{"id":269,"date":"2009-02-08T22:02:28","date_gmt":"2009-02-09T01:02:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/02\/delirium-e-afeto\/"},"modified":"2009-02-08T22:02:28","modified_gmt":"2009-02-09T01:02:28","slug":"delirium-e-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/02\/08\/delirium-e-afeto\/","title":{"rendered":"Delirium e Afeto"},"content":{"rendered":"<div align=\"center\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"73578533.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/735785331.jpg\" class=\"mt-image-center\" style=\"margin: 0pt auto 20px;text-align: center\" height=\"396\" width=\"594\" \/><\/span><font face=\"Courier New\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.jamd.com\/image\/g\/73578533\" rel=\"noopener noreferrer\">Photo<\/a> by Ian Waldie\/Getty Images<br \/><\/font><\/div>\n<p>Ela tinha para l\u00e1 de oitenta. Estava restrita ao leito por conten\u00e7\u00f5es nos punhos e tornozelos. Esfor\u00e7ava-se para solt\u00e1-las, em v\u00e3o. O escuro do quarto transformava o monitor com suas luzes coloridas, n\u00fameros e ondas balan\u00e7antes em um abajur tristonho que iluminava de soslaio a face e os cabelos brancos desgrenhados. Entrei devagar e a chamei pelo nome que estava escrito na parede. Desorientada no tempo e no espa\u00e7o, n\u00e3o entendia porque estava restrita, tendo beliscado enfermeiras, al\u00e9m de retirar cateteres e a pr\u00f3pria monitoriza\u00e7\u00e3o, colocando sua vida em risco.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o conversou comigo. Tomei sua m\u00e3o como forma de interromper suas tentativas de retirar as faixas e ralhei com ela sobre suas &#8220;travessuras&#8221;. Surpreendentemente, ela come\u00e7ou a acariciar minha m\u00e3o como se fosse a de um beb\u00ea. Com cuidado, solicitei \u00e0 enfermeira que soltasse a outra m\u00e3o e ela passou a fazer aquele tipo de carinho que se faz nos gatos. Olhei perplexo para a enfermeira. N\u00e3o sabia o que fazer. Troquei de posi\u00e7\u00e3o com a enfermeira e ela continuou a fazer carinhos. Pareciam movimentos autom\u00e1ticos das m\u00e3os em busca de um contato. Quando a deixamos sem nossas m\u00e3os, imediatamente ela come\u00e7ou a tirar os cabos dos eletrodos e o cateter nasal. N\u00e3o tinha jeito. Prescrevi um comprimido de um neurol\u00e9ptico e fui ver outro paciente.<\/p>\n<p>Aquilo, entretanto, me deixou bastante perturbado. Uma paciente idosa, com quadro demencial grave contrai uma infec\u00e7\u00e3o que a deixa num estado de <i>delirium<\/i>. O <i>delirium <\/i>(escrito assim mesmo em latim para n\u00e3o confundir com del\u00edrio &#8211; desvio m\u00f3rbido da raz\u00e3o) \u00e9 um estado confusional acentuado, geralmente causado por uma doen\u00e7a cl\u00ednica (infec\u00e7\u00e3o, dist\u00farbios metab\u00f3licos, medicamentos, etc), onde o paciente apresenta enormes dificuldades com o pensamento coerente, al\u00e9m de uma diminui\u00e7\u00e3o do sens\u00f3rio. Muitas vezes, os pacientes ficam agressivos e recusam-se a receber cuidados. Sobra, em geral, muito pouco do humano neles. Lampejos; por vezes, um brilho de consci\u00eancia no olhar; um nome a que chamam insistentemente. E s\u00f3. Nada mais para fazer lembrar o que foram essas pessoas. Essa paciente entretanto, tinha deixado sobrar &#8216;afeto&#8217;.<\/p>\n<p>Uma paciente que n\u00e3o sabe onde est\u00e1, quem \u00e9, nem qual prop\u00f3sito de<br \/>\nestar ali; que n\u00e3o pode cuidar de si, nem alimentar-se sem aux\u00edlio; que<br \/>\nn\u00e3o formula nem profere uma frase sequer com sujeito, verbo e<br \/>\npredicado, poderia tecnicamente demonstrar afeto por outro ser humano?<br \/>\nTeria o afeto adentrado as camadas mais instintivas de seu intelecto?<br \/>\nAqueles segmentos mais antigos do sistema nervoso dos mam\u00edferos<br \/>\nrespons\u00e1veis pelo que podemos chamar comportamentos autom\u00e1ticos como<br \/>\nesvaziar a bexiga ou procurar reproduzir-se, por exemplo? Nesse<br \/>\nmomento, deixei-me levar por um del\u00edrio (para ficar bem clara a<br \/>\ndiferen\u00e7a..)<\/p>\n<p>Teria a paciente passado toda sua exist\u00eancia cuidando dos filhos e depois, dos netos, dedicado talvez, uma vida toda ao afeto de grandes e pequenos, de tal forma que esse comportamento tivesse sido incorporado aos seus instintos b\u00e1sicos de vida? N\u00e3o, deve mesmo haver uma explica\u00e7\u00e3o bem mais neurofisiol\u00f3gica que d\u00ea conta desse fen\u00f4meno. Alguma \u00e1rea desreprimida, respons\u00e1vel por conex\u00f5es neuronais que possam agir atrav\u00e9s de receptores do tato, em arcos-reflexo, movimentando m\u00fasculos, de forma que movimentos autom\u00e1ticos possam de fato ser produzidos, sem que isso na verdade, signifique realmente um afeto. Sim, eu sei.<\/p>\n<p>Deve mesmo haver. Mas minha explica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais poesia&#8230;<\/p>\n<p class=\"scribefire-powered\">Powered by <a href=\"http:\/\/www.scribefire.com\/\">ScribeFire<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Photo by Ian Waldie\/Getty Images Ela tinha para l\u00e1 de oitenta. Estava restrita ao leito por conten\u00e7\u00f5es nos punhos e tornozelos. Esfor\u00e7ava-se para solt\u00e1-las, em v\u00e3o. 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