{"id":430,"date":"2009-10-02T19:48:32","date_gmt":"2009-10-02T22:48:32","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/10\/os_cinco_sentidos\/"},"modified":"2009-10-02T19:48:32","modified_gmt":"2009-10-02T22:48:32","slug":"os_cinco_sentidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/10\/02\/os_cinco_sentidos\/","title":{"rendered":"O Sexto Sentido?"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, nos prim\u00f3rdios da civiliza\u00e7\u00e3o humana, o homem s\u00f3 tinha seus cinco sentidos para entender o mundo e tentar fazer previs\u00f5es sobre ele. Ele tinha certeza de que seus sentidos o guiariam de forma confi\u00e1vel o que quer que ele se propusesse a fazer. Com os anos, vieram alguns refinamentos e o homem viu que existiam coisas que ele n\u00e3o conseguia &#8220;sentir&#8221; com seus sentidos. Ele aprimorou ferramentas, p\u00f4de ver mais longe e mais perto. P\u00f4de entrar em ambientes que jamais imaginou e testar, sentir, ouvir coisas que nunca pensou pudessem ser experimentadas antes. Ampliou seus horizontes e seu controle sobre as coisas.<\/p>\n<p>Mas existiam coisas que o homem n\u00e3o podia sentir ou captar mesmo atrav\u00e9s de seus sentidos &#8220;aprimorados&#8221;. Um ind\u00edcio disso, era a ci\u00eancia de contar e de pensar espa\u00e7os: a matem\u00e1tica. A matem\u00e1tica era uma ci\u00eancia que,  ao mesmo tempo, incomodava e fascinava o homem. Seus &#8220;objetos&#8221; eram virtuais. S\u00f3 existiam na cabe\u00e7a dos homens. Foi considerada filosofia, seita, quase-religi\u00e3o. At\u00e9 que se descobriu algumas utilidades interessantes para ela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"float: left;margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-right: 10px\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/moz-screenshot-23.jpg\" alt=\"\" \/>Uma das muitas utilidades da matem\u00e1tica que nos importar\u00e1 aqui, \u00e9 o fato de que ela \u00e9 a \u00fanica ferramenta capaz de nos habilitar a lidar com os tais objetos virtuais. Quando quisemos saber se a popula\u00e7\u00e3o de uma tribo era mais alta que a de outra, tivemos que medir alturas. Dada a impossibilidade de parear membro a membro de cada tribo em embates 1:1 e contar os vencedores (experi\u00eancia j\u00e1 realizada, muitas vezes com resultados catastr\u00f3ficos), era melhor medir todos e depois compar\u00e1-los. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1! O homem sabia comparar pesos de cargas, tamanhos de tecido, n\u00fameros de cabe\u00e7as de gado, mas como comparar a altura de uma tribo com outra. O resultado s\u00e3o fileiras de n\u00fameros. Nenhum dos sentidos do homem servia para validar esse tipo de compara\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a matem\u00e1tica forneceria uma ferramenta capaz de viabilizar essa experi\u00eancia. Surgiu ent\u00e3o, a Estat\u00edstica.<\/p>\n<p>A estat\u00edstica tem v\u00e1rias <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Statistics\" rel=\"noopener noreferrer\">defini\u00e7\u00f5es<\/a>, mas a que eu achei mais elucidativa \u00e9: &#8220;\u00e9 o estudo da distribui\u00e7\u00e3o de dados&#8221;. O dado, no nosso exemplo, \u00e9 a altura de um membro da tribo. Por meio de ferramentas estat\u00edsticas, posso comparar a distribui\u00e7\u00e3o da altura de cada tribo e dizer qual tribo \u00e9 a mais alta. Fant\u00e1stico, n\u00e3o! A estat\u00edstica \u00e9 uma ci\u00eancia bem nova. Alguns dir\u00e3o, &#8220;n\u00e3o, j\u00e1 existiam ferramentas matem\u00e1ticas utilizadas pelos estat\u00edsticos no s\u00e9culo XVII&#8221;. Ferramentas, eu diria. N\u00e3o, uma filosofia de trabalho. A estat\u00edstica surgiu na virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, com os trabalhos Karl Pearson (desenho ao lado) e Ronald Fisher. O primeiro em especial, deu o grande salto. Foi Karl Pearson quem entendeu que o objeto dessas medidas era &#8220;virtual&#8221;. O segundo, fundou a estat\u00edstica de fato.<\/p>\n<p>A estat\u00edstica \u00e9 hoje, o grande mecanismo gerador de certeza de um m\u00e9dico.Muitos de nossos objetos s\u00e3o totalmente impalp\u00e1veis: tamanhos de tumores, sobrevidas, efeitos de medica\u00e7\u00f5es em popula\u00e7\u00f5es e por a\u00ed vamos. Entretanto, essa virtualiza\u00e7\u00e3o do objeto a ser apreendido causa um grande <b>mal-estar<\/b> no m\u00e9dico. M\u00e9dicos em geral, e cirurgi\u00f5es em particular, gostam de tocar, ver e sentir, a doen\u00e7a. Dizer que a distribui\u00e7\u00e3o da press\u00e3o arterial \u00e9 assim ou assado, \u00e9 algo dif\u00edcil de interiorizar. Acreditamos com nosso lado cientista, desconfiamos com nosso lado curandeiro. Por isso, h\u00e1 um embate eterno entre o que um m\u00e9dico <b>viu<\/b> e o que esse mesmo m\u00e9dico <b>leu <\/b>ou<b> ouviu<\/b>. Estat\u00edstica vs cinco sentidos! Seria ela, um sexto sentido?<\/p>\n<p>Enquanto os m\u00e9dicos estiverem ainda presos \u00e0 natureza humana, esse embate perdurar\u00e1. Aos pacientes, resta torcer para que o m\u00e9dico consiga com seus meros cinco sentidos, coletar seus dados, traduz\u00ed-los em formato digital virtualizando seu &#8220;objeto&#8221;, de modo a poder compar\u00e1-lo com distribui\u00e7\u00f5es de outros m\u00e9dicos ou com a sua pr\u00f3pria, sem for\u00e7ar um encaixe em qualquer uma delas, e chegar a uma conclus\u00e3o estatisticamente v\u00e1lida que dever\u00e1 ser retraduzida aos pacientes, na forma de diagn\u00f3stico e explica\u00e7\u00f5es, com aten\u00e7\u00e3o, simpatia e, desejavelmente, carinho. O racioc\u00ednio para o tratamento segue na mesma linha. Grande torcida. Esperamos n\u00e3o desapont\u00e1-los.<\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=dc530bf1-1f99-89f3-ae42-77a1cc97a765\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, nos prim\u00f3rdios da civiliza\u00e7\u00e3o humana, o homem s\u00f3 tinha seus cinco sentidos para entender o mundo e tentar fazer previs\u00f5es sobre ele. Ele tinha certeza de que seus sentidos o guiariam de forma confi\u00e1vel o que quer que ele se propusesse a fazer. 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