{"id":2119,"date":"2013-07-16T17:02:31","date_gmt":"2013-07-16T20:02:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2119"},"modified":"2013-07-16T17:02:31","modified_gmt":"2013-07-16T20:02:31","slug":"o-ethos-medico-e-o-espirito-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/07\/16\/o-ethos-medico-e-o-espirito-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"O Ethos M\u00e9dico e o Esp\u00edrito do Capitalismo"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-7qSvlb_DBhc\/TYK9LkdrqCI\/AAAAAAAABjI\/Vz-pwwt9VYM\/s320\/thomas-mitchell-stagecoach-1.jpg\" width=\"320\" height=\"210\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Dr Josiah &#8220;Doc&#8221; Boone por Thomas Mitchell em &#8220;No tempo das Dilig\u00eancias&#8221; (Stagecoach-1939)<\/p><\/div>\n<p>A medicina do final do s\u00e9culo XIX n\u00e3o tinha o discurso empoderado, nem tampouco o\u00a0<em>status<\/em>\u00a0atual (se bem que este \u00faltimo anda bastante combalido, convenhamos). Abrigava em sua &#8220;maleta&#8221; m\u00faltiplas teorias de doen\u00e7a que a dividiam em escolas beligerantes; era tecnicamente ineficaz; n\u00e3o tinha nenhum tipo de controle governamental e, por isso tudo talvez, era tamb\u00e9m mal remunerada e pouco reconhecida como profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, um exemplo que talvez tipifique tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolta_da_Vacina\">Revolta da Vacina<\/a>\u00a0(1904)\u00a0iniciada por uma \u00a0decis\u00e3o do m\u00e9dico brasileiro de maior prest\u00edgio nacional e internacional de ent\u00e3o, Osvaldo Cruz, em vacinar contra a var\u00edola, compulsoriamente, os habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Sem conseguir convencer as pessoas dos benef\u00edcios de sua decis\u00e3o, a revolta terminou por deixar trinta\u00a0mortos e cento e dez feridos, sendo centenas de pessoas presas, muitas delas depois &#8220;deportadas&#8221; para o Acre. (O epis\u00f3dio foi recentemente reconstitu\u00eddo por uma\u00a0<a href=\"http:\/\/tvg.globo.com\/novelas\/lado-a-lado\/Fique-por-dentro\/naquele-tempo\/noticia\/2012\/10\/naquele-tempopor-que-ze-maria-luta-com-a-policia-na-revolta-da-vacina.html\">novela<\/a>.)<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica do Norte a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era diferente. Os m\u00e9dicos norte-americanos do come\u00e7o do s\u00e9culo XIX n\u00e3o tinham l\u00e1 muito boa fama. Tal arqu\u00e9tipo, encarnado pelo premiado (Oscar de melhor ator coadjuvante em 1939)\u00a0Thomas Mitchell que interpretou um m\u00e9dico alco\u00f3latra no filme &#8220;<a href=\"http:\/\/www.cineplayers.com\/filme.php?id=591\">No tempo das dilig\u00eancias<\/a>&#8221; de John Ford, com John Wayne no elenco, estava mais para um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Vm7F0aDAMUM\">fracassado<\/a>\u00a0que para bom partido. Seu enorme cora\u00e7\u00e3o e sua coragem n\u00e3o garantiam ao Dr. Boone os bons\u00a0resultados. Sua especialidade eram mesmo os destilados de milho do Velho Oeste.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 30, contudo, a medicina norte-americana j\u00e1 era uma profiss\u00e3o organizada em sociedades m\u00e9dicas de car\u00e1ter econ\u00f4mico e cient\u00edfico. Os m\u00e9dicos passaram a ascender socialmente, aumentando seus ganhos financeiros e tamb\u00e9m sua import\u00e2ncia no cen\u00e1rio pol\u00edtico das cidades. Faculdades de medicina e hospitais tornaram-se o centro da pr\u00e1tica m\u00e9dica concebida como atividade tecnol\u00f3gica e voltada para obten\u00e7\u00e3o de resultados objetivos. O que teria ocorrido? Qual mudan\u00e7a foi respons\u00e1vel por esse salto de qualidade? Que onda de modernidade daria conta de passar a limpo a medicina e tornar os EUA a pot\u00eancia biom\u00e9dica que s\u00e3o\u00a0hoje? Conta a hist\u00f3ria oficial que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, grandes reformas na educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica foram instauradas e ajudaram a organizar o grande caos que reinava no Canad\u00e1 e nos Estados Unidos. Abraham Flexner, educador e professor americano, foi o mentor dessa reforma. Visitou 155 escolas de medicina (131 dos EUA e 24 do Canad\u00e1) e produziu