{"id":362,"date":"2009-05-27T19:31:00","date_gmt":"2009-05-27T22:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/05\/a_teoria_da_vitamina_d_e_a_des\/"},"modified":"2009-05-27T19:31:00","modified_gmt":"2009-05-27T22:31:00","slug":"a_teoria_da_vitamina_d_e_a_des","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/05\/27\/a_teoria_da_vitamina_d_e_a_des\/","title":{"rendered":"A Teoria da Vitamina D e a Despigmenta\u00e7\u00e3o da Pele Humana"},"content":{"rendered":"<div align=\"right\"><i>Esse post faz parte da <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/05\/blogagem_coletiva_-_luz.php\">blogagem coletiva<\/a> sobre Luz do Scienceblogs Brasil.<\/i><\/div>\n<p>Existem poucas d\u00favidas de que a linhagem humana e o pr\u00f3prio <em>Homo sapiens<\/em> surgiram na \u00c1frica Equatorial. A cor da pele dos primeiros homin\u00eddeos era negra, se utilizarmos a nomenclatura vigente. Com a dispers\u00e3o dos homin\u00eddeos para latitutes mais elevadas, houve uma despigmenta\u00e7\u00e3o da pele. V\u00e1rias teorias discutem qual foi o fator primordial que selecionou a pele clara em latitutes mais elevadas e a manteve escura na regi\u00e3o equatorial. O paradigma atual \u00e9 o da vitamina D, com papel importante desempenhado pelo \u00e1cido f\u00f3lico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2009\/05\/Vit-D.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-4116\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2009\/05\/Vit-D.jpg\" alt=\"Vit D\" width=\"628\" height=\"543\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2009\/05\/Vit-D.jpg 628w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2009\/05\/Vit-D-300x259.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 628px) 100vw, 628px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\">Am J Clin Nutr 1998;67:1108-10. Printed in USA. \u00a9 1998 American Society for Clinical Nutrition<\/p>\n<p>A vitamina D n\u00e3o \u00e9 uma vitamina de fato, nutricionalmente falando. Na verdade, o termo mais apropriado seria o de pr\u00f3-horm\u00f4nio. Ela divide a mesma estrutura qu\u00edmica, o anel ciclopentanoperhidrofenantreno, com v\u00e1rios horm\u00f4nios como o estradiol (horm\u00f4nio feminino), a aldosterona (horm\u00f4nio supra-renal respons\u00e1vel pelo metabolismo do s\u00f3dio) e o cortisol (horm\u00f4nio com m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es relacionadas ao stress e a imunomodula\u00e7\u00e3o). A vitamina D \u00e9 fotossintetisada na pele humana devido a infiltra\u00e7\u00e3o de raios UVB que fotolisam a provitamina D3 em vitamina D3 (ver figura). Esta, por sua vez, vai ao f\u00edgado e finalmente, ao rim, para depois exercer seus <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/05\/vitamina_d_e_a_cor_da_pele.php\">efeitos<\/a>. O excesso de sol n\u00e3o produz um excesso de vitamina D. Isso ocorre pois a exposi\u00e7\u00e3o solar excessiva produz a convers\u00e3o da pr\u00f3vitamina D3 em lumisterol, inativo, que pode ser reconvertido a vitamina D3 quando a exposi\u00e7\u00e3o solar diminuir. Al\u00e9m disso, o bronzeamento funciona como um filtro solar que impede o excesso de radia\u00e7\u00e3o UVB, diminuindo assim, sua convers\u00e3o.<\/p>\n<p>Inicialmente lan\u00e7ada por Murray em 1934, a teoria da vitamina D foi ressuscitada e popularizada por Loomis em 1967 e refinada por Jablonski e Chaplin em 2000 com a aplica\u00e7\u00e3o de dados quantitativos sobre a radia\u00e7\u00e3o UVB. \u00c9 baseada na simples observa\u00e7\u00e3o de que a cor da pele de popula\u00e7\u00f5es nativas segue a seguinte distribui\u00e7\u00e3o: 1) pele escura na regi\u00e3o equatorial e cintur\u00f5es tropicais; 2) pele mais clara, regi\u00f5es acima do paralelo 50; e 3) os de pigmenta\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, as latitutes intermedi\u00e1rias entre as