{"id":507,"date":"2010-10-01T12:31:33","date_gmt":"2010-10-01T15:31:33","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/10\/o_matador_de_metaforas\/"},"modified":"2010-10-01T12:31:33","modified_gmt":"2010-10-01T15:31:33","slug":"o_matador_de_metaforas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2010\/10\/01\/o_matador_de_metaforas\/","title":{"rendered":"O Matador de Met\u00e1foras"},"content":{"rendered":"<p><a class=\"image\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/File:Figure1.gif\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"thumbimage\" style=\"float: left;margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-right: 10px\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/en\/8\/80\/Figure1.gif\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"171\" \/><\/a>Confesso que n\u00e3o vai ser muito f\u00e1cil. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se minha prosa tem a envergadura simplificadora que o empreedimento exige. Mas como tudo \u00e9 exerc\u00edcio, m\u00e3os a obra. Que as musas me alumiem o caminho (que vai ser um pouco mais longo que o habitual &#8211; haja luz!)&#8230;<\/p>\n<div align=\"center\">I<\/div>\n<p>Retomemos o livro de Giannetti, (mal) resumido <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/09\/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">abaixo<\/a>. Ao adotar um &#8220;fisicalismo reducionista&#8221; o personagem-narrador se mete numa enrascada existencial pois, acha ele, tal posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica afeta a forma como se v\u00ea no mundo, tolhendo-lhe o significado do verdadeiro &#8220;eu&#8221; e colocando no lugar uma sopa de neuromediadores de concentra\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel. O cap\u00edtulo 55 (\u00faltimo) \u00e9 pr\u00f3digo neste tipo de questionamento existencial (que eu achei meio exagerada, como tentarei mostrar a seguir):<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel termos acreditado falsamente durante mil\u00eanios que a vontade consciente rege os nossos m\u00fasculos quando, na verdade, ela \u00e9 o subproduto in\u00f3cuo de uma cadeia de eventos eletroqu\u00edmicos no c\u00e9rebro, como a fosforesc\u00eancia no rasto de um f\u00f3sforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um prop\u00f3sito ou de uma inten\u00e7\u00e3o consciente a causa de uma a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 t\u00e3o desprovido de fundamento como falar do prop\u00f3sito de uma espermatozoide ao fecundar um \u00f3vulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol ao irradiar calor? Sim, \u00e9 poss\u00edvel.&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Vai da\u00ed, que entram no rol do &#8220;\u00e9 poss\u00edvel&#8221; as reflex\u00f5es \u00e9tico-morais, as guerras ideol\u00f3gicas e religiosas, a psicologia, o ate\u00edsmo militante e outras coisas at\u00e9 chegarmos ao <b>engodo da consci\u00eancia<\/b>. Um tipo de farsa onde acreditamos que somos os personagens que representamos. Isso pode causar um\u00a0imobilismo, um mal-estar trans-hist\u00f3rico (que vem desde a antiguidade); nos tornar a-morais, como parodiando a tese ivankaramazoviana: se n\u00e3o h\u00e1 um &#8220;eu&#8221;, nem uma alma, (ent\u00e3o) tudo \u00e9 permitido&#8221;. E assim, termina o livro e aqui vamos come\u00e7ar a discutir essa tese que foi criticada de v\u00e1rias formas, por v\u00e1rios autores.<\/p>\n<div align=\"center\">II<\/p>\n<div align=\"left\">O <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Physicalism\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fisicalismo<\/a>, entendido de modo um pouco mais rigoroso, \u00e9 um tipo de materialismo onde todo e qualquer evento pode ser descrito em termos estruturais microf\u00edsicos, sendo microf\u00edsica a f\u00edsica das part\u00edculas elementares e tudo que gira no seu entorno. Foi descrito pelos positivistas l\u00f3gicos do C\u00edrculo de Viena (n\u00e3o foi \u00e0 toa!). As primeiras formas de fisicalismo ou <a href=\"http:\/\/criticanarede.com\/fisicismo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fisicismo<\/a> eram