{"id":2583,"date":"2014-01-31T17:44:14","date_gmt":"2014-01-31T20:44:14","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2583"},"modified":"2014-01-31T17:44:14","modified_gmt":"2014-01-31T20:44:14","slug":"fenomenologia-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2014\/01\/31\/fenomenologia-olhar\/","title":{"rendered":"DEK &#8211; Olhar e Ver Espelhos"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 394px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/asokan63.blogspot.com.br\/2010_08_01_archive.html\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" \" alt=\"\" src=\"http:\/\/registradores.files.wordpress.com\/2012\/06\/chess-mirror.jpg\" width=\"384\" height=\"384\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Xadrez no Espelho<\/p><\/div>\n<p>O que \u00e9 &#8220;olhar&#8221;? Literalmente, olhar \u00e9 &#8220;dar uma olhada&#8221;, um golpe d&#8217;olhos. \u00c9 o movimento conjugado dos globos oculares em dire\u00e7\u00e3o a algo ou algu\u00e9m. Se, por um lado, quem n\u00e3o olha fatalmente n\u00e3o v\u00ea, como \u00e9 sabido de todos, o inverso \u00e9 mesmo poss\u00edvel, qual seja olhar de fato, sem nada ver. Por qu\u00ea? &#8220;Ver&#8221;, assim como seu correlato &#8220;enxergar&#8221;, parecem conferir algo de <em>interpretativo<\/em> ao ato mesmo de olhar. A etimologia de &#8220;enxergar&#8221; \u00e9 classificada como &#8220;incerta&#8221; pelo Houaiss e pelo Dicion\u00e1rio Etimol\u00f3gico da L\u00edngua Portuguesa, o que nos permite e(spec)ular (as raz\u00f5es desses par\u00eanteses ser\u00e3o esclarecidas abaixo). Em castelhano temos a palavra\u00a0<em><strong>envidia<\/strong><\/em>\u00a0que vem do latim <em>invidere<\/em>, sendo composta por &#8220;<em>in-&#8220;<\/em>\u00a0&#8220;p\u00f4r sobre&#8221;, &#8220;ir para&#8221; e &#8220;<em>videre&#8221;,\u00a0<\/em>o pr\u00f3prio &#8220;ver&#8221;. <strong><em>Envidia<\/em><\/strong> significa, portanto, algo como &#8220;deitar o olhar sobre&#8221; e seria um \u00e9timo poss\u00edvel para nosso &#8220;enxergar&#8221;. Por outro lado, em latim ainda temos a palavra <em>insecare<\/em>, primeira pessoa do verbo <em>inseco<\/em>, que significa &#8220;cortar, divisar&#8221;. Foi sugerido [1] que a rela\u00e7\u00e3o entre &#8220;cortar&#8221; e &#8220;saber&#8221;, que \u00e9 tamb\u00e9m dada no voc\u00e1bulo derivado do grego &#8220;an\u00e1lise&#8221;, pudesse ter originado o &#8220;enxergar&#8221;. Incerto, de qualquer forma, mas plaus\u00edvel e certamente aprovado ao menos por Michel Foucault[2].<\/p>\n<p>E o que \u00e9 &#8220;ver&#8221;? A origem \u00e9 o latim\u00a0<em>videre<\/em>\u00a0 como vimos e que, por sua vez, vem de uma raiz indoeuropeia\u00a0<em>*weid-<\/em>, comum, veja s\u00f3, \u00e0 palavra grega \u03b5\u03b9\u03b4\u03bf\u03c2 (<em>eidos<\/em>\u00a0= apar\u00eancia, imagem) t\u00e3o cara \u00e0 Plat\u00e3o e que originou as palavras &#8220;androide&#8221;, &#8220;antropoide&#8221;, &#8220;ginecoide&#8221; e tantas outras com o significado de &#8220;assemelhado a&#8221; ou &#8220;na forma de&#8221;.\u00a0Interessante tamb\u00e9m o fato de que, em bom ingl\u00eas, tal raiz tenha originado\u00a0<em>wisdom<\/em>\u00a0(sabedoria),\u00a0<em>wise<\/em>\u00a0(s\u00e1bio),\u00a0<em>wizard<\/em>\u00a0(mago), todas palavras que de certa forma designam a capacidade que algu\u00e9m tem de &#8220;ver mais longe&#8221;.<\/p>\n<p>Peculiar \u00e9 o termo <em><strong>species<\/strong><\/em>\u00a0que tamb\u00e9m significa &#8220;apar\u00eancia&#8221;, &#8220;a(spec)to&#8221; (calma, j\u00e1 chegamos l\u00e1) e &#8220;vis\u00e3o&#8221; e deriva de uma raiz (<em>spec)<\/em>\u00a0(pronto!) que significa &#8220;olhar, ver&#8221;, raiz essa que pode ser encontrada tamb\u00e9m em palavras como <em>speculum,<\/em> que n\u00e3o significa apenas &#8220;espelho&#8221;, mas tamb\u00e9m \u00e9 o nome que se d\u00e1 a um instrumento m\u00e9dico utilizado para <em><strong>ver<\/strong><\/em> &#8220;interiores corp\u00f3reos&#8221;, muito utilizado em ginecologia (ali\u00e1s, uma das &#8220;e(spec) ialidades&#8221; m\u00e9dicas); <em>spectrum<\/em>, &#8220;imagem&#8221;, &#8220;fantasma&#8221;; <em>specimen<\/em>, &#8220;exemplo&#8221;, &#8220;signo&#8221;; <em>spectaculum<\/em>, &#8220;espet\u00e1culo&#8221;. Raiz que, segundo Giorgio Agamben [3], se desdobra numa dial\u00e9tica bastante interessante.