{"id":2116,"date":"2012-04-24T23:23:28","date_gmt":"2012-04-25T02:23:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2116"},"modified":"2012-04-24T23:23:28","modified_gmt":"2012-04-25T02:23:28","slug":"o-que-voce-vai-ser-quando-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/04\/24\/o-que-voce-vai-ser-quando-morrer\/","title":{"rendered":"O Que Voc\u00ea Vai Ser Quando Morrer?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><em>&#8220;A decomposi\u00e7\u00e3o humana come\u00e7a aproximadamente\u00a04 min depois da morte. O in\u00edcio da decomposi\u00e7\u00e3o \u00e9 dominado por um processo chamado aut\u00f3lise ou auto-digest\u00e3o. Conforme as c\u00e9lulas do corpo s\u00e3o privadas de oxig\u00eanio, o di\u00f3xido de carbono aumenta no sangue, o pH diminui e as esc\u00f3rias acumulam-se, envenenando as c\u00e9lulas. Concomitantemente, enzimas celulares (lipases, proteases, amilases, etc.) come\u00e7am a dissolver as c\u00e9lulas de dentro para fora, causando sua ruptura, liberando fluidos ricos em nutrientes. Esse processo inicia-se precocemente e progride mais r\u00e1pido em tecidos com alto teor enzim\u00e1tico\u00a0(tal como o f\u00edgado) e com alto conte\u00fado de \u00e1gua (como o c\u00e9rebro), mas afetar\u00e1 todas as c\u00e9lulas do corpo. A aut\u00f3lise normalmente n\u00e3o se torna aparente at\u00e9 alguns dias. Primeiro, s\u00e3o observadas ves\u00edculas preenchidas por fluidos e descolamentos\u00a0de grandes extens\u00f5es na pele.\u00a0O corpo fica \u00e0 temperatura ambiente\u00a0(<span style=\"color: #008000\"><strong>algor mortis<\/strong><\/span>), o sangue deposita-se no corpo causando a descolora\u00e7\u00e3o na pele\u00a0(<span style=\"color: #008000\"><strong>l<span style=\"color: #008000\">i<\/span>vor mortis<\/strong><\/span>), e o citoplasma celular coagula devido ao aumento da acidez\u00a0(<strong><span style=\"color: #008000\">rigor mortis<\/span><\/strong>). Depois que uma quantidade suficiente de c\u00e9lulas se rompe, os fluidos ricos em nutrientes tornam-se dispon\u00edveis e o processo de putrefa\u00e7\u00e3o pode come\u00e7ar.&#8221; <\/em>[Vaas, 2002, em tradu\u00e7\u00e3o livre por minha conta e risco]<\/p>\n<p>Muitos dos que n\u00e3o acreditam na vida ap\u00f3s a morte &#8211; eu incluso &#8211; pensam em deixar um legado de a\u00e7\u00f5es, lembran\u00e7as, livros e\/ou artigos j\u00e1 estariam de bom tamanho; quem sabe filhos&#8230; A <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Decomposition\">decomposi\u00e7\u00e3o<\/a> de um corpo humano envolve uma <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Chemical_process_of_decomposition\">s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas<\/a>, como se sabe. Quando um corpo humano \u00e9 cremado, o que em geral ocorre a temperaturas maiores que 1000\u00b0C, <a href=\"http:\/\/lostinscience.wordpress.com\/2011\/02\/17\/ashes-to-ashes\/\">todos os fluidos s\u00e3o evaporados e o que resta s\u00e3o cinzas dos ossos<\/a>. O mineral presente nos ossos \u00e9 a hidroxiapatita cuja a f\u00f3rmula \u00e9\u00a0Ca<sub>5<\/sub>(PO<sub>4<\/sub>)<sub>3<\/sub>(OH). O calor, entretanto, a transforma em sais de fosfato de c\u00e1lcio [Ca<sub>3<\/sub>(PO<sub>4<\/sub>)<sub>2<\/sub>]. <a href=\"http:\/\/www.lafayettecrematory.com\/PublicationsForms\/chemical-components.html\">Gayle E. O&#8217;Neill<\/a> chegou a quantificar as subst\u00e2ncias presentes nas cinzas de corpos cremados e encontrou a seguinte composi\u00e7\u00e3o:\u00a0Fosfato 47,5%; C\u00e1lcio 25,3%; Sulfato 11,00%; Pot\u00e1ssio 3,69%; S\u00f3dio 1,12%; Cloreto 1,00%; S\u00edlica 0,9%; \u00d3xido de Alum\u00ednio 0,72%;\u00a0Magn\u00e9sio 0,418%; \u00d3xido de Ferro\u00a00,118%;\u00a0Zinco 0,0342%; \u00d3xido de\u00a0Tit\u00e2nio 0,0260%;\u00a0B\u00e1rio 0,0066%;\u00a0Antim\u00f4nio 0,0035%;\u00a0Cromo 0,0018%;\u00a0Cobre 0,0017%;\u00a0Mangan\u00eas 0,0013%; Chumbo\u00a00,0008%; Estanho\u00a00,0005%;\u00a0Van\u00e1dio 0,0002%;\u00a0Ber\u00edlio &lt;0,0001%;\u00a0Merc\u00fario &lt;0,00001%. Muitas dessas subst\u00e2ncias t\u00eam cor. Quando misturam-se com \u00e1gua e umas com as outras, rea\u00e7\u00f5es interessantes podem ocorrer. Foi o que o fot\u00f3grafo <a href=\"http:\/\/www.davidmaisel.com\/works\/lod.asp\">David Maisel<\/a> descobriu.