{"id":3854,"date":"2013-11-17T22:46:55","date_gmt":"2013-11-18T01:46:55","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=3854"},"modified":"2013-11-17T22:46:55","modified_gmt":"2013-11-18T01:46:55","slug":"glicose-media-estimada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2013\/11\/17\/glicose-media-estimada\/","title":{"rendered":"Glicose M\u00e9dia Estimada"},"content":{"rendered":"<p><em>O Sr. Apol\u00f4nio olhou seus exames pela p\u00e1gina do laborat\u00f3rio na internet e, estarrecido, viu sua glicose no valor de 123. Pensou, &#8220;estou diab\u00e9tico!!&#8221; Desesperou-se e correu para consulta com seu m\u00e9dico. Na consulta, verificou com aux\u00edlio do doutor, que havia duas dosagens de glicose em seus exames: a primeira, chamada <strong>glicemia de jejum<\/strong>\u00a0que era de 87. A segunda, chamada de <strong>glicose m\u00e9dia estimada (GME),<\/strong> tinha o valor de 123. Em qual acreditar? &#8220;S\u00eao&#8221; Apol\u00f4nio est\u00e1 ou n\u00e3o diab\u00e9tico?<\/em><\/p>\n<p>Esta tem sido uma d\u00favida comum no consult\u00f3rio desde que um exame chamado de glicose m\u00e9dia estimada (GME) passou a integrar recentemente o rol de exames bioqu\u00edmicos de alguns laborat\u00f3rios. Ele \u00e9 derivado da dosagem da hemoglobina glicada (HbA1c) e envolve, para sua correta interpreta\u00e7\u00e3o, uma combina\u00e7\u00e3o de conceitos bioqu\u00edmicos, fisiol\u00f3gicos e estat\u00edsticos aliados ao julgamento cl\u00ednico e estimativas bayesianas sum\u00e1rias. Tais conjecturas d\u00e3o bem a ideia da complexidade envolvida na interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de um dado laboratorial de forma respons\u00e1vel. Outros textos relacionados a esse tema s\u00e3o <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/01\/o_check-up_procuradores_e_acha\/\">O Check-up, \u201cProcuradores\u201d e \u201cAchadores\u201d<\/a> e <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/08\/os-efeitos-colaterais-do-rastreamento\/\">Os Efeitos Colaterais do Rastreamento<\/a>. Neles, procuro abordar o tema do check-up e a interpreta\u00e7\u00e3o dos exames que, claro, n\u00e3o se resume a avaliar se os resultados est\u00e3o ou n\u00e3o dentro dos valores de refer\u00eancia.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">Mas, voltemos ao Seu Apol\u00f4nio e seu poss\u00edvel diabetes.<\/span><\/p>\n<p>O principal achado do diabetes, qualquer que seja seu tipo, \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica e persistente da concentra\u00e7\u00e3o de glicose no plasma e outros fluidos corporais (como o liquor, interst\u00edcio, urina, etc). Esse aumento estimula a liga\u00e7\u00e3o n\u00e3o-enzim\u00e1tica da glicose com prote\u00ednas org\u00e2nicas, sendo as mais estudadas a albumina, o col\u00e1geno, a LDL (fra\u00e7\u00e3o que carrega a mol\u00e9cula de colesterol) e a hemoglobina. A hemoglobina tem a fun\u00e7\u00e3o de levar o oxig\u00eanio dos pulm\u00f5es para os tecidos perif\u00e9ricos e, para isso, tem uma &#8220;rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio&#8221; com o\u00a0g\u00e1s. Se por um lado, precisa estar &#8220;muito afim&#8221; do oxig\u00eanio durante sua passagem pela circula\u00e7\u00e3o pulmonar, por outro, na periferia, tem que abrir m\u00e3o dele de modo a liber\u00e1-lo para que seja utilizado pelos tecidos. Essa &#8220;mudan\u00e7a de comportamento&#8221; da hemoglobina \u00e9 mediada por intera\u00e7\u00f5es complexas entre os pr\u00f3tons, o \u00e2nion cloreto, uma mol\u00e9cula muito particular chamada de 2,3-difosfoglicerato, o g\u00e1s carb\u00f4nico e a temperatura e que ocorrem tanto no interior como na membrana da c\u00e9lula vermelha, a <em><strong>hem\u00e1cia<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Por meio de uma liga\u00e7\u00e3o a mol\u00e9culas de valina, a glicose altera o equil\u00edbrio de cargas e deixa a hemoglobina com uma conforma\u00e7\u00e3o quatern\u00e1ria (figura 1) de menor afinidade pelo O2.