{"id":539,"date":"2011-01-26T00:19:07","date_gmt":"2011-01-26T03:19:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/01\/inception\/"},"modified":"2011-01-26T00:19:07","modified_gmt":"2011-01-26T03:19:07","slug":"inception","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/01\/26\/inception\/","title":{"rendered":"Inception"},"content":{"rendered":"<p><i>&#8211; TOLOS! &#8211; gritou o velho &#8211; voc\u00eas s\u00e3o crian\u00e7as idiotas.<br \/>\nPerplexos, eles entreolharam-se em meio \u00e0 roda que se formara com as carteiras. O tempo parecia ter parado e a atmosfera podia ser fatiada \u00e0 faca.<br \/>\n&#8211; Qual a raz\u00e3o de algu\u00e9m querer tornar-se cientista? Hein? Me digam. Voc\u00eas se acham superiores \u00e0s pessoas comuns? Voc\u00eas acham que seus c\u00e9rebros treinados em pensamento formal, l\u00f3gica, rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito e o cacete \u00e9 melhor para entender as coisas do mundo da vida do que o de um c\u00e3o vagabundo que sobrevive \u00e0s custas de seu pr\u00f3prio instinto? Pois lhes digo. Conhecimento \u00e9 instinto! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecer sem sentir. Conhecer <b>\u00e9<\/b><\/i><i> sentir. Saber <b>\u00e9<\/b> sentir&#8230;<br \/>\nParou de falar subitamente, olhou para baixo e rodopiou sobre seu sil\u00eancio no c\u00edrculo de carteiras. O barulho de um grafite se fez ouvir e o velho pareceu ter levantado as orelhas como um animal a pressentir uma presa, caminhou lenta e pesadamente e reiniciou, dirigindo sua f\u00faria para a menina que anotava seu desabafo. Desta vez, falava baixo, com um leve sorriso de esc\u00e1rnio.<br \/>\n&#8211; Eu tenho asco da figura mon\u00e1stica do cientista em sua busca asc\u00e9tica pela Verdade &#8211; e continuou, virando-se para o teto &#8211; Ah, o mongezinho em sua sala fria, cheia de vidrinhos e livros, estudando, estudando, esperando a ben\u00e7\u00e3o da Verdade. P\u00c1RA! &#8211; o grito ecoou pela sala. A menina soltou o pequeno bast\u00e3o &#8211; que fez um ponto no caderno e caiu no ch\u00e3o -, vidrada. Os olhos do velho fa\u00edscavam. Sua fisionomia quase sempre cansada e com ar enfastiado parecia ter perdido o peso dos anos e ganhado vigor e excita\u00e7\u00e3o. Os cabelos poucos e brancos em desalinho emolduravam um rosto vincado de rugas, mas que transmitia for\u00e7a. Que for\u00e7a tinha o velho!<br \/>\n&#8211; Esse foi um dos Grandes Erros. Voc\u00ea existe porque <\/i><i><b>sente<\/b> que existe, nada al\u00e9m disso. E sentir \u00e9 <\/i><i><b>muita<\/b> coisa. Sentir \u00e9 <\/i><i><b>a<\/b> coisa. Sentir que sabemos \u00e9 o mais potente dos afetos.<\/i><\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<div align=\"left\">Mar\u00edlia dobrou quase que amassando as p\u00e1ginas copiadas e soprou a franja da testa. Por que deram um texto desse para ler no curso de hist\u00f3ria da m\u00fasica? Jogou os pap\u00e9is em cima do piano e tomou o violoncelo (Incidental. Aparece a frase: &#8220;sentir \u00e9 a coisa&#8221; na p\u00e1gina no piano). A sala estava parcialmente escura e a janela permitia que uma claridade di\u00e1fana lhe contornasse a figura (aproximando). O instrumento entre as pernas, a saia puxada at\u00e9 as coxas (foco), a cabe\u00e7a levemente pendida para esquerda, os cabelos longos jogados para frente. O p\u00e9 esquerdo na ponta fazia o joelho abra\u00e7ar a cintura do violoncelo, delicadamente. Ela &#8220;desceu&#8221; uma escala maior s\u00f3 para aquecer os dedos finos (close). Logo surgiram as primeiras notas, roucas e quentes, do <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WEwr8CFXY2U\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Preludio-Fantasia de Cassad\u00f3<\/a> (corta). D\u00e9lio entrava com o professor de viol\u00e3o e estacou na porta do est\u00fadio com o bra\u00e7o esquerdo na barriga do amigo, a m\u00e3o direita na boca em sinal de sil\u00eancio. (Shhhhh)<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/p>\n<div align=\"left\"><b><b>&#8211; Cara! Esse gibi \u00e9 foda! Eu n\u00e3o t\u00f4 entendendo porra nenhuma! Voc\u00ea falou quer era m\u00f3 bom! &#8211; disse isso e jogou a revista no colo do amigo.<br \/>\n&#8211; Calma, meu! Esse \u00e9 o primeiro. Espera pra ler o resto!<br \/>\n&#8211; Eu ainda gosto mais do Sandeman. Sei l\u00e1, o desenho. Menos texto, mais a\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n&#8211; O desenhista \u00e9 alem\u00e3o. O roteirista um hindu que mora na Nova Zel\u00e2ndia. Voc\u00ea queria o que?<br \/>\n&#8211; Pelo menos a mina \u00e9 gostosa, hehe.<\/b><\/b>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/p>\n<div align=\"left\"><span style=\"font-family: 'Comic Sans MS'\">Arnaldo fechou o notebook sem desligar. Twitosfera. Blogosfera. Redes Sociais. Esses nomes, pessoas e lugares lhe deram, pela primeira vez, uma estranha sensa\u00e7\u00e3o. Uma sensa\u00e7\u00e3o de dissolu\u00e7\u00e3o e irrealidade. &#8220;Esses lugares n\u00e3o existem e eu estou s\u00f3&#8221; &#8211; pensou. Sentiu um tipo de n\u00e1usea entranhando-se. Uma n\u00e1usea metaf\u00edsica, quase um suic\u00eddio. &#8220;\u00c9. O corpo manda.&#8221; &#8211; resmungou. Tomou um sal de frutas, um rem\u00e9dio para dormir (com o divino efeito colateral de provocar amn\u00e9sia anter\u00f3grada) e foi, sem a certeza de que tinha mesmo ido.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=fbcc7e59-e611-8827-ac75-181263a4ba72\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; TOLOS! &#8211; gritou o velho &#8211; voc\u00eas s\u00e3o crian\u00e7as idiotas. Perplexos, eles entreolharam-se em meio \u00e0 roda que se formara com as carteiras. O tempo parecia ter parado e a atmosfera podia ser fatiada \u00e0 faca. &#8211; Qual a raz\u00e3o de algu\u00e9m querer tornar-se cientista? Hein? Me digam. Voc\u00eas se acham superiores \u00e0s pessoas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":466,"featured_media":2775,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[8,26],"tags":[195],"class_list":["post-539","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-velho","tag-origem"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/466"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=539"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/539\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}