{"id":3964,"date":"2014-02-13T09:06:10","date_gmt":"2014-02-13T12:06:10","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=3964"},"modified":"2014-02-13T09:06:10","modified_gmt":"2014-02-13T12:06:10","slug":"medicina-nao-humanista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2014\/02\/13\/medicina-nao-humanista\/","title":{"rendered":"Medicina N\u00e3o-Humanista"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/02\/medicine_ephesus.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-3996\" alt=\"medicine_ephesus\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/02\/medicine_ephesus.jpg\" width=\"320\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/02\/medicine_ephesus.jpg 400w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/02\/medicine_ephesus-300x248.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O <em><strong>humanismo<\/strong><\/em> tem significados diferentes dependendo da l\u00edngua que voc\u00ea fala [1]. Basicamente, se voc\u00ea \u00e9 um angl\u00f3fono identificar\u00e1 o humanismo com um tipo de &#8220;ate\u00edsmo esclarecido&#8221;, popular entre cientistas e &#8220;leigos de mente aberta&#8221; [2]. O &#8220;resto do mundo&#8221;, em especial a Fran\u00e7a, tem uma vis\u00e3o algo negativa do que seria o humanismo. Por isso, n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que as rea\u00e7\u00f5es a ele difiram entre os dois grupos. Um\u00a0<em><strong>anti-humanismo<\/strong><\/em> teria, assim, ao menos duas acep\u00e7\u00f5es fundamentais de acordo com as correspondentes leituras propostas. Nesse sentido, cito a professora Kate Soper [1] em livre tradu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<blockquote><p>Se &#8216;falamos Ingl\u00eas&#8217;, ent\u00e3o, o &#8216;anti-humanismo&#8217; equivale \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica de uma \u00e9tica mediadora e conciliat\u00f3ria que os auto-intitulados\u00a0humanistas sempre consideraram um componente essencial de seu esclarecimento. Se &#8216;falamos franc\u00eas&#8217;, por outro lado, [o anti-humanismo] constitui-se em um novo tipo de esclarecimento a partir do qual toda forma de pensamento humanista \u00e9 revelada como t\u00e3o ofuscante e mitol\u00f3gica quanto a teologia e a supersti\u00e7\u00e3o que o movimento humanista tradicionalmente rejeita.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa dicotomia, pasmem, foi importada para o Brasil. Grosso modo, cientistas naturais tendem a adotar o &#8220;humanismo do tipo anglo-americano&#8221;, fundando, inclusive, associa\u00e7\u00f5es ativistas aos moldes de seus colegas ultramarinos e norte-continentais. J\u00e1 os &#8220;cientistas&#8221; das Humanidades, larga e longamente influenciados pelo pensamento franc\u00eas, rejeitam o humanismo como o diabo \u00e0 cruz (n\u00e3o resisti, perdoem).<\/p>\n<p>A essa altura, algu\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 perguntando &#8220;Mas e a medicina?&#8221;. De fato, a eterna ambival\u00eancia da medicina a coloca em rela\u00e7\u00e3o sempre dif\u00edcil com dicotomias simplificadoras. Sua rela\u00e7\u00e3o com o humanismo ser\u00e1 subsidi\u00e1ria da forma como a consideramos dentro do espectro acad\u00eamico. Se a tomarmos, a exemplo de alguns cientistas com quem tive aula na faculdade, como &#8220;<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/03\/o-medico-bom\/\">nada mais do que uma discret\u00edssima subse\u00e7\u00e3o da Biologia que se ocupa das mazelas de uma \u00fanica esp\u00e9cie<\/a>\u201d e\/ou como um ramo &#8220;patol\u00f3gico&#8221; da Antropologia, tenderemos esposar \u00e0 medicina um humanismo necess\u00e1rio. Se, por outra via, a entendermos como a rela\u00e7\u00e3o do paciente com seu m\u00e9dico acrescida de tudo que envolve tal intera\u00e7\u00e3o entre\u00a0<em><strong>sujeitos<\/strong><\/em> assim postos, a vis\u00e3o continental, anti-humanista da medicina,\u00a0nos ser\u00e1 mais coerente.