todas reducionistas, ou seja, propunham dissolver a descri\u00e7\u00e3o de todo o tipo de fen\u00f4meno observ\u00e1vel \u00e0s leis da f\u00edsica. O fisicalismo do livro em quest\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Eliminativism\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eliminativista<\/a>, pois considera que n\u00e3o h\u00e1 estados psicol\u00f3gicos de jeito nenhum, e nem psicologia, portanto. Da\u00ed, tudo o que chamei de &#8220;enrascada existencial&#8221; do personagem do livro.Um jeito de sair dela \u00e9 fazer como o m\u00e9dico-pesquisador do livro, que leva duas vidas. Como cientista \u00e9 fisicalista radical e assim faz, pensa e trabalha. Na vida &#8220;comum&#8221;, finge que &#8220;eso non ecziste&#8221; e pensa em alma, livre-arb\u00edtrio, problemas \u00e9tico-morais como qualquer mortal. \u00c9 uma vida <i><b>dualista<\/b><\/i>. O personagem, pelo contr\u00e1rio, vive seus &#8220;pensamentos&#8221;. Conflituado por suas conclus\u00f5es, n\u00e3o consegue separar as coisas. <i><b>Monista<\/b><\/i>. Um outro jeito, \u00e9 o pragm\u00e1tico.<\/p>\n<div align=\"center\">III<\/p>\n<div align=\"left\">Antes de mais nada, \u00e9 importante saber que essa forma de sair do problema \u00e9 tamb\u00e9m bastante criticada, em especial, por um coreano radicado nos EUA chamado <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jaegwon_Kim\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jaegwon Kim<\/a> (de onde tirei o esquema acima), mas vamos l\u00e1. As ideias s\u00e3o de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Donald_Davidson_%28philosopher%29\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Donald Davidson<\/a>, aluno de Quine, compiladas por Richard Rorty num ensaio chamado &#8220;Fisicalismo N\u00e3o-Reducionista&#8221; que, por sua vez, est\u00e1 na p\u00e1gina 157 do livro Objetivismo, Relativismo e Verdade &#8211; Escritos Filos\u00f3ficos Vol. 1 &#8211; 2a Edi\u00e7\u00e3o &#8211; tradu\u00e7\u00e3o de Marco Ant\u00f4nio Casanova, pela Relume Dumar\u00e1 &#8211; Rio de Janeiro, 2002. Tamb\u00e9m consultei <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-79722000000200003\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">esse artigo de Ronald Arendt<\/a>. Vou come\u00e7ar ao contr\u00e1rio de Rorty e do Arendt.N\u00f3s normalmente n\u00e3o falamos em &#8220;conhecimento liter\u00e1rio&#8221;, certo? Podemos no m\u00e1ximo falar que um romance nos d\u00e1 certos &#8220;insights&#8221; sobre algumas quest\u00f5es que podem ser relevantes. Os de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica trazem quest\u00f5es cient\u00edficas mas s\u00e3o bem a minoria. Acreditamos at\u00e9 que as vis\u00f5es liter\u00e1rias (e aqui eu incluo grande parte da filosofia, no que me seguiriam muitos cientistas e\/ou divulgadores de ci\u00eancia) s\u00e3o incompat\u00edveis com a vis\u00e3o f\u00edsico-naturalista da realidade. Segundo Rorty, uma das causas para que isso ocorra \u00e9 a confus\u00e3o que fazemos de <i><b>naturalismo<\/b><\/i> com <i><b>reducionismo<\/b><\/i>. Para Rorty, reducionismo aqui significa a procura de uma linguagem singular o suficiente para estabelecer <i><b>todas<\/b><\/i> as verdades que h\u00e1 para serem estabelecidas &#8211; um graal lingu\u00edstico. Segundo suas pr\u00f3prias palavras:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Uma tal tentativa \u00e9 associada com a tentativa de identificar a &#8216;verdade literal&#8217; com a &#8216;verdade cient\u00edfica&#8217; e a tratar a literatura como oferecendo meramente &#8216;verdades metaf\u00f3ricas&#8217;, algo que n\u00e3o pode realmente ser denominado de <i><b>verdade<\/b><\/i> acima de tudo. A concep\u00e7\u00e3o usual, desde Plat\u00e3o, tem sido a de que um entre os v\u00e1rios vocabul\u00e1rios que n\u00f3s usamos espelha a realidade, e que os outros s\u00e3o na melhor das hip\u00f3teses &#8216;heur\u00edsticos&#8217; ou &#8216;sugestivos'&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui entra Davidson, fil\u00f3sofo da linguagem, e o t\u00edtulo do post. Uma de suas premissas \u00e9 que <b>met\u00e1foras n\u00e3o