{"id":376,"date":"2009-06-15T22:02:38","date_gmt":"2009-06-16T01:02:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/06\/a_linha_entre_hipocondria_e_au\/"},"modified":"2009-06-15T22:02:38","modified_gmt":"2009-06-16T01:02:38","slug":"a_linha_entre_hipocondria_e_au","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/06\/15\/a_linha_entre_hipocondria_e_au\/","title":{"rendered":"A Linha entre Hipocondria e Autoneglig\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo acima foi retirado de um instigante <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/06\/medico_quando.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">post<\/a> do <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cretinas<\/a>.<br \/>\nA medicina grega era uma medicina de equil\u00edbrio. Para os gregos, as doen\u00e7as eram causadas por desequil\u00edbrios entre os humores internos. O m\u00e9dico deveria tratar seu paciente restaurando esse equil\u00edbrio. Grande parte, se n\u00e3o todo o tratamento, deveria ser executado pelo pr\u00f3prio paciente, at\u00e9 porque n\u00e3o existiam muitas medica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis na \u00e9poca. O m\u00e9dico indicava o caminho a ser trilhado e &#8211; era dada grande import\u00e2ncia para isso &#8211; convencia o paciente \u00e0 trilh\u00e1-lo. Para tal, o m\u00e9dico deveria contar com a <b>confian\u00e7a<\/b> de seu paciente. A responsabilidade do paciente sobre sua pr\u00f3pria sa\u00fade, o <i>cuidado-de-si<\/i>, acabou ficando um tanto para tr\u00e1s. (Lia outro dia, um fant\u00e1stico livro do qual ainda vou falar bastante, onde se discutia o papel do m\u00e9dico na conduta moral de seu paciente: seria o m\u00e9dico um aconselhador cr\u00f4nico do paciente do tipo &#8220;n\u00e3o fume&#8221;, &#8220;n\u00e3o beba&#8221;, &#8220;fa\u00e7a sexo seguro&#8221;; ou o m\u00e9dico seria algu\u00e9m para nos tirar de enrascadas \u00e9tico-morais com repercuss\u00f5es org\u00e2nicas nas quais nos metemos irremediavelmente pelo puro fato de vivermos?)<br \/>\nDeixando essas divaga\u00e7\u00f5es para uma outra oportunidade, a quest\u00e3o do Cretinas \u00e9: como devo regular meu cuidado-de-si? Se muito sens\u00edvel, me transformo em hipocondr\u00edaco. Se pouco sens\u00edvel, serei negligente comigo, descuidado, ou no jarg\u00e3o m\u00e9dico &#8220;tigr\u00e3o&#8221;!<\/p>\n<div align=\"left\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-left\" style=\"margin: 0pt 20px 20px 0pt;float: left\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/hipocondrio1.jpg\" alt=\"hipocondrio.jpg\" width=\"280\" height=\"350\" \/><\/span>O termo <b>hipocondria<\/b> foi cunhado, segundo consta, pelo pr\u00f3prio Hip\u00f3crates. \u00c9 formado por duas palavras <i>hypo <\/i>= embaixo e <i>chondr\u00f3s<\/i> = cartilagem. A regi\u00e3o hipocondrial faz parte do exame do abdome e fica exatamente abaixo da \u00faltima cartilagem costal, portanto \u00e0 direita e \u00e0 esquerda. Nela est\u00e3o alojados dois org\u00e3os extremamente caros \u00e0 medicina grega: o ba\u00e7o, \u00e0 esquerda; e o f\u00edgado, \u00e0 direita.(ver figura).<br \/>\nHipocondr\u00edaco \u00e9 o indiv\u00edduo obsessivo por sua sa\u00fade. Isso o faz procurar por poss\u00edveis doen\u00e7as a todo momento. Recentemente, foi criado o termo <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Cyberchondria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><b>cibercondria<\/b><\/a> para dar conta dos hipocondr\u00edacos obsessivos por procurar informa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas na internet. Baseado nesse tipo de comportamento de massa, o Google criou um s\u00edtio com as tend\u00eancias das anuais epidemias de gripe ao redor do mundo e obteve resultados <a href=\"http:\/\/googlebrasilblog.blogspot.com\/2009\/04\/google-flu-trends-experimental-para-o.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">impressionantes<\/a>. Isso indica que, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em todos os pa\u00edses, \u00e9 um comportamento comum do paciente procurar informa\u00e7\u00f5es sobre suas enfermidades, n\u00e3o importando se essa enfermidade \u00e9 uma doen\u00e7a rara ou uma &#8220;simples&#8221; gripe. Sendo assim, quer os m\u00e9dicos gostem ou n\u00e3o, essa \u00e9 uma realidade da qual n\u00e3o se pode mais fugir, portanto, \u00e9 melhor estar preparado.