{"id":2744,"date":"2013-03-26T17:45:14","date_gmt":"2013-03-26T20:45:14","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2744"},"modified":"2013-03-26T17:45:14","modified_gmt":"2013-03-26T20:45:14","slug":"kehl-freud-e-o-processo-da-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/03\/26\/kehl-freud-e-o-processo-da-verdade\/","title":{"rendered":"Kehl, Freud e o Processo da Verdade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2746\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/streetanatomy.com\/2013\/03\/16\/craig-kiefer-unconventional-artwork-for-a-conservative-genre\/\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2746\" class=\" wp-image-2746 \" alt=\"Craig Kiefer no Street Anatomy - clique para ver os cr\u00e9ditos\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/03\/Craig_Kiefer_Asthma-300x354.jpg\" width=\"240\" height=\"283\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2746\" class=\"wp-caption-text\">Craig Kiefer no Street Anatomy &#8211; clique para ver os cr\u00e9ditos<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right\"><em>A verdade social n\u00e3o \u00e9 ponto de chegada, \u00e9 processo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>Maria Rita Kehl<\/em><\/p>\n<p>Maria Rita Kehl \u00e9 dessas mulheres fascinantes. Sou seu f\u00e3 desde h\u00e1 muito e adoro ouvi-la falar de qualquer assunto. Tamb\u00e9m adoro l\u00ea-la. N\u00e3o foi \u00e0 toa que li com carinho seu artigo na Folha de SP no \u00faltimo domingo &#8211; 24 de Mar\u00e7o de 2013 &#8211; data emblem\u00e1tica desde que a ONU a escolheu como o Dia Internacional do Direito \u00e0 Verdade. Para &#8220;rememor\u00e1-lo&#8221;, como membro integrante da <a href=\"http:\/\/www.cnv.gov.br\/index.php\">Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/a>, Maria Rita escreveu, sobre Psican\u00e1lise e Estados Totalit\u00e1rios, um artigo com o t\u00edtulo sugestivo de &#8220;<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrissima\/100123-a-verdade-e-o-recalque.shtml\">A verdade e o recalque<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p>No artigo, Maria Rita associa o conceito freudiano de &#8220;recalque&#8221; &#8211; interdi\u00e7\u00e3o de fragmentos de lembran\u00e7as e\/ou fantasias sexuais, por exemplo &#8211; \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de sintomas neur\u00f3ticos que, como uma v\u00e1lvula de escape, permitem dar vaz\u00e3o ao que foi aprisionado \u00e0 for\u00e7a, no inconsciente. Freud prop\u00f5e a quebra desse bin\u00f4mio esquecimento\/sintoma ps\u00edquico pela <span style=\"color: #008000\"><strong>elabora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span> do trauma. At\u00e9 aqui, esse seria, talvez, o pensamento padr\u00e3o de um psicanalista.<\/p>\n<p>O problema, na minha humilde opini\u00e3o, est\u00e1 na seguinte frase: &#8220;Se o sintoma neur\u00f3tico \u00e9 a verdade recalcada que retorna como uma esp\u00e9cie de charada que o sujeito n\u00e3o decifra, o mesmo vale para os sintoma sociais&#8221;. Bom &#8211; pensei -, ao juntar psican\u00e1lise e sintomas sociais vamos acabar na Frankfurt do p\u00f3s-guerra e sua mistura &#8220;explosiva&#8221; de Freud com\u00a0Marx de seu <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_de_Frankfurt\">Instituto para Pesquisa Social<\/a>. Depois de uma aproxima\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, j\u00e1 em &#8220;Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; (1955), Marcuse articula uma cr\u00edtica ao conceito freudiano de uma repress\u00e3o org\u00e2nica e biol\u00f3gica com a qual ter\u00edamos que conviver. No lugar desse &#8220;biologismo&#8221; freudiano, ele afirma com Marx, que \u201ca submiss\u00e3o efetiva das puls\u00f5es atrav\u00e9s de regras repressivas n\u00e3o \u00e9 imposta pela natureza, mas pelo homem&#8221;[1]. No texto, Maria Rita chega a afirmar que &#8220;Freud poderia ter lido Marx a respeito das repeti\u00e7\u00f5es farsescas dos cap\u00edtulos mal resolvidos da hist\u00f3ria&#8221;. Se Freud leu Marx eu n\u00e3o sei, mas n&#8217; &#8220;O Futuro de Uma Ilus\u00e3o&#8221; chega a esbo\u00e7ar uma luta de classes (em livre tradu\u00e7\u00e3o do espanhol de [2]):<\/p>\n<blockquote><p>Mas quando uma cultura n\u00e3o superou a situa\u00e7\u00e3o na qual a satisfa\u00e7\u00e3o de um n\u00famero de seus membros tem como pressuposto a opress\u00e3o de