t\u00eam significados<\/b>. Isso quer dizer que sua ocorr\u00eancia \u00e9 como um efeito colateral da utiliza\u00e7\u00e3o de uma linguagem, n\u00e3o h\u00e1 nada implementado com intuito de produzi-las. Entretanto, apesar de surgirem assim, quase sem querer, elas t\u00eam um papel fundamental quando se &#8220;literalizam&#8221;. Literalizar uma met\u00e1fora \u00e9 mat\u00e1-la, mas no momento em que isso ocorre, reformulam-se nossas cren\u00e7as, conceitos e desejos. Sem a morte de met\u00e1foras &#8220;n\u00e3o haveria nenhuma coisa tal como uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou uma ruptura cultural, mas meramente o processo de alterar os valores de verdade das asser\u00e7\u00f5es formuladas em um vocabul\u00e1rio para sempre imut\u00e1vel.&#8221; Desse ponto de vista, uma teoria cient\u00edfica \u00e9 simplesmente uma redescri\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica. Por exemplo, quando os crist\u00e3os disseram &#8216;O amor \u00e9 a \u00fanica lei&#8217;, quando Cop\u00e9rnico disse &#8216;A Terra gira em torno do Sol&#8217;, ou Marx &#8216;A hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes&#8217; ou ainda os f\u00edsicos afirmaram que &#8216;a mat\u00e9ria pode ser transformada em energia&#8217;, tais frases pareciam mais com um modo de falar que com uma verdade. Um fil\u00f3sofo anal\u00edtico na\u00efve diria que s\u00e3o confusas. O que queremos dizer com &#8220;lei&#8221;, &#8220;sol&#8221;, &#8220;hist\u00f3ria&#8221; ou &#8220;mat\u00e9ria&#8221;? Mas quando crist\u00e3os, copernicanos, marxistas e f\u00edsicos come\u00e7aram a redescrever por\u00e7\u00f5es da realidade sob a luz dessas senten\u00e7as &#8211; e comprovar o valor de tais redescri\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00f3s come\u00e7amos a falar delas como afirma\u00e7\u00f5es com grande valor de verdade.<\/p>\n<p>Nesse ponto, nos aproximamos do cume. Eu disse que subir n\u00e3o ia ser t\u00e3o f\u00e1cil, mas n\u00e3o vamos parar aqui, n\u00e9?<br \/>\nVamos para uma cita\u00e7\u00e3o do texto de Rorty:<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;Esse fen\u00f4meno da produ\u00e7\u00e3o e &#8216;literaliza\u00e7\u00e3o&#8217; de met\u00e1foras \u00e9 o fen\u00f4meno que a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental sentiu como sendo necess\u00e1rio para avalia\u00e7\u00e3o a partir de uma oposi\u00e7\u00e3o entre <\/i><i><b>mat\u00e9ria<\/b> e <\/i><i><b>esp\u00edrito<\/b>. Essa tradi\u00e7\u00e3o pensou a criatividade art\u00edstica, bem como a &#8216;inspira\u00e7\u00e3o&#8217; moral ou religiosa, como incapazes de serem explicadas nos termos usados para explicar o comportamento da &#8216;realidade meramente f\u00edsica&#8217;. (Nota do Blogueiro: dizem que tudo come\u00e7a com Plat\u00e3o e aqui, em especial, isso \u00e9 bem verdade, ver <a href=\"http:\/\/www.scribd.com\/doc\/6077389\/Platao-A-Republica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Rep\u00fablica<\/a> e o <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0100-512X2003000100005&amp;script=sci_arttext\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo de Maria Villela-Petit<\/a>. Al\u00e9m disso, Rorty se coloca em uma linhagem de pragmatistas americanos que come\u00e7ou com Pierce, James e Dewey e que vem combatendo, a seu modo, a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental que \u00e9 como eles chamam o pensamento que come\u00e7ou com Plat\u00e3o e atingiu o seu \u00e1pice em Kant, com v\u00e1rios desdobramentos atuais). Em vista disso, surgiram as oposi\u00e7\u00f5es entre &#8216;liberdade&#8217; e &#8216;mecanismo&#8217; que dominaram o per\u00edodo p\u00f3s-kantiano na filosofia ocidental. Mas segundo a vis\u00e3o de Davidson, &#8216;criatividade&#8217; e &#8216;inspira\u00e7\u00e3o&#8217; s\u00e3o meramente casos especiais da capacidade do organismo humano articular senten\u00e7as sem significado &#8211; isto \u00e9, senten\u00e7as que n\u00e3o se ajustam a velhos jogos de linguagem e que servem enquanto ocasi\u00f5es para modificar esses jogos de linguagem e criar novos. Essa capacidade \u00e9 exercida constantemente, em toda e qualquer \u00e1rea da cultura e da vida cotidiana. Nesta \u00faltima, ela aparece como chiste. Nas artes e nas ci\u00eancias ela aparece, retrospectivamente, como g\u00eanio.