{"id":834,"date":"2011-09-15T07:34:13","date_gmt":"2011-09-15T10:34:13","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/?p=834"},"modified":"2011-09-15T07:34:13","modified_gmt":"2011-09-15T10:34:13","slug":"dali-e-o-reducionismo-genetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/2011\/09\/15\/dali-e-o-reducionismo-genetico\/","title":{"rendered":"Dali e o Reducionismo Gen\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p>A medicina sofre com as tens\u00f5es da ci\u00eancia m\u00e9dica como sofre uma m\u00e3e com as eternas brigas e discuss\u00f5es de seus filhos.\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/03\/mais-do-conundrum-de-williams\/\">A ci\u00eancia que embasa a medicina pode ser, grosso modo, dividida em seus dom\u00ednios de atua\u00e7\u00e3o: laborat\u00f3rios, pacientes e popula\u00e7\u00f5es<\/a>. As divis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o estanques como se poderia imaginar e h\u00e1, na verdade, uma transi\u00e7\u00e3o progressiva de um dom\u00ednio para o outro com \u00e1reas de sobreposi\u00e7\u00e3o, como mostra a figura abaixo, que n\u00e3o canso de utilizar em aulas, discuss\u00f5es e posts.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-842\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica.jpg\" alt=\"\" width=\"1238\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica.jpg 1238w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica-300x95.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica-1024x326.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica-768x244.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Estrutura-Ciencia-Medica-1080x344.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1238px) 100vw, 1238px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Acredito que medicina vive hoje sob o jugo dos <em>estudos populacionais<\/em> por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es que n\u00e3o v\u00eam ao caso agora (para ler mais, veja <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2009\/08\/as_certezas_medicas\/\">Certezas M\u00e9dicas<\/a>, e a s\u00e9rie sobre o <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2008\/09\/o-paradigma-do-risco\/\">Risco<\/a>) e isso tamb\u00e9m tem l\u00e1 seus efeitos colaterais. Mas, o segundo lugar \u00e9 que est\u00e1 uma briga de foice. Os estudos focados em <em>laborat\u00f3rios<\/em>\u00a0(experimental) e <em>pacientes<\/em>\u00a0(investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica) t\u00eam se engalfinhado em tentar mostrar quem trouxe mais contribui\u00e7\u00f5es para a ci\u00eancia m\u00e9dica. Nos \u00faltimos anos, os estudos experimentais\u00a0t\u00eam ganho de goleada. Ag\u00eancias fomentadoras t\u00eam diminu\u00eddo verbas para pesquisas em fisiologia humana que, ali\u00e1s, tem sido chamada pejorativamente de <em>Paleo-fisiologia,<\/em> em detrimento \u00e0 Biologia Molecular. Ao redor do mundo, departamentos de fisiologia foram trocando de nome, os velhos professores de fisiologia foram se aposentando e dando lugar a pesquisadores cada vez mais voltados para a revolu\u00e7\u00e3o dos &#8220;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Omics\">Omics<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p>Os fisiologistas resmungam. Taxam os bi\u00f3logos moleculares de <em>reducionistas<\/em> e de, por isso, perderem a no\u00e7\u00e3o do todo. Na edi\u00e7\u00e3o de setembro do <a href=\"http:\/\/jap.physiology.org\/content\/current\">Journal Applied Physiology<\/a>, uma das cartilhas ideol\u00f3gicas dos fisiologistas, um artigo interessante foi publicado [1] (e me foi rapidamente enviado por um amigo que sabe que eu gosto do assunto). O autor come\u00e7a dizendo que o reducionismo, com os v\u00e1rios sabores da biologia molecular, falhou em possibilitar a t\u00e3o prometida revolu\u00e7\u00e3o na medicina cl\u00ednica. A assim chamada &#8220;ortopedia biomolecular&#8221; &#8211; doen\u00e7a =&gt; gene defeituoso =&gt; conserta o gene =&gt; cura a doen\u00e7a &#8211; n\u00e3o teve o sucesso previsto. Atribui isso ao desprezo da biologia molecular \u00e0 regula\u00e7\u00e3o e \u00e0\u00a0<em>homeostase<\/em>.<\/p>\n<p>A fisiologia, como toda ci\u00eancia decente, tem sua metaf\u00edsica. Ela se chama homeostase. Homeostase \u00e9 um conceito dif\u00edcil de captar (como todo conceito metaf\u00edsico) e \u00e9 preciso adquiri-lo no escuro. De posse dele, o mundo maravilhoso da fisiologia se abre para voc\u00ea. Em 1865 Claude Bernard escreveu na &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Medicina Experimental&#8221; &#8211; livro que funda a ci\u00eancia m\u00e9dica do s\u00e9culo XX &#8211; que a\u00a0&#8220;const\u00e2ncia <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Milieu_int\u00e9rieur\">milieu int\u00e9rieur<\/a>\u00a0<\/em>era uma condi\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 vida livre&#8221;. Mas\u00a0a palavra-conceito ainda n\u00e3o existia. Coube ao fisiologista americano <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Walter_Bradford_Cannon\">Walter Cannon<\/a> num <a href=\"http:\/\/www.uni-due.de\/~bj0063\/doc\/Cannon.pdf\">artigo do Physiological Review <\/a>de julho de 1929, impressionado com a &#8220;sabedoria do corpo&#8221; (t\u00edtulo de um livro seu publicado anos depois, veja se n\u00e3o \u00e9 metaf\u00edsico isso!), cunhar a palavra\u00a0<em>homeostase <\/em>a partir de radicais gregos, significando &#8220;permanecer o mesmo&#8221;. Tendo uma origem assim, t\u00e3o nobre e fundacional, n\u00e3o era de se estranhar uma legi\u00e3o de seguidores e adoradores. Em que pese a quase &#8220;sacrossantidade&#8221; do termo, a homeostase rendeu (e rende ainda!) importantes desdobramentos cient\u00edficos pois, com ela, elucidaram-se uma mir\u00edade infind\u00e1vel de mecanismos reguladores do funcionamento dos organismos vivos, tantos e com tal sucesso, que a fisiologia sentiu-se poderosa o suficiente para permitir-se <em>teleologizar<\/em>. Mas isso \u00e9 uma hist\u00f3ria que conto outro dia.