<br \/>\nPara mim, a linha entre a hipocondria e a autoneglig\u00eancia \u00e9, na verdade, um espa\u00e7o. Um espa\u00e7o no qual o paciente deveria sentir um desconforto, mas n\u00e3o o desconforto patol\u00f3gico do hipocondr\u00edaco, nem o falso bem-estar do negligente tampouco. Deveria sentir um desconforto que o fa\u00e7a procurar ajuda, hip\u00f3tese imediatamente recha\u00e7ada pelo Cretinas, a meu ver apropriadamente, em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es atuais de funcionamento do SUS e tamb\u00e9m da Sa\u00fade Complementar. Isso me faz cavar mais fundo. E aqui come\u00e7am os problemas. A s\u00e9rie &#8220;Sala de Espera&#8221; me trouxe um conhecimento que talvez eu tivesse intuitivamente, mas que se confirma no pequeno &#8220;n&#8221; de leitores que frequenta essa min\u00fascula ilha no oceano virtual. <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/06\/sala_de_espera.php#comments\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">As pessoas t\u00eam sim, um m\u00e9dico protot\u00edpico.<\/a> <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/06\/sala_de_espera_ii.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">T\u00eam um tipo de atendimento em mente<\/a> e ao contr\u00e1rio do que pensava (al\u00e9m de corroborar o par\u00e1grafo acima) <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/06\/sala_de_espera_iii.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">t\u00eam cada vez menos preconceito de procurar por m\u00e9dicos na internet<\/a>, se bem que o velho boca-a-boca ainda \u00e9 muito importante. Isso de certa forma, demonstra que o cuidado-de-si \u00e9, em geral, calibrado por uma consci\u00eancia sobre nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia e funcionamento. Exatamente porque essa consci\u00eancia de si passa pela <b><i>imagem<\/i><\/b> que cada um tem de si pr\u00f3prio \u00e9 que temos uma varia\u00e7\u00e3o enorme de limiares e formas de procurar ajuda. A imagem que cada um tem de si (e a preocupa\u00e7\u00e3o com ela) define os padr\u00f5es de sa\u00fade que cada um quer ter. Tenho dito que um dos maiores problemas da medicina contempor\u00e2nea \u00e9 lidar com essa imagem que os pacientes constroem deles mesmos, pois ela sofreu enormes mudan\u00e7as no \u00faltimo s\u00e9culo. A medicina se atrasa em compreender a dissolu\u00e7\u00e3o do sujeito processada na p\u00f3s-modernidade, para usar de um exemplo bem batido; outro exemplo \u00e9 dado pelas dificuldades enormes em separar <i>tecnologia<\/i> m\u00e9dica de <i>avan\u00e7o<\/i> m\u00e9dico. Medicina e m\u00e9dico falham em preencher o espa\u00e7o entre a hipocondria e a neglig\u00eancia.<br \/>\nJuntando tudo, esse espa\u00e7o s\u00f3 pode ser preenchido por um m\u00e9dico que tenha a <b>confian\u00e7a<\/b> do paciente. Um m\u00e9dico que n\u00e3o conhe\u00e7a tudo, mas saiba como buscar esse conhecimento. Que assuma o paciente como ser sofrente e se empenhe em resolver seus problemas. Muitos dir\u00e3o &#8220;ah, isso \u00e9 um cl\u00ednico geral bom e custa muito caro.&#8221; Eu concordo (hehe), mas digo que muitos m\u00e9dicos de outras especialidades t\u00eam perfil assim. Diria tamb\u00e9m que alguns conv\u00eanios, a exemplo do que vem ocorrendo nos EUA, vem estimulando v\u00ednculos mais intensos com pacientes problem\u00e1ticos (telefone, por exemplo) sejam eles hipocondr\u00edacos ou n\u00e3o, e conseguindo obter expressivas redu\u00e7\u00f5es nos seus custos com isso. \u00c9 bom para todos. Falta o Estado, do alto de sua insensibilidade hist\u00f3rica, aplicar esse conhecimento em larga escala, pois experi\u00eancias n\u00e3o faltam, como o Programa de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, programas de atendimento domiciliar a pacientes fora de possibilidades terap\u00eauticas (o NADI no HCFMUSP e no HU-USP), e tantos outros dos quais n\u00e3o consigo lembrar o nome agora (meus leitores me far\u00e3o justi\u00e7a). No mais, n\u00e3o posso deixar de concluir que, ao menos ao que parece, estimular v\u00ednculos interpessoais e tratamento inter-humano, al\u00e9m de tudo, economiza grana&#8230;<\/div>\n<p><span style=\"font-family: monospace\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p class=\"scribefire-powered\"><span style=\"font-family: monospace\">Powered by <a href=\"http:\/\/www.scribefire.com\/\">ScribeFire<\/a>.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo acima foi retirado de um instigante post do Cretinas. A medicina grega era uma medicina de equil\u00edbrio. 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