{"id":424,"date":"2009-09-14T20:40:08","date_gmt":"2009-09-14T23:40:08","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/09\/certezas_medicas_iii\/"},"modified":"2009-09-14T20:40:08","modified_gmt":"2009-09-14T23:40:08","slug":"certezas_medicas_iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/09\/14\/certezas_medicas_iii\/","title":{"rendered":"Certezas M\u00e9dicas III"},"content":{"rendered":"<p>De onde v\u00eam, do que s\u00e3o constitu\u00eddas e como se mant\u00e9m as certezas m\u00e9dicas? No \u00faltimo <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/08\/certezas_medicas_ii.php\">post<\/a>, discut\u00edamos que nem mesmo a medicina baseada em evid\u00eancias &#8211; o paradigma positivista da racionalidade ocidental aplicado ao pensamento m\u00e9dico &#8211; tem, muitas vezes, o poder de mudar certas condutas m\u00e9dicas. O exemplo escolhido n\u00e3o foi gratuito.<\/p>\n<p>O <em><strong>uchedo<\/strong><\/em> ou <em><strong>whdw\u00a0<\/strong><\/em><em><\/em>foi o primeiro conceito fisiopatol\u00f3gico a dar resultados do ponto de vista terap\u00eautico. Segundo Robert Steuer [1], ele marca a passagem que a medicina eg\u00edpcia antiga fez dos conceitos m\u00e1gico-religiosos a uma pr\u00e1tica emp\u00edrico-racional. Sua interpreta\u00e7\u00e3o passou por doen\u00e7as como a lepra, var\u00edola, s\u00edfilis ou como sintoma de dor ou inflama\u00e7\u00e3o. Hoje, se aceita que o <em><strong>whdw <\/strong><\/em>significava um princ\u00edpio etiol\u00f3gico b\u00e1sico aderido \u00e0s mat\u00e9ria fecais dos intestinos. Quando o <em><strong>whdw <\/strong><\/em>\u00e9 absorvido e passa para o sangue, o coagula e destr\u00f3i, produzindo abscessos e outras formas de supura\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a putrefa\u00e7\u00e3o generalizada do organismo que hoje, mais de 4000 anos ap\u00f3s, chamamos de <em><strong>sepse<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/prophetess.lstc.edu\/%7Erklein\/Doc5\/anubis.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"cursor: -moz-zoom-in;float: right;margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-left: 10px\" src=\"http:\/\/prophetess.lstc.edu\/%7Erklein\/Doc5\/anubis_files\/anubis4.jpg\" alt=\"http:\/\/prophetess.lstc.edu\/~rklein\/Doc5\/anubis_files\/anubis4.jpg\" width=\"227\" height=\"231\" \/><\/a>A hip\u00f3tese do <em><strong>whdw<\/strong><\/em> derivou de ideias religiosas e da experi\u00eancia com a mumifica\u00e7\u00e3o [2]. Durante a vida do indiv\u00edduo, o m\u00e9dico era o respons\u00e1vel por evitar os efeitos nocivos do <em><strong>whdw<\/strong><\/em> por meio de medidas terap\u00eauticas. Acreditava-se que o envelhecimento era decorrente da a\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica do <em><strong>whdw<\/strong><\/em>. Por isso, eram prescritos enemas e enteroclismas para os mais diversos males. Her\u00f3doto escreveu que os eg\u00edpcios purgavam-se por 3 dias consecutivos no m\u00eas e Diodorus Siculus que o faziam em intervalos de 3 a 4 dias. An\u00fabis (na figura ao lado) era o deus eg\u00edpcio do embalsamamento e patrono dos embalsamadores al\u00e9m de, n\u00e3o por coincid\u00eancia, ter poderes m\u00e9dicos. Acredita-se que toda a teoria do <em><strong>whdw <\/strong><\/em>seja proveniente da dificuldades do embalsamamento. Os intestinos, principalmente os c\u00f3lons, cheios de fezes, eram fonte muito importante de bact\u00e9rias com capacidade de putrefa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se conseguia um embalsamamento perene se n\u00e3o se controlasse essa vari\u00e1vel. Da\u00ed a correlacionar a presen\u00e7a de fezes com doen\u00e7as no vivo parece ter sido um passo \u00f3bvio. O conceito de <em><strong>whdw<\/strong><\/em> se transformou na medicina grega antiga no de <a href=\"http:\/\/www.4shared.com\/file\/132618207\/69e30116\/Perittoma_whdw.