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/proteinas.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3871 alignnone\" alt=\"proteinas\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/proteinas-1024x363.jpg\" width=\"620\" height=\"219\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00a0<em>Fig 1. N\u00edveis de Estruturas Proteicas Gen\u00e9ricas.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">A hemoglobina, como sabemos, est\u00e1 empacotada dentro das hem\u00e1cias, uma das poucas c\u00e9lulas do organismo que n\u00e3o necessita de insulina para que a glicose adentre o meio intracelular. Essa adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para que se possa garantir a entrega do O2: o metabolismo das hem\u00e1cias s\u00f3 utiliza a via glicol\u00edtica, n\u00e3o conv\u00e9m ao entregador de pizza experimentar um peda\u00e7o da encomenda. Uma vez glicada, a mol\u00e9cula de hemoglobina s\u00f3 se livrar\u00e1 de seus a\u00e7\u00facares quando for destru\u00edda e isso ocorre quando a hem\u00e1cia fica velha, perdendo a flexibilidade de sua membrana. Nesse momento, no ba\u00e7o ou no f\u00edgado, ela ficar\u00e1 aprisionada em pequenos canais chamados sinus\u00f3ides e ser\u00e1 lisada (explodir\u00e1) liberando seu conte\u00fado para que seja reciclado. \u00c9 poss\u00edvel por meio de t\u00e9cnicas de laborat\u00f3rio dosar essa hemoglobina glicada e o que veremos \u00e9 um gr\u00e1fico semelhante ao da figura 2 abaixo.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/od-rd_assets-upload-image-content-hba1c_jpg.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3877 aligncenter\" alt=\"od-rd_assets-upload-image-content-hba1c_jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/od-rd_assets-upload-image-content-hba1c_jpg.jpg\" width=\"410\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/od-rd_assets-upload-image-content-hba1c_jpg.jpg 410w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/od-rd_assets-upload-image-content-hba1c_jpg-300x163.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Fig 2. Cromatografia mostrando o pico de HbA1c (glicada) comparado com a HbAo (normal).<\/em><\/p>\n<p>Ora, qual \u00e9 a vida m\u00e9dia de uma hem\u00e1cia? Em torno de 120 dias. Ent\u00e3o, algu\u00e9m, h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, pensou: se dosarmos a quantidade de hemoglobina glicada (HbA1c) presente no sangue de uma pessoa poderemos ter ideia da concentra\u00e7\u00e3o de glicose que &#8220;bombardeou&#8221; suas hem\u00e1cias nos \u00faltimos&#8230; 120 dias! Genial, n\u00e3o? Todos temos entre 3 e 4% de nossa hemoglobina ligada \u00e0 glicose normalmente, sendo desprez\u00edvel a participa\u00e7\u00e3o de outros a\u00e7\u00facares.\u00a0A glicemia ap\u00f3s um jejum de 12 horas pode vir baixa, mas a HbA1c n\u00e3o nos deixar\u00e1 enganar. Se a pessoa descuidou do diabetes nos \u00faltimos meses, o m\u00e9dico saber\u00e1. (Risada maligna).<\/p>\n<p>Mas e a tal da glicose m\u00e9dia estimada? Partindo-se do princ\u00edpio de que existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre a concentra\u00e7\u00e3o de glicose plasm\u00e1tica e a taxa de glica\u00e7\u00e3o da hemoglobina, a HbA1c \u00e9 um reflexo das varia\u00e7\u00f5es da glicemia nos \u00faltimos meses e pode ser traduzida como se fosse um valor de glicose m\u00e9dio durante todo o per\u00edodo; como se a glicose fosse constante durante toda a vida das hem\u00e1cias. Esta \u00e9 a glicose m\u00e9dia estimada. Sua rela\u00e7\u00e3o com a HbA1c pode ser expressa pela fun\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>GME\u00a0(mg\/dl) = 28,7 \u00d7 HbA1c \u2212 46,7<\/strong><\/p>\n<p>Que d\u00e1 origem a tabela da figura 3.