{"id":424,"date":"2010-05-06T20:13:46","date_gmt":"2010-05-06T23:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/ecodesenvolvimento\/2010\/05\/esquea_os_banhos_curtos\/"},"modified":"2010-05-06T20:13:46","modified_gmt":"2010-05-06T23:13:46","slug":"esquea_os_banhos_curtos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ecodesenvolvimento\/2010\/05\/06\/esquea_os_banhos_curtos\/","title":{"rendered":"Esque\u00e7a os banhos curtos"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">O \u00fanico pecado do texto abaixo s\u00e3o os exemplos americanos, que muitas vezes n\u00e3o se encaixam na nossa realidade brasileira, mas de resto n\u00e3o tem como n\u00e3o concordar com que ele fala. Pode parecer radical demais em alguns pontos, at\u00e9 mesmo pessimista, mas \u00e9 a mais pura verdade, acreditar que s\u00f3 fazer a nossa parte \u00e9 o suficiente para revolucionar o mundo \u00e9 muito pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aqui no blog cito muito exemplos de empresas porque acho que s\u00e3o elas que tem que mudar independentemente da decis\u00e3o de compra do consumidor, afinal, antes de mais nada antes de ser consumidor qualquer pessoa \u00e9 um cidad\u00e3o que quer ver as coisas certas sendo feitas no mundo em que vive. Claro que o governo pode e deve ajudar, mas como parece que eles n\u00e3o se preocupam muito com esse assunto (vide COP-15) a press\u00e3o tem que acontecer dos cidad\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jogar toda a responsabilidade de salvar o mundo no colo das pessoas \u00e9 muito f\u00e1cil, mas a pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: quem realmente quer mudar?<\/p>\n<p align=\"justify\">Segue o texto com tradu\u00e7\u00e3o livre minha.<\/p>\n<p> <strong>Esque\u00e7a os banhos curtos   <br \/><\/strong><em>Por que mudan\u00e7as pessoais n\u00e3o s\u00e3o iguais a mudan\u00e7as pol\u00edticas.   <br \/><\/em>  <\/p>\n<p align=\"justify\">&#160;<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/demenciano\/280171857\/\"><img decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px;border-top: 0px;float: none;margin-left: auto;border-left: 0px;margin-right: auto;border-bottom: 0px\" height=\"244\" alt=\"banho\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ecodesenvolvimento\/wp-content\/uploads\/sites\/241\/2011\/08\/banho1.jpg\" width=\"163\" border=\"0\" \/><\/a> <\/p>\n<p align=\"justify\">&#160;<\/p>\n<p align=\"justify\">Por Derrick Jensen   <br \/>Algu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia acharia que um catador de lixo pararia Hitler, ou que compostagem acabaria com a escravid\u00e3o ou traria a jornada de 8 horas de trabalho, ou que cortar lenha ou carregar \u00e1gua tiraria as pessoas das pris\u00f5es czaristas, ou que dan\u00e7ando nuas em torno de um fogo teria ajudado a p\u00f4r em pr\u00e1tica o Ato de Direito ao Voto de 1957 ou o Ato de Direitos Civis de 1964? Ent\u00e3o, por que agora, com todo o mundo em jogo, achamos que podemos salvar o mundo com solu\u00e7\u00f5es pessoais?<\/p>\n<p align=\"justify\">Parte do problema \u00e9 que temos sido v\u00edtimas de uma campanha sistem\u00e1tica de desorienta\u00e7\u00e3o. A cultura do consumo e da mentalidade capitalista que nos ensinou a substituir os atos de consumo pessoal por resist\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica organizada. O filme &quot;Uma Verdade Inconveniente&quot; ajudou a criar uma consci\u00eancia sobre o aquecimento global. Mas voc\u00ea notou que todas as solu\u00e7\u00f5es apresentadas s\u00e3o relacionadas com consumo pessoal &#8211; trocando l\u00e2mpadas, calibrando pneus, dirigindo menos &#8211; e n\u00e3o tinha nada a ver com diminuir o poder das empresas, ou interromper o crescimento da economia que est\u00e1 destruindo o planeta? Mesmo que cada pessoa nos Estados Unidos fizesse tudo que o filme sugere, as emiss\u00f5es de carbono nos EUA teriam uma redu\u00e7\u00e3o de apenas 22%. O consenso cient\u00edfico \u00e9 que as emiss\u00f5es devem ser reduzidas, em todo o mundo, pelo menos em 75%.