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><em>perittoma<\/em><\/strong><\/a><em><strong>. <\/strong><\/em>O conceito de <em><strong>perittoma<\/strong><\/em> acabou n\u00e3o constando explicitamente no <em>Corpus Hyppocraticum<\/em>, mas l\u00e1 h\u00e1 refer\u00eancias indiretas a ele o que nos permite imaginar que tamb\u00e9m eram utilizadas lavagens intestinais com fins terap\u00eauticos na Gr\u00e9cia Antiga.<\/p>\n<p>A tal ponto que esse tipo de procedimento passou \u00e0 era moderna. Por muitos anos, as lavagens intestinais e os enemas constitu\u00edram, juntamente com as sangrias e as ventosas, os \u00fanicos tratamentos poss\u00edveis para uma s\u00e9rie de mol\u00e9stias humanas. As pe\u00e7as de Moli\u00e9re &#8211; em especial &#8220;O Doente Imagin\u00e1rio&#8221; &#8211; s\u00e3o pr\u00f3digas em exemplos e em cr\u00edticas \u00e0 medicina praticada na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Retornando ent\u00e3o ao nosso assunto inicial. Como mudar da &#8220;noite para o dia&#8221; um conceito que tem mais de 4000 anos de idade? Quando digo que a medicina \u00e9 mais velha que a ci\u00eancia \u00e9 sobre isso que estou falando. O bom-senso, que todo ser humano alega ter, \u00e9 composto pela palavra &#8220;senso&#8221; que pode ser entendida como um &#8220;ju\u00edzo&#8221;, uma opini\u00e3o sobre algo. Quando adicionamos a palavra &#8220;bom&#8221; estamos atribuindo um valor a esse ju\u00edzo ou opini\u00e3o. Quando digo que fa\u00e7o medicina baseada no bom-senso, estou expondo a quem quer que esteja me ouvindo os meus ju\u00edzos e valores sobre minha atividade profissional, obviamente acompanhados de meus preconceitos, traumas, inten\u00e7\u00f5es e outras tantas facetas da &#8220;pessoa do meu ser&#8221; (como diria uma amiga), boas ou ruins, agrad\u00e1veis ou n\u00e3o. O mesmo ocorre com as &#8220;boas inten\u00e7\u00f5es&#8221;!<\/p>\n<p>Ser m\u00e9dico \u00e9 isso. \u00c9 lidar com uma profiss\u00e3o que tem uma hist\u00f3ria de mais de 4000 anos, que foi abalroada pela ci\u00eancia positivista do s\u00e9culo XVII e XVIII, se recriou com muita dificuldade ap\u00f3s isso e que, recentemente, sofreu um novo impacto, talvez de magnitude semelhante, com o advento da revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. As certezas m\u00e9dicas continuam a existir e, porque n\u00e3o dizer, a sobreviver a todas essas revolu\u00e7\u00f5es. M\u00e9dicos n\u00e3o podem se dar ao luxo de praticar um ceticismo radical, porque ele pode ser paralisante. N\u00e3o podem se dar ao luxo de acreditar em qualquer medida, porque elas podem ser enganosas. Enquanto isso, lavagens intestinais ser\u00e3o prescritas com a melhor das boas inten\u00e7\u00f5es guiadas pelo bom-senso.<\/p>\n<p>[1] Robert O. Steuer &amp; J.B. Saunders. <em>Ancient Egyptian &amp; Cnidian Medicine. The Relantionship of Their Aetiological Concepts of Disease<\/em>. Berkeley and Los Angeles. 1959. 104pp.<br \/>\nAtualiza\u00e7\u00e3o<br \/>\n[2] Ruy Per\u00e9z Tamayo. <em>El concepto de Enfermedad. Su evoluci\u00f3n a trav\u00e9s de la hist\u00f3ria<\/em>. Consejo Nacional de Ciencia y Tecnolog\u00eda. Ciudad del Mexico. 1988.<\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=bd692756-a047-8f0b-be3d-d4251f32314f\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde v\u00eam, do que s\u00e3o constitu\u00eddas e como se mant\u00e9m as certezas m\u00e9dicas? No \u00faltimo post, discut\u00edamos que nem mesmo a medicina baseada em evid\u00eancias &#8211; o paradigma positivista da racionalidade ocidental aplicado ao pensamento m\u00e9dico &#8211; tem, muitas vezes, o poder de mudar certas condutas m\u00e9dicas. O exemplo escolhido n\u00e3o foi gratuito. 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