{"id":249,"date":"2009-01-20T23:44:40","date_gmt":"2009-01-21T02:44:40","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/01\/deus-e-o-diabo\/"},"modified":"2009-01-20T23:44:40","modified_gmt":"2009-01-21T02:44:40","slug":"deus-e-o-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/01\/20\/deus-e-o-diabo\/","title":{"rendered":"Deus e o Diabo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/carl0z.files.wordpress.com\/2007\/02\/deusdica.jpg\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: right\">Ao Kentaro<\/div>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias formas de encurralar um te\u00edsta em uma discuss\u00e3o religiosa. Uma das mais batidas \u00e9 falar sobre a presen\u00e7a do Mal no mundo. Qualquer te\u00edsta que se preze deve dar um sorriso amarelo nesse momento e, cheio de gestos e express\u00f5es, desfilar um conte\u00fado complexo de explica\u00e7\u00f5es, algumas bem mirabolantes. O problema surge quando o te\u00edsta admite quatro afirma\u00e7\u00f5es, a saber: 1) Deus \u00e9 onipotente (todo-poderoso); 2) Deus \u00e9 onisciente (sabe de tudo); 3) Deus \u00e9 infinitamente benevolente (s\u00f3 deseja o Bem); 4) O Mal existe. Posto isso, o pobre te\u00edsta ter\u00e1 de rebolar um pouco para fugir da incoer\u00eancia dessas afirma\u00e7\u00f5es, pois elas n\u00e3o podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Ora bem, se o Mal existe ou a) Deus n\u00e3o pode evit\u00e1-lo; b) Deus n\u00e3o sabe como evit\u00e1-lo; e\/ou c) Deus n\u00e3o deseja evit\u00e1-lo; contradizendo as afirma\u00e7\u00f5es 1, 2 e 3, respectivamente. O assunto \u00e9 coisa para Santo Agostinho e outros te\u00f3logos de grande erudi\u00e7\u00e3o, da\u00ed as dificuldades de nosso interlocutor.<br \/>\nMas, no melhor estilo <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em>, lendo Hannah Arendt (<a href=\"http:\/\/compare.buscape.com.br\/a-condicao-humana-10-ed-arendt-hannah-8521802552.html?pos=2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/a>) encontrei o correspondente dessa &#8220;saia justa te\u00edsta&#8221; para os ateus. Se l\u00e1 o problema era o Mal, aqui a quest\u00e3o \u00e9 a Bondade no mundo. Sen\u00e3o, vejamos. Arendt, na p\u00e1gina 85, come\u00e7a por afirmar que &#8220;a bondade s\u00f3 pode existir quando n\u00e3o \u00e9 percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; ser\u00e1, no m\u00e1ximo, um membro \u00fatil da sociedade ou zeloso membro da Igreja&#8221;. Repare aqui que bondade \u00e9 bem diferente de caridade. Continua, concluindo que nenhum homem pode portanto, ser bom. Da\u00ed, compara a bondade com a sabedoria: &#8220;Isso nos lembra a grande vis\u00e3o de S\u00f3crates de que nenhum homem pode ser s\u00e1bio, de onde resulta o amor \u00e0 sabedoria, ou filo-sofia; toda a vida de Jesus parece atestar que o amor \u00e0 bondade resulta da compreens\u00e3o de que nenhum homem pode ser bom. O amor \u00e0 sabedoria e o amor \u00e0 bondade, que se resolvem nas atividades de filosofar e de praticar boas a\u00e7\u00f5es, t\u00eam em comum o fato de que cessam imediatamente &#8211; cancelam-se, por assim dizer &#8211; sempre que se presume que o homem pode <em>ser<\/em> s\u00e1bio ou <em>ser<\/em> bom&#8221;.<br \/>\nAcho que at\u00e9 este momento, n\u00e3o temos dificuldades em aceitar esses argumentos, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Continuemos, ent\u00e3o.<br \/>\nAs semelhan\u00e7as, entretanto, param por aqui. As diferen\u00e7as entre o amor \u00e0 sabedoria e o amor \u00e0 bondade, entre o fil\u00f3sofo e o homem bom, podem ser entendidas por meio da compreens\u00e3o dos conceitos de <strong>isolamento<\/strong> e <strong>solid\u00e3o<\/strong>. Um fil\u00f3sofo \u00e9 solit\u00e1rio. Entretanto, para Plat\u00e3o (G\u00f3rgias), estar em solid\u00e3o significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solit\u00e1ria das atividades, nunca \u00e9 feito inteiramente sozinho. J\u00e1 o amante da bondade n\u00e3o se permite viver uma vida solit\u00e1ria &#8211; quem faz o bem o faz a algu\u00e9m &#8211; e no entanto, a vida que passa na companhia dos outros e por amor aos outros deve permanecer essenciamente sem testemunhas &#8211; para poder ser bom de verdade, deve lhe faltar inclusive a companhia de si pr\u00f3prio. Ele \u00e9 isolado. &#8220;O fil\u00f3sofo sempre pode contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as (boas) obras n\u00e3o podem ser companhia para ningu\u00e9m: devem ser esquecidas a partir do instante em que s\u00e3o praticadas, porque at\u00e9 mesmo a mem\u00f3ria delas destr\u00f3i sua qualidade de &#8216;bondade'&#8221;. Ou seja, a Bondade transmutaria-se em Orgulho.<br \/>\nO portador desse tipo sublime de bondade tem como produto de suas a\u00e7\u00f5es obras que <strong>devem<\/strong> ser intang\u00edveis a ele. Ele n\u00e3o pode falar delas (seria Arrog\u00e2ncia) e nem mesmo lembrar delas (seria Soberba). \u00c9 um ser com um grau de isolamento tal que \u00e9 incompat\u00edvel com a condi\u00e7\u00e3o humana da pluralidade. Esse estado n\u00e3o pode ser suportado durante muito tempo; e a conclus\u00e3o de Arendt \u00e9 que tal estado &#8220;requer a companhia de Deus, a \u00fanica testemunha admiss\u00edvel das boas obras, para que n\u00e3o venha a aniquilar inteiramente a exist\u00eancia humana.&#8221;<br \/>\nIsso \u00e9 de uma crueza incomum em Hannah, mulher-fil\u00f3sofa, de racioc\u00ednio claro, delicado (como quando vai criticar Marx) e brilhante. Confesso que fiquei dias pensando sobre isso e resolvi compartilhar no blog.<br \/>\nSeria esse estado de bondade suprema incompat\u00edvel com a inexist\u00eancia de uma divindade?<\/p>\n<p class=\"scribefire-powered\">Powered by <a href=\"http:\/\/www.scribefire.com\/\">ScribeFire<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao Kentaro H\u00e1 v\u00e1rias formas de encurralar um te\u00edsta em uma discuss\u00e3o religiosa. Uma das mais batidas \u00e9 falar sobre a presen\u00e7a do Mal no mundo. 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