duas primeiras. Essa hip\u00f3tese correlaciona-se muito bem com o \u00edndice de reflect\u00e2ncia das v\u00e1rias colora\u00e7\u00f5es da pele humana aos raios UVB, sendo menor nas peles mais claras que, portanto, absorvem mais raios UVB e em consequ\u00eancia, fotossintetizam mais vitamina D. Isso permite que indiv\u00edduos de pele clara tenham uma melhor adapta\u00e7\u00e3o a locais com menor insola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o modelo atual, o homem moderno surgiu na \u00c1frica Sub-Saariana h\u00e1 100.000-150.000 anos atr\u00e1s. Um grupo migrou para h\u00e1 Europa h\u00e1 35.000-40.000 anos atr\u00e1s. A teoria da vitamina D prop\u00f5e que esses indiv\u00edduos foram sofrendo uma progressiva despigmenta\u00e7\u00e3o da pele at\u00e9 atingirem a pele caracter\u00edstica da popula\u00e7\u00e3o europeia atual. Isso se deveu \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 menor irradia\u00e7\u00e3o UVB nessas latitudes pois a melanina \u00e9 um excelente filtro solar. A cereja do bolo \u00e9 o mecanismo de press\u00e3o seletiva: raquitismo. Por meio das deformidades produzidas pela doen\u00e7a, os indiv\u00edduos portadores n\u00e3o deixariam descendentes de modo que sua linhagem se extinguiria, favorecendo os de pele cada vez mais clara. Atribui-se \u00e0s deformidades do raquitismo altera\u00e7\u00f5es de mobilidade que impediriam o indiv\u00edduo de caminhar e coletar alimentos; fraqueza muscular; nas mulheres, as altera\u00e7\u00f5es p\u00e9lvicas tornariam o parto extremamente dif\u00edcil ou mesmo imposs\u00edvel. Mesmo assim, uma crian\u00e7a gerada nessas condi\u00e7\u00f5es pode ter hipocalcemia severa e les\u00f5es cerebrais graves sendo essas, importantes causas de mortalidade infantil ainda hoje.<\/p>\n<div align=\"center\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman'\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/anthro.palomar.edu\/adapt\/images\/skin_color_range.jpg\" alt=\"photo of 4 people showing some of the variation in human skin coloration--Sub-Saharan African, Indian, Southern European, and Northwest European\" width=\"385\" height=\"136\" \/><\/span><\/div>\n<div align=\"center\"><strong>Photo by <a href=\"http:\/\/anthro.palomar.edu\/adapt\/default.htm\">Dennis O&#8217;Neil site<\/a><\/strong><\/div>\n<p>Bem, o tempo passou e os humanos fizeram a maior bagun\u00e7a. Foram daqui para l\u00e1 e de l\u00e1 para c\u00e1 misturando-se de todo jeito. Ent\u00e3o, j\u00e1 que temos indiv\u00edduos de todas as cores em todas as latitudes, basta dosarmos a vitamina D em pessoas da mesma latitude para comprovarmos a teoria, certo? Isso tem sido feito desde a d\u00e9cada de 30, principalmente nos EUA e o resultado \u00e9 que americanos negros t\u00eam n\u00edveis menores de vitamina D que seus compatriotas de pele clara. Estudos <i>in vitro<\/i>, mostraram que a pele clara chega a absorver 10x mais UVB que a pele escura.<\/p>\n<p>Entretanto, Robins questiona n\u00e3o tanto os efeitos demonstrados, mas muito mais a for\u00e7a da vitamina D e do raquitismo em dar conta de toda a grande variedade da pigmenta\u00e7\u00e3o da pele humana como mecanismos de sele\u00e7\u00e3o natural. Os argumentos s\u00e3o inc\u00f4modos: 1) Se a pele escura absorve menos UVB, basta aumentar o tempo de exposi\u00e7\u00e3o. E ele j\u00e1 \u00e9 baixo, s\u00e3o necess\u00e1rios 30 minutos di\u00e1rios. 2) H\u00e1 dep\u00f3sitos de vitamina D realizados nos per\u00edodos de maior insola\u00e7\u00e3o. 3) Como separar esses fatores de condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas? 4) A exposi\u00e7\u00e3o solar n\u00e3o \u00e9 a principal causa de raquitismo. Segundo Robins, escava\u00e7\u00f5es mostraram que a frequ\u00eancia de ossadas encontradas com sinais inequ\u00edvocos de raquitismo varia de 0,7 a 2,5%. Bem diferente da epidemia