{"id":1309,"date":"2013-11-27T09:15:35","date_gmt":"2013-11-27T11:15:35","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/ecodesenvolvimento\/?p=1309"},"modified":"2013-11-27T09:15:35","modified_gmt":"2013-11-27T11:15:35","slug":"gas-x-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ecodesenvolvimento\/2013\/11\/27\/gas-x-agua\/","title":{"rendered":"G\u00e1s x \u00c1gua"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Como ge\u00f3loga, tenho verdadeira admira\u00e7\u00e3o pelo Aqu\u00edfero Guarani. Essa esponja rochosa subterr\u00e2nea garante n\u00e3o apenas que v\u00e1rias cidades sejam abastecidas da melhor \u00e1gua do Brasil, como tamb\u00e9m &#8212; e, talvez, principalmente &#8212; assegura a qualidade do chope fabricado em Ribeir\u00e3o Preto e provavelmente a famosa cerveja Brahma de Agudos (mas os mestres cervejeiros dizem que isso n\u00e3o \u00e9 verdade). Mas pelo menos os ge\u00f3logos meus amigos que frequentam o famoso bar Pinguim em busca daquela maravilha gelada, cremosa e bem tirada deveriam sempre fazer seu primeiro brinde ao arenito Botucatu, que estoca toda aquela \u00e1gua para eles. Se bem que os hidroge\u00f3logos do interior de S\u00e3o Paulo devem fazer isso j\u00e1 que esse aqu\u00edfero garante o emprego da maioria deles!<\/p>\n<p align=\"justify\">As pessoas que vivem em boa parte do interior de S\u00e3o Paulo, e outras no Centro-Sul do Brasil, talvez marchassem furiosas com tulipas quebradas na m\u00e3o sobre a Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo se soubessem o que o futuro pr\u00f3ximo pode reservar \u00e0s rochas do Aqu\u00edfero Guarani. Sem muito debate p\u00fablico e sem muita cobertura da imprensa, a ANP quer permitir a explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural em dep\u00f3sitos n\u00e3o convencionais na bacia sedimentar do Paran\u00e1 no oeste do Estado hom\u00f4nimo, que abriga parte do aqu\u00edfero. A t\u00e9cnica a ser usada \u00e9 o fraturamento hidr\u00e1ulico, ou &#8220;fracking&#8221;. Isso pode significar contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Guarani.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma audi\u00eancia p\u00fablica foi realizada sobre o tema na semana passada, j\u00e1 \u00e0s portas da 12a Rodada de Licita\u00e7\u00f5es, que acontece nos dias 28 e 29 deste m\u00eas e que conceder\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.anp.gov.br\/?pg=68858&amp;m=&amp;t1=&amp;t2=&amp;t3=&amp;t4=&amp;ar=&amp;ps=&amp;cachebust=1385426030151\">240 blocos de g\u00e1s em 12 Estados<\/a>. A audi\u00eancia discutiu uma <a href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=4&amp;ved=0CD8QFjAD&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.anp.gov.br%2F%3Fdw%3D68414&amp;ei=DuyTUoW7EMyskAfV_YDIBg&amp;usg=AFQjCNG2RIKCM_ECPGJR4BB1gvfJq6phqQ\">minuta de resolu\u00e7\u00e3o da ANP<\/a> estabelecendo regras para o uso do fracking para salvaguardar os recursos h\u00eddricos na explora\u00e7\u00e3o desses reservat\u00f3rios n\u00e3o convencionais. ONGs como o Instituto Socioambiental manifestaram sua oposi\u00e7\u00e3o ao movimento, pedindo <a href=\"http:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/blog\/pdfs\/nota_xisto_isa.pdf\">morat\u00f3ria ao fracking<\/a> no Brasil.