{"id":4017,"date":"2014-04-17T17:44:39","date_gmt":"2014-04-17T20:44:39","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=4017"},"modified":"2014-04-17T17:44:39","modified_gmt":"2014-04-17T20:44:39","slug":"paris-seculo-xix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2014\/04\/17\/paris-seculo-xix\/","title":{"rendered":"Paris, S\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4042\" style=\"width: 854px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/03\/Hotel_Dieux.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4042\" class=\" wp-image-4042   \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/03\/Hotel_Dieux.jpg\" alt=\"Hotel_Dieux\" width=\"844\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/03\/Hotel_Dieux.jpg 844w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/03\/Hotel_Dieux-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/03\/Hotel_Dieux-768x559.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 844px) 100vw, 844px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4042\" class=\"wp-caption-text\">Hotel Dieux, Paris, Fran\u00e7a (1860). Por tr\u00e1s, sim, ela mesma, a Catedral de Notre Dame.<\/p><\/div>\n<p>Honor\u00e9 de Balzac &#8211; naquele que viria a ser o terceiro livro da primeira parte dos <em><strong>Estudos do Costume<\/strong><\/em> e o d\u00e9cimo-primeiro volume de sua monumental <em><strong>Com\u00e9dia Humana<\/strong><\/em>, o romance de nome &#8220;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/La_Maison_Nucingen\">A Casa Nucingen<\/a>&#8221; &#8211; inicia sua narrativa com uma conversa de quatro jornalistas em um restaurante parisiense. Em determinado momento da discuss\u00e3o, que, a prop\u00f3sito, girava em torno da felicidade humana, Balzac coloca na boca de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/\u00c9mile_Blondet\">\u00c9mile Blondet<\/a> a seguinte frase (em livre tradu\u00e7\u00e3o): &#8220;A medicina moderna, cuja maior gl\u00f3ria \u00e9 ter, de 1799 a 1837, passado do estado conjectural ao estado de ci\u00eancia positiva, muito pela grande influ\u00eancia da escola analista de Paris, demonstrou, sem d\u00favida, que o homem periodicamente renova-se por completo&#8221;[1]. O livro foi escrito em 1837 e publicado, inicialmente, na forma de folhetim nos jornais da \u00e9poca.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.6em\">Deixemos &#8211; com Georges Canguilhem [2] &#8211; a quest\u00e3o da tal &#8220;renova\u00e7\u00e3o humana&#8221; de lado at\u00e9 porque, no livro de Balzac, tal observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa muito claro seus objetivos. Canguilhem, ele mesmo m\u00e9dico e fil\u00f3sofo, tomou dois aspectos dessa frase de Balzac para analisar o que ele chama de &#8220;estatuto epistemol\u00f3gico da medicina&#8221;[2]: as datas e o sintagma &#8220;estado de ci\u00eancia positiva&#8221;.\u00a0<\/span>Balzac era um grande cronista de sua \u00e9poca e n\u00e3o escolheria tais datas gratuitamente. Canguilhem identifica ent\u00e3o alguns acontecimentos marcantes: em 1799, aconteceu o Golpe de Estado do 18 Brum\u00e1rio e a publica\u00e7\u00e3o da &#8220;<em>Nosographie\u00a0philosophique ou la<b>\u00a0<\/b>methode de l&#8217;analyse applique\u00a0\u00e0 la\u00a0m\u00e9dicine&#8221; <\/em>de Pinel. [lembrar que a obra m\u00e1xima de Xavier Bichat foi publicada em 1799\/1800:\u00a0<em>Trait\u00e9 des membranes g\u00e9n\u00e9ral et de\u00a0diverses membranes en particulier<\/em>].