{"id":1920,"date":"2012-03-22T00:36:49","date_gmt":"2012-03-22T03:36:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=1920"},"modified":"2012-03-22T00:36:49","modified_gmt":"2012-03-22T03:36:49","slug":"eu-sem-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/03\/22\/eu-sem-mim\/","title":{"rendered":"Eu Sem Mim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1929\" style=\"width: 295px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/03\/eu-sem-mim\/mib-ambassador\/\" rel=\"attachment wp-att-1929\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1929\" class=\" wp-image-1929\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/03\/mib-ambassador.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/03\/mib-ambassador.jpg 365w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/03\/mib-ambassador-300x222.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1929\" class=\"wp-caption-text\">ET de MIB I &quot;aprisionado&quot; em seu corpo<\/p><\/div>\n<p>A caracter\u00edstica principal de quem dirige um ve\u00edculo com pr\u00e1tica \u00e9 a <strong><span style=\"color: #008000\">automaticidade<\/span><\/strong> dos procedimentos. Mudam-se marchas e acionam-se dispositivos de maneira quase inconsciente. O todo das a\u00e7\u00f5es forma ent\u00e3o, um conjunto harm\u00f4nico de atitudes que fazem com que a condu\u00e7\u00e3o do carro se torne parte de um ambiente &#8220;<span style=\"color: #008000\"><strong>normal&#8221;<\/strong><\/span>. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel ouvirmos m\u00fasicas e at\u00e9 conversarmos dentro de um ve\u00edculo, esquecendo-nos que ele est\u00e1 em movimento, por vezes, em alta velocidade. Assim \u00e9 o funcionamento do nosso organismo. Quantos processos autom\u00e1ticos n\u00e3o coexistem sem que sequer saibamos de suas causas ou de seus efeitos? Rea\u00e7\u00f5es, pulsa\u00e7\u00f5es, contra\u00e7\u00f5es, explos\u00e3o de -a\u00e7\u00f5es em um concerto mudo. J\u00e1 se disse que a <a href=\"http:\/\/www.skoob.com.br\/livro\/resenhas\/36160\">sa\u00fade \u00e9 a vida no <strong>sil\u00eancio<\/strong> dos org\u00e3os<\/a>. Mas algumas parcas notas dessa sinfonia nos s\u00e3o dadas a ouvir. Imagine-se, por exemplo,\u00a0como seria se tiv\u00e9ssemos de nos &#8220;lembrar&#8221; de nossas &#8220;fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas&#8221;, como evacuar ou esvaziar a bexiga de tempos em tempos, se o corpo n\u00e3o nos &#8220;avisasse&#8221; de suas necessidades. Suponhamos que n\u00e3o <span style=\"color: #008000\"><strong>sent\u00edssemos<\/strong><\/span> fome, sono, sede, libido, amor (?)&#8230;<\/p>\n<p>A continuarmos por esse caminho, podemos come\u00e7ar a supor que muitas de nossas escolhas &#8220;conscientes&#8221; podem ser origin\u00e1rias de uma outra fonte que n\u00e3o a pr\u00f3pria vontade do nosso <strong>Eu<\/strong>. Um caminho que levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias pode conduzir \u00e0 armadilha &#8211; sem\u00e2ntica e vazia &#8211; do <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/09\/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian\/\">fisicalismo<\/a><strong>, <\/strong>por\u00a0um lado, e, por outro, a um determinismo biol\u00f3gico muito pr\u00f3ximo de um materialismo cientificista, tamb\u00e9m incapaz de satisfazer as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade desse Eu, alma, <em>Self<\/em>, <em>Selbst<\/em>, sujeito, ou o que quer que seja. Mas como negar a exist\u00eancia desse Eu, sujeito ou <em>Self, <\/em><strong><span style=\"color: #008000\">propriet\u00e1rio<\/span><\/strong> de um corpo que o carrega para l\u00e1 e para c\u00e1 e o insere no mundo da vida? Existiria algo como o ET do filme &#8220;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Men_in_Black\">Homens de Preto<\/a>&#8220;, que, autopsiado, revela seu verdadeiro Eu como o propriet\u00e1rio de uma carca\u00e7a mec\u00e2nica (figura) que fingia ser um ser humano? Ser\u00e1 essa a met\u00e1fora de uma exist\u00eancia bipartida?