{"id":2269,"date":"2012-06-11T22:11:14","date_gmt":"2012-06-12T01:11:14","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2269"},"modified":"2012-06-11T22:11:14","modified_gmt":"2012-06-12T01:11:14","slug":"beneficio-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/06\/11\/beneficio-preconceito\/","title":{"rendered":"Os Mestres do Preconceito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>&#8220;Cl\u00ednicos s\u00e3o\u00a0<\/em><span style=\"color: #008000\"><strong>int\u00e9rpretes<\/strong><\/span><em>\u00a0prudentes das experi\u00eancias de sa\u00fade de seus pacientes&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>R.E.G. Upshur [1]<\/em>\u00a0(grifos meus)<\/p>\n<pre><em>Ao GENAM, com carinho<\/em><\/pre>\n<p>O esfor\u00e7o do Homem (<em>antropos<\/em>) para compreender o cipoal de significados sobre o qual \u00e9 lan\u00e7ado no momento em que nasce \u00e9 crucial para sua sobreviv\u00eancia. Hoje, a infinidade de c\u00f3digos e linguagens que devemos interpretar e traduzir para lidar com o mundo \u00e9 gigantesca. A medicina, da forma como a entendo, qual seja, centrada na rela\u00e7\u00e3o entre o m\u00e9dico e o paciente, prop\u00f5e um desafio interessante porquanto aproxima duas vis\u00f5es de mundo, \u00e0s vezes muito diferentes. Ao m\u00e9dico, cabe ainda um outro desafio que \u00e9 o de aplicar o conhecimento cient\u00edfico \u00a0&#8211; quase uma\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/07\/medicina-e-etica-aristotelica\/\"><em>epist\u00e9me<\/em> aristot\u00e9lica<\/a>\u00a0&#8211; a uma pr\u00e1tica <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/07\/virtudes-aristotelicas\/\">fron\u00e9tica<\/a>\u00a0ou prudente, reconhecida desde sempre como t\u00e9cnica (<em>techn\u00e9<\/em>), citando Arist\u00f3teles, o pai dessa zorra toda que, ali\u00e1s, j\u00e1 tem alguns mil\u00eanios.<\/p>\n<p>O que tentarei demonstrar nesse pequeno espa\u00e7o, seguindo os caminhos do autor abaixo [1], \u00e9 que um pouquinho de <span style=\"color: #008000\"><strong>preconceito<\/strong><\/span> \u00e9 bom para o m\u00e9dico, tanto em sua tarefa de fundir sua vis\u00e3o de mundo \u00e0quela que o paciente v\u00ea, como quando lida com a massa enorme de conhecimento cient\u00edfico e tenta aplic\u00e1-la no ser que lhe pede socorro.\u00a0<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Thomas_bayes\">Thomas Bayes<\/a>\u00a0(1701?-1761) e\u00a0<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gadamer\">Hans-Georg Gadamer<\/a>\u00a0(1900-2002), cada um a seu tempo e a seu modo, trataram desse preconceito filos\u00f3fico. Um obscuro monge ingl\u00eas pertencente a\u00a0uma seita n\u00e3o-conformista (seja l\u00e1 o que isso realmente queira dizer) e um alem\u00e3o, brilhante aluno do sacana do Martin Heidegger, nascidos com 200 anos de intervalo, teorizaram sobre o valor do <em>preconceito<\/em>, ou <em>pr\u00e9-conceito<\/em>, ou <em>pr\u00e9-ju\u00edzo<\/em> (como no ingl\u00eas, <em>prejudice<\/em>) no ato de compreens\u00e3o humana das coisas do mundo. Eu os chamo <span style=\"color: #008000\"><strong>mestres do preconceito<\/strong><\/span>.