&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<div align=\"center\">IV<\/div>\n<div align=\"left\">Tudo isso para dizer que para um pragmatista o importante \u00e9 &#8220;afinar o discurso&#8221;, ou seja, utilizar a linguagem correta para cada situa\u00e7\u00e3o e acabar com essa divis\u00e3o arbitr\u00e1ria de mat\u00e9ria e esp\u00edrito. Tudo \u00e9 fruto de uma (re)interpreta\u00e7\u00e3o, (re)arranjos de cad\u00e1veres de met\u00e1foras que formam redes de conceitos utilizados como valores de verdade. A <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Parcim%C3%B4nia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">parcim\u00f4nia<\/a> ontol\u00f3gica (aqui querendo dizer um tipo de consenso enxuto) n\u00e3o \u00e9 para ser alcan\u00e7ada (como os positivistas pensavam) por meio de uma &#8220;an\u00e1lise lingu\u00edstica&#8221;. Se for poss\u00edvel faz\u00ea-lo, melhor que seja pela pr\u00e1tica cotidiana. <i>Esse tipo de abordagem n\u00e3o-reducionista \u00e9 perfeitamente compat\u00edvel com a afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00f3s provavelmente continuaremos a falar sobre entidades mentais &#8211; cren\u00e7as, desejos, e tudo o mais &#8211; para sempre! <\/i>Aqui, voltamos finalmente ao livro, segundo Rorty, repare que essa fala (cren\u00e7as, desejos, etc) N\u00c3O \u00e9 metaf\u00f3rica; \u00e9 uma rede de met\u00e1foras j\u00e1 literalizadas. Por isso, n\u00e3o necessita ser tornada mais cient\u00edfica ou precisa, al\u00e9m dos ajustes &#8220;normais&#8221;, e, por outro lado, n\u00e3o necessita de clarifica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica com esse intuito espec\u00edfico. Dizer que n\u00f3s sempre falaremos sobre cren\u00e7as e desejos, \u00e9 dizer que a psicologia provavelmente permanecer\u00e1 a melhor forma de descrever estados mentais e abord\u00e1-los com entendimento entre pares.Mais um pouco sobre as redes. Rorty acha poss\u00edvel abdicarmos da no\u00e7\u00e3o de &#8220;consci\u00eancia&#8221;, mas acha que temos um &#8220;Si pr\u00f3prio&#8221;que consiste nos estados mentais do ser humano (os tais desejos, medos, cren\u00e7as, de novo). Note-se bem, essa cole\u00e7\u00e3o de estados mentais \u00c9 o tal Si pr\u00f3prio. O Si pr\u00f3prio n\u00e3o as tem, ele as \u00e9. Isso funcionaria como uma rede em cont\u00ednuo processo de auto-reformula\u00e7\u00e3o em respostas a est\u00edmulos como novas cren\u00e7as, por exemplo. Essa imagem \u00e9 bem diferente da dualista cartesiana (e \u00e9 o que Kim critica alegando impossibilidade) de um &#8220;eu&#8221; distinto de suas pr\u00f3prias cren\u00e7as e desejos. N\u00e3o h\u00e1 mais, de forma alguma, um centro que seja o Si pr\u00f3prio, como n\u00e3o o h\u00e1 para o c\u00e9rebro. E aqui o arremate:<\/p>\n<blockquote><p><i>&#8220;Exatamente como as sinapses neurais est\u00e3o em cont\u00ednua intera\u00e7\u00e3o umas com as outras, constantemente formulando uma diferente configura\u00e7\u00e3o de descargas el\u00e9tricas, tamb\u00e9m nossas cren\u00e7as e desejos est\u00e3o em cont\u00ednua intera\u00e7\u00e3o, redistribuindo valores de verdade entre asser\u00e7\u00f5es. Exatamente como o c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 algo que &#8220;tenha&#8221; tais sinapses, mas \u00c9 simplesmente um aglomerado delas, assim o Si pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 algo que &#8220;tenha&#8221; as cren\u00e7as e os desejos, mas simplesmente a rede que as re\u00fane e conecta.&#8221;<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Isso implica que ter uma cren\u00e7a ou desejo significa ter muitas cren\u00e7as e desejos; significa ter o fio de uma extensa trama que nos constitui.