{"id":2592,"date":"2012-12-23T14:15:37","date_gmt":"2012-12-23T17:15:37","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2592"},"modified":"2012-12-23T14:15:37","modified_gmt":"2012-12-23T17:15:37","slug":"rdescobrindo-paul-ricoeur","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2012\/12\/23\/rdescobrindo-paul-ricoeur\/","title":{"rendered":"Ricoeur, Met\u00e1foras, Narrativas e a Medicina"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/12\/Tempo-Narrativa.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2595\" alt=\"Tempo Narrativa\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/12\/Tempo-Narrativa.jpg\" width=\"270\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/12\/Tempo-Narrativa.jpg 270w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2012\/12\/Tempo-Narrativa-198x300.jpg 198w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/a>Conhe\u00e7o muita gente boa &#8211; boa mesmo &#8211; que n\u00e3o gosta de ler fic\u00e7\u00e3o. Mais especificamente, romances ou hist\u00f3rias contadas, ou mesmo narrativas. Uma vez, escrevi que <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/10\/romances_e_pacientes\/\">os romances s\u00e3o como ensaios cl\u00ednicos randomizados duplo-cegos, placebo controlados do mundo da vida<\/a>\u00a0e continuo concordando com isso. Mas, confesso, ainda me faltava um certo embasamento te\u00f3rico para sustentar isso. Paul Ricoeur talvez tenha resolvido o problema. Ele teve reeditada no Brasil sua obra m\u00e1xima <a href=\"http:\/\/www.martinsfontespaulista.com.br\/ch\/prod\/385049\/726\/0\/TEMPO-E-NARRATIVA---CAIXA-COM-3-VOLUMES.aspx\">&#8220;Tempo e Narrativa&#8221; pela editora Martins Fontes<\/a>. Segundo o que o pr\u00f3prio autor exp\u00f5e na introdu\u00e7\u00e3o ao livro, <strong>Tempo e Narrativa<\/strong> \u00e9 uma obra g\u00eamea de <strong><a href=\"http:\/\/compare.buscape.com.br\/a-metafora-viva-ricoeur-paul-8515019396.html?pos=1#precos\">A Met\u00e1fora Viva<\/a><\/strong>. Este livro pode ser considerado uma consequ\u00eancia da\u00a0&#8220;experi\u00eancia de Ricoeur na academia norte-americana, especialmente por seu contato com a filosofia anal\u00edtica anglo-sax\u00f4nica e sua inclina\u00e7\u00e3o por estudar n\u00e3o apenas a natureza ontol\u00f3gica de cada categoria, mas seus mecanismos de funcionamento e de intera\u00e7\u00e3o com o mundo&#8221;[1]. Em <strong>A Met\u00e1fora Viva<\/strong>, de 1975,\u00a0Ricoeur defende, a exemplo de Rorty, que a met\u00e1fora provoca uma inova\u00e7\u00e3o, ou como gostaria o americano, uma redescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Com a met\u00e1fora, a inova\u00e7\u00e3o consiste na produ\u00e7\u00e3o de uma nova pertin\u00eancia sem\u00e2ntica por meio de uma atribui\u00e7\u00e3o impertinente: &#8220;A natureza \u00e9 um templo onde viventes pilares&#8230;&#8221; A met\u00e1fora continua <em>viva<\/em> enquanto percebermos, atrav\u00e9s da nova pertin\u00eancia sem\u00e2ntica &#8211; e de certo modo em sua espessura -, a resist\u00eancia das palavras em seu emprego usual e, portanto, tamb\u00e9m sua incompatibilidade no n\u00edvel de uma interpreta\u00e7\u00e3o literal da frase.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Dito isso, Ricoeur passa a explicar que\u00a0<strong>Tempo e Narrativa<\/strong>\u00a0\u00e9 fruto de uma tentativa de paralelismo entre met\u00e1foras e narrativas, veja s\u00f3! No caso das narrativas,<\/p>\n<blockquote><p>&#8230; a inova\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica consiste na inven\u00e7\u00e3o de uma intriga que, tamb\u00e9m ela, \u00e9 uma obra de s\u00edntese: pela virtude da intriga, objetivos, causas, acasos s\u00e3o reunidos sob a unidade temporal de uma a\u00e7\u00e3o total e completa. \u00c9 essa <em>s\u00edntese do heterog\u00eaneo<\/em> que aproxima a narrativa da met\u00e1fora. Em ambos os casos, algo novo &#8211; algo ainda n\u00e3o dito, algo in\u00e9dito &#8211; surge na linguagem: aqui, a met\u00e1fora <em>viva<\/em>, isto \u00e9, uma nova pertin\u00eancia na predica\u00e7\u00e3o, ali, uma intriga <em>inventada<\/em>, isto \u00e9, uma nova congru\u00eancia no agenciamento dos incidentes.