um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.carnegiefoundation.org\/sites\/default\/files\/elibrary\/Carnegie_Flexner_Report.pdf\">relat\u00f3rio que \u00e9 seminal nas discuss\u00f5es sobre ensino m\u00e9dico<\/a>\u00a0(em pdf) at\u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0102-311X2010001200003&amp;script=sci_arttext\">hoje<\/a>. Nesse relat\u00f3rio, ele define o que seria um curr\u00edculo ideal para as faculdades de medicina tendo como modelo a faculdade de medicina da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.hopkinsmedicine.org\/about\/history\/\">Johns Hopkins<\/a>. Foram fechadas quase uma centena de faculdades que n\u00e3o se adequaram ao procedimento padr\u00e3o. Feita a &#8220;poda&#8221;, a medicina poderia ent\u00e3o, florescer e dar bons frutos na Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>Mas, algumas quest\u00f5es sobre esse\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0hist\u00f3rico t\u00eam sido levantadas. Em especial, porque muitas das causas da <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/sobre\/\">brutal crise\u00a0que se abate sobre a medicina em v\u00e1rios lugares do mundo<\/a> podem ter sua origem nesse per\u00edodo extremamente turbulento da hist\u00f3ria da humanidade. Tal transi\u00e7\u00e3o a que me referi acima e o consequente\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0m\u00e9dico que se deu a partir de ent\u00e3o, foram forjados no esp\u00edrito do capitalismo agressivo e esfomeado do in\u00edcio do s\u00e9culo XX e que tomou de assalto, n\u00e3o s\u00f3 a medicina e outras a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, mas tamb\u00e9m, todo o sistema de ensino norte-americano, dado que a m\u00e3o de obra especializada se constitu\u00eda no grande \u00f3bice \u00e0 formid\u00e1vel expans\u00e3o econ\u00f4mica que logo se seguiu. N\u00e3o se discute a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e cient\u00edfica da medicina atual, discute-se sua forma de ser nessa tecnoci\u00eancia. Em tempos nos quais a importa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos &#8211; alegadamente objetivando preencher vazios assistenciais que os escul\u00e1pios aut\u00f3ctones n\u00e3o conseguem (ou n\u00e3o querem) preencher -, parece iminente e, em meio a medidas atabalhoadas do governo federal contra um\u00a0<em>establishment\u00a0<\/em>de branco, algo demonizado at\u00e9, em que pese sua\u00a0<em><strong>\u00f3bvia<\/strong><\/em>\u00a0responsabilidade sobre a situa\u00e7\u00e3o atual, uma leitura hist\u00f3rica parece se impor mais do que nunca.<\/p>\n<p>Espero que tal abordagem ajude a clarificar a diferen\u00e7a entre\u00a0<em><strong>medicina<\/strong><\/em>\u00a0e\u00a0<em><strong>ci\u00eancia,\u00a0<\/strong><\/em>que alguns ainda insistem em n\u00e3o ver<strong><\/strong><em><strong>.<\/strong><\/em>\u00a0A medicina e seu hibridismo epistemol\u00f3gico at\u00e1vico, n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia e o tecnicismo atual que transforma m\u00e9dicos em tecn\u00f3logos da sa\u00fade j\u00e1 tem sido suficientemente criticado. Por outro lado, sua import\u00e2ncia nas pol\u00edticas de sa\u00fade faz dela uma atividade estrat\u00e9gica ao poder estatal. Reduzir a medicina a um instrumento pol\u00edtico \u00e9 perigoso e ineficaz, e a hist\u00f3ria \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos que mostram que quem mais\u00a0sofre com isso sempre s\u00e3o os mais indefesos. Vivemos as vicissitudes de um modelo m\u00e9dico que escolhemos h\u00e1 duzentos anos. Achar que as responsabilidades desse modelo recaem apenas em seus executores de branco \u00e9 um ato de <em><strong>pusilanimidade<\/strong><\/em>. Aos leitores m\u00e9dicos, n\u00e3o reconhecer nossas responsabilidades sobre tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 <em><strong>covardia<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Um passo atr\u00e1s, por favor. Que outros possam me ajudar a recontar essa hist\u00f3ria. Talvez assim, possamos entender o presente ca\u00f3tico e planejar um futuro melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A medicina do final do s\u00e9culo XIX n\u00e3o tinha o discurso empoderado, nem tampouco o\u00a0status\u00a0atual (se bem que este \u00faltimo anda bastante combalido, convenhamos). 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