{"id":4172,"date":"2014-09-12T17:08:23","date_gmt":"2014-09-12T20:08:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=4172"},"modified":"2014-09-12T17:08:23","modified_gmt":"2014-09-12T20:08:23","slug":"o-estranhamente-familiar-e-a-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2014\/09\/12\/o-estranhamente-familiar-e-a-doenca\/","title":{"rendered":"O Estranhamente Familiar e a Doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4187\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.silviagiordani.com.br\/en\/?page_id=35\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4187\" class=\"wp-image-4187 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/09\/SGA01639_3site.jpg\" alt=\"SGA01639_3site\" width=\"600\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/09\/SGA01639_3site.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2014\/09\/SGA01639_3site-300x112.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4187\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Silvia Giordani, 2011<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias portas de entrada para a filosofia de Heidegger. Uma delas, que \u00e9 a que me diz respeito, \u00e9 a via do bin\u00f4mio <strong>sa\u00fade-doen\u00e7a<\/strong>. Heidegger, na verdade, nunca escreveu nada sobre sa\u00fade ou doen\u00e7a. Para ele, era muito mais priorit\u00e1ria a rela\u00e7\u00e3o do que ele chamava de ser-no-mundo com a <strong>finitude,\u00a0<\/strong>\u00faltima de nossas possibilidades, e, talvez por essa raz\u00e3o, nunca chegou a relacionar\u00a0isso ao significado existencial de estar doente ou\u00a0sentir cronicamente uma dor. (Talvez, nos Semin\u00e1rios de Zollikon, mesmo assim, de forma ainda indireta).\u00a0Mas, segundo Svenaeus[1], uma an\u00e1lise da sa\u00fade e seu car\u00e1ter enigm\u00e1tico sob a fenomenologia do Heidegger de Ser e Tempo\u00a0poderia abrir caminho para o entendimento do adoecer sob o ponto de vista existencial. Para Svenaeus, ficar doente sob a luz da fenomenologia existencial poderia ser comparado a um &#8220;n\u00e3o-estar-\u00e0-vontade&#8221; com o seu ser-(<em>Da-sein<\/em>, no caso de Heidegger)-no-mundo. Ao deixarmos de nos &#8216;sentir-em-casa\u2019,\u00a0a\u00a0exist\u00eancia humana torna-se pr\u00f3pria ou aut\u00eantica, j\u00e1 que \u00e9 vista tendo como pano de fundo nossa finitude. A doen\u00e7a, ent\u00e3o, traria \u00e0 tona uma sensa\u00e7\u00e3o de abandono e\u00a0<b><i>estranhamento\u00a0<\/i><\/b>(e a palavra que Svenaeus toma\u00a0de Heidegger \u00e9:\u00a0<em><strong>umheimlichkeit\u00a0<\/strong><\/em>). Ficar doente faz parte de nosso ser-no-mundo e tem, por que n\u00e3o?, propriedades cognitivas. Heidegger\u00a0considera toda\u00a0<strong><i>disposi\u00e7\u00e3o<\/i><\/strong>\u00a0do ser-no-mundo uma forma de\u00a0<i>entendimento<\/i>, o que permite interpretar o adoecimento n\u00e3o\u00a0apenas como um sentimento &#8211; muito ruim, no mais das vezes -, mas, ao mesmo tempo, como um modo de\u00a0<strong><i>compreens\u00e3o<\/i><\/strong>\u00a0do\u00a0mundo. Ficar doente, sob esse ponto de vista puramente existencial, significaria experimentar uma constante e intrusiva sensa\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong><i>estranhamento<\/i><\/strong>\u00a0em nosso ser-no-mundo que nos remete a n\u00f3s mesmos, nos arrancando, muitas vezes de forma abrupta e\u00a0violenta, do mundo dos outros (<em>Das Man<\/em>) e constituindo-se, assim, em uma experi\u00eancia de individualiza\u00e7\u00e3o bastante especial.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, Sigmund Freud tem uma an\u00e1lise etimol\u00f3gica deste termo em um ensaio de 1919 (<em>Das Umheimliche<\/em>). Uma das formas de tentarmos apreender o\u00a0significado geral da palavra \u00e9 cotejar\u00a0as tradu\u00e7\u00f5es do t\u00edtulo do ensaio. No italiano, o ensaio de Freud \u00e9 <em>Il Perturbante,\u00a0<\/em>no espanhol \u00e9 <em>Lo Ominoso<\/em>. Em franc\u00eas, foi traduzido pela express\u00e3o <em>L&#8217;Inqui\u00e9tante \u00c9tranget\u00e9<\/em> por Marie Bonaparte e E. Marty em 1933, algo mais adequada. Bernardo Carvalho prop\u00f4s &#8220;O Estranhamente Familiar&#8221;, com o que concordo, mas em portugu\u00eas, o t\u00edtulo foi dado como &#8220;O Estranho&#8221; ou &#8220;O Inquietante (\u201cO Estranho. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1990\u201d e \u201cO Inquietante. Obras completas. Trad. de: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010\u201d). Em ingl\u00eas, a tradu\u00e7\u00e3o de Alix Strachey ficou com <em>The Uncanny<\/em>, que ao optar pela correspond\u00eancia un\u00edvoca entre os idiomas, deixa de lado, assim como todas as outras, com exce\u00e7\u00e3o da francesa e a sugerida por Carvalho, a ambival\u00eancia do termo original em alem\u00e3o. A dial\u00e9tica de seu\u00a0duplo significado em alem\u00e3o &#8211; a saber, tanto o que \u00e9 estranho e assombroso, como aquilo que n\u00e3o \u00e9 familiar, costumeiro -, n\u00e3o poderia deixar de ser utilizada por v\u00e1rios autores quando o objetivo \u00e9 descrever determinada \u201cpane cognitiva\u201d onde uma sensa\u00e7\u00e3o de familiaridade \u00e9 s\u00fabita e assustadoramente substitu\u00edda por um certo estranhamento, um desconhecimento repentino e perturbador daquilo que nos deveria ser <em><strong>habitual<\/strong><\/em>. (Ali\u00e1s, &#8220;h\u00e1bito&#8221; no sentido de <em>hexis<\/em> grega, j\u00e1 \u00e9 em si, um termo\u00a0tomado \u00e0 medicina).<\/p>\n<p>Entender o mecanismo da fenomenologia existencial heideggeriana permite abordar o bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a sob o\u00a0aspecto ontol\u00f3gico o que possibilitaria outras formas de acolhimento, segundo Svenaeus. Eu diria, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/08\/principio_de_consolacao_secula\/\">por que n\u00e3o<\/a>? Se tudo der errado no final, ter\u00e1 sido, ao menos, mais uma aventura intelectual e, no m\u00ednimo, um jeito diferente de ver os pacientes&#8230;<\/p>\n<p>1. Svenaeus, F.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Hermeneutics-Medicine-Phenomenology-Health-International\/dp\/9048156327\">The Hermeneutics of Medicine and the Phenomenology of Health<\/a>: Steps Towards a Philosophy of Medical Practice (International Library of Ethics, Law, and the New Medicine) \u2013 2010.\u00a0ISBN-13: 978-9048156320 ISBN-10: 9048156327.<\/p>\n<p>Clique na foto para ver os cr\u00e9ditos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 v\u00e1rias portas de entrada para a filosofia de Heidegger. Uma delas, que \u00e9 a que me diz respeito, \u00e9 a via do bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a. Heidegger, na verdade, nunca escreveu nada sobre sa\u00fade ou doen\u00e7a. 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