{"id":537,"date":"2011-01-22T00:17:49","date_gmt":"2011-01-22T03:17:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/01\/o_check-up_procuradores_e_acha\/"},"modified":"2011-01-22T00:17:49","modified_gmt":"2011-01-22T03:17:49","slug":"o_check-up_procuradores_e_acha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/01\/22\/o_check-up_procuradores_e_acha\/","title":{"rendered":"O Check-up, &#8220;Procuradores&#8221; e &#8220;Achadores&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Muitos pacientes v\u00e3o ao consult\u00f3rio e dizem &#8220;Dr. gostaria de fazer um check-up!&#8221;. Em geral, dizem isso acompanhado de um &#8220;j\u00e1 tenho 30 e tantos anos e nunca fui a um m\u00e9dico, preciso me cuidar, n\u00e9?&#8221;, esperando aprova\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o positivo. Vou avisando, &#8220;sou contra check-up&#8221;. Em especial, nos moldes como ele foi introduzido numa pr\u00e1tica de cuidado de si, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70. Me explico.<\/p>\n<p>Entenda-se aqui por check-up o procedimento no qual um cidad\u00e3o ou uma cidad\u00e3 submetem-se aos mais variados exames e consultas com especialistas em, digamos, uma tarde. A coisa varia de lugar para lugar, mas em geral, consiste em endoscopia, colonoscopia, otoscopia, teste ergom\u00e9trico, ultrassom de abdome, ecocardiograma, radiografia de t\u00f3rax, toque retal, exame oftalmol\u00f3gico e os mais variados exames laboratoriais incluindo marcadores tumorais, perfil hormonal e, mais alguma coisa que, com certeza, esqueci. O detalhe que faz toda a diferen\u00e7a \u00e9 que, apesar de serem checadas poss\u00edveis queixas dos avaliados, N\u00c3O \u00c9 POR ESSA RAZ\u00c3O QUE ELES EST\u00c3O L\u00c1!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/01\/checkup.gif\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-4614\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/01\/checkup.gif\" alt=\"checkup\" width=\"236\" height=\"407\" \/><\/a>As raz\u00f5es que levam essas criaturas a um centro de check-up, na grande maioria das vezes, s\u00e3o corporativas. Estimativas feitas por uma revista semanal de grande circula\u00e7\u00e3o em 2003 com os 3 maiores centros de check-up de S\u00e3o Paulo (ver quadro ao lado, <a href=\"http:\/\/origin.veja.abril.com.br\/230403\/p_074.html\">clique<\/a> para ver a origem) mostram que 80% deles s\u00e3o financiados por empresas. Em que pese o interesse individual das pessoas em cuidar da pr\u00f3pria sa\u00fade, h\u00e1 outros interesses sobre o bem-estar de um executivo e esse tipo de pr\u00e1tica acaba caindo no que Foucault chamou de biopoder que tem no corpo o palco de uma pol\u00edtica onde exerce sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>O check-up se insere em um tipo espec\u00edfico de procedimento m\u00e9dico chamado de rastreamento (rastreio, em Portugal, <i>screening<\/i>, em ingl\u00eas) que \u00e9 o fato de algu\u00e9m que n\u00e3o tem queixa nenhuma (repare que n\u00e3o digo que n\u00e3o tem doen\u00e7a nenhuma) submeter-se a procedimentos m\u00e9dicos com o intuito de diagnosticar algum mal oculto. Baseia-se no fato de que existem doen\u00e7as silentes, que n\u00e3o provocam sintomas quaisquer, mas que, mesmo assim, podem causar dano futuro. Se pudermos diagnostic\u00e1-las precocemente poderemos evitar muitas complica\u00e7\u00f5es e at\u00e9 evitar a morte.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas feitas ao check-up podem ser divididas em dois grande grupos. O primeiro grupo diz respeito a um tipo de &#8220;subvers\u00e3o da ordem m\u00e9dica cl\u00e1ssica&#8221;. A medicina, desde os seus prim\u00f3rdios, foi constru\u00edda como uma rela\u00e7\u00e3o entre dois seres humanos e se inicia com as queixas de um deles ao outro. Na aus\u00eancia desse passo fundamental, o que se segue pode ser classificado como tecnologia m\u00e9dica ou picaretagem, mas n\u00e3o propriamente como medicina. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 o encontro do paciente com o profissional da sa\u00fade. H\u00e1 exames frios que produzem n\u00fameros frios. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o centrada nos exames. Hoje, a possibilidade de investiga\u00e7\u00e3o laboratorial \u00e9 gigantesca. Acho engra\u00e7ado quando um paciente diz &#8220;doutor, fiz TODOS os exames e ningu\u00e9m achou nada&#8221;. N\u00e3o digo imposs\u00edvel, mas \u00e9 economicamente invi\u00e1vel e biologicamente muito agressivo, algu\u00e9m fazer todos os exames poss\u00edveis na medicina hoje. \u00c9 poss\u00edvel &#8220;virarmos algu\u00e9m do avesso&#8221;, diz um m\u00e9dico amigo. O que fazer com todos os dados gerados em um check-up \u00e9 algo que nem sempre \u00e9 muito bem estabelecido.