{"id":3454,"date":"2013-08-01T12:42:28","date_gmt":"2013-08-01T15:42:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=3454"},"modified":"2013-08-01T12:42:28","modified_gmt":"2013-08-01T15:42:28","slug":"licoes-andinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/08\/01\/licoes-andinas\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es Andinas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/08\/1781394_Z8dDc.jpeg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3458\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/08\/1781394_Z8dDc.jpeg\" alt=\"1781394_Z8dDc\" width=\"320\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/08\/1781394_Z8dDc.jpeg 400w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/08\/1781394_Z8dDc-300x196.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a>&#8220;O corpo \u00e9 uma realidade biopol\u00edtica. A medicina \u00e9 uma estrat\u00e9gia biopol\u00edtica&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">M. Foucault in &#8216;Microf\u00edsica do Poder&#8217;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>&#8220;<a href=\"https:\/\/plus.google.com\/+JornalOGlobo\/posts\/8HVFCRFnmZX\">Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos<\/a>&#8220;.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Grito de guerra de um grupo de m\u00e9dicos em manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ontem.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas de sa\u00fade constituem um segmento estrat\u00e9gico para qualquer governante que se preocupe com o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o pela qual \u00e9 respons\u00e1vel. Dentre as poss\u00edveis\u00a0pr\u00e1ticas nessa \u00e1rea, se destaca a medicina que, na sua forma ocidental cl\u00e1ssica, \u00e9 a que vem obtendo os resultados mais espetaculares tanto no sentido de aliviar o sofrimento causado por mol\u00e9stias que acometem o ser humano, como evitar seu aparecimento, seja no \u00e2mbito p\u00fablico\/populacional ou privado\/individual.<\/p>\n<p>Entretanto, as rela\u00e7\u00f5es entre os governos e a for\u00e7a m\u00e9dica\u00a0de trabalho, aqui entendida como sendo a constitu\u00edda pelos profissionais m\u00e9dicos que exercem a medicina, nem sempre coincidiram em ideais e pontos de vista. Tendo como horizonte o atrito contempor\u00e2neo entre governo e associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas brasileiras, talvez seja interessante relembrar experi\u00eancias de outros pa\u00edses com problemas semelhantes para que n\u00e3o tenhamos que repetir ret\u00f3ricas ultrapassadas e f\u00fateis, improvisa\u00e7\u00f5es atabalhoadas e\u00a0perigosas e discuss\u00f5es desgastantes e contraproducentes, nas quais quem <em><strong>sempre<\/strong><\/em> acaba perdendo \u00e9 o paciente. Tome-se, por exemplo, o papel que os m\u00e9dicos desempenharam no Chile na \u00e9poca do golpe militar.<\/p>\n<p>Salvador Allende\u00a0Gossens era m\u00e9dico. &#8220;A oposi\u00e7\u00e3o e os conflitos com os quais se defrontou em suas tentativas de modificar o sistema de sa\u00fade chileno refletem em miniatura os problemas que conduziram a queda de seu governo&#8221;, afirmam Howard Waitzkin e Hilary Modell, esta \u00faltima, de corpo presente durante o turbulento per\u00edodo do golpe militar, em interessante artigo de 1974 no New England Journal (abaixo). Allende, socialista, foi ministro da Sa\u00fade e tentou introduzir amplas mudan\u00e7as estruturais na redistribui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dicos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pobre do Chile, principal problema da \u00e9poca. Vale ressaltar, que ele &#8220;escrupulosamente evitou <em><strong>medidas compuls\u00f3rias que limitariam a livre escolha de profissionais da sa\u00fade e pacientes<\/strong><\/em>&#8221; (grifos meus).<\/p>\n<p>A maioria dos m\u00e9dicos chilenos era proveniente de uma elite burguesa e preferia a pr\u00e1tica privada, em especial nos grandes centros urbanos, onde era mais valorizada. Allende prop\u00f4s uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as para melhorar a distribui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dicos que, inicialmente, n\u00e3o incomodaram as associa\u00e7\u00f5es de classe dado que era permitido que os m\u00e9dicos escolhessem trabalhar no LHC (um tipo de SUS) ou permanecessem na vida privada. Interessante notar que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, os m\u00e9dicos poderiam, juntamente com sua carga hor\u00e1ria normal no LHC, usar os hospitais p\u00fablicos para assistir seus pacientes privados, num esquema de &#8220;fee-for-service&#8221;. Quase 90% dos m\u00e9dicos trabalhavam no LHC, mas dispendiam mais tempo e energia cuidando de seus pacientes particulares em raz\u00e3o disso. Apesar dessas distor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foram feitas tentativas de eliminar a medicina privada. O governo continuou subscrevendo-a, mantendo as faculdades de medicina gratuitas e o trabalho privado dos m\u00e9dicos inalterado, mudando concretamente muito pouco a situa\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, alguns fatores fizeram com que a Associa\u00e7\u00e3o Chilena de Medicina iniciasse, em 1972, uma vigorosa campanha contra a <em><strong>Unidad Popular<\/strong><\/em> (UP, coliz\u00e3o