ter\u00e7a-feira, fui escalado para um tipo de pronto-atendimento voltado exclusivamente \u00e0 comunidade universit\u00e1ria. Era um atendimento de problemas simples: gripes, infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias, amidalites, crises de p\u00e2nico e coisas afins. Numa tarde nublada, adentra a sala de atendimento uma secret\u00e1ria de um departamento com queixas bastante vagas. Cefal\u00e9ia, dores pelo corpo, etc. Era uma mo\u00e7a de uns trinta anos. Pele branca, cabelo curtinho, \u00f3culos. A face coberta de espinhas. Um pouco gordinha e baixa. Uma mo\u00e7a feia. Os <em>padr\u00f5es<\/em> come\u00e7aram a borbulhar como \u00e1gua fervente na minha cabe\u00e7a. Os sinais eram muito sutis, examinei as m\u00e3os, fiz algumas perguntas. N\u00e3o estava certo do diagn\u00f3stico mas no final da consulta arrisquei: &#8220;Acho que voc\u00ea tem um pequeno tumor no c\u00e9rebro. Essas altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o compat\u00edveis com acromegalia. Precisamos fazer alguns exames e uma tomografia&#8221;. Diferentemente de meu outro paciente, ela ficou em sil\u00eancio, ouviu tudo que eu tinha para dizer, pegou todas as requisi\u00e7\u00f5es e disse que assim que os exames ficassem prontos, retornaria.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s esse epis\u00f3dio, n\u00e3o tinha tido nenhuma not\u00edcia da minha paciente. Estava em um plant\u00e3o noturno no pronto-socorro geral, ocupad\u00edssimo, quando vi uma figura conhecida, que rapidamente se esgueirou por um dos corredores e desapareceu. Corri atr\u00e1s e vi que era a paciente em quest\u00e3o. Chamei-a e ap\u00f3s mostrar-me surpreso por v\u00ea-la t\u00e3o bem, perguntei por que ela n\u00e3o havia retornado. Sem conseguir me olhar de frente e com l\u00e1grimas nos olhos, contou a seguinte hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>&#8220;Doutor, sa\u00ed da consulta naquela tarde completamente arrasada. Tinha de escolher entre me conformar em ser apenas uma mulher feia ou ter um tumor no c\u00e9rebro! N\u00e3o fui trabalhar no dia seguinte e entrei em profunda depress\u00e3o. Tenho amigos m\u00e9dicos e numa reuni\u00e3o, um colega me perguntou o porqu\u00ea de meu estado e eu contei a hist\u00f3ria. Ele ficou revoltad\u00edssimo e disse que nunca um m\u00e9dico deveria proceder da forma como voc\u00ea procedeu. Ele e outros amigos me incentivaram a mover um processo. Procurei um advogado. Juntei suas requisi\u00e7\u00f5es com a hip\u00f3tese de acromegalia, recibos de consultas com psiquiatras e psic\u00f3logos, receitas de antidepressivos, dias de trabalho perdidos e come\u00e7amos a montar a documenta\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Todo o processo seria baseado em danos morais pelo fato de a paciente ter sido exposta a um diagn\u00f3stico inexistente com enormes preju\u00edzos psicol\u00f3gicos e financeiros. Faltava apenas a prova de que a doen\u00e7a n\u00e3o existia. Continuou: &#8220;Fui orientada a procurar um neurologista e me encaminhei ao Hospital das Cl\u00ednicas. L\u00e1 fiz uma resson\u00e2ncia.&#8221; Eu estava desesperado.<\/p>\n<p>&#8220;A resson\u00e2ncia, por\u00e9m, mostrou um microadenoma de hip\u00f3fise! Minha vida virou de cabe\u00e7a para baixo. Entrei em parafuso. Consegui superar tudo com ajuda da fam\u00edlia e dos amigos. Fui operada h\u00e1 6 meses e estou bem&#8221;. Eu estava estupefato. Quando pensei no perigo que passei devido ao excesso de confian\u00e7a; nos preju\u00edzos que um processo poderia causar \u00e0 minha curta carreira profissional; no desconforto desnecess\u00e1rio que causei \u00e0 paciente; na revolta que gerou toda uma mobiliza\u00e7\u00e3o contra minha pessoa, pouqu\u00edssimo simp\u00e1tica ao c\u00edrculo de amizade da paciente &#8211; o diagn\u00f3stico correto ficou num plano muito, muito secund\u00e1rio. Ela abriu a bolsa e me deu uma carta que carregava com ela desde que se descobrira doente. Era uma carta de agradecimento, um grande obrigado. Eu disse que quem deveria agradecer era evidentemente, eu. Por que? Porque a li\u00e7\u00e3o estava aprendida: o exerc\u00edcio da medicina \u00e9 algo muito maior que diagn\u00f3sticos dif\u00edceis e tratamentos corretos.<\/p>\n<p>Tenho essa carta comigo, at\u00e9 hoje. Para eventuais per\u00edodos de d\u00e9ficit de mem\u00f3ria.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desenho de m\u00e1scara mortu\u00e1ria escavada no Peru com tra\u00e7os de acromegalia Muitos diagn\u00f3sticos em medicina s\u00e3o feitos atrav\u00e9s do m\u00e9todo de reconhecimento de padr\u00f5es. O m\u00e9dico olha para um paciente e, ao conseguir subtrair as diferen\u00e7as, rearranja as similaridades em um formato de tal modo a poder compar\u00e1-lo com outro j\u00e1 previamente visto. 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