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ou vamos falar da \u00e1gua. N\u00f3s ouvimos tantas vezes que o mundo est\u00e1 ficando sem \u00e1gua. Pessoas est\u00e3o morrendo de falta de \u00e1gua. Os rios est\u00e3o acabando por falta de \u00e1gua. Devido a isso, precisamos tomar banhos mais curtos. V\u00ea a desconex\u00e3o? Por tomar banho sou respons\u00e1vel por secar aqu\u00edferos? Bem, na verdade n\u00e3o. Mais de 90% da \u00e1gua usada pelos seres humanos \u00e9 utilizada pela agricultura e ind\u00fastria. Os restantes 10% s\u00e3o divididos entre os munic\u00edpios e a vida dos seres humanos individuais. Coletivamente, os campos de golfe usam tanta \u00e1gua quanto os munic\u00edpios. Pessoas (tanto as pessoas humanas e os peixes) n\u00e3o est\u00e3o morrendo porque o mundo est\u00e1 ficando sem \u00e1gua. Eles est\u00e3o morrendo porque a \u00e1gua \u00e9 que est\u00e1 sendo roubada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ou vamos falar de energia. Kirkpatrick Sale resumiu bem: &quot;Nos \u00faltimos 15 anos a hist\u00f3ria foi a mesma a cada ano: o consumo individual residencial, carro particular, e assim por diante, nada mais \u00e9 do que cerca de um quarto de todo o consumo, a grande maioria \u00e9 comercial, industrial, empresarial, agroneg\u00f3cio e governo [ele esqueceu militares]. Por isso, mesmo se todos n\u00f3s and\u00e1ssemos de bicicleta e tiv\u00e9ssemos fog\u00f5es \u00e0 lenha o impacto seria pouco significativo sobre o consumo de energia, aquecimento global e polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica.&quot;<\/p>\n<p align=\"justify\">Ou vamos falar de res\u00edduos. Em 2005, a produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos per capita municipal (basicamente tudo o que \u00e9 posto para fora na cal\u00e7ada), nos EUA, foi de cerca de 753 kg. Vamos dizer que voc\u00ea \u00e9 um ativista radical de vida simples e reduz seu res\u00edduo a zero. Recicla tudo. Voc\u00ea usa sacolas de pano. Voc\u00ea conserta a torradeira. Seus dedos saem pra fora do seu t\u00eanis velho. Isso n\u00e3o \u00e9 o suficiente, apesar de tudo. Uma vez que os res\u00edduos urbanos n\u00e3o incluem apenas os res\u00edduos residenciais, mas tamb\u00e9m res\u00edduos de escrit\u00f3rios do governo e das empresas. A\u00ed voc\u00ea marcha para os escrit\u00f3rios, panfleta redu\u00e7\u00e3o de res\u00edduos e convenc\u00ea-os a reduzir seus res\u00edduos o suficiente para eliminar a sua parte dela. Ent\u00e3o, eu tenho uma m\u00e1 not\u00edcia. Os res\u00edduos municipais s\u00e3o apenas 3% da produ\u00e7\u00e3o total de res\u00edduos nos Estados Unidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu quero ser claro. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o devemos viver de uma maneira mais simples. Eu vivo razoavelmente simples, mas eu n\u00e3o finjo que n\u00e3o comprar muito (ou n\u00e3o dirigir muito, ou n\u00e3o ter filhos) \u00e9 um ato pol\u00edtico poderoso, ou que \u00e9 profundamente revolucion\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9. Mudan\u00e7a pessoal n\u00e3o \u00e9 igual a uma mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o como, com o mundo em jogo, viemos a aceitar estas respostas absolutamente insuficientes? Acho que parte disso \u00e9 que estamos em uma encruzilhada. Uma encruzilhada \u00e9 o lugar onde voc\u00ea tem v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o importa qual op\u00e7\u00e3o voc\u00ea escolha, voc\u00ea perde e bater em retirada n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. Neste ponto deve ser muito f\u00e1cil reconhecer que cada a\u00e7\u00e3o que envolve a economia industrial \u00e9 destrutiva (e n\u00e3o devemos fingir que a energia solar fotovoltaica, por exemplo, nos isenta disso: eles ainda necessitam de minera\u00e7\u00e3o e infra-estruturas de transporte em todos os pontos e processos de produ\u00e7\u00e3o, o mesmo se pode dizer de todas as outras chamadas tecnologias verdes). Ent\u00e3o, se n\u00f3s escolhermos a op\u00e7\u00e3o um -&#160; participar avidamente da economia industrial &#8211; acho que poderemos, no curto prazo, ganhar, porque podemos acumular riqueza, o marco de &quot;sucesso&quot; nesta cultura. Mas perderemos, porque ao faz\u00ea-lo desistimos de nossa empatia, nossa humanidade. E n\u00f3s realmente perderemos, porque a civiliza\u00e7\u00e3o industrial est\u00e1 matando o planeta, o que significa que todos perdem. Se n\u00f3s escolhermos a op\u00e7\u00e3o &quot;alternativa de vida mais simples&quot;, causando menos danos, mas ainda n\u00e3o evitando a economia industrial de matar o planeta, podemos, a curto prazo ganharmos, porque n\u00f3s come\u00e7amos a nos sentir puros, e n\u00e3o teremos que desistir de toda a nossa empatia (apenas o suficiente para justificar n\u00e3o interromper os horrores), mas mais uma vez n\u00f3s realmente perderemos, porque a civiliza\u00e7\u00e3o industrial ainda est\u00e1 matando o planeta, o que significa que todos perdem. A terceira op\u00e7\u00e3o, atuando de forma decisiva para impedir a economia industrial, \u00e9 muito assustadora por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, incluindo, mas n\u00e3o se restringindo ao fato de que perder\u00edamos alguns luxos (como a eletricidade), ao qual estamos acostumados, e o fato de que quem est\u00e1 no poder pode tentar nos matar se impedirmos seriamente a sua capacidade de