<\/p>\n<h4>Bayes<\/h4>\n<div id=\"attachment_2275\" style=\"width: 253px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/06\/beneficio-preconceito\/thomas_bayes\/\" rel=\"attachment wp-att-2275\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2275\" class=\" wp-image-2275\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/06\/Thomas_Bayes.gif\" width=\"243\" height=\"261\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2275\" class=\"wp-caption-text\">Thomas Bayes (1701? &#8211; 1761)<\/p><\/div>\n<p>A Estat\u00edstica pode ser entendida como a ci\u00eancia que se ocupa da quantifica\u00e7\u00e3o da incerteza e, por essa raz\u00e3o, o c\u00e1lculo probabil\u00edstico ocupa um papel central nela. H\u00e1 duas formas b\u00e1sicas de se abordar a probabilidade de um evento ocorrer. Um, chamado\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>objetivo<\/strong><\/span>, \u00e9 testar a ocorr\u00eancia do evento em um n\u00famero muito grande de vezes, de modo a estabelecer a\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>frequ\u00eancia\u00a0<\/strong><\/span>do resultado que se quer estudar. \u00c9 chamado de\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>frequentista<\/strong><\/span>. O outro leva em considera\u00e7\u00e3o a probabilidade desse evento ocorrer antes que procedamos ao teste. Poder\u00edamos at\u00e9 pegar os dados de um frequentista que trabalhou duro para obt\u00ea-los e ter acesso a essa distribui\u00e7\u00e3o antes de testar o evento. Chamamos isso de probabilidade\u00a0<span style=\"color: #008000\"><em><strong>a priori<\/strong><\/em><\/span>. De posse dessa probabilidade a priori, podemos modificar nossas expectativas ao avaliar, por exemplo, o risco de uma paciente com mamografia positiva ter, de fato, c\u00e2ncer de mama [2]. O interessante \u00e9 que, quando essa distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, podemos colocar nossas pr\u00f3prias expectativas na f\u00f3rmula. Para a estat\u00edstica\u00a0<em>bayesiana<\/em>\u00a0vale a opini\u00e3o pessoal sobre o evento, vale a nossa propens\u00e3o em acreditar na distribui\u00e7\u00e3o\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>priori<\/em>, por isso, tamb\u00e9m \u00e9 chamada de\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>subjetiva<\/strong><\/span>. A n\u00f3s, interessa a origem dos\u00a0<em>a prioris<\/em>\u00a0cl\u00ednicos. H\u00e1 evid\u00eancias de que cl\u00ednicos utilizamos a experi\u00eancia pr\u00e9via muito mais que dados estat\u00edsticos consistentes [3]. De qualquer forma, o teorema de\u00a0Bayes permite que reajustemos o grau de cren\u00e7a em uma hip\u00f3tese com base em novas informa\u00e7\u00f5es. Ou em outras palavras, nossas preconcep\u00e7\u00f5es, sejam diagn\u00f3sticas, progn\u00f3sticas ou terap\u00eauticas, devem ser reavaliadas a cada novo dado, cotejadas com novas evid\u00eancias e, por fim, modificadas em novas possibilidades.<\/p>\n<h4>Gadamer<\/h4>\n<div id=\"attachment_2276\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2012\/06\/beneficio-preconceito\/gadamer1\/\" rel=\"attachment wp-att-2276\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2276\" class=\"size-full wp-image-2276\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/06\/gadamer1.jpg\" width=\"200\" height=\"297\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2276\" class=\"wp-caption-text\">Hans-Georg Gadamer (1900 &#8211; 2002)<\/p><\/div>\n<p>Em 1960, Gadamer publica\u00a0<em>Verdade e M\u00e9todo,\u00a0<\/em>seu\u00a0<em>magnum<\/em>\u00a0<em>opus,<\/em>\u00a0onde