que dava sustenta\u00e7\u00e3o a Allende), entre elas, s\u00e3o citadas principalmente: a proposi\u00e7\u00e3o do governo de treinar mais param\u00e9dicos, altera\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo das faculdades de medicina com vistas \u00e0 uma vis\u00e3o mais social do problema da sa\u00fade, a falta de insumos devido ao boicote imposto ao governo socialista do Chile, em especial, pelos EUA. Em Outubro de 1972, os m\u00e9dicos chilenos entraram em greve. Entretanto, os outros profissionais da sa\u00fade (enfermeiras, parteiras, t\u00e9cnicos de laborat\u00f3rio, administrativos, etc) n\u00e3o apoiaram o movimento e os hospitais da LHC continuaram funcionando devido a um esfor\u00e7o conjunto de funcion\u00e1rios, residentes e m\u00e9dicos pr\u00f3-governo. Essa situa\u00e7\u00e3o emergencial n\u00e3o p\u00f4de se sustentar por muito tempo. &#8220;Durante as semanas imediatamente anteriores ao golpe militar de Setembro de 1973, uma nova greve dos m\u00e9dicos desestabilizou o sistema de sa\u00fade chileno. A profiss\u00e3o m\u00e9dica, amea\u00e7ada pela redistribui\u00e7\u00e3o do poder e incomodada pela instabilidade econ\u00f4mica, ajudou a pavimentar o terreno para ditadura&#8221;, argumentam os autores do estudo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe, v\u00e1rios diretores de hospitais da NHC (<em>neighborhood health center<\/em> &#8211; hospitais de comunidade) foram detidos no est\u00e1dio nacional. Trinta e cinco m\u00e9dicos foram torturados e mortos. Professores de medicina, m\u00e9dicos praticantes e trabalhadores da sa\u00fade em geral, foram presos, regularmente torturados e classificados como &#8220;confi\u00e1veis&#8221;, &#8220;incertos&#8221; ou &#8220;politicamente perigosos&#8221;, conforme suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. M\u00e9dicos entregaram m\u00e9dicos \u00e0 pol\u00edcia do governo. M\u00e9dicos militares auxiliaram torturas. O sistema de sa\u00fade foi reformatado inteiramente com preju\u00edzo \u00e0s classes mais desfavorecidas. Departamentos de medicina preventiva, sa\u00fade p\u00fablica e de ci\u00eancias sociais na \u00e1rea m\u00e9dica foram fechados. M\u00e9dicos comunit\u00e1rios e volunt\u00e1rios nestas atividades, sumariamente demitidos. O <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Regime_militar_do_Chile\">regime militar chileno<\/a> ainda viveria seus piores momentos e o\u00a0<a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/noticia\/2013-05-31\/chile-devera-reabrir-caso-de-desaparecimento-de-medicos-durante-governo-pinochet\">paradeiro de muitos m\u00e9dicos, ainda hoje, \u00e9 objeto de investiga\u00e7\u00e3o.<\/a><\/p>\n<p>Waitzkin e Modell concluem o artigo citando tr\u00eas li\u00e7\u00f5es gerais tiradas da experi\u00eancia chilena.<\/p>\n<p>1. Em todas as sociedades, mas especialmente as de pa\u00edses em desenvolvimento, a Sa\u00fade \u00e9 intimamente ligada aos sistemas econ\u00f4mico e pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2. Conflitos no sistema de sa\u00fade tendem a refletir em miniatura os conflitos inerentes de uma sociedade estratificada.<\/p>\n<p>3. A experi\u00eancia chilena mostra que reformas progressivas no sistema de sa\u00fade t\u00eam pouco significado sem mudan\u00e7as na ordem social. Profissionais da sa\u00fade e usu\u00e1rios devem entender que o esfor\u00e7o conjunto em busca de um sistema de sa\u00fade mais humano e justo n\u00e3o ter\u00e1 sucesso sem que haja um esfor\u00e7o concomitante para uma mudan\u00e7a na ordem social.<\/p>\n<p>Atualiza\u00e7\u00e3o: Em 2008 chamei a aten\u00e7\u00e3o para o encarecimento da medicina chilena ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o do modelo neoliberal, bastante elogiado na \u00e9poca pelo Banco Mundial. <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/04\/solo-epistemologico-4\/\">Veja s\u00f3<\/a>.<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_tiny.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=New+England+Journal+of+Medicine&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1056%2FNEJM197407252910404&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Medicine%2C+Socialism%2C+and+Totalitarianism%3A+Lessons+from+Chile&amp;rft.issn=&amp;rft.date=1974&amp;rft.volume=291&amp;rft.issue=4&amp;rft.spage=171&amp;rft.epage=177&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Waitzkin%2C+Howard%3B+Modell%2C+Hilary&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Health%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Waitzkin, Howard; Modell, Hilary (1974). Medicine, Socialism, and Totalitarianism: Lessons from Chile <span style=\"font-style: italic\">New England Journal of Medicine, 291<\/span> (4), 171-177 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1056\/NEJM197407252910404\" rev=\"review\">10.1056\/NEJM197407252910404<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O corpo \u00e9 uma realidade biopol\u00edtica. A medicina \u00e9 uma estrat\u00e9gia biopol\u00edtica&#8221; M. Foucault in &#8216;Microf\u00edsica do Poder&#8217; &#8220;Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos&#8220;.\u00a0 Grito de guerra de um grupo de m\u00e9dicos em manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ontem. 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