<\/p>\n<p>O autor do artigo em quest\u00e3o, ap\u00f3s citar v\u00e1rios exemplos onde conceitos fisiol\u00f3gicos levaram a conclus\u00f5es contraintuitivas e a modelos bastante frut\u00edferos, argumenta ao final se biologia molecular e fisiologia n\u00e3o poderiam funcionar como instrumentos um do outro. Conclui afirmando que a biologia molecular n\u00e3o quer ou n\u00e3o pode executar essa ideia, mas que \u00e0 fisiologia<em>\u00a0(&#8230;) it is possible\u00a0to incorporate reductionist tools in a physiological context to gain broader biomedical insights,<\/em> indicando uma poss\u00edvel superioridade de uma abordagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra.<\/p>\n<p>A medicina \u00e9, por natureza, integrativa. Uma m\u00e1xima conhecida (e implantada tal qual um chip em nossos c\u00e9rebros) \u00e9 a de sempre tentar atribuir a sintomatologia de um paciente a <em>apenas<\/em> uma doen\u00e7a. Um tipo de navalha de Ockham hipocr\u00e1tica. Isso, necessariamente, implica uma interrela\u00e7\u00e3o entre org\u00e3os e fun\u00e7\u00f5es, em especial nas doen\u00e7as sist\u00eamicas. O agrupamento de sintomas concorrentes em sindromes levou \u00e0 descoberta de v\u00e1rios mecanismos fisiopatol\u00f3gicos \u00fanicos. H\u00e1 doen\u00e7as nas quais a abordagem fisiol\u00f3gica \u00e9 imprescind\u00edvel. Exemplos, Sindrome do Desconforto Respirat\u00f3rio Agudo (SDRA), a via final comum de uma s\u00e9rie de insultos que terminam em les\u00e3o pulmonar grave. H\u00e1 outras, entretanto, que s\u00f3 descobrimos com abordagens epidemiol\u00f3gicas e aqui se incluem os fatores de risco, entre eles a hipertens\u00e3o e o tabagismo, como causadores de problemas. Por muitos anos, a terapia de reposi\u00e7\u00e3o hormonal em mulheres p\u00f3s-menopausadas foi recomendada por &#8220;fazer sentido&#8221; biologicamente. Estudos populacionais mostraram que, contraintuitivamente, ela acabava fazendo mais mal que bem da forma como estava sendo prescrita.<\/p>\n<p>Defeitos nos genes n\u00e3o s\u00e3o doen\u00e7as. Em geral, ocorre o contr\u00e1rio. Temos a doen\u00e7a e vamos atr\u00e1s de uma causa gen\u00e9tica. Em muitas encontramos os defeitos donde surgiu, ent\u00e3o, a promessa de consert\u00e1-los para curar as doen\u00e7as e que acabou n\u00e3o se cumprindo. O artigo foi publicado nas v\u00e1rias revistas\u00a0da American Physiological Society ao mesmo tempo e \u00e9 acompanhado de um editorial [2]. Nele, os autores refor\u00e7am o papel &#8220;translacional&#8221; (como traduzir isso?) da fisiologia. Esta, por sua vez, seria a forma essencial de haurir dos genes algo que fizesse sentido em medicina cl\u00ednica. Eu ainda acho que genes podem contar uma <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/10\/visita_de_medico\/\">hist\u00f3ria evolutiva<\/a> da nossa esp\u00e9cie que seria &#8211; e vem sendo &#8211; muito importante para a medicina. De qualquer forma, concordo que o pensamento reducionista, ao menos na medicina, n\u00e3o se basta. \u00c9 preciso pensar num todo funcionante, com o risco de, em caso contr\u00e1rio, transformarmos os pacientes nos homens-gaveta de Dali.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/09\/Antropomorphic-cabinet.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-856\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/files\/2011\/09\/Antropomorphic-cabinet.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Antropomorphic-cabinet.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/eccemedicus\/wp-content\/uploads\/sites\/247\/2011\/09\/Antropomorphic-cabinet-300x168.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>[1] Joyner, M. (2011). Giant sucking sound: can physiology fill the intellectual void left by the reductionists? <span style=\"font-style: italic\">Journal of Applied Physiology, 111<\/span> (2), 335-342 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1152\/japplphysiol.00565.2011\" rev=\"review\">10.1152\/japplphysiol.00565.2011<\/a><\/p>\n<p>[2] Peter D. Wagner and David J. Paterson. Am J Physiol Heart Circ Physiol, September , 2011; 301 (3): H627-H628.\u00a0Published online before print\u00a0July 2011, doi:\u00a0<a href=\"http:\/\/ajpheart.physiology.org\/content\/301\/3\/H627.full\">10.\u200b1152\/\u200bajpheart.\u200b00649.\u200b2011<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A medicina sofre com as tens\u00f5es da ci\u00eancia m\u00e9dica como sofre uma m\u00e3e com as eternas brigas e discuss\u00f5es de seus filhos.\u00a0A ci\u00eancia que embasa a medicina pode ser, grosso modo, dividida em seus dom\u00ednios de atua\u00e7\u00e3o: laborat\u00f3rios, pacientes e popula\u00e7\u00f5es. 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