{"id":518,"date":"2010-10-23T18:07:07","date_gmt":"2010-10-23T21:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/10\/a_maquina_de_escolher\/"},"modified":"2010-10-23T18:07:07","modified_gmt":"2010-10-23T21:07:07","slug":"a_maquina_de_escolher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2010\/10\/23\/a_maquina_de_escolher\/","title":{"rendered":"A M\u00e1quina de Escolher"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span>Interessante <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.tics.2010.08.001\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;Nascido para Escolher&#8221;<\/a>. Publicado no &#8220;Tend\u00eancias em Ci\u00eancias Cognitivas&#8221;, os autores defendem a ideia de que a escolha e a decis\u00e3o sobre algo s\u00e3o biologicamente determinados e n\u00e3o aprendidos, como se pensava. Escolher d\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de controle e auto-confian\u00e7a. Refor\u00e7a cren\u00e7as e a auto-efici\u00eancia. Parece que o desejo por controle est\u00e1 presente em animais e em crian\u00e7as mesmo antes de valores sociais e culturais serem aprendidos. A grande pergunta \u00e9 se houve uma adapta\u00e7\u00e3o para que essa sensa\u00e7\u00e3o de controle que a escolha propicia fosse percebida como recompensa. Sua aus\u00eancia parece ser mesmo aversiva e o exercimento do controle est\u00e1 relacionado a uma diminui\u00e7\u00e3o do estresse ambiental sofrido pelo &#8220;bicho&#8221;. O artigo cita at\u00e9 poss\u00edveis vias neurais respons\u00e1veis por isso (veja figura abaixo).<\/p>\n<p>Se a necessidade b\u00e1sica de controle pode ser biologicamente motivada, \u00e9 poss\u00edvel que a percep\u00e7\u00e3o de controle e a prefer\u00eancia em exerc\u00ea-lo pode ser modificada como resultado da experi\u00eancia pessoal e tamb\u00e9m aprendida, via recompensas, em um meio social favor\u00e1vel. Como os autores escrevem na conclus\u00e3o &#8220;<i> (&#8230;) but what is important cross-culturally is that the exercise of choice acts to energize and reinforce an individual&#8217;s sense of agency. Anything that undermines this perception of control might be harmful to an individual&#8217;s wellbeing.<\/i>&#8221; Eu acho dif\u00edcil traduzir <i>agency<\/i> (quem quiser, pode ajudar), mas a conclus\u00e3o se refere ao fato de que escolher\/decidir <b>refor\u00e7a o sentimento do indiv\u00edduo ser o agente de sua pr\u00f3pria realidade<\/b> e n\u00e3o um mero coadjuvante, o que, convenhamos, faz bastante sentido.<br \/><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/Born%20to%20choose%20the%20origins%20and%20value.png\" height=\"258\" width=\"533\" \/><br \/>Fiquei conhecendo esse artigo por meio de um grupo de m\u00e9dicos do qual participo e me chamou a aten\u00e7\u00e3o o fato de que o colega que o enviou estava bastante frustrado quando &#8220;transp\u00f4s&#8221; as conclus\u00f5es do artigo para a pr\u00e1tica m\u00e9dica da Terapia Intensiva. Como ele &#8220;publicou&#8221; esse email no grupo, fico \u00e0 vontade de reproduzi-lo aqui (obviamente preservando-lhe a identidade):<\/p>\n<p><i>&#8220;Transportando a an\u00e1lise dos autores para a UTI fico me perguntando o quanto n\u00f3s, intensivistas, conseguimos racionalizar que muitos resultados de nossas interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o frutos do acaso&#8230; como lidar com isso? o nosso c\u00e9rebro \u00e9 suficientemente adaptado para &#8220;individualizar\/isolar&#8221; o resultado de nossas decis\u00f5es? ou ele s\u00f3 enxerga decis\u00f5es -&gt; interven\u00e7\u00f5es -&gt; desfechos? n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil lidar com o acaso, n\u00e3o \u00e9? Parece que precisamos sempre de &#8220;maior n&#8221; ou &#8220;mais estudos para elucidar a quest\u00e3o&#8221;!