{"id":280,"date":"2009-02-18T17:46:36","date_gmt":"2009-02-18T20:46:36","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/02\/dupas-e-o-pos-humano\/"},"modified":"2009-02-18T17:46:36","modified_gmt":"2009-02-18T20:46:36","slug":"dupas-e-o-pos-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/02\/18\/dupas-e-o-pos-humano\/","title":{"rendered":"Dupas e o P\u00f3s-Humano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/dupas.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-867\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/dupas-300x1871.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"187\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Gilberto Dupas em 2008 (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/SaoPaulo\/0,,MUL1006773-5605,00.html\">Foto<\/a>: Paulo Giandalia\/AE)<\/p>\n<p>Gilberto Dupas foi muitas coisas. Entrei em contato com suas id\u00e9ias atrav\u00e9s do livro &#8220;<a href=\"http:\/\/compare.buscape.com.br\/o-mito-do-progresso-gilberto-dupas-8571396574.html\">O Mito do Progresso<\/a>&#8221; (ver excelente <a href=\"http:\/\/www.4shared.com\/file\/88336484\/9d1266c8\/O_mito_do_progresso.html\">texto-resumo <\/a>na Novos Estudos de Mar\u00e7o de 2007). Me interessei pelo seu trabalho por\u00a0sua cr\u00edtica \u00e0 medicina. Ela se insere num contexto de cr\u00edtica ao pr\u00f3prio capitalismo tardio em sua vertente chamada <em>biocapitalismo<\/em>. O texto que reproduzo abaixo, publicado n&#8217; O Estado de hoje, est\u00e1 dentro dessa linha de racioc\u00ednio.<br \/>\nQuase que numa\u00a0redu\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica\u00a0(aprendi isso\u00a0com um <a href=\"http:\/\/pasmoessencial.wordpress.com\/2009\/02\/07\/voce-acredita-em-essencias\/\">amigo<\/a>), Dupas vai despindo o\u00a0ser humano dos atributos de sua humanidade at\u00e9 chegar ao que chama de <em>ciborgue<\/em> e de <em>p\u00f3s-humano<\/em>. Por mais que esse exerc\u00edcio seja <a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/eccemedicus\/2009\/01\/20\/deus-e-o-diabo\/\">perigoso<\/a>\u00a0e tenha seus efeitos colaterais, ele \u00e9 necess\u00e1rio. Como ele mesmo diz <em>&#8220;do transplante de \u00f3rg\u00e3os \u00e0s terapias gen\u00e9ticas, passando pela fabrica\u00e7\u00e3o de tecidos de substitui\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria biofarmac\u00eautica e a medicina regenerativa assumem o biocontrole de uma sociedade que se quer p\u00f3s-mortal&#8221;. <\/em>N\u00e3o queremos a <a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/eccemedicus\/2008\/04\/16\/imortalidade\/\">morte<\/a>. N\u00e3o queremos a velhice.<br \/>\nO sonho da imortalidade inclui &#8220;<em>modificar geneticamente o corpo humano a fim de parar seu crescimento biol\u00f3gico antes do per\u00edodo da puberdade. (&#8230;) Tornados est\u00e9reis pelo bloqueio artificial de seu desenvolvimento, eles n\u00e3o seriam nem homens nem mulheres, mas seres assexuados e fisicamente imaturos, ainda que intelectualmente adultos.&#8221;<\/em>\u00a0 N\u00e3o queremos sexo primitivo com fins reprodutivos. Ele pressup\u00f5e a maturidade do corpo e todos os efeitos delet\u00e9rios que dela decorrem, da osteoporose aos pelos que teimam em crescer, das rugas \u00e0s doen\u00e7as cardiovasculares, do Alzheimer e o esquecimento de si ao espasmo da morte.<br \/>\nPor fim, termina dizendo que: <em>&#8220;Enquanto (o biocapital) anuncia o alongamento sem fim da expectativa de vida das gera\u00e7\u00f5es mais velhas a custos exorbitantes, cerceando o espa\u00e7o essencial da altern\u00e2ncia de gera\u00e7\u00f5es, reduz a sa\u00fade dos jovens estimulando o consumismo que provoca obesidade, diabetes, c\u00e2nceres e outras doen\u00e7as sist\u00eamicas geradas pelas contamina\u00e7\u00f5es e pela inatividade f\u00edsica.