{"id":298,"date":"2009-03-23T00:56:21","date_gmt":"2009-03-23T03:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/03\/o_fisico\/"},"modified":"2009-03-23T00:56:21","modified_gmt":"2009-03-23T03:56:21","slug":"o_fisico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/03\/23\/o_fisico\/","title":{"rendered":"O F\u00edsico"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img decoding=\"async\" alt=\"60850.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/608501.jpg\" class=\"mt-image-left\" style=\"margin: 0pt 20px 20px 0pt;float: left\" height=\"180\" width=\"125\" \/><\/span><\/p>\n<p>Noah Gordon escreveu um livro em ingl\u00eas chamado <em>The Physician<\/em>. Em espanhol, o livro chama-se <i>El Medico<\/i>. Em Portugal, virou <i>O M\u00e9dico de Ispahan<\/i>. No Brasil, o livro foi traduzido como <i>O F\u00edsico<\/i>, o que gerou muitas reclama\u00e7\u00f5es. Muita gente acha que o t\u00edtulo do <i>best-seller<\/i> foi um erro crasso do tradutor, pois <i>physician<\/i> quer dizer m\u00e9dico em ingl\u00eas; <i>physicist<\/i> seria o que chamamos de f\u00edsico.<\/p>\n<p>Mas&#8230; Ou o tradutor cometeu mesmo um erro rid\u00edculo e todos n\u00f3s que somos muito mais espertos (e expertos tamb\u00e9m) dever\u00edamos assumir seu posto ou ele \u00e9 um g\u00eanio da tradu\u00e7\u00e3o (<a href=\"http:\/\/amigodemontaigne.blogspot.com\/2009\/03\/da-traducao.html\">que talvez seja a pior profiss\u00e3o que algu\u00e9m que estudou Letras pode querer para si<\/a>).<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vejamos. Como f\u00edsicos eram conhecidos os antigos m\u00e9dicos. Bem antes de existir a F\u00edsica como a conhecemos hoje. F\u00edsico era quem estudava a f\u00edsica. As palavras v\u00eam do latim, <i>physica<\/i>, que por sua vez veio do grego <i>physik\u00e9<\/i> que quer dizer &#8220;ci\u00eancia da natureza&#8221;. Isso porque a palavra grega <i>physis<\/i> (\u03c6\u03c5\u03c3\u03b9\u03c2), que representa um conceito bem dif\u00edcil de explicar, \u00e9 simples e cruamente traduzida como &#8216;natureza&#8217;. Segundo Werner Jaeger (Paid\u00e9ia &#8211; p\u00e1gina 198) o conceito de <i>physis <\/i>foi o ponto de partida de pensadores naturalistas<i> <\/i>do s\u00e9culo VI dando origem a um movimento espiritual e a uma forma de especula\u00e7\u00e3o. Na verdade, seu interesse fundamental seria o que chamamos hoje metaf\u00edsica, pelo seu interesse nas causas primordiais dos fen\u00f4menos. Sigamos Jaeger: &#8220;No conceito grego de <i>physis <\/i>estavam, insepar\u00e1veis, as duas coisas: o problema da origem &#8211; que obriga o pensamento a ultrapassar os limites do que \u00e9 dado na experi\u00eancia sensorial &#8211; e a compreens\u00e3o, por meio da investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, do que deriva daquela origem e existe atualmente (ou seja, uma ontologia)&#8221;.<\/p>\n<p>Esse tipo de &#8220;filosofia&#8221; natural era principalmente j\u00f4nico. Hip\u00f3crates e seu seguidores eram da ilha de C\u00f3s, de popula\u00e7\u00e3o e l\u00edngua d\u00f3ricas. \u00c9 sintom\u00e1tico que tenham escrito todo o <i>Corpus Hypocraticum<\/i> em j\u00f4nico &#8211; era como se fosse o ingl\u00eas cient\u00edfico de hoje. A incorpora\u00e7\u00e3o do pensamento &#8216;f\u00edsico&#8217; dos j\u00f4nicos fez com que a medicina se tornasse uma arte (<i>tekn\u00e9<\/i>) consciente e met\u00f3dica. O Egito, nessa mesma \u00e9poca, tinha uma medicina bastante avan\u00e7ada mas que n\u00e3o conseguiu livrar-se do pensamento m\u00e1gico para evoluir como ci\u00eancia. Logo, a Medicina passou de uma simples profiss\u00e3o para uma for\u00e7a cultural.&nbsp; N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que o m\u00e9dico era o prot\u00f3tipo de um saber com fins \u00e9ticos de car\u00e1ter pr\u00e1tico, sem o qual a ci\u00eancia \u00e9tica de S\u00f3crates seria inconceb\u00edvel nos di\u00e1logos de Plat\u00e3o. Essa posi\u00e7\u00e3o jamais ser\u00e1 retomada na sociedade p\u00f3s-iluminista.<\/p>\n<p>Sabemos agora que os m\u00e9dicos nos seus prim\u00f3rdios eram f\u00edsicos e o tradutor do livro mandou muito bem &#8211; o que \u00e9 raro &#8211; pois d\u00e1 a exata no\u00e7\u00e3o da palavra inglesa <i>physician<\/i>. Os f\u00edsicos tinham esse nome por seguirem determinada filosofia j\u00f4nica que rendeu muitos e interessantes desdobramentos, inclusive a pr\u00f3pria ci\u00eancia, tal como a conhecemos hoje e que, de certa forma, como um Frankenstein, engoliu a Medicina. Mas isso \u00e9 assunto para outro post.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noah Gordon escreveu um livro em ingl\u00eas chamado The Physician. Em espanhol, o livro chama-se El Medico. Em Portugal, virou O M\u00e9dico de Ispahan. No Brasil, o livro foi traduzido como O F\u00edsico, o que gerou muitas reclama\u00e7\u00f5es. 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