<\/p>\n<p>Maisel visitou um antigo <a href=\"http:\/\/www.brainpickings.org\/index.php\/2011\/08\/11\/david-maisel-library-of-dust\/\">hosp\u00edcio no estado do Oregon<\/a> nos EUA. No pr\u00e9dio abandonado, pode verificar que muitos dos internos que l\u00e1 vieram a falecer, foram cremados por que nenhum familiar veio reclamar o corpo. As cinzas, armazenadas em latas, permaneceram durante d\u00e9cadas a merc\u00ea do tempo, mesmo depois da institui\u00e7\u00e3o ser desativada. Infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e mudan\u00e7as de temperatura, fizeram com que os sais reagissem com o metal da lata, provocando rea\u00e7\u00f5es inusitadas. Cada lata, como cada personalidade ali confinada, tem um padr\u00e3o de cor e desenho totalmente diferente das outras.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/04\/o-que-voce-vai-ser-quando-morrer\/libraryofdust1-2\/\" rel=\"attachment wp-att-2125\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2125 alignleft\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/libraryofdust11.jpg\" alt=\"\" width=\"197\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/libraryofdust11.jpg 683w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/libraryofdust11-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/04\/o-que-voce-vai-ser-quando-morrer\/libraryofdust4\/\" rel=\"attachment wp-att-2126\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2126\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/libraryofdust4.jpg\" alt=\"\" width=\"197\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/libraryofdust4.jpg 683w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/libraryofdust4-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 como se a personalidade da pessoa ficasse estampada no corpo da lata. Maisel fotografou com detalhe todo o local e publicou um <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Library-Dust-David-Maisel\/dp\/0811863336\/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1335319190&amp;sr=8-1\">livro<\/a> sobre o assunto. \u00c9 interessante observar os padr\u00f5es. Ver como as rea\u00e7\u00f5es com subst\u00e2ncias bastante semelhantes ocorreram de forma \u00fanica e especial para formar uma individualidade que, mesmo que l\u00e1 houvesse milhares de milh\u00f5es de latas, jamais se repetiria. Como seres humanos viventes que, numa met\u00e1fora m\u00f3rbida da morte que se volta sobre si, refletem a vida que tiveram numa institui\u00e7\u00e3o para desajustados e, mesmo mortos, tornam a diferenciar-se, na igualdade de seu confinamento, em m\u00faltiplos padr\u00f5es de cores e texturas. Um luxo s\u00f3. Como dizer que sua morte foi v\u00e3?<\/p>\n<p>Morrer \u00e9 uma arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/04\/o-que-voce-vai-ser-quando-morrer\/lod_cad_m_02\/\" rel=\"attachment wp-att-2132\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2132\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/lod_cad_m_02.jpg\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/lod_cad_m_02.jpg 446w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/04\/lod_cad_m_02-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_tiny.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p>Vass AA, Barshick SA, Sega G, Caton J, Skeen JT, Love JC, &amp; Synstelien JA (2002). Decomposition chemistry of human remains: a new methodology for determining the postmortem interval. <span style=\"font-style: italic\">Journal of forensic sciences, 47<\/span> (3), 542-53 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/12051334\" rev=\"review\">12051334<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A decomposi\u00e7\u00e3o humana come\u00e7a aproximadamente\u00a04 min depois da morte. O in\u00edcio da decomposi\u00e7\u00e3o \u00e9 dominado por um processo chamado aut\u00f3lise ou auto-digest\u00e3o. Conforme as c\u00e9lulas do corpo s\u00e3o privadas de oxig\u00eanio, o di\u00f3xido de carbono aumenta no sangue, o pH diminui e as esc\u00f3rias acumulam-se, envenenando as c\u00e9lulas. Concomitantemente, enzimas celulares (lipases, proteases, amilases, etc.) [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":466,"featured_media":2125,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[8,14],"tags":[],"class_list":["post-2116","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/466"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2116\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2125"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}