&#8221;<\/em><br \/>\n\u00a0Precocemente, aos 66 anos, de c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas, faleceu na madrugada de 17\/02\/2009, o economista, \u00a0professor e, humanista, Gilberto Dupas.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\n\u00a0<br \/>\n<span style=\"font-size: x-small;font-family: Verdana\">Ciborgues e o mundo que vem por a\u00ed, texto de Gilberto Dupas<\/span><br \/>\nAvida humana \u00e9 finita. No entanto, a aceita\u00e7\u00e3o da morte est\u00e1 sumindo lentamente do nosso horizonte simb\u00f3lico, cultural e social por conta das conquistas sucessivas da ci\u00eancia biom\u00e9dica. Prolongar a vida a qualquer pre\u00e7o tornou-se o objetivo maior. A soci\u00f3loga Celine Lafontaine lembra que sempre clamamos pela imortalidade. Pante\u00f5es, academias, memoriais, nomes de ruas e viadutos pelo mundo afora atestam nosso desejo de eternidade.<br \/>\nAgora a onda das bioci\u00eancias reativou a fantasia da eterna juventude. O biologista Aubrey de Grey garante que &#8220;a pessoa que viver\u00e1 eternamente j\u00e1 nasceu&#8221;. Clonagem, altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, criogenia e prolongamento artificial da vida s\u00e3o pr\u00e1ticas correntes. A prolifera\u00e7\u00e3o cultural do mito do ciborgue e do p\u00f3s-humano marca nossos pr\u00f3ximos passos.<br \/>\nA extens\u00e3o das fronteiras decorre dos avan\u00e7os biom\u00e9dicos. O agonizante mantido vivo em UTIs, entubado, atado a fios, tubos e aparelhos cada vez mais invasivos, \u00e9 visto pelo antrop\u00f3logo Chris Hables Gray como o tipo ideal de ciborgue. A decifra\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos e programa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas promete o acesso ao segredo da vida. Para a soci\u00f3loga Dorothy Nelkin, a sacraliza\u00e7\u00e3o da ideia de que os genes s\u00e3o imortais se reflete no fetichismo do DNA, que se sup\u00f5e conter a ess\u00eancia da individualidade subjetiva.<br \/>\nRel\u00edquia do mundo p\u00f3s-moderno, cada fragmento de DNA abrigaria, na ret\u00f3rica do genoma, a ess\u00eancia informacional de uma pessoa e sua identidade gen\u00e9tica. O nascimento de Dolly marcou nossa entrada definitiva na era da p\u00f3s-mortalidade. As c\u00e9lulas-tronco s\u00e3o uma mina de ouro para o desenvolvimento da medicina regenerativa dos tecidos. A ideia de reagrupar estrat\u00e9gias e interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas visando reparar tecidos danificados do corpo humano restringiria a morte a acidentes extraordin\u00e1rios ou destrui\u00e7\u00e3o extrema das for\u00e7as vitais.<br \/>\nDo transplante de \u00f3rg\u00e3os \u00e0s terapias gen\u00e9ticas, passando pela fabrica\u00e7\u00e3o de tecidos de substitui\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria biofarmac\u00eautica e a medicina regenerativa assumem o biocontrole de uma sociedade que se quer p\u00f3s-mortal. Seus passos s\u00e3o estimular mecanismos de autorrepara\u00e7\u00e3o; implantar tecidos ou \u00f3rg\u00e3os produzidos fora do corpo; rejuvenescer c\u00e9lulas que afetam o rel\u00f3gio biol\u00f3gico; e, por meio da nanotecnologia, reconstruir corpo e c\u00e9rebro em escala molecular com adi\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia artificial. Esse modelo quer libertar o humano da &#8220;pris\u00e3o biol\u00f3gica da mortalidade&#8221; por meio da sua fus\u00e3o com a m\u00e1quina.