<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um Eu todo poderoso excluso do corpo que lhe d\u00e1 abrigo, \u00e9 sacramentada em\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>Descartes<\/strong><\/span>. Nietzsche chama esse tipo de pensamento de descuidado.<\/p>\n<blockquote><p>Sejamos mais cuidadosos que Descartes, que se manteve preso \u00e0 armadilha das palavras. Cogito \u00e9 decididamente apenas uma palavra, mas ela significa algo m\u00faltiplo: algo \u00e9 m\u00faltiplo e n\u00f3s, grosseiramente, o deixamos escapar, na boa-f\u00e9 de que seja uno. Naquele c\u00e9lebre cogito se encontram: 1) pensa-se; 2) eu creio que sou eu quem pensa; 3) mesmo admitindo-se que o segundo ponto permanecesse implicado, como artigo de f\u00e9, ainda assim o primeiro &#8220;pensa-se&#8221; cont\u00e9m ainda uma cren\u00e7a, a saber: que &#8220;pensar&#8221; seja uma atividade para a qual um sujeito, no m\u00ednimo um &#8220;isso&#8221;, deva ser pensado &#8211; al\u00e9m disso, o <em>ergo sum<\/em> nada significa! Mas isso \u00e9 f\u00e9 na gram\u00e1tica; j\u00e1 s\u00e3o aqui institu\u00eddas &#8220;coisas&#8221; e suas &#8220;atividades&#8221;, e n\u00f3s nos afastamos da certeza imediata.[1]<\/p><\/blockquote>\n<p>Para Nietzsche, a extra\u00e7\u00e3o de um Eu do processo do pensamento \u00e9 um efeito das fun\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e gramaticais que atuam inconscientemente. Um efeito colateral do processo do pensar. \u00c9 como se o motorista, para abusar da analogia acima, ao automatizar todos os movimentos da dire\u00e7\u00e3o, passasse a sentir o &#8220;corpo&#8221; do carro como seu. No par\u00e1grafo 16 de &#8220;Al\u00e9m do Bem e do Mal&#8221;, Nietzsche desconstr\u00f3i a c\u00e9lebre formula\u00e7\u00e3o cartesiana.<\/p>\n<blockquote><p>uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es ousadas, cuja fundamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, talvez imposs\u00edvel; &#8211; por exemplo, que sou <strong><em>eu<\/em><\/strong> que pensa, que, em geral, tem que haver um &#8216;algo&#8217; que pensa, que pensar \u00e9 uma atividade e um efeito de parte de um ser, que \u00e9 pensado como causa, que existe um &#8216;eu&#8217;, finalmente que j\u00e1 est\u00e1 estabelecido o que deve ser designado com pensar, &#8211; que eu <strong><em>sei<\/em><\/strong> o que \u00e9 pensar.[3]<\/p><\/blockquote>\n<p>Para ent\u00e3o, escrever<\/p>\n<blockquote><p>Pois se eu j\u00e1 n\u00e3o tivesse me decidido comigo a respeito, por qual medida julgaria que o que est\u00e1 acontecendo n\u00e3o \u00e9 talvez <strong>sentir<\/strong>, ou <strong>querer<\/strong>? Em resumo, aquele eu penso pressup\u00f5e que eu <strong>compare<\/strong> meu estado moment\u00e2neo com outros estados que em mim conhe\u00e7o, para determinar o que ele \u00e9: devido a essa refer\u00eancia retrospectiva a um <strong>saber<\/strong> de outra parte, ele n\u00e3o tem para mim, de todo modo, nenhuma <strong>certeza<\/strong> imediata.