refor\u00e7a a caracter\u00edstica ontol\u00f3gica da compreens\u00e3o humana, ou como ficou conhecida mundialmente, da\u00a0<span style=\"color: #008000\"><strong>hermen\u00eautica<\/strong>\u00a0<strong>filos\u00f3fica<\/strong><\/span>. &#8220;<em>Compreender<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um ideal resignado da experi\u00eancia de vida humana na idade avan\u00e7ada do esp\u00edrito, como em Dilthey; mas tampouco \u00e9, como em Husserl, um ideal metodol\u00f3gico \u00faltimo da filosofia frente \u00e0 ingenuidade do ir vivendo. \u00c9, ao contr\u00e1rio, a\u00a0<em>forma origin\u00e1ria de realiza\u00e7\u00e3o da pre-sen\u00e7a<\/em>, que \u00e9 ser-no-mundo&#8221;- diz ele l\u00e1 na p\u00e1gina 347 [4] (it\u00e1licos originais). Gadamer demonstra que a interpreta\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o s\u00e3o constitutivos do homem lan\u00e7ado ao mundo. Nessa demonstra\u00e7\u00e3o, o pr\u00e9-conceito tem um papel fundamental. Quando interpretamos um texto, realizamos, na linguagem de Gadamer, um projeto. Como nessa cita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00e9 preciso (&#8230;) considerar que cada revis\u00e3o do projeto inicial comporta a possibilidade de esbo\u00e7ar novo projeto de sentido; que projetos contrastantes podem se entrela\u00e7ar em uma elabora\u00e7\u00e3o que, no fim, leve \u00e0 vis\u00e3o mais clara da unidade do significado; que a interpreta\u00e7\u00e3o come\u00e7a com pr\u00e9-conceitos que s\u00e3o, pouco a pouco, substitu\u00eddos por conceitos mais adequados. (&#8230;) Aqui, a \u00fanica objetividade \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o que uma pr\u00e9-suposi\u00e7\u00e3o pode receber atrav\u00e9s da elabora\u00e7\u00e3o. E o que distingue as pr\u00e9-suposi\u00e7\u00f5es inadequadas sen\u00e3o o fato de que, desenvolvendo-se, elas se revelam insubsistentes? (&#8230;) H\u00e1, portanto, um sentido positivo em dizer que o int\u00e9rprete n\u00e3o chega ao texto simplesmente permanecendo na moldura das pr\u00e9-suposi\u00e7\u00f5es j\u00e1 presentes nele, mas muito mais quando, em rela\u00e7\u00e3o com o texto, p\u00f5e \u00e0 prova a legitimidade, isto \u00e9, a origem e a validade, de tais pressuposi\u00e7\u00f5es&#8221;. [5]<\/p><\/blockquote>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o inicial a um assunto provoca uma impress\u00e3o que nos impele emitir ju\u00edzos que definem padr\u00f5es l\u00f3gicos ou generaliza\u00e7\u00f5es em nosso esfor\u00e7o eterno de tentar prever comportamentos, sequ\u00eancias ou comparar coisas novas com aquelas que j\u00e1 conhecemos. Essa primeira impress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a que fica. Ela deve ser continuamente corrigida \u00e0 luz de novas informa\u00e7\u00f5es. Os <em>a prioris bayesianos<\/em> e os <em>projetos hermen\u00eauticos<\/em>\u00a0est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximos do que poder\u00edamos jamais supor. Eles t\u00eam valor ontol\u00f3gico ou, em outras palavras, s\u00e3o criadores de conhecimento v\u00e1lido. Na medicina, essa proximidade sempre foi patente; s\u00f3 n\u00e3o tinha nome. Como diz Upshur &#8220;a <span style=\"color: #008000\"><strong>dimens\u00e3o hermen\u00eautica da medicina<\/strong><\/span> desvia nossa aten\u00e7\u00e3o de discuss\u00f5es