{"id":2831,"date":"2013-04-17T10:11:45","date_gmt":"2013-04-17T13:11:45","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=2831"},"modified":"2013-04-17T10:11:45","modified_gmt":"2013-04-17T13:11:45","slug":"lorraine-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/04\/17\/lorraine-ii\/","title":{"rendered":"Lorraine II"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2852\" alt=\"lorraine2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2.jpg\" width=\"225\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/04\/lorraine2-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a>Lorraine estava agora com fome. Seu est\u00f4mago do\u00eda porque a \u00faltima coisa que colocara na boca fora na long\u00ednqua madrugada de hoje, antes de sair para o trabalho e sentir-se mal com as tais dores abdominais. J\u00e1 passava das dez. Perguntei como estavam agora as dores e ela disse que haviam sumido quase completamente. Restava uma dor na regi\u00e3o epig\u00e1strica, misto de queima\u00e7\u00e3o com um tipo de pontada, que poderia muito bem ser interpretada simplesmente como &#8220;fome&#8221;.<\/p>\n<p>Perguntei sobre seu futuro. Ela me contou que gostaria de cursar a Faculdade de Direito, mas achava que era muito concorrida para ela. N\u00e3o falou sobre cotas, nem sobre como pagar a mensalidade. Isso ela resolveria com a tia, ou por si mesma. Falou\u00a0que esperava muita\u00a0dificuldade com os vestibulares\u00a0dada a base te\u00f3rica muito fr\u00e1gil que tinha desde os anos em que cursava a escola p\u00fablica. O ensino m\u00e9dio n\u00e3o ajudou muito porque, na \u00e9poca,\u00a0n\u00e3o tinha o prazer de &#8220;estudar para conhecer&#8221;.\u00a0Apenas &#8220;apagava os inc\u00eandios das provas e trabalhos&#8221;. Palavras dela. Por tudo isso, pensava em fazer Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica para pagar a faculdade de Direito! Apesar de n\u00e3o entender a l\u00f3gica imediata dessa afirma\u00e7\u00e3o, preferi continuar ouvindo sem dizer nada.<\/p>\n<p>Na verdade, percebi que ouvi-la falar me acalmava. Mas acalmar <em><strong>do<\/strong><\/em> qu\u00ea? Ou acalmar <em><strong>o<\/strong><\/em> qu\u00ea? Uma mo\u00e7a que fala sobre suas agruras cotidianas sem queixas piegas ou lugares-comuns, que conta como sua vida \u00e9 sofrida e dif\u00edcil mantendo uma dist\u00e2ncia confort\u00e1vel da emo\u00e7\u00e3o dos fatos e que, est\u00f3ica e elegantemente, tolera c\u00f3licas e um desagrad\u00e1vel desconforto\u00a0abdominal durante a narrativa, talvez seja mesmo algu\u00e9m a quem se deva ouvir. O fato de tudo isso me acalmar \u00e9 que me deixou um tanto intrigado. Quando um paciente inicia uma narrativa de algum\u00a0grave problema pessoal o que, convenhamos, na minha profiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa dif\u00edcil de surgir em conversas com pacientes, ou\u00e7o de forma profissional e quando julgo ser importante, procuro caminhos que possam ser \u00fateis tanto para o diagn\u00f3stico quanto para o paciente.\u00a0Aprendi na pr\u00e1tica di\u00e1ria a\u00a0n\u00e3o estimular excessivamente narrativas cat\u00e1rticas sobre cat\u00e1strofes pessoais e isso tem sido uma boa alternativa. Mas o que ocorria ali era outra coisa. E queria ouvi-la &#8220;contar hist\u00f3rias&#8221;.<\/p>\n<p>O ultrassom n\u00e3o resultou em nenhuma anormalidade. O laborat\u00f3rio, tampouco. Talvez Lorraine tivesse &#8220;apenas&#8221; o que chamamos de <a href=\"http:\/\/saude.ig.com.br\/minhasaude\/enciclopedia\/sindrome+do+intestino+irritavel\/ref1238131661305.html\"><em><strong>intestino irrit\u00e1vel<\/strong><\/em><\/a>. Ap\u00f3s algumas explica\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a, eu disse a ela para se conformar j\u00e1 que alguma coisa tinha que ficar irritada na sua vida pois, para ela, os humanos e as coisas do mundo eram como simples produtos que precisavam ser meticulosamente organizados numa g\u00f4ndola de supermercado. Foi quando rimos juntos pela segunda vez. Pensando bem, acho que essa foi a raz\u00e3o de apreciar tanto ouvi-la. Ao contar as hist\u00f3rias da sua vida, Lorraine parecia tamb\u00e9m colocar algo em ordem na minha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lorraine estava agora com fome. Seu est\u00f4mago do\u00eda porque a \u00faltima coisa que colocara na boca fora na long\u00ednqua madrugada de hoje, antes de sair para o trabalho e sentir-se mal com as tais dores abdominais. J\u00e1 passava das dez. Perguntei como estavam agora as dores e ela disse que haviam sumido quase completamente. 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