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como tudo mais que envolve energia neste pa\u00eds, a 12a Rodada acontece sem que as decis\u00f5es importantes tenham sido amadurecidas ou debatidas com a sociedade pela energocracia estatal, e sem que ningu\u00e9m al\u00e9m de meia-d\u00fazia de engenheiros do governo e o pessoal da ind\u00fastria tenha muita informa\u00e7\u00e3o sobre riscos e benef\u00edcios. Como resultado, a discuss\u00e3o vira um fla-flu no qual os ambientalistas s\u00e3o acusados de ignor\u00e2ncia, luddismo ou sectarismo s\u00f3 por quererem um aprofundamento nas informa\u00e7\u00f5es que \u00e9 incompat\u00edvel com os calend\u00e1rios de licenciamento fixados por esses mesmos engenheiros do governo. Os ambientalistas e o Minist\u00e9rio P\u00fablico, por sua vez, podem de fato exagerar na rea\u00e7\u00e3o. Todos perdem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para entender o que est\u00e1 em jogo, \u00e9 preciso entender primeiro what the frack s\u00e3o esses dep\u00f3sitos n\u00e3o convencionais. Vamos l\u00e1:<\/p>\n<p align=\"justify\">O g\u00e1s natural (CH4) normalmente ocorre em bols\u00f5es em carbonatos, um tipo de rocha sedimentar. Como o petr\u00f3leo, ele \u00e9 formado por coisas mortas cozidas durante milh\u00f5es de anos em condi\u00e7\u00f5es ideiais de press\u00e3o e temperatura no fundo da terra. Ai, o g\u00e1s migra para os carbonatos que s\u00e3o rochas bastante porosas, at\u00e9 que algu\u00e9m d\u00ea a sorte de fur\u00e1-los. Algumas dessas rochas s\u00e3o t\u00e3o grandes e porosas que produzem g\u00e1s por d\u00e9cadas. \u00c9 assim no Qatar, na R\u00fassia, no Mar do Norte e na nossa vizinha Bol\u00edvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Acontece que existem outros tipos de rocha sedimentar nos quais a decomposi\u00e7\u00e3o de coisas mortas produziu g\u00e1s e petr\u00f3leo. Um deles \u00e9 o folhelho, que os anglo-sax\u00f5es chamam de &#8220;shale&#8221; ou &#8220;mudstone&#8221;, exatamente pelo fato de ser formado por lama rica em mat\u00e9ria org\u00e2nica depositada continuamente em fundos de rios ou lagos. Desde o s\u00e9culo 19 os ge\u00f3logos sabem que muitos folhelhos cont\u00eam hidrocarbonetos. Como o folhelho tamb\u00e9m \u00e9 um dos tipos mais comuns de rocha sedimentar, v\u00e1rios pa\u00edses do mundo est\u00e3o montados em v\u00e1rias Ar\u00e1bias Sauditas em \u00f3leo e g\u00e1s de folhelho (assim como a bacia sedimentar do Paran\u00e1). Isso se algu\u00e9m pelo menos conseguisse extra\u00ed-los: em vez de acumular-se em bols\u00f5es gigantes, os preciosos hidrocarbonetos do folhelho, o &#8220;shale oil&#8221; e o &#8220;shale gas&#8221;, ficam presos em fendinhas min\u00fasculas na rocha. Sempre foram, por isso, economicamente invi\u00e1veis. Alguns deles at\u00e9 tem cheiro de \u00f3leo, folhelhos s\u00e3o na verdade petr\u00f3leo que passou do ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em 1999, um persistente ge\u00f3logo americano chamado George Mitchell descobriu o segredo do folhelho e fez os dep\u00f3sitos dessa rocha falarem. Ele uniu duas t\u00e9cnicas, o fraturamento hidr\u00e1ulico de alto volume (o tal &#8220;fracking&#8221;) e a perfura\u00e7\u00e3o de longos po\u00e7os horizontais, para arrancar o g\u00e1s na porrada. A receita \u00e9 mais ou menos simples: primeiro, perfura-se o po\u00e7o vertical at\u00e9 atingir a camada de folhelho com g\u00e1s. Depois, perfura-se horizontalmente, ao longo da rocha, t\u00faneis que chegam a quil\u00f4metros de comprimento. A\u00ed vem a m\u00e1gica: injeta-se no po\u00e7o, a alt\u00edssima press\u00e3o, uma mistura de 1 milh\u00e3o de litros d&#8217;\u00e1gua, areia e um coquetel de qu\u00edmicos surfactantes. Essa sopa quebra toda a rocha ao longo do po\u00e7o, permitindo que o g\u00e1s aprisionado nas fendas vaze no sentido da menor press\u00e3o &#8211; para dentro do po\u00e7o e para fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">O &#8220;fracking&#8221; come\u00e7ou a ser usado em larga escala nos folhelhos da forma\u00e7\u00e3o Marcellus, no nordeste dos Estados Unidos, em 2004. A t\u00e9cnica fez tanto sucesso que o pre\u00e7o do g\u00e1s caiu nos EUA de US$ 14 o milh\u00e3o de BTUs em 2005 para US$ 1,90 em 2011. A Pensilv\u00e2nia tornou-se um dos maiores produtores de g\u00e1s do planeta. Hoje os americanos preparam-se para exportar g\u00e1s natural. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: o fracking vem sendo aplicado com sucesso a folhelhos que cont\u00eam \u00f3leo tamb\u00e9m. No ano passado, a Ag\u00eancia Internacional de Energia afirmou que o shale oil transformar\u00e1 os EUA no maior produtor de petr\u00f3leo do mundo em 2035. De quebra, os EUA reduziram sua depend\u00eancia de carv\u00e3o e suas emiss\u00f5es de CO2 ca\u00edram em 2011 pela primeira vez desde os anos 1990. O panorama energ\u00e9tico global foi transformado pela teimosia de George Mitchell.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas \u00e9 claro que n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis. A maior por\u00e7\u00e3o do folhelho Marcellus fica no interior do Estado de Nova York, cont\u00edguo \u00e0 Pensilv\u00e2nia. Tamb\u00e9m ali ficam as montanhas Catskills, que abrigam os mananciais que abastecem a cidade de Nova York. O governo de Nova York imp\u00f4s, em nome da sua \u00e1gua, uma morat\u00f3ria \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de shale gas no Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas as coisas n\u00e3o param por a\u00ed: no fim da d\u00e9cada passada, um caso de contamina\u00e7\u00e3o grave aconteceu no distrito de Dimock, na Pensilv\u00e2nia, onde po\u00e7os artesianos explodiram, torneiras abertas pegaram fogo e alguns residentes perderam suas casas, j\u00e1 que sua \u00e1gua ficou imprest\u00e1vel. Isso porque, no meio do caminho entre o folhelho e a cabe\u00e7a dos po\u00e7os, havia um len\u00e7ol fre\u00e1tico. Um trabalho nas coxas de perfura\u00e7\u00e3o fez com que o mix de qu\u00edmicos, \u00e1gua e g\u00e1s metano vazasse para dentro do aqu\u00edfero. A hist\u00f3ria \u00e9 contada no belo livro <em>Under the Surface<\/em>, do jornalista americano Tom Wilber, e no document\u00e1rio <em>Gasland<\/em>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um conhecido esteve em Dimock no ano passado e conversou com alguns moradores. A maioria n\u00e3o foi afetada pelo vazamento, ganha royalties pelos po\u00e7os em sua propriedade e o impacto visual \u00e9 francamente pequeno. O pessoal est\u00e1 bastante satisfeito. Claro, h\u00e1 v\u00e1rios estudos mostrando que o impacto do shale gas sobre o clima no curto prazo pode ser mais grave que o do carv\u00e3o, mas hoje em dia ningu\u00e9m est\u00e1 nem a\u00ed para esses detalhes, certo? O que o Brasil est\u00e1 esperando, ent\u00e3o? Provavelmente foi esse o racioc\u00ednio da ANP.<\/p>\n<p align=\"justify\">A figura abaixo mostra qual \u00e9 o problema. Ela \u00e9 meio arcana, mas acho que d\u00e1 para entender: trata-se de uma estratigrafia da bacia sedimentar do Paran\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/files\/2013\/11\/BaciaParanPETROBRS.