{"id":2764,"date":"2013-03-28T15:49:29","date_gmt":"2013-03-28T18:49:29","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2764"},"modified":"2013-03-28T15:49:29","modified_gmt":"2013-03-28T18:49:29","slug":"o-instinto-da-danca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/03\/28\/o-instinto-da-danca\/","title":{"rendered":"O Instinto da Dan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>O Velho entrou na sala e havia uma aluna dan\u00e7ando de costas, em meio a uma roda com outros alunos, que a acompanhavam com palmas t\u00edmidas. Sorrateiro, ele at\u00e9 parou de respirar para n\u00e3o ser notado. A forma como ela mexia as m\u00e3os e os quadris; havia algo de indiano e sensual. O Velho deixava que sua condi\u00e7\u00e3o de homem o conduzisse pelos meandros ancestrais e ardentes dos instintos, quando, de repente, a m\u00fasica parou. Como que quebrado o encanto, a presen\u00e7a do Velho se fez notar e os alunos, todos ali, se voltaram para ele, alguns com olhar de espanto, enquanto outros entravam pela porta sem saber o que estava acontecendo.<\/em><\/p>\n<p><em>Depositou suas anota\u00e7\u00f5es e livros na mesa e mal-fingiu n\u00e3o notar o que ocorria, ele mesmo, refazendo-se de suas incurs\u00f5es extra-racionais. Mandou que todos se sentassem com o indicador direito apontado para baixo, girando em c\u00edrculos, acompanhado da carranca caracter\u00edstica, sem dizer uma palavra. O cabelo longo e branco movimentava-se tamb\u00e9m e os alunos sabiam que ele n\u00e3o estava com muita paci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Sabem por que o ser humano dan\u00e7a? &#8211; perguntou. Algu\u00e9m corou na plateia e varreu o ar com a m\u00e3o para pedir que se desviassem os tantos olhares para l\u00e1 repentinamente\u00a0<em>dirigidos<\/em>, mas isso s\u00f3 foi poss\u00edvel com um novo brado do Velho: &#8211; Sabem?!! Sil\u00eancio e aten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Continuou: &#8211; Humanos t\u00eam a capacidade de memorizar melodias e, com treino, harmonias. <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/12\/danca_com_os_pulmoes\/\">\u00c9 poss\u00edvel cantar e assobiar melodias<\/a>. Harmonias, tamb\u00e9m, de certa forma. N\u00e3o os ritmos. Gosto de pensar que o <strong>instinto<\/strong> do ritmo \u00e9 a dan\u00e7a. O ritmo, diferentemente dos outros atributos da m\u00fasica, \u00e9 percebido com propriocep\u00e7\u00e3o, receptores de posi\u00e7\u00e3o, articulares, musculares, \u00f3sseos, que nos informam de nossa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o. \u00c9 menos elaborado, menos c\u00f3rtex cerebral, mais primevo e primordial. Nossa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o \u00e9 a forma mais primitiva de ec-sistir. Ser-para-fora. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, na mitologia hindu, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Shiva\">Shiva Nataraja<\/a> \u00e9 o deus dan\u00e7ante que, de dentro de seu c\u00edrculo de fogo, cria, conserva e destroi o universo<em>\u00a0por meio de sua dan\u00e7a<\/em>. O ritmo cria a vida e tamb\u00e9m pode destrui-la. O cora\u00e7\u00e3o tem ritmo. A respira\u00e7\u00e3o tem ritmo. Ritmos que podem ser entretecidos, interferindo uns com os outros, ora destruindo, ora construindo outros ritmos. O &#8220;andar&#8221; tem ritmo. &#8220;Copular&#8221; tem ritmo. At\u00e9 o &#8220;pensar&#8221; tem ritmo. &#8211; e colocou os indicadores nas t\u00eamporas, recuperando-se da catarse do discurso.<\/em><\/p>\n<p><em>O Velho fez uma longa pausa. Respirou profundamente e passou os olhos pela classe. A aluna que dan\u00e7ava o olhava fixamente. &#8211; Professor!? &#8211; finalmente disse. &#8211; Sim? &#8211; ele respondeu com mansid\u00e3o incomum. Ela hesitou. &#8211; Professor. Por que dan\u00e7amos? &#8211; ao que seguiu-se um certo rumor de conversas paralelas, carregadas de surpresa, dada a ousadia da pergunta que o professor acabara de parecer ter respondido. O Velho tinha humor inst\u00e1vel e n\u00e3o convinha testar sua capacidade explosiva. Ele respondeu com a agressividade de sempre, mas dessa vez, ela soou um tanto diferente, estranhamente aconchegante apesar de conter um quase impercept\u00edvel lamento.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; <em>Porque o corpo quer rir.\u00a0<\/em>Porque estamos leves. Porque com a dan\u00e7a, trocamos de posi\u00e7\u00e3o e vemos outras possibilidades de ocupar o espa\u00e7o no qual ec-sistimos e assim, compreendemos tamb\u00e9m outras formas de ser. S\u00f3\u00a0um deus que sabe dan\u00e7ar \u00e9 capaz de criar&#8230; Eu s\u00f3 acreditaria em um deus dan\u00e7ante&#8230; E, com o riso raro, rodopiou no centro das carteiras. E come\u00e7ou a bater palmas de lado, ao modo dos dan\u00e7arinos espanh\u00f3is, em ritmo sincopado, no que foi seguido pelos alunos com batuques ass\u00edncronos na f\u00f3rmica e reco-recos improvisados com bics em espirais de caderno. Pelos p\u00e9s, alguns alunos pre(s)sentiram. Outras, Dioniso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/03\/shiva-nataraja.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2777\" alt=\"shiva nataraja\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/03\/shiva-nataraja.jpg\" width=\"360\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/03\/shiva-nataraja.jpg 450w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/03\/shiva-nataraja-235x300.jpg 235w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Velho entrou na sala e havia uma aluna dan\u00e7ando de costas, em meio a uma roda com outros alunos, que a acompanhavam com palmas t\u00edmidas. 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