{"id":456,"date":"2010-01-21T18:20:28","date_gmt":"2010-01-21T21:20:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/01\/o_esteto_e_o_esteta\/"},"modified":"2010-01-21T18:20:28","modified_gmt":"2010-01-21T21:20:28","slug":"o_esteto_e_o_esteta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2010\/01\/21\/o_esteto_e_o_esteta\/","title":{"rendered":"O Esteto e o Esteta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.francomurer.com\/tecnica2005\/Amanti.BIG.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-left alignleft\" style=\"margin: 0pt 20px 20px 0pt\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/Amanti.jpg\" alt=\"Amanti.jpg\" width=\"277\" height=\"339\" \/><\/a><\/p>\n<p>Conversa de m\u00e9dico \u00e9 sempre muito chata. Onde h\u00e1 uma &#8220;rodinha&#8221; de m\u00e9dicos conversando \u00e9 muito dif\u00edcil um n\u00e3o-m\u00e9dico ficar muito tempo ouvindo ou participando, seja porque n\u00e3o entende absolutamente nada do que est\u00e1 sendo discutido, seja porque alguns dos ju\u00edzos emitidos s\u00e3o, para dizer o menos, fora do padr\u00e3o ao qual est\u00e3o habituados. Falar sobre a morte e o morrer, sobre secre\u00e7\u00f5es e v\u00edsceras, n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito agrad\u00e1vel. Mas, uma das coisas que mais choca os n\u00e3o-m\u00e9dicos \u00e9 nosso conceito de &#8220;beleza&#8221;.<\/p>\n<p>Dizer que uma les\u00e3o \u00e9 &#8220;linda&#8221; ou que uma cirurgia foi &#8220;maravilhosa&#8221; \u00e9 quase um pecado! Certa vez, levei uma bronca de uma professora: &#8220;Meu conceito de beleza \u00e9 outro&#8221; &#8211; disse ela. &#8220;N\u00e3o diga que a morte ou a doen\u00e7a s\u00e3o belos. Diga que s\u00e3o, no m\u00e1ximo, interessantes.&#8221; Fiquei pensando muito tempo naquilo. Esse racioc\u00ednio me pareceu bastante coerente e em concord\u00e2ncia com o sofrimento dos pacientes, mas &#8220;desceu torto&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 um prazer m\u00f3rbido, um gosto pelo sofrimento. Mas h\u00e1, sim, uma admira\u00e7\u00e3o por uma entidade, um conceito que se autoexplica, um padr\u00e3o que se confirma.<\/p>\n<p>&#8220;Aquele paciente tem um sopro a\u00f3rtico muito bonito&#8221;. O que isso quer dizer? Que \u00e9 um sopro protot\u00edpico. O reconhecimento de uma entidade real com todas as nuances que lhe foram atribu\u00eddas por autores e\/ou professores em textos e aulas te\u00f3ricas \u00e9 um prazer sensorial que, se n\u00e3o \u00e9 exatamente o que se chama de prazer est\u00e9tico, em muito se aproxima dele. Uma cirurgia de reconstru\u00e7\u00e3o por mais cruenta e exposta pode &#8211; por que n\u00e3o? &#8211; ser considerada uma obra de arte.<\/p>\n<p>Na \u00faltima Piau\u00ed, h\u00e1 uma <a href=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-40\/vultos-das-ciencias\/artur-tem-um-problema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mat\u00e9ria muito interessante<\/a>\u00a0sobre um matem\u00e1tico brasileiro cujo t\u00edtulo \u00e9: &#8220;Artur tem um problema&#8221; de Jo\u00e3o Moreira Salles. Ao falar do modo como os matem\u00e1ticos &#8220;descobrem&#8221; seus objetos virtual\u00edssimos, o autor escreve:<\/p>\n<p><i>&#8220;A beleza seria essa intui\u00e7\u00e3o de uma totalidade. Esse sentimento est\u00e9tico \u00e9 a peneira que separa o joio do trigo. Por ela s\u00f3 passam os objetos que, por belos, anunciam: <\/i>Existo<i>. &#8220;<\/i>Passamos a vida pensando em objetos lindos<i>&#8220;, diz Yoccoz, com um sorriso de felicidade. &#8220;O prazer est\u00e9tico \u00e9 compar\u00e1vel ao da m\u00fasica.&#8221; Grandes matem\u00e1ticos s\u00e3o estetas, e a beleza ser\u00e1, para todos eles, uma das mais poderosas ferramentas da descoberta. Pelo entusiasmo com que falam do que lhes passa pela cabe\u00e7a, \u00e9 como se existisse m\u00fasica e n\u00f3s, os n\u00e3o-matem\u00e1ticos, f\u00f4ssemos todos surdos.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Fico pensando se grandes m\u00e9dicos n\u00e3o seriam tamb\u00e9m estetas. A beleza como ferramenta de conhecimento. Ali\u00e1s, a mim me parece que todo profissional que faz o que gosta poderia ser um esteta. Quem faz o que gosta busca a excel\u00eancia por um prazer est\u00e9tico: tornar o que faz mais bonito, \u00e9 sentir-se melhor.<\/p>\n<p>Gravura: <a href=\"http:\/\/www.francomurer.com\/\">Franco Murer<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conversa de m\u00e9dico \u00e9 sempre muito chata. Onde h\u00e1 uma &#8220;rodinha&#8221; de m\u00e9dicos conversando \u00e9 muito dif\u00edcil um n\u00e3o-m\u00e9dico ficar muito tempo ouvindo ou participando, seja porque n\u00e3o entende absolutamente nada do que est\u00e1 sendo discutido, seja porque alguns dos ju\u00edzos emitidos s\u00e3o, para dizer o menos, fora do padr\u00e3o ao qual est\u00e3o habituados. 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