{"id":2154,"date":"2012-05-01T22:02:15","date_gmt":"2012-05-02T01:02:15","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2154"},"modified":"2012-05-01T22:02:15","modified_gmt":"2012-05-02T01:02:15","slug":"vampiros-e-bruxas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/05\/01\/vampiros-e-bruxas\/","title":{"rendered":"Vampiros e Bruxas"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel distinguir, dentre muitos, dois arqu\u00e9tipos oriundos do\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>medo<\/strong><\/span>\u00a0humano de relacionar-se com outros seres humanos: um masculino e um feminino.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/05\/vampiros-e-bruxas\/attachment\/0015\/\" rel=\"attachment wp-att-2156\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/0015.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"354\" \/><\/a>O arqu\u00e9tipo feminino \u00e9 a\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>bruxa<\/strong><\/span>\u00a0ou\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>feiticeira<\/strong><\/span>. Mulher de grande sabedoria e variadas formas, ora jovens e sedutoras, ora velhas e asquerosas, que ao induzir os homens ao erro e utilizando de m\u00faltiplos ardis, em geral, de forte apelo sexual, consegue o que deseja e, invariavelmente, leva suas v\u00edtimas \u00e0 morte.\u00a0<em>A bruxa representa o medo masculino da sabedoria feminina.<\/em>\u00a0Uma mulher s\u00e1bia era um ser bastante complicado de lidar se considerarmos o ambiente onde surgiram tais lendas, em geral, o per\u00edodo medieval. Subversiva frente ao poder f\u00e1lico emanado pelos homens, portadora de outra vis\u00e3o da sociedade, a bruxa por n\u00e3o contar com a for\u00e7a f\u00edsica masculina, utiliza-se de um tipo diverso de poder, desconhecido dos homens e por essa raz\u00e3o, temido, dado que n\u00e3o se enfrenta com espadas (cl\u00e1ssico s\u00edmbolo f\u00e1lico). Os homens que a elas resistem devem travar uma luta interna contra a concupisc\u00eancia de seus sentimentos, pois \u00e9 por meio dessa &#8220;fraqueza&#8221; que a bruxa se tornar\u00e1 forte e o vencer\u00e1. Nada mais proto-crist\u00e3o. A persegui\u00e7\u00e3o e as fogueiras nas quais foram queimadas centenas de mulheres, entretanto, testemunham a forma como a ascese mon\u00e1stica &#8211; uma amputa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica que transcendia a virilidade dado que mutilava tamb\u00e9m a capacidade de amar o sexo oposto &#8211; dizia, como a ascese mon\u00e1stica lidava com um poder que jamais conseguiria vencer.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/05\/vampiros-e-bruxas\/louis\/\" rel=\"attachment wp-att-2157\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/louis.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"252\" \/><\/a>O arqu\u00e9tipo correspondente para as mulheres n\u00e3o \u00e9 o feiticeiro ou bruxo. Este, povoa o imagin\u00e1rio feminino no mesmo local onde as mo\u00e7as est\u00e3o habituadas a duelar e, por isso, n\u00e3o provoca espasmos. Sem d\u00favida, quem ocupa esse lugar \u00e9 o\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>vampiro<\/strong><\/span>. Antiqu\u00edssima lenda de v\u00e1rias culturas, foi com Bram Stoker que ganhou corpo e fama. O livro de Stoker \u00e9 de 1897, final da \u00e9poca vitoriana, per\u00edodo de rigidez de costumes e apar\u00eancias, que apesar de tudo, falhou em coibir a libido humana, a feminina incluso. O vampiro assim, representaria o homem sedutor, quase irresist\u00edvel, ao qual a mulher reluta em entregar-se, dada as ser\u00edssimas consequ\u00eancias de seus atos, mas que, ao mesmo tempo, proporciona-lhe um prazer sexual indescrit\u00edvel, um arrebatamento quente e \u00famido que a eleva acima das coisas mundanas a ponto de implorar pelo contato com o monstro. Da mesma forma, a vampira para os homens, ocupa o mesmo espa\u00e7o que uma bela bruxa e n\u00e3o se constitui em nova amea\u00e7a (para quem j\u00e1 vive, no caso, naturalmente amea\u00e7ado).