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/hba1c.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3879 aligncenter\" alt=\"hba1c\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/hba1c.jpg\" width=\"471\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/hba1c.jpg 471w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/hba1c-300x191.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 471px) 100vw, 471px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>\u00a0Fig 3. Tabela fornecida pela Associa\u00e7\u00e3o Americana de Diabetes com a correla\u00e7\u00e3o entre HbA1c e a glicose m\u00e9dia estimada (em duas unidades mg\/dL e mmol\/L, sendo a primeira mais utilizada no Brasil).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Isto posto, os valores de HbA1c e da GME s\u00e3o \u00fateis para avaliarmos o controle do diabetes. Estudos t\u00eam mostrado que os n\u00edveis de HbA1c e sua correlata GME s\u00e3o preditivos de complica\u00e7\u00f5es do diabetes a longo prazo, como mostra a figura 4 abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.intechopen.com\/books\/medical-complications-of-type-2-diabetes\/effectiveness-of-fenugreek-for-lowering-hemoglobin-hba1c-in-patients-with-self-management-of-type-2-\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3881 aligncenter\" alt=\"image8\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/image8.jpeg\" width=\"520\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/image8.jpeg 650w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2013\/11\/image8-300x180.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/a><em>Fig 4. Risco Relativo de complica\u00e7\u00f5es a longo prazo de acordo com o n\u00edvel de HbA1c (clique na figura para o original).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Al\u00e9m disso, a HbA1c vem tamb\u00e9m sendo utilizada para o diagn\u00f3stico de diabetes. Pessoas com n\u00edveis acima de 6,5% s\u00e3o considerados diab\u00e9ticos pela <a href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=2&amp;ved=0CD4QFjAB&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.who.int%2Fdiabetes%2Fpublications%2Freport-hba1c_2011.pdf&amp;ei=dmiJUuC_A9TukQfThIGYDA&amp;usg=AFQjCNFnangpXcKfzjU43nipYsNAdJ520g&amp;bvm=bv.56643336,d.eW0&amp;cad=rja\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a>\u00a0com a ressalva de que um nova dosagem deva ser realizada em curto espa\u00e7o de tempo para confirma\u00e7\u00e3o. N\u00edveis entre 6,0 e 6,5% t\u00eam risco aumentado para a doen\u00e7a e devem ser acompanhados de perto al\u00e9m de incentivados \u00e0 realizar mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos e tentar perder peso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Mas e o S\u00eao Apol\u00f4nio? Como fica? Podemos aplicar o que sabemos agora e descobrir se ele tem ou n\u00e3o diabetes. Se desenvolvermos a f\u00f3rmula acima, com uma GME de 123, obteremos o valor de 5,92% para a HbA1c (que eu propositalmente ocultei desde o in\u00edcio do texto &#8211; outra risada maligna). Conclus\u00e3o, S\u00eao Apol\u00f4nio ainda n\u00e3o est\u00e1 diab\u00e9tico, mas o susto vai ser muito, muito bem aproveitado, podem ter certeza&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sr. Apol\u00f4nio olhou seus exames pela p\u00e1gina do laborat\u00f3rio na internet e, estarrecido, viu sua glicose no valor de 123. 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