{"id":575,"date":"2011-06-24T13:16:42","date_gmt":"2011-06-24T16:16:42","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/06\/evidencia\/"},"modified":"2011-06-24T13:16:42","modified_gmt":"2011-06-24T16:16:42","slug":"evidencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/06\/24\/evidencia\/","title":{"rendered":"Evid\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/miedoalmiedo.com3.tv\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/evidencia.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-589 alignleft\" title=\"\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/06\/evidencia01.png\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/06\/evidencia01.png 357w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/06\/evidencia01-300x282.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/06\/evidencia01-24x24.png 24w\" sizes=\"(max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a>Talvez, essa seja uma das palavras que teve seu significado mais conspurcado na medicina nos \u00faltimos 20 anos. Grande parte dos m\u00e9dicos pouco sabe de sua origem. Aqui, minhas tentativas de apreender o significado de uma palavra-conceito que, de t\u00e3o importante, forjou as rela\u00e7\u00f5es entre a <em><strong> evid\u00eancia<\/strong><\/em> produzida pela ci\u00eancia m\u00e9dica, e os conceitos de <em><strong>verdade<\/strong><\/em>, <em><strong>validade<\/strong><\/em> e <em><strong> confiabilidade<\/strong><\/em>, atributos da realidade sem os quais n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tomar decis\u00f5es. E, como sabemos, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/03\/metafisica_medica_iv_1.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um m\u00e9dico \u00e9 um decididor<\/a>.<\/p>\n<div align=\"center\">~\u00a0 ~\u00a0 ~<\/p>\n<div align=\"left\">Uma vez, perguntaram a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bertrand_Russell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bertrand Russell<\/a>o que ele faria se, ap\u00f3s sua morte, fosse levado \u00e0 presen\u00e7a de Deus e lhe perguntassem porque, durante toda sua vida, n\u00e3o acreditou Nele. O fil\u00f3sofo e matem\u00e1tico ingl\u00eas, ateu de carteirinha, disse que olharia bem de frente para o Criador e diria: &#8220;Sem evid\u00eancias suficientes, Senhor! Sem evid\u00eancias suficientes!!&#8221;A literatura angl\u00f3fona d\u00e1 a palavra <em>evidence<\/em> uma for\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 equivalente a sua correspondente em portugu\u00eas: <em>evid\u00eancia<\/em>. Em ingl\u00eas, a palavra toma rumos quase metaf\u00edsicos e dita o tom da realidade. Qualquer epis\u00f3dio de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/CSI:_Crime_Scene_Investigation\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">CSI<\/a> pode comprovar isso. Basta <em><strong>uma<\/strong><\/em> evid\u00eancia para que o indiv\u00edduo seja incriminado. Em portugu\u00eas, ao menos no Brasil &#8211; e agora escrevo para meus leitores de al\u00e9m-mar que, descobri recentemente, n\u00e3o s\u00e3o poucos &#8211; confundimos <em>evid\u00eancia<\/em> com <em>fato<\/em>. Evid\u00eancia \u00e9 diferente de <em>fato<\/em>. Veja-se por exemplo, ningu\u00e9m fala &#8220;\u00e9 evidente que chove&#8221; ou &#8220;\u00e9 evidente que hoje \u00e9 dia 23&#8221;, a menos que uma pergunta fora de prop\u00f3sito tenha sido feita e a resposta, com um pouco de ironia, tenha o objetivo de demonstrar nossa admira\u00e7\u00e3o ou encerrar a discuss\u00e3o. N\u00e3o que a chuva ou a data de hoje n\u00e3o sejam evidentes, muito pelo contr\u00e1rio, elas o s\u00e3o em demasia. S\u00e3o fatos. E muito f\u00e1ceis de confirmar. Um bom resumo de como a ci\u00eancia utiliza esses termos pode ser encontrado <a href=\"http:\/\/www.formspring.me\/wolfedler\/q\/166609400516089745\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 importante frisar que <em>evid\u00eancia<\/em> \u00e9 uma certa <em><strong>experi\u00eancia<\/strong><\/em> do pensamento e do mundo. S\u00f3 poder\u00e1 ser chamado de evidente um ju\u00edzo acerca de algo atual ou intemporal. A exist\u00eancia simples \u00e9 por demais evidente. Dizemos assim &#8220;\u00e9 evidente que ontem choveu, pois o ch\u00e3o est\u00e1 molhado&#8221;, ou &#8220;\u00e9 evidente que hoje \u00e9 quinta-feira pois ontem foi quarta&#8221;. A evid\u00eancia \u00e9 portanto, uma <em><strong>rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>. Segundo Fernando Gil, a afirma\u00e7\u00e3o &#8220;\u00e9 evidente&#8221; pertence a uma fam\u00edlia de express\u00f5es que traduzem as atitudes do locutor perante o valor de verdade de uma proposi\u00e7\u00e3o. Esse valor de verdade que atribu\u00edmos a algumas afirma\u00e7\u00f5es formam um continuum que vai do <em>evidentemente<\/em>, <em>sem d\u00favida nenhuma<\/em> ao <em>\u00e9 duvidoso<\/em>, <em>estranhamente<\/em>, passando por <em>com certeza<\/em>, <em>aparentemente<\/em>, <em>mais ou menos<\/em>, <em>se \u00e9 que<\/em>, <em>enfim<\/em>, <em>o fato \u00e9 que<\/em>, etc. Esse continuum \u00e9 a expectativa de cren\u00e7a do locutor em determinada afirma\u00e7\u00e3o proferida. <em><strong>O preenchimento de uma expectativa \u00e9 um dos eixos conceituais da evid\u00eancia.<\/strong><\/em> Isso nos leva \u00e0 perspectiva do sujeito sobre o estabelecimento de verdades e capta\u00e7\u00e3o da realidade a partir do objeto e isso, eu sei, cheira bem fenomenologia. Pode-se ent\u00e3o, entender a evid\u00eancia como uma <strong>adequa\u00e7\u00e3o<\/strong> entre expectativa (que n\u00e3o deixa de ser o desejo modificado) e a raz\u00e3o (aqui encarada como um pensamento com qualquer tipo de formaliza\u00e7\u00e3o). &#8220;A satisfa\u00e7\u00e3o da evid\u00eancia adv\u00e9m de uma compreens\u00e3o que n\u00e3o precisa ser aprofundada: reunindo a completude da alegria (<em>satis<\/em> + <em>facere<\/em>) e a clausura de um contentamento (de <em>contineo<\/em>) que \u00e9 tamb\u00e9m <strong>apaziguamento<\/strong> (<em>Befriedigung<\/em>).&#8221;<\/p>\n<p>Apaziguamento vem de paz. Seria esse tipo de <a href=\"http:\/\/letras.terra.com.br\/o-rappa\/28945\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">paz um daqueles que eu n\u00e3o deveria conservar<\/a>?<\/p>\n<div align=\"center\">\n<div align=\"left\"><strong>Consultei<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p>1. Gil, Fernando. <strong>Tratado da Evid\u00eancia<\/strong>. Imprensa Nacional &#8211; Casa da Moeda. Lisboa, 1996.<br \/>\n2. Abbagnano, Nicola. <strong>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/strong>. Verbete &#8220;Evid\u00eancia&#8221;. P\u00e1g 457-458.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=b83914af-a92f-8971-851f-eea2c677d323\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez, essa seja uma das palavras que teve seu significado mais conspurcado na medicina nos \u00faltimos 20 anos. Grande parte dos m\u00e9dicos pouco sabe de sua origem. 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