{"id":3142,"date":"2013-06-12T16:34:27","date_gmt":"2013-06-12T19:34:27","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=3142"},"modified":"2013-06-12T16:34:27","modified_gmt":"2013-06-12T19:34:27","slug":"eu-procarioto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/06\/12\/eu-procarioto\/","title":{"rendered":"Eu, Procarioto"},"content":{"rendered":"<p>Certa vez atendi uma paciente no ambulat\u00f3rio do hospital e solicitei a ela, entre outros exames, um protoparasitol\u00f3gico de fezes. No retorno, os resultados n\u00e3o mostravam nada digno de nota, exceto a presen\u00e7a de <em>Entamoeba<\/em> <em>coli<\/em>\u00a0detectada no fat\u00eddico exame. Como se sabe, esse protozo\u00e1rio vive de forma amistosa no organismo humano e n\u00e3o \u00e9 causador de doen\u00e7as (diferentemente de seu primo a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Entamoeba_histolytica\"><em>Entamoeba<\/em> <em>histolytica<\/em><\/a>). Disse a ela, ent\u00e3o, que estava tudo bem e que poderia continuar com a medica\u00e7\u00e3o atual. Ela, indignada, perguntou se eu n\u00e3o iria tratar &#8220;aquilo&#8221;, apontando o exame com o indicador e uma cara de nojo. Eu repeti que n\u00e3o era necess\u00e1rio. Ela insistiu: &#8220;Dr. Eu n\u00e3o quero\u00a0<em><strong>isso<\/strong><\/em> dentro de mim. Pode tratar&#8230;&#8221;<\/p>\n<div id=\"attachment_3159\" style=\"width: 295px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/06\/E-coli-bacteria.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3159\" class=\" wp-image-3159 \" alt=\"E. coli\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/06\/E-coli-bacteria.jpg\" width=\"285\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/06\/E-coli-bacteria.jpg 356w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/06\/E-coli-bacteria-300x239.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3159\" class=\"wp-caption-text\"><i>Escherichia coli<\/i><\/p><\/div>\n<p>Mal sabia ela &#8211; e eu tamb\u00e9m &#8211; que h\u00e1 muito mais coisas nos intestinos &#8211; e no nosso organismo, de forma geral -, do que todo nosso conhecimento recente poderia supor. N\u00e3o s\u00f3 amebas boazinhas, mas tamb\u00e9m uma infinidade de bact\u00e9rias vivem em n\u00f3s. <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/superorganismo-acredite-voce-e-1de-3\/\">Muitas bact\u00e9rias<\/a>. Ali\u00e1s, mais bact\u00e9rias que c\u00e9lulas constituintes (sim, algu\u00e9m j\u00e1 fez essa conta!): em um indiv\u00edduo normal, existem aproximadamente 10 bact\u00e9rias para cada c\u00e9lula humana. Isso significa que 90% das c\u00e9lulas presentes em nosso organismo pertencem a outro <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Dom%C3%ADnio_(biologia)\">dom\u00ednio<\/a> biol\u00f3gico ou super-reino chamado <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Procarionte\">procariotas<\/a>. N\u00famero certamente suficiente para causar uma crise de identidade em minha &#8220;insegura&#8221; paciente e me fazer lembrar de Asimov no t\u00edtulo do post.<\/p>\n<p>Os estudos prosseguiram. A quantidade de bact\u00e9rias abrigadas no corpo humano era t\u00e3o supreendentemente gigantesca que os cientistas come\u00e7aram a utilizar o nome <em><strong>microbioma <\/strong><\/em>ou<strong><\/strong><em><strong> microbiota, <\/strong><\/em>aludindo a uma poss\u00edvel intera\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica entre os seres envolvidos e\u00a0isso virou um projeto do <a href=\"http:\/\/www.nih.gov\/news\/pr\/dec2007\/od-19.htm\">Instituto Nacional de Sa\u00fade dos EUA<\/a> em 2007. Ao <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/superorganismo-acredite-voce-e-\u2013-2-de-3\/\">estudar pessoas<\/a> de v\u00e1rios lugares do mundo, descobriu-se que os respectivos microbiomas tinham diferen\u00e7as significativas, tanto de pessoa para pessoa, como entre pessoas nas diversas regi\u00f5es do globo. Isso lembrou os estudos &#8220;ecogen\u00f4micos&#8221; iniciados no final da d\u00e9cada de 90. <em><strong>Ecogen\u00f4mica<\/strong><\/em>, <em><strong>Gen\u00f4mica<\/strong> <strong>Ambiental<\/strong><\/em> ou <em><strong><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Metagenomics\">Metagen\u00f4mica<\/a><\/strong><\/em>\u00a0foram nomes dados para o sequenciamento gen\u00e9tico e identifica\u00e7\u00e3o de microrganismos em seu habitat natural, permitindo a identifica\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias esp\u00e9cies que n\u00e3o eram vistas nas culturas clonais realizadas at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de um &#8220;meta-organismo&#8221; geneticamente distinto dentro de nosso organismo come\u00e7ou a gerar perguntas sobre como seria a