de raquitismo nas escuras e esfuma\u00e7adas cidades europ\u00e9ias da revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>Chaplin e Jablonski argumentam que n\u00e3o h\u00e1 teoria alternativa que encaixe t\u00e3o bem como essa. Segundo eles: <i>&#8220;Vitamin D is essential to human health. Vitamin D receptors (VDRs) are found on 36 major organs. Vitamin D exerts paracrine functions in 10 organs, and performs\u00a0essential regulation of B and T lymphocytes, the adaptive and innate immune system, pancreas, brain, and heart (Norman, 2008). It plays an important part in cancer prevention (Garland et al., 2006; Fleet, 2008). It has regulatory effects on inflammatory markers and autoimmune diseases such as diabetes and multiple sclerosis (Holick, 2008; Holick and Chen, 2008). Vitamin D deficiency is implicated in epidemics of infectious diseases like influenza<br \/>\n(Cannell et al., 2008). Single nucleotide polymorphisms of the VDR gene are associated with susceptibility to pulmonary tuberculosis in West Africans (Olesen et al., 2007), and TB and pneumonia are frequently seen together with 25(OH)D deficiency. The lung has its own\u00a0vitamin D paracrine function that indicates that the vitamin has special significance in protecting lung function (Muhe et al., 1997; Holick and Chen, 2008). Because vitamin D increases muscle performance, it positively affects cardiac output (Valdivielso and Ayus, 2008). Overall, there is an association with perinatal and childhood 25(OH)D status and mortality (Hollis and Wagner, 2004a,b; Lucas et al., 2008b). Because of the lack of comparative population-based studies, it is not yet known how assays of 25(OH)D represent health status, nor what is the essential determinant of pathophysiology: peak concentration, average throughout the year, the nadir, or the range (Millen and Bodnar, 2008)&#8221;. <\/i>Acho que tudo isso poderia justificar alguma sele\u00e7\u00e3o natural, n\u00e3o?<i><\/i><\/p>\n<p>Bom, a teoria da vitamina D \u00e9 o principal modelo atual para explicar a grande varia\u00e7\u00e3o de cor da pele humana. Vista dessa forma, n\u00e3o parece estranho darmos tanto valor a um simples mecanismo adaptativo?<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor: -moz-zoom-in\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/4\/40\/William_Blake-Europe_Supported_By_Africa_and_America_1796.png\" alt=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/4\/40\/William_Blake-Europe_Supported_By_Africa_and_America_1796.png\" width=\"252\" height=\"352\" \/><\/div>\n<div align=\"center\">De <a title=\"William Blake\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/William_Blake\">William Blake<\/a>, Europe Supported By Africa and America, 1796 at <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ra%C3%A7a_humana\">Wikipedia<\/a><\/div>\n<p>Refer\u00eancia principais<\/p>\n<p>1) George Chaplin, Nina G. Jablonski. Vitamin D and the evolution of human depigmentation. American Journal of Physical Anthropology: 2009 (ahead of print).<br \/>\nDOI: 10.1002\/ajpa.21079 US: http:\/\/dx.doi.org\/10.1002\/ajpa.21079<\/p>\n<p>2) Ashley H. Robins. The evolution of light skin color: Role of vitamin D disputed. American Journal of Physical Anthropology: 2009 (ahead of print).<br \/>\nDOI: 10.1002\/ajpa.21077 US: http:\/\/dx.doi.org\/10.1002\/ajpa.21077<\/p>\n<p>3) Sobre a inexist\u00eancia das <a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/4214\">ra\u00e7as<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse post faz parte da blogagem coletiva sobre Luz do Scienceblogs Brasil. Existem poucas d\u00favidas de que a linhagem humana e o pr\u00f3prio Homo sapiens surgiram na \u00c1frica Equatorial. A cor da pele dos primeiros homin\u00eddeos era negra, se utilizarmos a nomenclatura vigente. 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