{"id":505,"date":"2010-09-28T19:21:30","date_gmt":"2010-09-28T22:21:30","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/09\/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian\/"},"modified":"2010-09-28T19:21:30","modified_gmt":"2010-09-28T22:21:30","slug":"livro_a_ilusao_da_alma_de_gian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2010\/09\/28\/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian\/","title":{"rendered":"Livro &#8220;A Ilus\u00e3o da Alma&#8221; de Giannetti"},"content":{"rendered":"<p>Ganhei de presente o livro, com dedicat\u00f3ria e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. Alguma coisa a\u00ed vai&#8230;<\/p>\n<div align=\"center\">I<\/p>\n<div align=\"left\">\u00c9 uma novela autobiogr\u00e1fica. Ou um ensaio ficcional. Ou como disse Fernando Meirelles, um <i>thriller<\/i> ensa\u00edstico (voltarei a isso mais tarde). Conta a hist\u00f3ria de um professor de literatura especializado em Machado de Assis que se v\u00ea \u00e0s voltas com um tumor cerebral bastante peculiar. Dividido em tr\u00eas partes espec\u00edficas, 1. O tumor f\u00edsico; 2. <i>Libido Sciendi<\/i> e 3. O tumor metaf\u00edsico, narra como o aparecimento de um tumor no lobo temporal do protagonista transmuda sua vis\u00e3o de mundo. Mais, como esta vis\u00e3o fica ref\u00e9m de um tipo espec\u00edfico de filosofia chamado <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Physicalism\" rel=\"noopener noreferrer\"><b><i>fisicalismo<\/i><\/b><\/a> (mais, logo abaixo). Sim, \u00e9 um livro sobre <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_da_mente\" rel=\"noopener noreferrer\">filosofia da mente<\/a> e isso \u00e9 bom e ruim.<\/p>\n<div align=\"center\">II<\/p>\n<div align=\"left\"><b>O tumor f\u00edsico<\/b>. Achei o come\u00e7o do livro interessante. Uma mistura de neurofisiologia com Machado me pareceu promissora. Apesar do narrador-protagonista dar bastante velocidade \u00e0 prosa, a narrativa fica um pouco aborrecida. Met\u00e1foras um pouco for\u00e7adas (&#8220;riso de hienas num funeral&#8221;, altern\u00e2ncia de explica\u00e7\u00f5es complexas (funcionamento do corpo caloso) com outras bastante batidas e clich\u00eas (dissec\u00e7\u00e3o da palavra melancolia, uma men\u00e7\u00e3o de que Arist\u00f3teles achava que o c\u00e9rebro serviria para &#8220;esfriar&#8221; o sangue proveniente do cora\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o seriam os pulm\u00f5es?) e o excesso de cita\u00e7\u00f5es, algumas um pouco fora de contexto (n\u00e3o nos deixando jamais esquecer que Giannetti lan\u00e7ou <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=12365\" rel=\"noopener noreferrer\">um livro s\u00f3 delas h\u00e1 2 anos<\/a>), fizeram a leitura um pouco laboriosa.<\/p>\n<div align=\"center\">III<\/p>\n<div align=\"left\"><i><b><br \/><\/b><\/i><i><b>Libido Sciendi<\/b><\/i>. Aqui o livro entra de cara no problema mente-c\u00e9rebro e Giannetti se mostra um grande did\u00e1tico e autodidata. Coloca alguns problemas que j\u00e1 abordamos aqui, como nesta passagem: <\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;(&#8230;) n\u00e3o \u00e9 coisa f\u00e1cil para o ser humano apreender impessoalmente a si pr\u00f3prio e \u00e0 maneira como v\u00ea o mundo; percebi que fazer isso exigia uma postura distinta daquela a que estamos habituados na vida comum. Precisava de algum modo me afastar e recuar de mim mesmo, alcan\u00e7ar um grau de distanciamento que me permitisse <\/i><b>olhar-me de fora<\/b><i>, o mais friamente poss\u00edvel, com o mesmo esp\u00edrito com que um bot\u00e2nico coleta e examina variedades de orqu\u00eddeas ou um music\u00f3logo analisa a partitura de uma sonata.