{"id":490,"date":"2010-06-22T22:26:48","date_gmt":"2010-06-23T01:26:48","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/06\/rosset_acaso_e_a_tragedia_do_s\/"},"modified":"2010-06-22T22:26:48","modified_gmt":"2010-06-23T01:26:48","slug":"rosset_acaso_e_a_tragedia_do_s","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2010\/06\/22\/rosset_acaso_e_a_tragedia_do_s\/","title":{"rendered":"Rosset, Acaso e a Trag\u00e9dia do Ser"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"float: left;margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-right: 10px\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/moz-screenshot.png\" alt=\"\" height=\"247\" width=\"221\" \/>De vez em quando ouvimos algu\u00e9m dizer: &#8220;No meu tempo, isso n\u00e3o era assim! O mundo est\u00e1 perdido&#8230;&#8221; e coisas semelhantes. Esse saudosismo, uma sensa\u00e7\u00e3o de que as coisas v\u00eam piorando progressivamente, \u00e9 um sentimento que nos acomete volta-e-meia. Alguns dizem que \u00e9 a &#8220;idade&#8221; que nos deixa assim. Outros, que somos <i><b>pessimistas<\/b><\/i> (o que n\u00e3o \u00e9 totalmente correto, como vou mostrar). Mas, o que estaria por tr\u00e1s disso? Assumindo como &#8220;moderno&#8221; aquilo que est\u00e1 <i><b>presente<\/b><\/i> em nosso cotidiano, o que subjaz a essa nossa cr\u00edtica \u00e0 modernidade? A pergunta poderia tamb\u00e9m ser: &#8220;Por que o presente nos causa, muitas vezes, essa sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 uma degenera\u00e7\u00e3o de algo que t\u00ednhamos em t\u00e3o alta conta?&#8221; Seja a polui\u00e7\u00e3o do planeta (a natureza), seja as rela\u00e7\u00f5es humanas (a sociedade), seja jogar futebol por amor \u00e0 camisa (a moral), exemplos cotidianos desse sentimento.<\/p>\n<p>A facticidade do <i><b>presente<\/b><\/i> \u00e9 poderosa. Chega a ser aterrorizante. N\u00e3o \u00e9 uma mem\u00f3ria constru\u00edda de sentimentos do <i><b>passado<\/b><\/i>, filtrada para que eu consiga sobreviver. N\u00e3o \u00e9 uma esperan\u00e7a do <i><b>futuro<\/b><\/i> projetada para que eu n\u00e3o pere\u00e7a. (E aqui sim, se essa proje\u00e7\u00e3o for negativa, serei pessimista; no caso contr\u00e1rio, tendo uma vis\u00e3o positiva do futuro, serei otimista.) A facticidade do presente \u00e9 palp\u00e1vel e nossa maior fonte de certezas. Por que insistimos, ao analisar determinadas situa\u00e7\u00f5es, em deneg\u00e1-la? Em descaracteriz\u00e1-la e desvaloriz\u00e1-la julgando uma hipot\u00e9tica situa\u00e7\u00e3o passada mais adequada ou melhor do que a atual?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 que assumir o presente \u00e9 problem\u00e1tico e perigoso. O presente e sua produ\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel de fatos, a que chamamos inocentemente de realidade, nos levam para bem longe de nosso mundinho ideologizado no qual queremos e precisamos acreditar, seja esse mundo objeto de uma raz\u00e3o instrumental que utilizo para prever fen\u00f4menos e criar tecnologia; seja um &#8220;outro&#8221; mundo que conhecerei depois de morrer; seja qualquer tipo de mundo constru\u00eddo de forma a dar abrigo e aconchego para um tal <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Heidegger\" rel=\"noopener noreferrer\">ser-para-a-morte<\/a>. E aqui preciso exercitar meu <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/12\/sobre_fatos.php\">desprezo pela palavra <i><b>fato<\/b><\/i><\/a>, t\u00e3o cara a cientistas e seres humanos em geral, utilizada para &#8220;bombar&#8221; argumentos e &#8220;vencer&#8221; discuss\u00f5es. Da palavra latina <i><b>factum<\/b><\/i> resultam dois sentidos: o que existe (o facto real, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ilus\u00e3o e ao sonho) e o que \u00e9 fabricado (de onde vem f\u00e1brica e <i>factory<\/i>, o artificial, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza).<\/p>\n<p>O paradoxo do presente est\u00e1 ent\u00e3o, em nos afogar com fatos que se por um lado, nos d\u00e3o uma dimens\u00e3o do real, por outro, s\u00e3o <i><b>instant\u00e2neos<\/b><\/i> e <i><b>artificiais<\/b><\/i>. Instant\u00e2neos, porque o que se apresenta \u00e9 a profus\u00e3o de sucess\u00f5es. Artificiais, porque s\u00e3o anti-naturais, desligados de uma ess\u00eancia passada e futura. Isso \u00e9 o que alguns chamam de <i><b>devir<\/b><\/i>. Seria preciso, para sobreviver a esses tsunamis um tipo de boia? Algo em que se possa agarrar, de prefer\u00eancia, algum tipo de terra firme, mesmo que seja uma miragem?<\/p>\n<p>Reconhecer o presente \u00e9 aceitar a instantaneidade e a artificialidade do fato. Em outras palavras, \u00e9 afirmar o <i><b>acaso<\/b><\/i>. O acaso nos \u00e9 por isso, impens\u00e1vel; e humilhante. \u00c9 dessa postura frente ao acaso que deveria surgir nossa felicidade. Mas que fique claro que essa f\u00f3rmula \u00e9 diferente da moral\/religiosa: &#8220;sede primeiro humildes, e vereis em seguida a felicidade&#8221;. A f\u00f3rmula jubilat\u00f3ria \u00e9: &#8220;sede primeiro feliz, e sereis necessariamente humildes&#8221;. Segundo Clement Rosset, &#8220;a segunda f\u00f3rmula \u00e9 mais segura que a primeira, pois a alegria garante a humildade, enquanto a humildade n\u00e3o garante a alegria.&#8221; A mais profunda sabedoria n\u00e3o recomenda ser primeiro humilde, mas feliz: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Amor_fati\" rel=\"noopener noreferrer\"><i><b>Amor Fati<\/b><\/i><\/a>.<\/p>\n<p><i><b><br \/>Refer\u00eancia<\/b><\/i><\/p>\n<p><b>Cl\u00e9ment Rosset<\/b>. A Anti-Natureza. Elementos para uma Filosofia Tr\u00e1gica. Rio de Janeiro: Espa\u00e7o e Tempo, 1989. Tradu\u00e7\u00e3o Get\u00falio Puell.P\u00e1ginas 298-301.<\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=912ecbea-640f-8d38-887c-cc7852d78607\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De vez em quando ouvimos algu\u00e9m dizer: &#8220;No meu tempo, isso n\u00e3o era assim! O mundo est\u00e1 perdido&#8230;&#8221; e coisas semelhantes. Esse saudosismo, uma sensa\u00e7\u00e3o de que as coisas v\u00eam piorando progressivamente, \u00e9 um sentimento que nos acomete volta-e-meia. Alguns dizem que \u00e9 a &#8220;idade&#8221; que nos deixa assim. 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