\u00a0<em>Species<\/em> foi utilizado para traduzir para o latim o termo filos\u00f3fico\u00a0<em>eidos<\/em> (acima), derivando seu sentido para as ci\u00eancias da natureza (esp\u00e9cie animal ou vegetal) e para o com\u00e9rcio, significando &#8220;mercadoria&#8221; e, mais tarde, o pr\u00f3prio dinheiro. Ainda segundo Agamben<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;especioso&#8221; significa &#8220;belo&#8221; e, <em>mais tarde<\/em>, &#8220;n\u00e3o verdadeiro&#8221;, &#8220;aparente&#8221;. &#8220;Esp\u00e9cie&#8221; significa o que torna vis\u00edvel e, <em>mais tarde<\/em>, o princ\u00edpio de uma classifica\u00e7\u00e3o de equival\u00eancia. Causar esp\u00e9cie significa &#8220;assombrar, surpreender&#8221; (em sentido negativo); mas que indiv\u00edduos constituam uma esp\u00e9cie nos traz seguran\u00e7a&#8221; [4] (it\u00e1licos no original).<\/p><\/blockquote>\n<p>A esp\u00e9cie \u00e9, ent\u00e3o, a imagem de uma coisa que se mostra ao olhar mas que, ao mesmo tempo, precisa ser fixada na pr\u00f3pria coisa para se constituir em uma identidade. Por isso, a f\u00f3rmula de Agamben \u00e9 t\u00e3o promissora: <em>&#8220;especial&#8221; \u00e9 o ser cuja ess\u00eancia coincide com seu dar-se a ver, com sua esp\u00e9cie.<\/em>\u00a0Quando algu\u00e9m diz que somos <em>especiais<\/em>, tal afirma\u00e7\u00e3o pode constituir-se num elogio de autenticidade, mas tamb\u00e9m numa cr\u00edtica de impessoabilidade ou mesmo de insubstancialidade. &#8220;S\u00f3 personalizamos algo &#8211; referindo-o a uma identidade &#8211; se sacrificamos a sua especialidade&#8221; &#8211; diz Agamben.<\/p>\n<p>E a coisa toda fica bem mais interessante quando observamos nossa pr\u00f3pria &#8220;esp\u00e9cie&#8221; refletida num espelho. Isso porque o espelho \u00e9 o <em>locus<\/em> da descoberta de que nossa &#8220;esp\u00e9cie&#8221;, nosso <em>imago<\/em>, n\u00e3o nos pertence. E &#8220;entre a percep\u00e7\u00e3o da imagem e o reconhecer-se nela h\u00e1 um intervalo que os poetas medievais denominavam <strong>amor<\/strong>&#8220;[5]. O espelho de Narciso \u00e9 essa experi\u00eancia. &#8220;Se eliminarmos esse intervalo ou o prolongarmos indefinidamente, a imagem \u00e9 interiorizada como &#8220;fantasma&#8221;, e o amor recai na psicologia&#8221;[5], met\u00e1fora para patologiza\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>Nosso olhar seria ent\u00e3o um meio pelo qual construimos um mundo e tamb\u00e9m reconhecemos os sujeitos que nele habitam. Entretanto, ao voltar-se sobre si e nos submeter ao escrut\u00ednio de seu recorte, um certo cuidado \u00e9 preciso. Para que n\u00e3o comecemos a ver fantasmas onde eles jamais existiram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Takata, R. <em>Personal communication<\/em>.<\/p>\n<p>[2] Foucault, M. <em>Microf\u00edsica do poder.<\/em> Rio de Janeiro: Graal, 1984. &#8220;\u00c9 que o saber n\u00e3o \u00e9 feito para compreender, ele \u00e9 feito para cortar.\u201d p. 28.<\/p>\n<p>[3] Agamben, G. <em>Profana\u00e7\u00f5es<\/em>. Boitempo, 2007. Tradu\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de Selvino J. Assmann. p. 52.<\/p>\n<p>[4] Idem. p. 54.<\/p>\n<p>[5] Idem. p. 53.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 &#8220;olhar&#8221;? Literalmente, olhar \u00e9 &#8220;dar uma olhada&#8221;, um golpe d&#8217;olhos. \u00c9 o movimento conjugado dos globos oculares em dire\u00e7\u00e3o a algo ou algu\u00e9m. Se, por um lado, quem n\u00e3o olha fatalmente n\u00e3o v\u00ea, como \u00e9 sabido de todos, o inverso \u00e9 mesmo poss\u00edvel, qual seja olhar de fato, sem nada ver. 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