{"id":577,"date":"2011-08-09T15:07:48","date_gmt":"2011-08-09T18:07:48","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2011\/08\/principio_de_consolacao_secula\/"},"modified":"2011-08-09T15:07:48","modified_gmt":"2011-08-09T18:07:48","slug":"principio_de_consolacao_secula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/08\/09\/principio_de_consolacao_secula\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpio de Consola\u00e7\u00e3o Secular"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.warholstars.org\/chron\/1963.html\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-593 alignleft\" title=\"principio01\" alt=\"\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/08\/principio01.png\" width=\"383\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/08\/principio01.png 383w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/08\/principio01-300x235.png 300w\" sizes=\"(max-width: 383px) 100vw, 383px\" \/><\/a>Considero ter uma defici\u00eancia na pr\u00e1tica m\u00e9dica: n\u00e3o sou muito bom em confortar as pessoas. Acho que vou muito bem quando dou not\u00edcias ruins &#8211; coisa que fa\u00e7o todos os dias h\u00e1 v\u00e1rios anos. Mas tenho dificuldades em consolar pessoas que perderam entes queridos. Confesso tamb\u00e9m, que meu ate\u00edsmo, nestas horas, me atrapalha um pouco. Tendo sempre a considerar que &#8220;tudo foi feito&#8221; e que &#8220;o paciente n\u00e3o sofreu&#8221;, mas \u00e0s vezes, isto n\u00e3o basta: as pessoas querem algo mais. Esse &#8220;algo mais&#8221; \u00e9 muitas vezes um conforto metaf\u00edsico e este, eu n\u00e3o sou capaz de dar. As pr\u00f3prias pessoas \u00e0s vezes verbalizam isto e acabo concordando com acenos benepl\u00e1citos de cabe\u00e7a e sorrisos benevolentes. Outras vezes, parece ser suficiente tirar a culpa das pessoas. Filhos que h\u00e1 muito n\u00e3o viam os pais, esposas(os) separados pelo tempo em cuja rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 embutida a palavra &#8220;abandono&#8221;, mesmo que apenas no inconsciente de cada um. Para estas pessoas, uma frase do tipo &#8220;fique tranquilo(a), voc\u00ea fez tudo que estava ao seu alcance&#8221; tem, em geral, o efeito da <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hiOXrVgHtmo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cena do beijo do Cinema Paradiso:<\/a> a explos\u00e3o em um choro incontido e cat\u00e1rtico que lhes expia a culpa e abre caminho para uma paz de esp\u00edrito&#8230; Digo que gosto de fazer isso. Libertar algu\u00e9m de uma culpa &#8211; seja ela justificada ou n\u00e3o, isto n\u00e3o nos cabe julgar &#8211; \u00e9 sempre algo muito bom de se fazer.<\/p>\n<p>Entretanto, conversando com uma mo\u00e7a muito querida e com um ex-padre (veja s\u00f3), ambos muito fi\u00e9is \u00e0 cren\u00e7a em Deus diga-se de passagem, tive um insight para um <em><strong>princ\u00edpio de consola\u00e7\u00e3o secular<\/strong><\/em> que passo a partilhar com meus leitores. Gostaria de &#8220;testar&#8221; com os senhores(as) antes de us\u00e1-lo com meus pacientes. Obrigado pela compreens\u00e3o.