{"id":323,"date":"2009-04-13T19:31:21","date_gmt":"2009-04-13T22:31:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/04\/merleau-ponty\/"},"modified":"2009-04-13T19:31:21","modified_gmt":"2009-04-13T22:31:21","slug":"merleau-ponty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/04\/13\/merleau-ponty\/","title":{"rendered":"Merleau-Ponty, o Corpo, a Cabe\u00e7a e os Transplantes"},"content":{"rendered":"<p>Fiz uma <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/10\/questionamentos.php\">provoca\u00e7\u00e3o<\/a>. Depois, fiz <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/03\/perguntinha_junguiana.php\">outra<\/a>. O 100nexos, com a categoria de sempre, respondeu com <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2009\/04\/um_transplante_de_cabeca_ou_de.php\">fatos<\/a>. Eu, sem saber se consigo, responderei com uma reflex\u00e3o. Reflex\u00e3o que a ci\u00eancia teima em n\u00e3o fazer para si. (Recomenda-se fortemente a partir daqui, a leitura dos textos anteriores antes de prosseguir).<\/p>\n<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"24_merleau_ponty.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/24_merleau_ponty1.jpg\" class=\"mt-image-left\" style=\"margin: 0pt 20px 20px 0pt;float: left\" height=\"304\" width=\"329\" \/><\/span><\/p>\n<p>O transplante de cabe\u00e7a ou de corpo \u00e9 um paradoxo apenas se encararmos o ser humano como uma dualidade corpo-mente, corpo-alma ou qualquer que seja.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de um transplante dessas propor\u00e7\u00f5es vai no \u00e2mago da quest\u00e3o de onde est\u00e1 o nosso &#8220;eu&#8221;. A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental pensou o corpo mais como um instrumento, um sinal imperfeito da pr\u00f3pria alma. Esse pensamento atingiu seu apogeu em Descartes como mostra a passagem abaixo (in &#8220;<a href=\"http:\/\/biblioteca.universia.net\/ficha.do?id=28730536\">\u00c9tica e Corpo Pr\u00f3prio em Merleau-Ponty<\/a>&#8221; &#8211; Maria Ediv\u00e2nia Vicente dos Santos):<\/p>\n<p><i>&#8220;H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre o esp\u00edrito e o corpo, pelo fato de o corpo, por sua natureza, ser sempre divis\u00edvel e de o esp\u00edrito ser indivis\u00edvel. Pois, com efeito, quando considero meu esp\u00edrito, ou seja, eu mesmo na medida em que sou somente uma coisa que pensa, nele n\u00e3o posso distinguir nenhuma parte, mas concebo-me como uma coisa \u00fanica e inteira. E, conquanto todo o esp\u00edrito pare\u00e7a estar unido a todo o corpo, todavia, estando separados de meu corpo um p\u00e9, ou um bra\u00e7o, ou alguma outra parte <\/i>(poderia ser todo o corpo!)<i>, \u00e9 certo que nem por isso haver\u00e1 algo suprimido do meu esp\u00edrito. [&#8230;] Mas \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio nas coisas corporais ou extensas: pois n\u00e3o h\u00e1 uma que eu n\u00e3o ponha facilmente em peda\u00e7os com meu pensamento, que meu esp\u00edrito n\u00e3o divida com muita facilidade em v\u00e1rias partes e, por conseguinte que eu n\u00e3o conhe\u00e7a ser divis\u00edvel.&#8221;<\/i> (Descartes, Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas, S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 128).<\/p>\n<p>\u00c9 essa a concep\u00e7\u00e3o de corpo que faz o transplante de cabe\u00e7a ser um paradoxo. Se a ci\u00eancia nos habitua a ver o corpo como uma reuni\u00e3o de partes, quando as separamos, simplesmente tornam-se partes separadas de um todo. O problema s\u00f3 surge quando resolvemos separar o que seria a &#8220;sede do esp\u00edrito&#8221;: a cabe\u00e7a. Esta, outra percep\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria da forma dual como dispomos e avaliamos nosso corpo.<\/p>\n<p>Merleau-Ponty \u00e9 um fil\u00f3sofo muito interessante para a medicina exatamente por ter teorizado sobre o corpo. Para Merleau-Ponty &#8220;a uni\u00e3o entre a alma e o corpo n\u00e3o \u00e9 selada por um decreto artibr\u00e1rio entre dois termos exteriores, um objeto, outro, sujeito. Ela se realiza a cada instante no movimento da exist\u00eancia&#8221;. Ainda no texto da profa. Maria Santos, &#8220;a consci\u00eancia que tenho do corpo n\u00e3o \u00e9 um pensamento, no sentido em que n\u00e3o posso decomp\u00f4-lo e recomp\u00f4-lo para formar dele uma id\u00e9ia clara&#8221;, como em Descartes.<\/p>\n<p>Ao dissolver as dualidades sujeito-objeto, corpo-alma, Merleau-Ponty coloca no corpo uma anteced\u00eancia a nossa experi\u00eancia externa. Isso significa que s\u00f3 entendemos, sentimos, pensamos, a partir da viv\u00eancia que temos de nossos corpos. O corpo \u00e9 o nosso &#8220;ponto de vista sobre o mundo&#8221;. Eu n\u00e3o tenho um corpo. Sou um corpo.<\/p>\n<p>Isso tudo quer dizer que a experi\u00eancia radical de um transplante de corpo (este, o correto) s\u00f3 serviria, como serviu em primatas, para manter o indiv\u00edduo vivo por alguns dias. Querer colocar a cabe\u00e7a de Stephen Hawking em outro corpo, mesmo que pud\u00e9ssemos reconectar a infinidade de liga\u00e7\u00f5es neurais, musculares e \u00f3sseas que uma cirurgia como essa implica, e, mesmo que pud\u00e9ssemos mant\u00ea-lo vivo indefinidamente, seria transformar Hawking em outra pessoa, que obviamente n\u00e3o seria o doador. N\u00f3s somos corpos!<\/p>\n<p>Diriam os cientificistas: &#8220;Mas esse cara \u00e9 fil\u00f3sofo. O que ele entende de neurofisiologia e tecnologia m\u00e9dica?&#8221; Eu perguntaria o que um tecn\u00f3logo ou neurofisiologista entende de \u00e9tica?<i><br \/><\/i><\/p>\n<p><i><font>Foto de Merleau-Ponty retirada do sensacional site franc\u00eas da <a href=\"http:\/\/www.ac-grenoble.fr\/PhiloSophie\/plugins\/diaporama\/accueil.php?lng=fr\">Academie Gr\u00e9noble<\/a>.<\/font><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiz uma provoca\u00e7\u00e3o. Depois, fiz outra. O 100nexos, com a categoria de sempre, respondeu com fatos. Eu, sem saber se consigo, responderei com uma reflex\u00e3o. Reflex\u00e3o que a ci\u00eancia teima em n\u00e3o fazer para si. (Recomenda-se fortemente a partir daqui, a leitura dos textos anteriores antes de prosseguir). 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