\u00a0Se, por um lado, 1837 n\u00e3o tem nenhum fato pol\u00edtico relevante, do ponto de vista m\u00e9dico &#8220;\u00e9 o ano da publica\u00e7\u00e3o do terceiro volume das &#8216;<em>Le\u00e7ons sur les phenomenes physiques de Ia vie&#8217;<\/em>\u00a0de <a href=\"http:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Fran\u00e7ois_Magendie\">Magendie<\/a>\u00a0e tamb\u00e9m\u00a0da quarta edi\u00e7\u00e3o do &#8216;<em>Trait\u00e9 d&#8217; auscultation\u00a0m\u00e9diate&#8217;<\/em>\u00a0 de <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC1570491\/\">Laennec<\/a>, revisado por Andral&#8221;. Entre as duas datas, ainda segundo Canguilhem, Xavier Bichat inventou a anatomia patol\u00f3gica, <a href=\"http:\/\/www.pbs.org\/wnet\/redgold\/innovators\/bio_louis.html\">Pierre Louis<\/a> instituiu as estimativas num\u00e9ricas concernentes \u00e0 tuberculose (1825), febre tif\u00f3ide (1829) e aos efeitos do tratamento das pneumonias com sangria (1835), tudo isso sem esquecer que foi em 1830 que o primeiro dos seis volumes do &#8220;Curso de Filosofia Positiva&#8221; de Auguste Comte foi publicado.\u00a0Eu ainda apontaria, na frase de Balzac, um terceiro elemento que mereceria aten\u00e7\u00e3o especial, apesar de Canguilhem n\u00e3o o destacar em seu texto: &#8220;escola analista de Paris&#8221;. Por que Paris? As transforma\u00e7\u00f5es radicais que a pr\u00e1tica m\u00e9dica sofreria nos anos seguintes \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa n\u00e3o foram ocasionadas por uma repentina descoberta cient\u00edfica ou por um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico s\u00fabito, nem tampouco tiradas da cartola de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a radical ocorrida na medicina foi uma revolu\u00e7\u00e3o <em><strong>conceitual<\/strong><\/em>. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789-1799) fechou todos os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade para reabr\u00ed-los posteriormente. O Hotel Dieu (acima) tinha depend\u00eancias insalubres e abrigava at\u00e9 5 pacientes para CADA LEITO! [3]. Pessoas convalescentes, misturavam-se com as doentes, pessoas vivas misturavam-se aos cad\u00e1veres. Os quartos superlotados n\u00e3o tinham ventila\u00e7\u00e3o adequada. O p\u00f3s-operat\u00f3rio (ainda n\u00e3o existia a\u00a0anestesia) era ao lado da ala psiqui\u00e1trica onde &#8220;gritos eram ouvidos \u00e0 noite toda&#8221;, s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es comuns da \u00e9poca. Ap\u00f3s a reabertura dos hospitais n\u00e3o foi permitido mais que um paciente por leito, mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorou muito. As cl\u00ednicas m\u00e9dicas particulares foram praticamente extintas e os m\u00e9dicos passaram a exercer suas fun\u00e7\u00f5es nesses hospitais. Alguns recebiam sal\u00e1rios dos pr\u00f3prios hospitais (muito baixos, diga-se de passagem), mas o movimento aumentou muito. Os m\u00e9dicos tinham a oportunidade de ver centenas de pacientes nos ao inv\u00e9s de alguns poucos em suas cl\u00ednicas privadas. Com isso, houve uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, com o primeiro ganhando poderes quase ilimitados sobre o segundo. Al\u00e9m disso, o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela sa\u00fade criado no per\u00edodo revolucion\u00e1rio e atuante tamb\u00e9m depois dele &#8211;\u00a0<i>Conseil G\u00e9n\u00e9rale d\u2019Administration<\/i> &#8211; centraliza e expande a Sa\u00fade P\u00fablica determinando o acesso de todos. Por meio desse \u00f3rg\u00e3o, foi promulgada a \u201cLei das Aut\u00f3psias\u201d (art. 25 do decreto de Marly) que cobrava uma quantia para enterrar pessoas falecidas nos hospitais que a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de pagar. Os corpos ent\u00e3o iam para sala de aut\u00f3psias, permitindo &#8220;material&#8221; praticamente inesgot\u00e1vel de estudo para os m\u00e9dicos \u00e1vidos de conhecimento. Tal situa\u00e7\u00e3o levou muitos m\u00e9dicos de outros pa\u00edses a estagiarem em Paris com objetivo de aprender as t\u00e9cnicas de aut\u00f3psia e tamb\u00e9m a nova Anatomia Patol\u00f3gica [3].