intera\u00e7\u00e3o, leia-se troca de informa\u00e7\u00e3o, entre os dois sistemas gen\u00e9ticos bastante diferentes e passamos a ser considerados seres\u00a0<em><strong>metagen\u00f4micos <\/strong><\/em>(ou <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/superorganismo-acredite-voce-e-\u2013-2-de-3\/\">superorganismos<\/a>, como preferem alguns autores) no sentido ecol\u00f3gico mesmo do conceito. Mas, se a &#8220;distin\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Francis_Galton\">galtoniana<\/a> entre a gen\u00e9tica e o meio ambiente como mecanismos geradores de nossas caracter\u00edsticas fenot\u00edpicas \u00e9 considerada hoje uma dicotomia simplista e (&#8230;) o meio ambiente e os genes podem interagir de m\u00faltiplas maneiras diferentes desafiando a no\u00e7\u00e3o de que possam agir indepententemente um do outro&#8221;, como afirma Joseph Loscalzo, editorialista do New England Journal, ent\u00e3o, a presen\u00e7a desse riqu\u00edssimo material gen\u00e9tico interagindo com o nosso deve provocar algum tipo resposta. Para descrever esse novo modo de intera\u00e7\u00e3o, o modelo de rela\u00e7\u00e3o hospedeiro\/parasita j\u00e1 n\u00e3o parece ser suficiente porque as mesmas bact\u00e9rias que nos ajudam em determinados momentos, podem nos prejudicar em outros.<\/p>\n<p>Surge ent\u00e3o, um novo mecanismo fisiopatol\u00f3gico. Algo com o qual n\u00e3o nos t\u00ednhamos defrontado antes e que, para al\u00e9m de quaisquer dualismos, reside na <em><strong>intera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em> entre duas &#8220;for\u00e7as&#8221; viventes. Antes de vencer o inimigo \u00e9 preciso, agora mais do que nunca, aprender a conviver com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Annual+Review+of+Pathology%3A+Mechanisms+of+Disease&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1146%2Fannurev-pathol-011811-132421&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Human+Microbiome+in+Health+and+Disease&amp;rft.issn=1553-4006&amp;rft.date=2012&amp;rft.volume=7&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=99&amp;rft.epage=122&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.annualreviews.org%2Fdoi%2Fabs%2F10.1146%2Fannurev-pathol-011811-132421&amp;rft.au=Pflughoeft%2C+K.&amp;rft.au=Versalovic%2C+J.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Health%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Pflughoeft, K., &amp; Versalovic, J. (2012). Human Microbiome in Health and Disease <span style=\"font-style: italic\">Annual Review of Pathology: Mechanisms of Disease, 7<\/span> (1), 99-122 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1146\/annurev-pathol-011811-132421\" rev=\"review\">10.1146\/annurev-pathol-011811-132421<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=New+England+Journal+of+Medicine&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1056%2FNEJMe1302154&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Gut+Microbiota%2C+the+Genome%2C+and+Diet+in+Atherogenesis&amp;rft.issn=0028-4793&amp;rft.date=2013&amp;rft.volume=368&amp;rft.issue=17&amp;rft.spage=1647&amp;rft.epage=1649&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nejm.org%2Fdoi%2Fabs%2F10.1056%2FNEJMe1302154&amp;rft.au=Loscalzo%2C+J.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Health%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Loscalzo, J. (2013). Gut Microbiota, the Genome, and Diet in Atherogenesis <span>New England Journal of Medicine, 368<\/span> (17), 1647-1649 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1056\/NEJMe1302154\" rev=\"review\">10.1056\/NEJMe1302154<\/a><\/span><\/p>\n<p>Recomendo os textos do Meio de Cultura sobre o assunto. Superorganismos <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/superorganismo-acredite-voce-e-1de-3\/\">1<\/a>, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/superorganismo-acredite-voce-e-\u2013-2-de-3\/\">2<\/a> e <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2011\/11\/17\/superorganismo-acredite-voce-e-3-de-3\/\">3<\/a>. E o especial da <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nrmicro\/focus\/metagenomics\/index.html\">Nature<\/a> (em ingl\u00eas, para assinantes).<\/p>\n<p>Agradecimentos ao Luiz Bento do <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/\">Discutindo Ecologia<\/a> pela revis\u00e3o do manuscrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez atendi uma paciente no ambulat\u00f3rio do hospital e solicitei a ela, entre outros exames, um protoparasitol\u00f3gico de fezes. No retorno, os resultados n\u00e3o mostravam nada digno de nota, exceto a presen\u00e7a de Entamoeba coli\u00a0detectada no fat\u00eddico exame. 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