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">Isso porque as cr\u00edticas continentais ao humanismo passam a fazer sentido tamb\u00e9m como cr\u00edticas a uma medicina que tem, ultimamente, se esfor\u00e7ado em ser humana. A lista \u00e9 grande mas a n\u00f3s basta entender que o humanismo ao colocar o Homem como o centro a partir do qual parte todo o seu entendimento do mundo, faz dele o natural sujeito de todas as coisas e tudo, portanto, o que n\u00e3o \u00e9 Homem passa, naturalmente, a ser seu objeto. Inclusive o pr\u00f3prio Homem que, entretanto, veja s\u00f3, n\u00e3o pode ser tomado na forma <\/span><em style=\"line-height: 1.6em\"><strong>una<\/strong><\/em><span style=\"line-height: 1.6em\"> e <\/span><em style=\"line-height: 1.6em\"><strong>indivis\u00edvel\u00a0<\/strong><\/em><span style=\"line-height: 1.6em\">que caracteriza as abordagens &#8220;human\u00edsticas&#8221; dado que ele n\u00e3o pode ser, \u00a0a um s\u00f3 tempo,\u00a0sujeito e objeto. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por esse m\u00e9todo tomar o Homem em suas partes n\u00e3o-humanas ou, melhor seria dizer, <\/span><em style=\"line-height: 1.6em\"><strong>desumanizadas<\/strong><\/em><span style=\"line-height: 1.6em\">. E vejam se n\u00e3o chegamos assim \u00e0 principal queixa que se faz \u00e0 medicina contempor\u00e2nea! Se, por outra via, tentarmos reduzir a medicina a seu n\u00facleo duro &#8211; a intera\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente &#8211; e quisermos trabalhar com um outro modelo que n\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto &#8211; por exemplo, uma rela\u00e7\u00e3o sujeito-sujeito &#8211; vamos precisar de uma outra matriz conceitual que d\u00ea conta de explicar quais as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade de tal rela\u00e7\u00e3o, mas para isso ser\u00e1 preciso deslocar o &#8220;eixo humanista&#8221; de modo a abrigar um cerne <\/span><em style=\"line-height: 1.6em\"><strong>compartilhado<\/strong><\/em><span style=\"line-height: 1.6em\"> de, ao menos, dois indiv\u00edduos em igualdade de condi\u00e7\u00f5es de fala. Seria preciso desarticular a medicina de sua face humanista. Seria preciso ent\u00e3o, e vejam que ir\u00f4nico falar desse modo nos dias de hoje, <\/span><em style=\"line-height: 1.6em\"><strong>desumanizar<\/strong><\/em><span style=\"line-height: 1.6em\"> a medicina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">O fato de o conceito de humano dividir o mundo em entes humanos e n\u00e3o-humanos n\u00e3o se constitui exatamente em um problema. &#8220;S\u00f3 \u00e9 preciso saber do que estamos dispostos a abrir m\u00e3o em busca de nossa humanidade&#8221;, como escreve Vladimir Safatle [3], glosando o pr\u00f3prio Freud. Para Safatle, o que temos descartado como &#8220;inumano&#8221; se constitui em parte fundamental de nossa pr\u00f3pria humanidade e \u00e9 fonte de sofrimento social e tamb\u00e9m cl\u00ednico &#8211; da\u00ed sua import\u00e2ncia para a medicina. O desafio dos humanistas \u00e9 construir um conceito inclusivo de humanismo que possa abrigar outras formas de ser do humano que n\u00e3o se encaixem, ainda, no que \u00e9 considerado &#8220;humano&#8221; hoje. Uma <em><strong>medicina n\u00e3o-humanista<\/strong><\/em>\u00a0poderia surgir, ent\u00e3o, a partir da velha medicina que sempre se quis humana, mas que vem necessitando, recentemente, de estranhos e cada vez mais prevalentes &#8220;processos e protocolos de humaniza\u00e7\u00e3o&#8221;.<span style=\"line-height: 1.6em\"><br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">[1] Soper, K. Humanism and Anti-humanism (Problems of modern European thought). Ed. Hutchinson. 1986.<\/span><\/p>\n<p>[2] Apesar de haver quem pregue no Reino Unido o ate\u00edsmo n\u00e3o (ou anti)-humanista. Ver artigo no <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/belief\/2011\/jun\/04\/atheistic-critique-of-humanism-forgotten\">Guardian<\/a>.<\/p>\n<p>[3]\u00a0Safatle, V. Grande Hotel Abismo &#8211; Por uma reconstru\u00e7\u00e3o da teoria do reconhecimento. Ed. WMF Martins Fontes &#8211; S\u00e3o Paulo, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O humanismo tem significados diferentes dependendo da l\u00edngua que voc\u00ea fala [1]. Basicamente, se voc\u00ea \u00e9 um angl\u00f3fono identificar\u00e1 o humanismo com um tipo de &#8220;ate\u00edsmo esclarecido&#8221;, popular entre cientistas e &#8220;leigos de mente aberta&#8221; [2]. O &#8220;resto do mundo&#8221;, em especial a Fran\u00e7a, tem uma vis\u00e3o algo negativa do que seria o humanismo. 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