sobre dicotomias simplistas tais como se a medicina \u00e9 uma arte ou uma ci\u00eancia; ou se o conhecimento cl\u00ednico \u00e9 subjetivo&#8221;. A medicina \u00e9 um humanismo. A doen\u00e7a tira o Homem de sua unidade habitual e abre caminho para vis\u00f5es n\u00e3o-totalizantes de seus padecimentos. O que \u00e9, ent\u00e3o, o esfor\u00e7o cl\u00ednico em compreender o Homem em suas profundidade espiritual e complexidade biol\u00f3gica? Nesse contexto, Arte e Ci\u00eancia s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es, discursos poss\u00edveis sobre uma mesma <em>coisa-em-si<\/em> humana. Subjetivos? \u00c9 \u00f3bvio que somos; dado que sempre tratamos de individuais <em>subjeitos<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Upshur, REG.\u00a0Prior and Prejudice.\u00a0Theoretical Medicine and Bioethics 20: 319\u2013327, 1999.<\/p>\n<p>[2] Pena, SD. Thomas Bayes &#8220;\u00e9 o cara&#8221;.\u00a0CI\u00caNCIA HOJE \u2022 vol. 38 \u2022 n\u00ba 228, pg 22-29 &#8211; Julho\/2006 (ver o\u00a0<a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/banco-de-imagens\/lg\/protected\/ch\/228\/bayes.pdf\/view\">pdf<\/a>)<\/p>\n<p>[3]\u00a0Gill CJ, Sabin L, Schmid CH. Why clinicians are natural bayesians. BMJ. 2005 May 7;330(7499):1080\u20133. DOI:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bmj.com\/content\/330\/7499\/1080\">10.1136\/bmj.330.7499.1080<\/a> (Open Access) &#8211; <em>veja tamb\u00e9m as cartas, corre\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios<\/em>.<\/p>\n<p>[4] Gadamer HG. Verdade e M\u00e9todo. II Parte, Volume I. Editora Vozes. Tradu\u00e7\u00e3o Fl\u00e1vio Paulo Meurer.<\/p>\n<p>[5] Reale &amp; Antiseri. Hans-Georg Gadamer e a Teoria Hermen\u00eautica. in Hist\u00f3ria da Filosofia, pag 627-639.<\/p>\n<p>PS. A conota\u00e7\u00e3o extremamente negativa que temos hoje do\u00a0<em>preconceito<\/em>\u00a0vem do Esclarecimento. Para o homem iluminista, cartesiano, um ju\u00edzo acerca de alguma coisa deve ser tomado de forma isenta e desprovida de qualquer\u00a0<em>pr\u00e9-concep\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0a respeito do assunto. Como uma\u00a0<em>tabula rasa<\/em>, dever\u00edamos absorver as evid\u00eancias e chegar a conclus\u00f5es \u00f3bvias, conclus\u00f5es as quais qualquer pessoa racional chegaria ao analisar as mesmas provas. No Esclarecimento, o objetivo \u00e9 o projeto cartesiano de obter um conhecimento metodologicamente seguro, limpo de interfer\u00eancias e infer\u00eancias pessoais.\u00a0Posteriormente, essa pre-concep\u00e7\u00e3o das coisas adquiriu um valor moral &#8211; como no pecado de &#8220;julgar um livro pela capa&#8221; -, at\u00e9 incorporar temas diversos como racismo, xenofobia, diversidade cultural, sexual e etc.<\/p>\n<p>UTI. Uma boa refer\u00eancia \u00e0s virtudes de Arist\u00f3teles, al\u00e9m claro, do &#8220;\u00c9tica a Nic\u00f4maco&#8221; \u00e9 o livro de Enrico Berti &#8220;<a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=my_KtizGqJkC&amp;printsec=frontcover&amp;hl=pt-BR#v=onepage&amp;q&amp;f=false\">As Raz\u00f5es de Arist\u00f3teles<\/a>&#8220;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Cl\u00ednicos s\u00e3o\u00a0int\u00e9rpretes\u00a0prudentes das experi\u00eancias de sa\u00fade de seus pacientes&#8221;. R.E.G. 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