{"id":432,"date":"2009-10-06T06:46:40","date_gmt":"2009-10-06T09:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/10\/romances_e_pacientes\/"},"modified":"2009-10-06T06:46:40","modified_gmt":"2009-10-06T09:46:40","slug":"romances_e_pacientes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2009\/10\/06\/romances_e_pacientes\/","title":{"rendered":"Romances e Pacientes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/l.yimg.com\/g\/images\/spaceball.gif\" \/><br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-left aligncenter\" alt=\"books.jpg\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/books.jpg\" width=\"410\" height=\"576\" \/><\/span><\/p>\n<p>Em <a href=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-37\/questoes-literarias\/em-defesa-do-romance\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo<\/a> interessant\u00edssimo na Piau\u00ed desse m\u00eas, M\u00e1rio Vargas Llosa sai &#8220;Em defesa do romance&#8221;. Explica que n\u00e3o apenas nossa linguagem, mas tamb\u00e9m nossa imagina\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio s\u00e3o feitos de palavras. Em determinada passagem, afirma: <i>&#8220;Os conhecimentos que nos transmitem os manuais cient\u00edficos e os tratados t\u00e9cnicos s\u00e3o fundamentais; mas eles n\u00e3o nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contr\u00e1rio, ami\u00fade s\u00e3o mal escritos e revelam certa confus\u00e3o lingu\u00edstica porque os autores, \u00e0s vezes emin\u00eancias indiscut\u00edveis em sua profiss\u00e3o, s\u00e3o literariamente incultos e n\u00e3o sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que s\u00e3o detentores.&#8221;<\/i> Isso para dizer que o romance \u00e9 a \u00fanica pe\u00e7a cultural que pode, mais que qualquer gram\u00e1tica, mais que a TV ou a internet, ensinar o uso preciso de palavras conhecidas e nos apresentar novas. Eu acrescentaria, n\u00e3o s\u00f3 palavras mas tamb\u00e9m conceitos. Rorty concordaria. Para ele, a filosofia contempor\u00e2nea deve explicar os romances. A tessitura do real \u00e9 caricaturada nos romances. Os romances s\u00e3o como ensaios cl\u00ednicos randomizados duplo-cegos, placebo controlados do mundo da vida. Os &#8220;pacientes&#8221; reais n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1, mas como nos ensinam!<\/p>\n<p>Li o longo artigo e me deparei com a seguinte frase: <i>&#8220;A ci\u00eancia e a t\u00e9cnica n\u00e3o podem mais cumprir aquela fun\u00e7\u00e3o cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolu\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o e ao uso de vocabul\u00e1rios herm\u00e9ticos.&#8221; <\/i>O vocabul\u00e1rio espec\u00edfico nos isola numa armadilha solipsista. Quanto mais somos espec\u00edficos, mais nos tornamos incapazes de avan\u00e7ar em outras arenas. Tive ent\u00e3o, a certeza de que Vargas Llosa falava dos m\u00e9dicos. Se a dificuldade em se comunicar com um leigo \u00e9 aceit\u00e1vel para qualquer profissional que utiliza conhecimentos cient\u00edficos, no caso dos m\u00e9dicos, esse \u00e9 o tipo de defici\u00eancia catastr\u00f3fica. Sem essa habilidade, o m\u00e9dico n\u00e3o conseguir\u00e1 persuadir o paciente de que seu tratamento \u00e9 importante, n\u00e3o conseguir\u00e1 ader\u00eancia ao que for prescrito, nem a confian\u00e7a do paciente, caso algo n\u00e3o corra bem.<\/p>\n<p>Somente a literatura, conclui Vargas Llosa, conserva esse denominador comum \u00e0 humanidade de todos n\u00f3s. Sempre aprendi que os escritores descrevem as <b>doen\u00e7as<\/b> melhor que os m\u00e9dicos. Me parece \u00f3bvio agora que isso \u00e9 incorreto. Eles descrevem melhor os <b>pacientes<\/b>, e s\u00f3 o fazem porque os apoiam nessa base afetivo-s\u00f3cio-patol\u00f3gico-cultural a que chamamos vulgarmente de vida. Esta \u00faltima, parece n\u00e3o morar nos livros de medicina, \u00e9 preciso\u00a0incomod\u00e1-la em outro lugar&#8230;<img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=844ae6f6-88ac-8e12-94ff-dd416c5edc46\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo interessant\u00edssimo na Piau\u00ed desse m\u00eas, M\u00e1rio Vargas Llosa sai &#8220;Em defesa do romance&#8221;. Explica que n\u00e3o apenas nossa linguagem, mas tamb\u00e9m nossa imagina\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio s\u00e3o feitos de palavras. 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