&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/12\/schopenhauer_rogozov_e_apendic.php\" rel=\"noopener noreferrer\">Rogozov<\/a>. De importante, no cap\u00edtulo 17 a men\u00e7\u00e3o do riqu\u00edssimo conto machadiano &#8220;<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cce.ufsc.br\/%7Enupill\/literatura\/espelho.html\" rel=\"noopener noreferrer\">O Espelho<\/a>&#8221; (ver uma boa an\u00e1lise <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.passeiweb.com\/na_ponta_lingua\/livros\/resumos_comentarios\/o\/o_espelho_conto_machado\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>) e a &#8220;teoria das duas almas&#8221; que ser\u00e1 usada ao longo de todo o livro. No cap\u00edtulo 19, o confrontamento anunciado na &#8220;orelha&#8221; do livro e no seu dorso: Dem\u00f3crito vs S\u00f3crates. A partir do <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.scribd.com\/doc\/6986625\/Platao-FEDON-a-Imortalidade-Da-Alma\" rel=\"noopener noreferrer\">F\u00e9don de Plat\u00e3o<\/a> e da narrativa da morte de S\u00f3crates, o narrador-personagem coloca a decis\u00e3o deste em n\u00e3o fugir e submeter-se \u00e0s leis de Atenas como um conflito arquet\u00edpico entre o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Physicalism\" rel=\"noopener noreferrer\"><i>fisicalismo<\/i><\/a> e o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mentalism_%28philosophy%29\" rel=\"noopener noreferrer\"><i>mentalismo<\/i><\/a>. Dem\u00f3crito de Abdera j\u00e1 foi taxado de materialista (tese de Marx), antinaturalista  (tese de Cl\u00e9ment Rosset) e fisicalista, este \u00faltimo termo  especificamente relacionado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da mente pelo c\u00e9rebro. Ele e seu mestre Leucipo, de quem pouco se sabe, resolveram o problema her\u00e1clito-parmenidiano com o atomismo. Tudo flui na apar\u00eancia, mas os \u00e1tomos que constituem todo o universo, continuam iguais, unos e indivis\u00edveis. O fisicalismo, por sua vez, sustenta que tudo o que existe est\u00e1 e \u00e9 sujeito \u00e0s leis f\u00edsicas o que implica que o que chamamos de &#8220;vontade&#8221;, &#8220;livre-arb\u00edtrio&#8221; e outras cositas s\u00e3o v\u00edcios de linguagem e, de fato, seriam apenas configura\u00e7\u00f5es neuronais que se deixariam perceber pela consci\u00eancia. O mentalismo \u00e9 a vis\u00e3o de que a mente \u00e9 a real causa da vontade e que apenas a partir dela ocorrem os fen\u00f4menos <i>in concert<\/i> que determinam os comportamentos humanos (cobrir-se quando se tem frio, procurar comida quando se tem fome, etc). Tendo a decis\u00e3o de S\u00f3crates de tomar a cicuta que lhe fora sentenciada sido interpretada atrav\u00e9s dos mil\u00eanios como uma decis\u00e3o moral &#8211; tipicamente mentalista &#8211; na p\u00e1gina 107, escreve-se:<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;A perspectiva fisicalista contesta a vers\u00e3o mentalista do comportamento de S\u00f3crates e oferece uma explica\u00e7\u00e3o alternativa. Os tr\u00eas componentes da a\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo de n\u00e3o fugir mas aceitar a pena que lhe foi imposta precisam ser melhor analisados e devidamente entendidos. (&#8230;) E, por fim, como o ju\u00edzo de valor e a vontade consciente &#8211; dois estados mentais &#8211; s\u00e3o capazes de acionar e p\u00f4r em movimento (neste caso em repouso) os m\u00fasculos e tend\u00f5es do fil\u00f3sofo &#8211; estados do corpo?