<\/p><\/blockquote>\n<p>S\u00f3 por isso, o estudo de tais &#8220;literatices&#8221; por profissionais de sa\u00fade j\u00e1 estaria justificado, contudo, ainda assim, estar\u00edamos a pisar em um campo bastante te\u00f3rico. Mas, Ricoeur avan\u00e7a mais. Para ele, a imagina\u00e7\u00e3o produtiva \u00e9 quem possibilita a compreens\u00e3o. Met\u00e1foras e narrativas <em>simulam<\/em> (n\u00e3o estaria aqui embutida a ideia de ensaio?!) num n\u00edvel superior de uma metalinguagem, a intelig\u00eancia enraizada no esquematismo que nos aprisiona: o da linguagem. Como grande hermeneuta que \u00e9, escreve:<\/p>\n<blockquote><p>Consequentemente, quer se trate de met\u00e1fora ou de intriga, explicar mais \u00e9 compreender melhor. Compreender, no primeiro caso [met\u00e1fora], \u00e9 voltar a captar o dinamismo em virtude do qual um enunciado metaf\u00f3rico, uma nova pertin\u00eancia sem\u00e2ntica emergem das ru\u00ednas da pertin\u00eancia sem\u00e2ntica tal como aparece numa leitura literal da frase. Compreender, no segundo caso [narrativa], \u00e9 voltar a captar a opera\u00e7\u00e3o que unifica numa a\u00e7\u00e3o inteira e completa a diversidade constitu\u00edda pelas circunst\u00e2ncias, pelos objetivos e pelos meios, pelas iniciativas e pelas intera\u00e7\u00f5es, pelas reviravoltas da fortuna e por todas as consequ\u00eancias n\u00e3o desejadas da a\u00e7\u00e3o humana.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 isso! Hoje, o discurso cient\u00edfico, por seus poderes pre-vision\u00e1rios e seus resultados, sobrescreve a medicina de tal forma que o m\u00e9dico se torna quase como um &#8220;papagaio-de-estudos-cl\u00ednicos&#8221;, repetindo-os sem parar at\u00e9 que novos estudos substituam os antigos. Nossos pacientes n\u00e3o querem s\u00f3 isso. Sem abandonar a ci\u00eancia, \u00e9 preciso dar algum valor aos discursos que, feitos de linguagem, s\u00e3o quase como que abstra\u00eddos da rela\u00e7\u00e3o entre os m\u00e9dicos e seus pacientes (e entre m\u00e9dicos tamb\u00e9m!), como interferentes, ru\u00eddos indesej\u00e1veis. Como fazer isso? Trata-se de um problema epistemol\u00f3gico pois refere-se ao valor de verdade que atribu\u00edmos a determinadas informa\u00e7\u00f5es. Ricoeur vai no nervo:<\/p>\n<blockquote><p>O problema epistemol\u00f3gico levantado, quer pela met\u00e1fora, quer pela narrativa, consiste em grande medida em ligar a <em>explica\u00e7\u00e3o<\/em> empregada pelas ci\u00eancias semio-linguisticas \u00e0 <em>compreens\u00e3o<\/em> pr\u00e9via que decorre de uma familiaridade adquirida com a pr\u00e1tica linguageira, tanto po\u00e9tica como narrativa.<\/p><\/blockquote>\n<p>Seria a partir do &#8220;estranhamento&#8221; \u00e0 &#8220;familiaridade da pr\u00e1tica linguageira&#8221; causado\u00a0pela poesia (met\u00e1foras em tr\u00e2nsito) e pelas narrativas (ensaios de intrigas sint\u00e9ticas do mundo da vida) que quebrar\u00edamos o transe cognitivo causado pelo costume. Se o discurso po\u00e9tico permite \u00e0 linguagem acessar realidades que n\u00e3o s\u00e3o atingidas pelo discurso meramente descritivo, permitindo inclusive a Ricoeur falar em refer\u00eancia metaf\u00f3rica, em especial nos campos &#8220;sensorial, p\u00e1tico, est\u00e9tico e axiol\u00f3gico, constituintes do mundo <em>habit\u00e1vel&#8221;,\u00a0<\/em>a fun\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica das narrativas, por sua vez, se exerce de prefer\u00eancia no campo da a\u00e7\u00e3o e de seus valores <em>temporais<\/em>.\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2013\/04\/lorraine\/\"><em><strong>As narrativas reconfiguram nossas experi\u00eancias temporais<\/strong><\/em><\/a>. \u00c9 daqui que elas retiram seu valor de verdade. Heidegger \u00e9 foda.<\/p>\n<p>(Desculpem o palavr\u00e3o)<\/p>\n<p>[1] Ver resenha &#8220;profissa&#8221; do livro <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/prosa\/posts\/2011\/04\/09\/resenha-de-tempo-narrativa-de-paul-ricoeur-373702.asp\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7o muita gente boa &#8211; boa mesmo &#8211; que n\u00e3o gosta de ler fic\u00e7\u00e3o. Mais especificamente, romances ou hist\u00f3rias contadas, ou mesmo narrativas. Uma vez, escrevi que os romances s\u00e3o como ensaios cl\u00ednicos randomizados duplo-cegos, placebo controlados do mundo da vida\u00a0e continuo concordando com isso. 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