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/05\/vampiros-e-bruxas\/mv5bnzg3ndyymdu4nl5bml5banbnxkftztcwoda5nza5mg-_v1-_sy317_\/\" rel=\"attachment wp-att-2155\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2012\/04\/MV5BNzg3NDYyMDU4Nl5BMl5BanBnXkFtZTcwODA5NzA5Mg@@._V1._SY317_.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"317\" \/><\/a>Se concordamos at\u00e9 agora, poderemos tamb\u00e9m concordar que tentativas recentes de transformar vampiros, lobisomens e sacis-perer\u00ea em doen\u00e7as, s\u00e3o cada vez mais frequentes. Assisti, sem deixar de sentir um pouco de pena do elenco, o filme\u00a0<a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0433362\/\">Daybreakers (2009)<\/a>\u00a0cujo t\u00edtulo no Brasil \u00e9 o bizarro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.projetocinema.com.br\/fotos-e-posters\/foto-de-posters-e-doisstra-vampiro-sinistro\/\">2019 &#8211; O Ano da Extin\u00e7\u00e3o<\/a>. (Vou mandar um spoiler agora, se voc\u00ea pretende assistir essa porcaria, n\u00e3o leia o par\u00e1grafo at\u00e9 o fim). No filme, uma epidemia de vampiros acomete a esp\u00e9cie humana e vai transformando todos. Consequ\u00eancia \u00f3bvia, conforme os humanos v\u00e3o escasseando, os vampiros v\u00e3o passando fome, de tal forma que um sujeito do mal (Sam Neill) inventa um banco de sangue gigantesco para extrair sangue humano sem que se transforme os coitados em vampiros acabando com os j\u00e1 &#8220;parcos recursos ainda existentes&#8221;. No final, descobre-se uma cura para a &#8220;doen\u00e7a&#8221; de ser vampiro e salva-se a humanidade.<\/p>\n<p>O que quero chamar a aten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 que os vampiros do filme n\u00e3o t\u00eam nada de sedutor. As mordidas s\u00e3o muito mais parecidas com &#8220;estupros mandibulares&#8221; que com sensuais mordiscadas no pesco\u00e7o de virgens ofegantes. Sangue pra todo o lado, no melhor estilo\u00a0<em>trash<\/em>. N\u00e3o que eu quisesse manter a lenda dos vampiros exatamente a mesma, desde h\u00e1 dois s\u00e9culos. Mas, quando tentamos transformar um mito em doen\u00e7a, na verdade o que estamos fazendo \u00e9 racionaliz\u00e1-lo. Algumas doen\u00e7as desempenharam esse papel, estigmatizadas que foram, a ponto de incorporar temores primordiais. (Ver a S\u00edfilis e, recentemente, a AIDS). Nada de novo aqui. A racionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um procedimento iluminista (s\u00e9culo XVII). Tudo o que tememos, tendemos a racionalizar, seja por meio de procedimentos cient\u00edficos, seja por meio de cren\u00e7as religiosas (e nesse ponto est\u00e1 o m\u00e9rito da igreja cat\u00f3lica no per\u00edodo medieval j\u00e1 que o povo vivia morrendo de medo de tudo quanto era dem\u00f4nio, esp\u00edrito, etc) e aqui o termo &#8220;racionalizar&#8221; ganha um significado mais amplo.<\/p>\n<p>Contudo, r<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?s=ulisses\">acionalizar um mito n\u00e3o significa mat\u00e1-lo<\/a>. Significa jog\u00e1-lo para baixo do tapete e isso quer dizer que ele retornar\u00e1 transmudado em outra coisa, voltando a assombrar os incautos.\u00a0Veja se essa n\u00e3o \u00e9 uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bibi-perigosa.blogspot.com.br\/2012\/04\/parte-i.html\">hist\u00f3ria de vampiro<\/a>\u00a0real!<\/p>\n<p>A persist\u00eancia dos mitos \u00e9 o principal obst\u00e1culo ao pensamento\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>livre<\/strong><\/span>. Matar mitos \u00e9 uma luta individual, solipsista at\u00e9, que dura toda a vida consciente. Enfrentar quimeras, muitas das quais nem sabemos quem s\u00e3o: \u00e9 esse o m\u00e9todo que nos livra das garras, presas, quebrantos e feiti\u00e7os dos vampiros e bruxas que somos e habitamos em n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel distinguir, dentre muitos, dois arqu\u00e9tipos oriundos do\u00a0medo\u00a0humano de relacionar-se com outros seres humanos: um masculino e um feminino. O arqu\u00e9tipo feminino \u00e9 a\u00a0bruxa\u00a0ou\u00a0feiticeira. 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