outros, qui\u00e7\u00e1 de uma maioria &#8211; e este \u00e9 o caso de todas as culturas atuais -, se compreende que os oprimidos desenvolvam uma intensa hostilidade contra essa cultura que tornam poss\u00edvel com seu trabalho, mas de cujos bens t\u00eam escassa participa\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Horkheimer e Adorno, a partir de sua volta a Frankfurt depois de ex\u00edlio for\u00e7ado nos EUA, Marcuse, que ficou por l\u00e1, e em especial, Habermas alguns anos depois, reformulam suas interpreta\u00e7\u00f5es\u00a0<em>p\u00fablicas<\/em> das teorias freudianas[2], mas mesmo as cr\u00edticas da Escola de Frankfurt se tornaram obsoletas quando se viram obrigadas a lidar com a dissolu\u00e7\u00e3o dos conceitos de totalidade postulados por Marx e Hegel. O pr\u00f3prio Habermas constatou que sua &#8220;&#8216;teoria da hist\u00f3ria da esp\u00e9cie&#8217;, elaborada no texto <em>Para a reconstru\u00e7\u00e3o do materialismo hist\u00f3rico<\/em> (1976), tamb\u00e9m continuava presa, a exemplo da teoria marxiana, a categorias da filosofia do sujeito e da reflex\u00e3o, porquanto entendia que os processos de aprendizagem da hist\u00f3ria mundial se concretizariam em classes sociais e povos, isto \u00e9, <span style=\"color: #008000\"><strong>sujeitos<\/strong><\/span> <span style=\"color: #008000\"><strong>superdimensionados<\/strong><\/span>&#8220;.[3] (grifos meus). Da\u00ed em diante, vem o &#8220;Giro Lingu\u00edstico&#8221; e todos os seus desdobramentos, em especial, no que se refere a dissolu\u00e7\u00e3o do paradigma do sujeito.<\/p>\n<p>Acho problem\u00e1tico\u00a0que a teoria freudiana do recalque, t\u00e3o criticada, seja aplicada a um contexto sociol\u00f3gico atual com intuito de estabelecer uma explica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a social causada pela interdi\u00e7\u00e3o da verdade; em que pese a nobreza da causa. N\u00e3o sei bem porque Maria Rita escolheu esse caminho. Poderia ter usado algo da Teoria Cr\u00edtica ou mesmo de\u00a0<a href=\"http:\/\/letraporletra.com.br\/wordpress\/?p=1312\">Hannah Arendt<\/a>, sei l\u00e1. Talvez por objetivos did\u00e1ticos, j\u00e1 que Freud &#8220;pega na veia&#8221; e esses autores n\u00e3o s\u00e3o <em>popstars<\/em> como Freud e ela quisesse causar impacto. Ou talvez por familiaridade com o tema; fico pensando se o n\u00e3o dito, ou no caso, o n\u00e3o citado, tamb\u00e9m n\u00e3o falaria por si. Tamb\u00e9m acredito que para dizer, como ela disse lindamente no artigo, que &#8220;\u00e9 preciso construir uma narrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traum\u00e1ticos da viv\u00eancia do per\u00edodo ditatorial em experi\u00eancia coletiva&#8221; pudesse prescindir de Freud. Esse &#8220;coletiva&#8221; a que ela se refere parece n\u00e3o estar ainda na obra do m\u00e9dico vienense. Essa liga\u00e7\u00e3o entre os desejos individual e o coletivo na constru\u00e7\u00e3o da sociedade moderna talvez s\u00f3 viesse anos depois com a Teoria Cr\u00edtica. J\u00e1 a bel\u00edssima frase que epigrafa o post demanda algo mais. A verdade como processo \u00e9 aquisi\u00e7\u00e3o kafkiana recente da sociedade. Livre.<\/p>\n<p>Por isso, Maria Rita \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00a0~ o ~<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PS. Sensacional, diga-se de passagem, o elegante cruzado de direita que ela d\u00e1 em Contardo Calligaris pelo famigerado artigo sobre tortura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Souza, MA. Eros e Logos: Marcuse, cr\u00edtico de Freud. <a href=\"http:\/\/filosofonet.wordpress.com\">Filosofonet<\/a>. Publicado em <a href=\"http:\/\/filosofonet.wordpress.com\/2007\/11\/11\/eros-e-logosmarcuse-critico-de-freud\/\">11\/11\/2007<\/a>.<\/p>\n<p>[2] McCarthy, T. La Teor\u00eda Cr\u00edtica de J\u00fcrgen Habermas. 4a ed. Tecnos. 1998. pp 230-51.<\/p>\n<p>[3] Siebeneichler, FB. Apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira da &#8220;Teoria do Agir Comunicativo&#8221; de J\u00fcrgen Habermas. Martins Fontes. 2012. pp XVIII- XIX.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade social n\u00e3o \u00e9 ponto de chegada, \u00e9 processo Maria Rita Kehl Maria Rita Kehl \u00e9 dessas mulheres fascinantes. Sou seu f\u00e3 desde h\u00e1 muito e adoro ouvi-la falar de qualquer assunto. Tamb\u00e9m adoro l\u00ea-la. 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