{"id":534,"date":"2011-01-09T02:53:51","date_gmt":"2011-01-09T05:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/01\/ein_wunder\/"},"modified":"2011-01-09T02:53:51","modified_gmt":"2011-01-09T05:53:51","slug":"ein_wunder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/01\/09\/ein_wunder\/","title":{"rendered":"Ein Wunder"},"content":{"rendered":"<p><i>&#8220;Karl, gostaria que voc\u00ea acompanhasse a parte cl\u00ednica dela. Precisamos tirar a medica\u00e7\u00e3o para abaixar a press\u00e3o&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Lothar \u00e9 zelador de uma escola prim\u00e1ria em uma pequena cidade pr\u00f3xima a Frankfurt. Birgitt trabalha em um banco na mesma cidade. Duas vezes por semana. Coisas da Alemanha. O filho faz parte das For\u00e7as Armadas alem\u00e3s e foi convocado para ir ao Afeganist\u00e3o. A filha \u00e9 enfermeira e professora de enfermagem, veja s\u00f3. O casal, na faixa dos 50, resolveu fazer uma viagem pela Am\u00e9rica do Sul. Chile, Peru, Argentina e, claro, Brasil.<\/p>\n<p><i>&#8220;Ok. Podemos tentar. Mas, como vou conversar com ele e, em especial, com ela?&#8221;<\/i>&#8220;<i>Ela est\u00e1 em coma.&#8221;<br \/><\/i><br \/>No aeroporto de Guarulhos, Birgitt sentiu-se mal. Procurou um toalete e chegando l\u00e1, perdeu os sentidos. Foi um corre-corre danado no banheiro. Lothar sem falar ingl\u00eas, espanhol ou outra l\u00edngua que n\u00e3o o alem\u00e3o, conseguiu entender que Birgitt seria levada a um hospital p\u00fablico em Guarulhos. L\u00e1, ela recebeu os cuidados iniciais e o tenebroso diagn\u00f3stico: hemorragia subaracn\u00f3ide aguda. Um par\u00eantesis r\u00e1pido, esse \u00e9 um dos diagn\u00f3sticos mais temidos que existem em uma unidade de terapia intensiva, pelo menos para mim. Acomete, quase sempre, pessoas jovens, em idade produtiva e tem, em geral, consequ\u00eancias devastadoras. Era o caso de Birgitt. Ap\u00f3s uma negocia\u00e7\u00e3o complicada com o consulado alem\u00e3o, burocracias relacionadas ao seguro sa\u00fade e dificuldades t\u00e9cnicas em geral, Birgitt&nbsp; foi transferida para o nosso hospital.<\/p>\n<p><i>&#8220;Voc\u00ea j\u00e1 sabe de toda a hist\u00f3ria? N\u00e3o?! Putz, parece mesmo um conto de Natal! \u00c9 o seguinte&#8230;&#8221;<\/p>\n<p><\/i>Os exames indicavam que Birgitt tinha um aneurisma na art\u00e9ria cerebral m\u00e9dia. Esse aneurisma, uma dilata\u00e7\u00e3o da art\u00e9ria, apresentara uma pequena ruptura suficiente para derramar sangue entre o c\u00e9rebro e as meninges. Al\u00e9m da dor, a inflama\u00e7\u00e3o provoca um tipo de incha\u00e7o no c\u00e9rebro que \u00e9 respons\u00e1vel pelo coma. O aneurisma precisava ter sua base fechada cirurgicamente pois corre-se o risco de um novo sangramento, o que em geral \u00e9 fatal. Al\u00e9m disso, a presen\u00e7a de sangue nesse espa\u00e7o faz com que haja uma vasoconstri\u00e7\u00e3o de outras art\u00e9rias reflexamente. Isso provoca uma isquemia cerebral que pode ser grave a ponto de causar morte do tecido cerebral e que \u00e9 chamada de vasoespasmo. A cirurgia tamb\u00e9m ajuda a prevenir o vasoespasmo. Birgitt foi submetida \u00e0 uma clipagem do aneurisma nas v\u00e9speras do Natal.<\/p>\n<p><i>&#8220;Minha m\u00e3e estava internada no quarto 34 e Birgitt foi internada no 31. Sou alem\u00e3, mas fui criada no Brasil. Fiquei sabendo das dificuldades deles e me ofereci para, pelo menos, intermediar a comunica\u00e7\u00e3o entre ele e os m\u00e9dicos. No dia de Natal, levei-o para minha casa. Demos uma volta por S\u00e3o Paulo. Ele n\u00e3o imaginava que era t\u00e3o grande&#8230;&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Birgitt evoluiu com aumento da press\u00e3o intracraniana. Isso \u00e9 um problema porque o cr\u00e2nio \u00e9 uma caixa r\u00edgida que cont\u00e9m o c\u00e9rebro molenga dentro. Se o c\u00e9rebro inchar, n\u00e3o h\u00e1 para onde se expandir. Em determinadas situa\u00e7\u00f5es, a parte inferior do c\u00e9rebro sai pelo orif\u00edcio da medula da mesma forma que uma bexiga escapa pelo v\u00e3o dos dedos quando tentamos esprem\u00ea-la na m\u00e3o. Estruturas vitais s\u00e3o comprimidas nessa situa\u00e7\u00e3o e o paciente pode caminhar rapidamente para um quadro de morte cerebral, necessitando medidas emergenciais e, n\u00e3o raro, uma neurocirurgia de urg\u00eancia.<\/p>\n<p><i>&#8220;O alem\u00e3o soa para mim muito bonito, mas n\u00e3o entendo nem uma palavra&#8221;. &#8220;Hipotermia e coma barbit\u00farico&#8221;. &#8220;Eu associei um antif\u00fangico. N\u00e3o sabia o que fazer porque a febre n\u00e3o parava de subir!&#8221;&#8221;Explique a ele que ela n\u00e3o pode sair do ventilador mec\u00e2nico porque est\u00e1 em coma induzido.&#8221;<\/i> <i>&#8220;Ah, esses bombons? O marido que trouxe.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Tirei a medica\u00e7\u00e3o para abaixar a press\u00e3o. Tiramos o ventilador, a sonda vesical, os cateteres e os antibi\u00f3ticos. Hoje, ele deu uma papinha a ela e foi almo\u00e7ar na casa teuto-brasileira onde reside parcialmente em terras bandeirantes. Com as m\u00e3os em prece, disse para mim: &#8220;\u00c9 um milagrrre!&#8221;. Literalmente, n\u00e3o h\u00e1 chocolate que expresse a gratid\u00e3o que sente. A filha enfermeira vem ao Brasil, finalmente. Ele pediu para trazer p\u00e3o, veja s\u00f3! Como disse uma amiga, por detr\u00e1s dos monitores n\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros. H\u00e1 hist\u00f3rias. Com finais surpreendentes. Tem que saber onde l\u00ea-las.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Karl, gostaria que voc\u00ea acompanhasse a parte cl\u00ednica dela. Precisamos tirar a medica\u00e7\u00e3o para abaixar a press\u00e3o&#8221;. Lothar \u00e9 zelador de uma escola prim\u00e1ria em uma pequena cidade pr\u00f3xima a Frankfurt. Birgitt trabalha em um banco na mesma cidade. Duas vezes por semana. Coisas da Alemanha. 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