<\/p>\n<div align=\"center\">V<\/p>\n<div align=\"left\">Como conclus\u00e3o, temos que a dissolu\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica de uma metaf\u00edsica da dualidade mat\u00e9ria-esp\u00edrito na filosofia da linguagem de Davidson, respinga na filosofia mente-c\u00e9rebro produzindo uma vis\u00e3o dos seres humanos, que segundo Rorty, \u00e9 &#8220;naturalista&#8221; e n\u00e3o-reducionista, dado que o processo de redu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo lingu\u00edstico como foi demonstrado; e, portanto, relativo. As consequ\u00eancias disso s\u00e3o bastante abrangentes. A n\u00f3s, interessaria a ultrapassagem do dilema do narrador-personagem do livro de Giannetti. \u00c9 poss\u00edvel descrever fen\u00f4menos em v\u00e1rios n\u00edveis de especificidade. Ao descolarmos esse ato da vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 Verdade, \u00e0 pretens\u00e3o do conhecimento da &#8220;coisa-em-si&#8221;, poderemos trabalhar em n\u00edveis superiores de entendimento humano m\u00fatuo sem nos imobilizarmos. O amoralismo proposto tamb\u00e9m n\u00e3o se sustenta por estar embutido na quest\u00e3o do consenso entre os seres humanos. Tentarei, levando em considera\u00e7\u00e3o o texto de <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/09\/relativismo_e_fe.php\">Ratzinger<\/a> abaixo, tra\u00e7ar um paralelo entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o e mostrar como, ao menos nessas quest\u00f5es, elas mais se aproximam que se op\u00f5em.<\/p>\n<div align=\"center\">VI<\/div>\n<p>Por fim, esse trabalho de desmistifica\u00e7\u00e3o do fisicalismo reducionista tamb\u00e9m foi feito com muita simplicidade, a exemplo do silogismo de Giannetti <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/09\/livro_a_ilusao_da_alma_de_gian.php\">na parte IV do post abaixo<\/a>, por Hempel com o racioc\u00ednio que se segue:<\/p>\n<p><i>&#8220;Talvez uma das cr\u00edticas mais incisivas ao fisicalismo esteja no dilema apontado por<br \/>\nHempel (1980): se o fisicalismo for definido de acordo com a ci\u00eancia F\u00edsica atual, ent\u00e3o se<br \/>\ntrata de uma tese possivelmente falsa, j\u00e1 que a F\u00edsica atual n\u00e3o \u00e9, de maneira alguma, uma<br \/>\nci\u00eancia completa. Por outro lado, se o fisicalismo apoiar-se em uma ci\u00eancia F\u00edsica hipot\u00e9tica,<br \/>\numa ci\u00eancia completa que ainda est\u00e1 por vir, ent\u00e3o o fisicalismo perde sua for\u00e7a, pois n\u00e3o<br \/>\nsabemos como ser\u00e1 essa F\u00edsica e que coisas far\u00e3o parte desse mundo f\u00edsico que ainda n\u00e3o<br \/>\nsomos capazes de conceber.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Do excelente artigo de <a href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;source=web&amp;cd=2&amp;ved=0CBgQFjAB&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.cienciasecognicao.org%2Frevista%2Findex.php%2Fcec%2Farticle%2FviewDownloadInterstitial%2F264%2F173&amp;rct=j&amp;q=diego%20zilio%20mente%20fisicalismo&amp;ei=cxOmTJ6qG8P98AbOtfmUCg&amp;usg=AFQjCNEx7LeQfHOYs4tfAoo5tNjcb3GzHA&amp;cad=rja\">Diego Zilio <\/a>em Ci\u00eancias &amp; Cogni\u00e7\u00e3o 2010; Vol 15 (1): 217-240.<\/p>\n<p>Acho que d\u00e1 para falar no &#8220;Erro de Giannetti&#8221; e em tempestade em copo de \u00e1gua, n\u00e9?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=cb82dcc2-9a8b-8146-b1b9-bbc3536b7cb9\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que n\u00e3o vai ser muito f\u00e1cil. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se minha prosa tem a envergadura simplificadora que o empreedimento exige. Mas como tudo \u00e9 exerc\u00edcio, m\u00e3os a obra. Que as musas me alumiem o caminho (que vai ser um pouco mais longo que o habitual &#8211; haja luz!)&#8230; I Retomemos o livro de Giannetti, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":466,"featured_media":4334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[5,13,21,24],"tags":[113,126,221,228],"class_list":["post-507","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia","category-filosofia","category-opiniao","category-rorty","tag-fisicalismo","tag-giannetti","tag-ratzinger","tag-rorty"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/466"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=507"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/507\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}