<\/p>\n<p>Outro grupo de cr\u00edticas remete ao processo heur\u00edstico do investigar. Isso \u00e9 bem exemplificado pela diferen\u00e7a entre o &#8220;procurador&#8221; e o &#8220;achador&#8221;. Um procurador tem uma meta que deve ser encontrada, um objetivo. Um achador, acha, encontra coisas que nem sempre sabe se t\u00eam valor ou n\u00e3o. O check-up \u00e9 um processo &#8220;achador&#8221;. Uma consulta m\u00e9dica, &#8220;procurador&#8221;. O check-up \u00e9 centrado no exame. A consulta, centrada no m\u00e9dico. H\u00e1 vantagens e desvantagens em ambos. Em determinados momentos, na consulta, preciso me vestir de &#8220;achador&#8221; por total falta de op\u00e7\u00f5es. Em centros de check-up bem organizados, os m\u00e9dicos conversam com os clientes e tentam dirigir mais os exames.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/newyorkette.com\/wp-content\/postits_checkup_450.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"float: right;margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-left: 10px\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/postits_checkup_450.jpg\" width=\"322\" height=\"293\" \/><\/a>Al\u00e9m disso, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/08\/os-efeitos-colaterais-do-rastreamento.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">exames de rastreamento tamb\u00e9m t\u00eam efeitos colaterais<\/a>! Muita gente pensa sobre isso como pensa em medica\u00e7\u00e3o homeop\u00e1tica: &#8220;mal n\u00e3o faz!&#8221; Faz mal, sim; e muito. Erros comuns: 1) &#8220;Meu conv\u00eanio paga&#8221;. Errado! Quem paga \u00e9 sempre voc\u00ea (ou sua empresa). Quando seu conv\u00eanio subir a mensalidade por sinistralidade, voc\u00ea n\u00e3o vai ficar feliz; 2) &#8220;Fazer exames preventivos \u00e9 sempre bom&#8221;. Desde que esses exames sejam interpretados de forma correta. Interpretar um exame n\u00e3o \u00e9 olhar o intervalo normal e dizer &#8220;est\u00e1 dentro&#8221; ou &#8220;est\u00e1 fora&#8221;. Interpretar um exame \u00e9 saber, primeiro, se ele \u00e9 v\u00e1lido ou n\u00e3o. Para um m\u00e9dico um exame \u00e9 v\u00e1lido quando corrobora (ou ajuda a descartar) uma hip\u00f3tese diagn\u00f3stica. Mas, os clientes do check-up s\u00e3o a <i>null hypothesis, <\/i>pois os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam nenhuma &#8220;teoria&#8221; a respeito deles, j\u00e1 que eles n\u00e3o t\u00eam, em geral, nenhuma queixa. Al\u00e9m disso, o m\u00e9dico tem que valorizar ou n\u00e3o determinados exames; tentar detectar se aquela altera\u00e7\u00e3o \u00e9 um simples achado sem significado cl\u00ednico ou se temos que ir atr\u00e1s daquilo com exames mais espec\u00edficos. Dentre as v\u00e1rias formas de se fazer isso, uma \u00e9 a que encaixa os pacientes em determinados grupos de risco. Encaixar um paciente em um grupo de risco significa que determinado exame, caso resulte positivo, tem um valor maior neste paciente espec\u00edfico que em outros, que n\u00e3o fazem parte desse grupo de risco. Dizemos que o valor preditivo (no caso, o positivo) do exame \u00e9 grande e isso ajuda a discriminar os pacientes. Para encaix\u00e1-los em determinado grupo de risco, eu preciso conversar muito com o paciente. Preciso saber de sua fam\u00edlia, de seus h\u00e1bitos, de seus antecedentes todos. Um exame n\u00e3o ajuda outro exame, eles s\u00e3o vari\u00e1veis independentes. Precisamos &#8220;calibrar&#8221; a pontaria de um exame estimando a probabilidade pr\u00e9-teste. S\u00f3 depois disso, posso valorizar ou n\u00e3o, descartar ou n\u00e3o, determinado exame.<\/p>\n<p>Com todas essas cr\u00edticas, fui questionado pelo meu irm\u00e3o que trabalha no mundo corporativo.: &#8220;Ent\u00e3o t\u00e1, se o check-up n\u00e3o \u00e9 a melhor maneira de estimar esse risco, o que \u00e9 que voc\u00ea sugere colocar em seu lugar?&#8221; Uma pol\u00edtica centrada em um m\u00e9dico da empresa, que conhe\u00e7a seus funcion\u00e1rios na sa\u00fade e n\u00e3o na doen\u00e7a. Um tipo de m\u00e9dico de fam\u00edlia corporativo que possa dosar a pol\u00edtica do &#8220;achador&#8221; e do &#8220;procurador&#8221; e tirar o melhor de cada uma delas. Vai economizar verba, sangue, enche\u00e7\u00e3o, tubos, bi\u00f3psias e procedimentos invasivos desnecess\u00e1rios.<\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=5ccf6b41-312b-8dc7-a060-2df49fccfd6e\" alt=\"\" \/><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos pacientes v\u00e3o ao consult\u00f3rio e dizem &#8220;Dr. gostaria de fazer um check-up!&#8221;. Em geral, dizem isso acompanhado de um &#8220;j\u00e1 tenho 30 e tantos anos e nunca fui a um m\u00e9dico, preciso me cuidar, n\u00e9?&#8221;, esperando aprova\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o positivo. Vou avisando, &#8220;sou contra check-up&#8221;. 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