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"BaciaParanPETROBRS\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/files\/2013\/11\/BaciaParanPETROBRS-620x807.jpg\" width=\"620\" height=\"807\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 quase 300 milh\u00f5es de anos, grande parte da regi\u00e3o que hoje vai da Argentina e Uruguai ao Mato Grosso e Goi\u00e1s estava tomada por mares rasos cheios de lama. O fundo desses mares viraram o folhelho Irati, a camadinha fininha de rocha que voc\u00ea v\u00ea na segunda coluna de &#8220;litoestratigrafia&#8221;. Segundo Alexandre Szklo, da Coppe-URFJ, os folhelhos da bacia do Paran\u00e1 podem conter 60 vezes mais g\u00e1s do que todas as reservas brasileiras conhecidas hoje. Ali\u00e1s, meus primeiros reconhecimentos geol\u00f3gicos aconteceram nessa forma\u00e7\u00e3o, a primeira vez que eu vi um folhelho na vida foi o Irati!<\/p>\n<figure style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ecodesenvolvimento\/wp-content\/uploads\/sites\/241\/2013\/11\/046.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"padding-top: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border: 0px\" title=\"\" alt=\"046\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ecodesenvolvimento\/wp-content\/uploads\/sites\/241\/2013\/11\/046_thumb.jpg\" width=\"497\" height=\"281\" border=\"0\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Forma\u00e7\u00e3o Irati. As partes escuras s\u00e3o o famoso folhelho. Foto: Alexandre Perinotto.<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"justify\">No Jur\u00e1ssico, h\u00e1 160 milh\u00f5es de anos, toda aquela regi\u00e3o virou um grande deserto. Isso explica por que n\u00e3o temos quase nenhum f\u00f3ssil de dinossauro daquela \u00e9poca no Brasil. E explica tamb\u00e9m o aqu\u00edfero Guarani, formado pelas rochas porosas do arenito Botucatu, remanescentes daquele deserto. Na maioria dos locais, para chegar aos 70 metros do Irati \u00e9 preciso furar atrav\u00e9s dos 450 metros do Botucatu. \u00c9 f\u00e1cil imaginar problemas no caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um amigo ge\u00f3logo especialista na bacia do Paran\u00e1 me diz que n\u00e3o h\u00e1 problemas ambientais, necessariamente. Ele lembra, por exemplo, que a Petrobras explora h\u00e1 anos no sul do Paran\u00e1 o petr\u00f3leo do folhelho Irati, o tal &#8220;oil shale&#8221; (n\u00e3o confundir com &#8220;shale oil&#8221;), no qual a rocha \u00e9 mo\u00edda e cozida at\u00e9 separar o hidrocarboneto. Naquela regi\u00e3o, por\u00e9m, o folhelho est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da superf\u00edcie e o que acontece l\u00e1 nada tem a ver com o fracking e sim uma minera\u00e7\u00e3o desses folhelhos. \u00c9 assim nos blocos concedidos no oeste paranaense? Provavelmente n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 um caso complexo de decis\u00e3o, que faz invocar o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o, sempre desprezado pela ind\u00fastria e algumas vezes abusado pelo ambientalismo e pelos minist\u00e9rios p\u00fablicos da vida. A probabilidade de dano pode ser m\u00ednima, mas o impacto seria t\u00e3o grave que \u00e9 caso de parar para discutir. Para o Brasil, o pior cen\u00e1rio seria ter Dimock em propor\u00e7\u00f5es continentais sem gozar da bonan\u00e7a econ\u00f4mica do g\u00e1s. No Brasil, o pior cen\u00e1rio \u00e9 o que costuma acontecer. N\u00e3o acho que o pa\u00eds possa ou deva dizer n\u00e3o ao fracking, mas um pouco mais de estudos, precau\u00e7\u00e3o e canja de galinha n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m. E de verdade, entre g\u00e1s e \u00e1gua eu sempre vou ficar com a \u00e1gua por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Pra mim n\u00e3o faz sentido vender g\u00e1s para comprar \u00e1gua limpa importada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como ge\u00f3loga, tenho verdadeira admira\u00e7\u00e3o pelo Aqu\u00edfero Guarani. 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