<\/p>\n<p>A reviravolta epist\u00eamica ocorrida nos mal-falados e escuros hospitais de Paris no s\u00e9culo XIX repercute at\u00e9 hoje em todo o ed\u00edficio fulgurante da pr\u00e1tica m\u00e9dica contempor\u00e2nea. No novelo complexo dessa reviravolta \u00e9 poss\u00edvel destacar quatro fios-de-meada, quatro &#8220;vertentes fundacionais&#8221; de conceitos <em><strong>formadores (<\/strong><\/em>e tamb\u00e9m <em><strong>deformadores<\/strong><\/em>, como veremos) do pensamento m\u00e9dico atual. Vertentes que, de certa forma, j\u00e1 estavam presentes em dispersos\u00a0antecessores dos franceses e que, transformadas por estes, vieram tornar-se caudalosos rios nos quais os m\u00e9dicos navegam hoje. Se conhecer a nascente de um rio talvez n\u00e3o seja importante para naveg\u00e1-lo, \u00e9 ao menos prudente estudar a geografia de seu leito para que saibamos onde (e como vamos chegar a sua foz). Tentarei mostrar nos pr\u00f3ximos posts de onde v\u00eam e para onde v\u00e3o quatro das principais ideias surgidas na Paris de Balzac e Canguilhem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] de Balzac H, de Carvalho A. A casa Nucingen. Companhia Nacional Editora; 1891.\u00a0<a href=\"http:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k4061697\/f5.image.r=Pierre+Grassou+Balzac.langFR\" rel=\"nofollow\">Fac-s\u00edmile em franc\u00eas<\/a>\u00a0no site da\u00a0<a title=\"Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Biblioteca_Nacional_da_Fran%C3%A7a\">Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a<\/a>. A referida passagem se encontra na p\u00e1gina 13 da obra.<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\">[2]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_tiny.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Hist.+Phil.+Life+Sci.&amp;rft_id=info%3A%2F&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Le+statut+epistemologique+de+Ia+medecine&amp;rft.issn=&amp;rft.date=1988&amp;rft.volume=10&amp;rft.issue=Suppl&amp;rft.spage=15&amp;rft.epage=29&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Canguilhem%2C+Georges&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Medicine%2CPhilosophy%2CHealth%2CMedicine%2C+Medical+Ethics%2C+Epistemology\">Canguilhem, Georges (1988). Le statut epist\u00e9mologique de Ia m\u00e9decine.\u00a0Hist. Phil. Life Sci., 10 (Suppl), 15-29.<\/span><\/p>\n<p>[3] <a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_tiny.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a>\u00a0<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Sociology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F003803857300700204&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+Role+of+the+Hospital+in+the+Development+of+Modern+Medicine%3A+A+Sociological+Analysis&amp;rft.issn=0038-0385&amp;rft.date=1973&amp;rft.volume=7&amp;rft.issue=2&amp;rft.spage=211&amp;rft.epage=224&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fsoc.sagepub.com%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1177%2F003803857300700204&amp;rft.au=Waddington%2C+I.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Medicine%2CSocial+Science%2CHealth%2CMedicine%2C+Medical+Ethics\">Waddington, I. (1973). The Role of the Hospital in the Development of Modern Medicine: A Sociological Analysis <span style=\"font-style: italic\">Sociology, 7<\/span> (2), 211-224 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/003803857300700204\" rev=\"review\">10.1177\/003803857300700204<\/a><\/span><\/p>\n<p>Figuras retiradas do bonito blog <a href=\"http:\/\/dittrick.blogspot.com.br\">Dittrick Museum<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Honor\u00e9 de Balzac &#8211; naquele que viria a ser o terceiro livro da primeira parte dos Estudos do Costume e o d\u00e9cimo-primeiro volume de sua monumental Com\u00e9dia Humana, o romance de nome &#8220;A Casa Nucingen&#8221; &#8211; inicia sua narrativa com uma conversa de quatro jornalistas em um restaurante parisiense. 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