&#8221;<\/i><\/p>\n<p>A falta de controle de fato \u00e9 aversiva. Veja s\u00f3:<\/p>\n<p><i>&#8220;Entender que n\u00e3o temos controle estrito do doente e sobre o mundo pode ser frustrante para quem n\u00e3o se acostuma com essa id\u00e9ia&#8230; Quantas vezes por dia nos indagamos que, se estiv\u00e9ssemos esperado um pouco, o desfecho\/resultado seria igual? O h\u00e1bito do fazer mais, supranormalizar, etc., tem se mostrado infrut\u00edfero&#8230; e os estudos randomizados?&#8230; ao inv\u00e9s de aceitarmos que nos adaptamos para decidir (e aprender com isso) tentamos justificar a falta de resultados positivos com editoriais do tipo &#8220;estudos randomizados n\u00e3o respondem tudo&#8221; ou &#8220;metan\u00e1lises ca\u00edram em descr\u00e9dito pois muitas s\u00e3o reuni\u00f5es de trabalhos antigos e malfeitos&#8221; ou &#8220;desfecho mortalidade \u00e9 muito duro para o ambiente de UTI&#8221; (&#8230;) Desculpem se me prolongo, mas ser intensivista \u00e9 dureza e temos que lutar at\u00e9 com a estrutura do nosso racioc\u00ednio&#8230;. O que voc\u00eas acham, amigos? Ser\u00e1 que o &#8220;problema&#8221; est\u00e1 no m\u00e9todo? ou no processo adaptivo?&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Convenhamos, \u00e9 um apelo dram\u00e1tico, n\u00e3o? Aqui, novamente a (neuro)ci\u00eancia <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/03\/teoria-tecnologia-praxis.php\" rel=\"noopener noreferrer\">se junta com a filosofia<\/a> (eu adoro quando isso acontece para desbancar positivistas ut\u00f3picos que substituem Deus pela Ci\u00eancia): <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/03\/ainda-gadamer.php\" rel=\"noopener noreferrer\">o <b>Fazer<\/b> \u00e9 mais f\u00e1cil que o <b>N\u00e3o-Fazer<\/b><\/a>. O Fazer, principalmente quando embasado em alguma diretriz ou mesmo quando &#8220;decidido&#8221; pelo agente, provoca al\u00edvio e sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar. O artigo em quest\u00e3o diz que isso \u00e9 porque exercemos um controle sobre o meio ambiente que nos envolve. No caso do m\u00e9dico, sobre o paciente. Colocando de lado a insatisfa\u00e7\u00e3o <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/06\/rosset_acaso_e_a_tragedia_do_s.php\" rel=\"noopener noreferrer\">pelo efeito do acaso na pr\u00e1tica m\u00e9dica<\/a>, os m\u00e9dicos parecem estar entendendo que s\u00e3o diferentes dos cientistas. Antes tarde do que nunca. Parece que a &#8220;m\u00e1quina de escolher&#8221; est\u00e1 dentro de outra m\u00e1quina: <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/07\/deus_um_desejo_1.php\">a de desejar<\/a>.<\/p>\n<p>Leotti LA, Iyengar SS, &amp; Ochsner KN (2010). Born to choose: the origins and value of the need for control. <span style=\"font-style: italic\">Trends in cognitive sciences, 14<\/span> (10), 457-63 PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20817592\">20817592<\/a><\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=058c971d-6cf4-80d2-9a93-dd6eabf71cd1\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interessante artigo cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;Nascido para Escolher&#8221;. Publicado no &#8220;Tend\u00eancias em Ci\u00eancias Cognitivas&#8221;, os autores defendem a ideia de que a escolha e a decis\u00e3o sobre algo s\u00e3o biologicamente determinados e n\u00e3o aprendidos, como se pensava. Escolher d\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de controle e auto-confian\u00e7a. Refor\u00e7a cren\u00e7as e a auto-efici\u00eancia. 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