[3]<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 como diferenciar <em>sentir<\/em> ou <em>querer<\/em> de <em>pensar<\/em>? Em caso negativo, \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, abolir a alma ou o tal Eu &#8211; <em>res<\/em> <em>cogitans<\/em>\u00a0de Descartes-; em caso positivo, estar\u00edamos comparando configura\u00e7\u00f5es mentais diferentes e a conclus\u00e3o seria sempre relacionada &#8211; comparada &#8211; \u00e0 outra coisa, impedindo-me assim, de chegar \u00e0 certeza nuclear, fundacional de todo o conhecimento humano. Nietzsche inverte, portanto, a l\u00f3gica herdada da tradi\u00e7\u00e3o: &#8220;existo, logo o conjunto de meus pensamentos produz um Eu&#8221;. Chega-se \u00e0 conclus\u00e3o ent\u00e3o, que &#8220;esse Eu, esse <em>si-mesmo<\/em>, \u00e9 infinitamente mais complexo do que a unidade aparentemente simples da autoconsci\u00eancia&#8221;.[2] Est\u00e1 enraizado muito mais profundamente na exist\u00eancia do indiv\u00edduo: funda-se na pr\u00f3pria animalidade de suas origens e ocupa um espa\u00e7o do qual a autoconsci\u00eancia \u00e9 apenas a ponta do iceberg.\u00a0E a\u00ed, entra o Zaratustra: &#8220;Por detr\u00e1s de teus pensamentos e dos teus sentimentos, irm\u00e3o, h\u00e1 um rei poderoso e um s\u00e1bio desconhecido &#8211; que tem por nome <em>Si<\/em>. Vive no teu corpo, \u00e9 o teu corpo. H\u00e1 mais raz\u00e3o em teu corpo do que em tua melhor sabedoria.&#8221;[4]<\/p>\n<p>&#8220;(O corpo) n\u00e3o \u00e9 apenas &#8216;a carne&#8217; e a sede das paix\u00f5es, desejos e desgarramentos, nem mesmo a <em>res<\/em> <em>extensa<\/em>, de que cogitara Descartes; ao contr\u00e1rio do que pensara o platonismo e o cristianismo, o corpo n\u00e3o \u00e9 a pris\u00e3o do esp\u00edrito, o oposto da raz\u00e3o. Para Nietzsche, o corpo \u00e9 a <span style=\"color: #008000\"><strong>Grande Raz\u00e3o<\/strong><\/span>.&#8221;[2, grifos meus]. A pequena raz\u00e3o \u00e9 o Eu. Um brinquedo na m\u00e3o da Grande Raz\u00e3o. Um subproduto, um epifen\u00f4meno. O que faz perguntar, mas, ent\u00e3o, para que uma pequena raz\u00e3o t\u00e3o desenvolvida a ponto de nos enganar como fim em-si, sede do Eu e de mim, por tantos s\u00e9culos?<\/p>\n<p>(continua&#8230;)<\/p>\n<p>1. <strong>Nietzsche, F<\/strong>. Fragmento P\u00f3stumo 40 [23], agosto-setembro de 1885, <em>apud<\/em> <strong>Giac\u00f3ia Jr, O<\/strong>. <em>Metaf\u00edsica e Subjetividade<\/em> in as Ilus\u00f5es do Eu &#8211; Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. Andr\u00e9 Martins, Homero Santiago, Lu\u00eds C\u00e9sar Oliva. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011.<\/p>\n<p>2.\u00a0<strong>Giac\u00f3ia Jr, O<\/strong>.\u00a0<em>Metaf\u00edsica e Subjetividade<\/em>\u00a0in as Ilus\u00f5es do Eu &#8211; Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. Andr\u00e9 Martins, Homero Santiago, Lu\u00eds C\u00e9sar Oliva. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011.<\/p>\n<p>3. <strong>Nietzsche, F<\/strong>. Al\u00e9m do Bem e do Mal. \u00b616, pg 21-22. Trad Paulo C\u00e9sar de Souza. Companhia das Letras. 1992.<\/p>\n<p>4.\u00a0<strong>Nietzsche, F<\/strong>. Assim Falou Zaratustra. Dos desprezadores de corpo. Trad M de Campos. Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica. pg 29-31. Portugal. 1988.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caracter\u00edstica principal de quem dirige um ve\u00edculo com pr\u00e1tica \u00e9 a automaticidade dos procedimentos. Mudam-se marchas e acionam-se dispositivos de maneira quase inconsciente. O todo das a\u00e7\u00f5es forma ent\u00e3o, um conjunto harm\u00f4nico de atitudes que fazem com que a condu\u00e7\u00e3o do carro se torne parte de um ambiente &#8220;normal&#8221;. 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