&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>E arremata:<i><\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;O homem moral socr\u00e1tico, argumenta a filosofia fisicalista, n\u00e3o passa de um subproduto fantasioso &#8211; e com forte componente narc\u00edsico &#8211; do homem natural atomista. Um arco-\u00edris pr\u00e9-newtoniano.&#8221;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Bonito, n\u00e9? Mas isso joga a discuss\u00e3o para o lado mais profundo e escuro do lago: o elo causal entre o <i>pensar<\/i> e o <i>agir<\/i>. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre pensar\/querer e ter consci\u00eancia de que se est\u00e1 pensando\/querendo. O narrador cita ent\u00e3o estudos de <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Benjamin_Libet\" rel=\"noopener noreferrer\">Benjamin Libet<\/a> em &#8220;que a escalada de atividade neural &#8211; o evento f\u00edsico no c\u00e9rebro &#8211; <i>precede<\/i> no tempo n\u00e3o apenas a a\u00e7\u00e3o muscular, mas tamb\u00e9m o evento mental, ou seja, a pr\u00f3pria consci\u00eancia da decis\u00e3o de agir&#8221; por uns parcos tr\u00eas d\u00e9cimos de segundo. Mas, precede. O resto \u00e9 argumenta\u00e7\u00e3o em cima disso e uma sensa\u00e7\u00e3o de estarmos folheando uma revista, tantas as cita\u00e7\u00f5es e cores com que se pintam o quadro.<\/p>\n<div align=\"center\">IV<\/p>\n<div align=\"left\"><b>O tumor metaf\u00edsico<\/b>. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a terceira parte do livro come\u00e7a com uma cita\u00e7\u00e3o de <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kierkegaard\" rel=\"noopener noreferrer\">S\u00f6ren Kierkegaard<\/a>. No cap\u00edtulo 33, o narrador aventa a possibilidade de que o livro poderia ser um thriller e esse exato momento, seria o do crime. O cap\u00edtulo 34 \u00e9 o dramalh\u00e3o do narrador por acreditar em algo extremamente terr\u00edvel e, pior, nas suas consequ\u00eancias. Nesse meio tempo, tome William James: &#8220;meu primeiro ato de livre-arb\u00edtrio ser\u00e1 acreditar no livre-arb\u00edtrio&#8221;; pau no Dawkins (adorei essa, hehe): &#8220;para quem cren\u00e7as humanas s\u00e3o d\u00f3ceis e podem ser ligadas e desligadas como interruptores de abajur&#8221;; al\u00e9m de Bentinho e S\u00f3crates. Como consequ\u00eancias da ideia e mais terr\u00edveis do que ela pr\u00f3pria temos que: &#8220;\u00c9 ilus\u00e3o tomar como <i>causa<\/i> aquilo que sobe \u00e0 consci\u00eancia como um ato de vontade, fruto da inten\u00e7\u00e3o de agir&#8221; e principalmente esta:<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;Um estado mental (&#8220;preciso almo\u00e7ar&#8221;) nunca \u00e9 realmente produzido por outro estado mental (&#8220;estou com fome&#8221;); todos s\u00e3o produzidos por estados do c\u00e9rebro. Quando um pensamento parece suscitar outro por associa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 na verdade um pensamento que puxa ou atrai outro pensamento &#8211; a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 entre os dois pensamentos, mas sim entre os dois estados do c\u00e9rebro ou dos nervos subjacentes a esses pensamentos&#8221;.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Trocando &#8220;nervos subjacentes a esses pensamentos&#8221; por &#8220;n\u00facleos neuronais&#8221; ou coisa parecida, fica um pouco melhor. Segue-se um exerc\u00edcio inapel\u00e1vel de l\u00f3gica:<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;A ideia \u00e9 tremenda, mas basta um silogismo para resumi-la. As leis e regularidades que regem o mundo s\u00e3o independentes da minha vontade (premissa maior); a minha vontade \u00e9 fruto das mesmas leis e regularidades que regem o mundo (premissa menor); logo, a minha vontade \u00e9 independente da minha vontade (conclus\u00e3o).