<\/p>\n<div align=\"center\">~\u00a0 ~\u00a0 ~<\/div>\n<p>Pense em uma pessoa. Esta pessoa tem, em voc\u00ea, dois tipos de representa\u00e7\u00f5es principais: uma, quando voc\u00ea est\u00e1 com ela de fato. Voc\u00ea pode v\u00ea-la e toc\u00e1-la. Ouvir sua voz e conversar com ela sobre as mais variadas coisas. Pode partilhar com ela uma s\u00e9rie de sentimentos, bons ou ruins, naquele momento em que voc\u00eas dividem o espa\u00e7o e o tempo, ou seja, convivem, ou t\u00eam uma<em><strong> conviv\u00eancia<\/strong><\/em>. Outra representa\u00e7\u00e3o \u00e9 quando a pessoa est\u00e1 ausente. Esta \u00e9 constitu\u00edda pela mem\u00f3ria mas, n\u00e3o \u00e9 simplesmente mem\u00f3ria de fatos ocorridos. \u00c9 um tipo especial de mem\u00f3ria que vem junto com sentimentos, bons ou ruins. \u00c0 esta f\u00f3rmula mem\u00f3ria + sentimentos podemos dar o nome de <em><strong>viv\u00eancias<\/strong><\/em> (sem o con-, veja que interessante a l\u00edngua portuguesa aqui). As viv\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o simples fatos de nossas vidas. S\u00e3o ocorridos carregados de emo\u00e7\u00e3o que fazem com que nos lembremos de lugares &#8211; viv\u00eancias que tivemos s\u00f3zinhos &#8211; e\/ou situa\u00e7\u00f5es, eventos, aulas, festas, etc &#8211; viv\u00eancias que compartilhamos com pessoas ou com uma pessoa. Se voc\u00ea pensar, vai encontrar pessoas com as quais suas <em>viv\u00eancias<\/em> s\u00e3o mais importantes que a <em>conviv\u00eancia<\/em> que voc\u00ea tem com ela no momento. Incr\u00edvel, n\u00e9? Um indiv\u00edduo faz vibrar seu &#8220;aparelho emocional&#8221; de duas formas diferentes: ou ele est\u00e1 presente, ou n\u00e3o est\u00e1 presente. As emo\u00e7\u00f5es decorrentes dessa intera\u00e7\u00e3o est\u00e3o a\u00ed para serem sentidas e s\u00e3o muito parecidas. A esta sequ\u00eancia emocional causada por aus\u00eancias e presen\u00e7as somadas ao longo do eixo do tempo, alguns chamam de <em><strong>vida<\/strong><\/em>. Pelo menos alguns poetas&#8230;<\/p>\n<p>O que acontece se e quando uma pessoa que a gente gosta morre. Vai embora apenas um dos tipos de representa\u00e7\u00e3o. O outro pode continuar. Ou n\u00e3o. N\u00e3o estou propondo aqui lembrarmos simplesmente dos mortos como forma de consolo. Este tipo de lembran\u00e7a nos faz sofrer e costuma ser chamado de <em><strong>saudade <\/strong><\/em>e de fato, pode mesmo acontecer com quem ainda n\u00e3o morreu. A saudade pode ser entendida como um desejo da presen\u00e7a e, portanto, da <em>conviv\u00eancia<\/em> com a pessoa ausente. Esta impossibilidade racional nos faz sofrer irracionalmente. O exato oposto disto, a proposta seria manter e continuar a criar <em>viv\u00eancias<\/em> com a pessoa ausente de modo a associ\u00e1-la a eventos importantes (e porque n\u00e3o, felizes) permitindo uma lembran\u00e7a futura na qual a representa\u00e7\u00e3o dela estaria vinculada. Reconhece-se a impossibilidade de conviver mas preservam-se as viv\u00eancias.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 quase um di\u00e1logo com essa representa\u00e7\u00e3o em nosso esp\u00edrito e n\u00e3o \u00e9 nenhuma loucura. Crian\u00e7as fazem isso com muita facilidade. Talvez por esta habilidade em lidar com aus\u00eancias preenchendo-as com imagina\u00e7\u00e3o viva de sentimentos, as crian\u00e7as consigam ser felizes por longos per\u00edodos de tempo.<\/p>\n<p>Foto <a href=\"http:\/\/www.warholstars.org\/chron\/1963.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">daqui<\/a>. Greta Garbo e Lew Ayres em <em>The Kiss.<\/em><\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"http:\/\/img.zemanta.com\/pixy.gif?x-id=2de3af8a-36c1-81c4-9d46-0bc337af1c18\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considero ter uma defici\u00eancia na pr\u00e1tica m\u00e9dica: n\u00e3o sou muito bom em confortar as pessoas. Acho que vou muito bem quando dou not\u00edcias ruins &#8211; coisa que fa\u00e7o todos os dias h\u00e1 v\u00e1rios anos. Mas tenho dificuldades em consolar pessoas que perderam entes queridos. Confesso tamb\u00e9m, que meu ate\u00edsmo, nestas horas, me atrapalha um pouco. 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