explorar o mundo &#8211; nenhuma das raz\u00f5es altera o fato de que essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor do que um planeta morto. Qualquer op\u00e7\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o melhor do que um planeta morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m de ser ineficaz para causar os tipos de mudan\u00e7as necess\u00e1rias para p\u00f4r fim a esta cultura de morte no planeta, h\u00e1 pelo menos quatro outros problemas com a percep\u00e7\u00e3o de &amp;quot<br \/>\n;viver simplesmente&quot;* como um ato pol\u00edtico (ao contr\u00e1rio de vida mais simples, porque isso \u00e9 o que voc\u00ea quer fazer). O primeiro \u00e9 baseado na no\u00e7\u00e3o err\u00f4nea de que os seres humanos inevitavelmente prejudicam seu ambiente. Vida mais simples como um ato pol\u00edtico consiste unicamente na redu\u00e7\u00e3o de danos, ignorando o fato de que os humanos podem ajudar a Terra, bem como prejudic\u00e1-la. Podemos recuperar c\u00f3rregos, podemos nos livrar de invasores nocivos, podemos remover as barragens, interromper um sistema pol\u00edtico inclinado na dire\u00e7\u00e3o dos ricos, assim como o sistema econ\u00f4mico, podemos destruir a economia industrial que est\u00e1 destruindo o mundo real, f\u00edsico.<\/p>\n<p align=\"justify\">O segundo problema &#8211; e esse \u00e9 um bem grande &#8211; \u00e9 que ele incorretamente atribui a culpa ao indiv\u00edduo (e mais especialmente para o indiv\u00edduo, que s\u00e3o particularmente impotentes) em vez de culpar realmente aqueles que det\u00eam o poder neste sistema. Kirkpatrick Sale mais uma vez diz: &quot;Todo sentimento de culpa individualista o-que-posso-fazer-para-salvar-a-terra \u00e9 um mito. N\u00f3s, como indiv\u00edduos, n\u00e3o estamos criando a crise e n\u00e3o podemos resolv\u00ea-la. &quot;    <br \/>O terceiro problema \u00e9 que ele aceita a redefini\u00e7\u00e3o do capitalismo de cidad\u00e3os para consumidores. Ao aceitar essa redefini\u00e7\u00e3o, reduzimos nossas formas potenciais de resist\u00eancia a consumir e n\u00e3o consumir. Os cidad\u00e3os t\u00eam uma gama muito maior de t\u00e1ticas de resist\u00eancia dispon\u00edveis, incluindo o voto ou n\u00e3o votar, correndo para o escrit\u00f3rio, panfletando, boicote, organiza\u00e7\u00e3o de lobby, protestando e quando um governo se torna destrutivo a vida, a liberdade e a busca da felicidade, t\u00eam o direito de alter\u00e1-lo ou aboli-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O quarto problema \u00e9 que o desfecho da l\u00f3gica por tr\u00e1s de uma vida simples como um ato pol\u00edtico \u00e9 o suic\u00eddio. Se cada ato dentro da economia industrial \u00e9 destrutivo, se quisermos parar com esta destrui\u00e7\u00e3o e se estamos relutantes (ou incapazes) de questionar (muito menos destruir) as infra-estruturas intelectuais, morais, econ\u00f4micas e f\u00edsicas que fazem com que todo ato na economia industrial seja destrutivo, ent\u00e3o podemos facilmente passar a acreditar que vamos causar o m\u00ednimo poss\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o se morrermos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A boa not\u00edcia \u00e9 que existem outras op\u00e7\u00f5es. Podemos seguir os exemplos de militantes corajosos que viveram os tempos dif\u00edceis que eu mencionei, Alemanha Nazi, a R\u00fassia czarista, que fizeram muito mais do que manifestar uma forma de pureza moral, que se opuseram ativamente contra as injusti\u00e7as que os cercavam. Podemos seguir o exemplo daqueles que lembraram que o papel de um ativista n\u00e3o \u00e9 continuar no sistema de poder opressor mantendo a integridade tanto quanto poss\u00edvel, mas sim confrontar e derrubar esses sistemas.<\/p>\n<p align=\"justify\">*viver simplesmente refere-se ao movimento Simple Living que \u00e9 um estilo de vida caracterizado por consumir apenas o suficiente para se manter vivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Texto original em ingl\u00eas: <a href=\"http:\/\/www.orionmagazine.org\/index.php\/articles\/article\/4801\/\">http:\/\/www.orionmagazine.org\/index.php\/articles\/article\/4801\/<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">Imagem: <a title=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/demenciano\/280171857\/\" href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/demenciano\/280171857\/\">http:\/\/www.flickr.com\/photos\/demenciano\/280171857\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00fanico pecado do texto abaixo s\u00e3o os exemplos americanos, que muitas vezes n\u00e3o se encaixam na nossa realidade brasileira, mas de resto n\u00e3o tem como n\u00e3o concordar com que ele fala. 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