&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Isso nos torna algo como aut\u00f4matos, ensopados de serotonina e dopamina, cujas concentra\u00e7\u00f5es determinam minha vontade de transar com minha mulher hoje ou comer um pizza de calabresa. O narrador se apavora com isso e tamb\u00e9m com o fato de que o m\u00e9dico que o operou, n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para essa v\u00e3s filosofias. O livro melhora substancialmente. Algumas tiradas geniais e cita\u00e7\u00f5es bem colocadas, trazem o leitor de volta \u00e0 vida do personagem que fica, pasmem, bem mais interessante, no papel de roboz\u00e3o. Talvez uma contradi\u00e7\u00e3o mesma do livro.<\/p>\n<div align=\"center\">V<\/div>\n<p>Numa mistura de &#8220;<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;source=web&amp;cd=1&amp;ved=0CCMQFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FO_Mundo_de_Sofia&amp;rct=j&amp;q=o%20mundo%20de%20sofia&amp;ei=NkqiTOfZJIT68AbEzYC8BA&amp;usg=AFQjCNELvu9n7qbe30sLN5nmc92AyBV4QA&amp;cad=rja\" rel=\"noopener noreferrer\">O Mundo de Sofia<\/a>&#8221; com &#8220;<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/recantodasletras.uol.com.br\/resenhasdelivros\/1925254\" rel=\"noopener noreferrer\">Trem Noturno para Lisboa<\/a>&#8221; e pitadas de insanidade de &#8220;<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Zen_and_the_Art_of_Motorcycle_Maintenance\" rel=\"noopener noreferrer\">Zen e a Arte de Manuten\u00e7\u00e3o de Motocicletas<\/a>&#8220;, o livro tem um final interessante e uma provoca\u00e7\u00e3o: ap\u00f3s mostrar que &#8220;lutar&#8221; contra o fisicalismo \u00e9 entrar em uma luta imagin\u00e1ria, o narrador instiga o leitor a refut\u00e1-lo. Tentarei discutir um pouco mais sobre isso nos pr\u00f3ximos posts e talvez se mostre o bom e o ruim, a dor e a del\u00edcia, de discutir filosofia da mente.<\/p>\n<p>Para um resumo de uma palestra de Giannetti sobre o livro ver <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;source=web&amp;cd=9&amp;ved=0CDQQFjAI&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.unimedpoa.com.br%2Fmkt%2Ffronteiras1409%2Fresumo_fronteiras1409.pdf&amp;rct=j&amp;q=a%20ilusao%20da%20alma%20resenha&amp;ei=R1eiTNjaCsO88gblr9W0CQ&amp;usg=AFQjCNEywDL0sOrSPJwVStDD_KVokXyVrQ&amp;cad=rja\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><b>Atualiza\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Veja o excelente post no <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/amigodemontaigne\/2010\/09\/eu_vos_refuto_giannetti.php\">Amigo de Montaigne<\/a>, sobre o &#8220;Erro de Giannetti&#8221;.<\/p>\n<p><\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.skoob.com.br\/img\/livros_new\/5\/124958\/A_ILUSAO_DA_ALMA_1283301798P.jpg\" alt=\"A Ilus\u00e3o da Alma\" height=\"161\" width=\"108\" \/><img decoding=\"async\" style=\"float: none\" src=\"http:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/images\/autores\/00184_p.jpg\" height=\"156\" width=\"103\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=87aa3de6-4795-865a-b26f-fa5e6e1e27b5\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ganhei de presente o livro, com dedicat\u00f3ria e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. 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