<br \/>\nRay Kurzweil sustenta que o organismo humano \u00e9 obsoleto. A ideia \u00e9 fazer o download do conte\u00fado da intelig\u00eancia humana em uma m\u00e1quina a fim de obter sua exist\u00eancia p\u00f3s-biol\u00f3gica. O soci\u00f3logo William Sims Bainbridge e o pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica Norbert Wiener afirmaram que ser\u00e1 poss\u00edvel brevemente gravar o conte\u00fado de um ser humano em um CD e transport\u00e1-lo nos bolsos, o que eles aplaudem como a liberta\u00e7\u00e3o do corpo, visto como suporte fr\u00e1gil e fal\u00edvel. O paciente em estado de morte cerebral \u00e9 o prot\u00f3tipo do ciborgue. E as nanotecnologias s\u00e3o consideradas a solu\u00e7\u00e3o miraculosa para a fragilidade humana e da morte, fazendo a hibrida\u00e7\u00e3o entre o natural e o artificial.<br \/>\nPara Eric Gullichsen o c\u00e9rebro \u00e9 a alma neurol\u00f3gica, o DNA faz a alma molecular e as nanotecnologias criar\u00e3o a alma at\u00f4mica. Em suma, trata-se de f\u00edsica qu\u00e2ntica, microeletr\u00f4nica, inform\u00e1tica, biologia molecular com a engenharia molecular e cibern\u00e9tica manipulando mat\u00e9ria reorganizada em n\u00edvel at\u00f4mico e fazendo a fus\u00e3o entre as esp\u00e9cies viventes e as m\u00e1quinas.<br \/>\nPara o cientista Robert A. Freitas, &#8220;a nanomedicina pode aprender a inverter completamente as falhas celulares e fazer os idosos recuperarem boa parte da sa\u00fade e da juventude, da for\u00e7a e da beleza, desfrutando de uma extens\u00e3o quase indefinida de sua vida&#8221;. Em Becoming Immortal, Stanley Shostak prop\u00f5e modificar geneticamente o corpo humano a fim de parar seu crescimento biol\u00f3gico antes do per\u00edodo de puberdade.<br \/>\nOs indiv\u00edduos assim transformados poderiam viver indefinidamente. Tornados est\u00e9reis pelo bloqueio artificial de seu desenvolvimento, eles n\u00e3o seriam nem homens nem mulheres, mas seres assexuados e fisicamente imaturos, ainda que intelectualmente adultos.<br \/>\nO modelo desenvolvido por Shostak \u00e9 largamente inspirado pela figura te\u00f3rica do ciborgue tal como a elaborou Donna Haraway. Meio natural e meio artificial, meio homem e meio mulher, o ciborgue \u00e9 um ser emancipado da pris\u00e3o da diferen\u00e7a sexual, da opress\u00e3o de g\u00eaneros e da procria\u00e7\u00e3o. Dissociada da sexualidade, a procria\u00e7\u00e3o seria feita tecnicamente em \u00fatero artificial. Pobres de n\u00f3s!<br \/>\nEvocando a hip\u00f3tese de uma superpopula\u00e7\u00e3o causada pelo aumento da longevidade, os cientistas defensores dessas ideias prop\u00f5em limite radical aos nascimentos.<br \/>\nNum brado exacerbado de hedonismo e individualismo, afirmam que entre escolher viver eternamente ou nos reproduzir, a grande maioria de n\u00f3s optaria pela imortalidade. Querer ultrapassar as fronteiras da morte \u00e9, para Christopher Lasch, nosso fantasma narc\u00edsico como capazes de lidar com os limites da condi\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nO biocapital, figura mai\u00fascula da economia globalizada, com essas linhas de pesquisa deixa entrever uma nova forma de domina\u00e7\u00e3o e de desigualdade. Enquanto anuncia o alongamento sem fim da expectativa de vida das gera\u00e7\u00f5es mais velhas a custos exorbitantes, cerceando o espa\u00e7o essencial da altern\u00e2ncia de gera\u00e7\u00f5es, reduz a sa\u00fade dos jovens estimulando o consumismo que provoca obesidade, diabetes, c\u00e2nceres e outras doen\u00e7as sist\u00eamicas geradas pelas contamina\u00e7\u00f5es e pela inatividade f\u00edsica.<br \/>\nQuem gostaria de viver nessa sociedade que os arautos do futuro anunciam?<br \/>\n(O Estado de SP, 18\/2)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto Dupas em 2008 (Foto: Paulo Giandalia\/AE) Gilberto Dupas foi muitas coisas. Entrei em contato com suas id\u00e9ias atrav\u00e9s do livro &#8220;O Mito do Progresso&#8221; (ver excelente texto-resumo na Novos Estudos de Mar\u00e7o de 2007). Me interessei pelo seu trabalho por\u00a0sua cr\u00edtica \u00e0 medicina. 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