{"id":101,"date":"2011-08-19T18:01:51","date_gmt":"2011-08-19T21:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2011\/08\/nanotecnologia_em_tamanho_real\/"},"modified":"2011-08-19T18:01:51","modified_gmt":"2011-08-19T21:01:51","slug":"nanotecnologia_em_tamanho_real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/08\/19\/nanotecnologia_em_tamanho_real\/","title":{"rendered":"Nanotecnologia em tamanho real"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Mat\u00e9ria publicada na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Unesp Ci\u00eancia <\/a>de agosto de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/22\/nanotecnologia-tamanho-real\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-425\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-1-620x408.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"408\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/22\/nanotecnologia-tamanho-real\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-426\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-2-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-2-620x406.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-2-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-2-200x131.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-2.jpg 734w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/22\/nanotecnologia-tamanho-real\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-427\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-3-620x408.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-3-620x408.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-3-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-3-200x132.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-3.jpg 735w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/22\/nanotecnologia-tamanho-real\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-429\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-41-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-41-620x406.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-41-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-41-200x131.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/nano-41.jpg 734w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Alardeada em suas origens como uma nova revolu\u00e7\u00e3o industrial, a nanotecnologia passa por momento de revis\u00e3o de seu potencial e de redu\u00e7\u00e3o das expectativas, ao mesmo tempo em que cresce a preocupa\u00e7\u00e3o com seus impactos \u00e0 sa\u00fade e ao ambiente<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 20 anos, a nanotecnologia conquistou um lugar de vanguarda na ci\u00eancia &#8211; esse posto avan\u00e7ado de onde se vislumbram as fronteiras do conhecimento e que naturalmente irradia tanto fasc\u00ednio quanto expectativa. Ao conseguir ver como a mat\u00e9ria se organiza em escala molecular e at\u00f4mica, deparamo-nos com paisagens inusitadas, como as que ilustram esta reportagem. Mais importante que ver, por\u00e9m, \u00e9 manipular o novo mundo que se mede em nan\u00f4metros (as bilion\u00e9simas partes do metro) para tirar proveito dele.<\/p>\n<p>Esses avan\u00e7os costumam ser ostensivamente descritos como o germe de uma nova revolu\u00e7\u00e3o industrial, com potencial de trazer benef\u00edcios ilimitados para a sociedade, dos tecidos que n\u00e3o mancham \u00e0 cura do c\u00e2ncer por drogas inteligentes, passando por transforma\u00e7\u00f5es radicais no campo eletr\u00f4nico e energ\u00e9tico. Tal discurso, entretanto, aparenta sinais de exaust\u00e3o. Se de um lado v\u00e1rias aplica\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas j\u00e1 podem ser compradas, de outro, suas vantagens ainda est\u00e3o muito aqu\u00e9m das que foram alardeadas, o que vem abrindo uma lacuna na qual se acumulam questionamentos.<\/p>\n<p>Dentro da comunidade cient\u00edfica surgem perguntas como: As inova\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas (<a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/22\/nanotecnologia-tamanho-real\">veja infogr\u00e1fico no pdf<\/a>) s\u00e3o mesmo revolucion\u00e1rias ou somente o aperfei\u00e7oamento de tecnologias j\u00e1 existentes? Quantas aplica\u00e7\u00f5es desse tipo est\u00e3o de fato no mercado? Os nanomateriais n\u00e3o poderiam trazer riscos \u00e0 sa\u00fade humana? E ao ambiente? Se houver riscos, a sociedade n\u00e3o deveria ser informada? O discurso euf\u00f3rico sobre o potencial dessa \u00e1rea n\u00e3o estaria impregnado de elementos t\u00edpicos das narrativas de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/p>\n<p>Todas essas d\u00favidas encaminham a nanotecnologia para a berlinda, onde, sem desqualificar os m\u00e9ritos cient\u00edficos que lhe correspondem, seus futuros passos tendem a ser reavaliados daqui para a frente. E as quest\u00f5es mais priorit\u00e1rias est\u00e3o relacionadas \u00e0 sustentabilidade. A problem\u00e1tica foi resumida no editorial da revista <em>Nature Nanotechnology <\/em>de junho deste ano, em edi\u00e7\u00e3o dedicada a uma subdivis\u00e3o emergente desta ci\u00eancia &#8211; a nanotoxicologia:<\/p>\n<p>&#8220;Peixes, vermes, roedores, algas, bact\u00e9rias e c\u00e9lulas. Nanotubos de carbono, \u00f3xidos met\u00e1licos e pontos qu\u00e2nticos. Escolha um modelo animal da primeira lista e um nanomaterial da segunda, e haver\u00e1 chances de voc\u00ea encontrar dois ou mais estudos toxicol\u00f3gicos com resultados ligeiramente diferentes sobre o impacto dos \u00faltimos sobre os primeiros. Vinte anos de pesquisas confirmam que os nanomateriais podem apresentar toxicidade incomum e inesperada, mas o quanto n\u00f3s aprendemos sobre as intera\u00e7\u00f5es desses materiais com humanos, animais e o ambiente?&#8221;. A conclus\u00e3o dos editores \u00e9: a nanotoxicologia mal engatinha.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, duas iniciativas americanas e outras duas brasileiras, todas muito recentes, mostram que os impactos das aplica\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas est\u00e3o entrando na pauta governamental.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de julho passado, a Anvisa promoveu uma reuni\u00e3o interna em Bras\u00edlia para debater pela primeira vez o assunto, com a participa\u00e7\u00e3o de alguns pesquisadores. Na mesma semana, a Fundacentro, \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego que faz pesquisas na \u00e1rea de sa\u00fade ocupacional e \u00e9 colaborador da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, organizou um evento em S\u00e3o Paulo para lan\u00e7ar o livro de hist\u00f3ria em quadrinhos <em>Nanotecnologia: maravilhas e incertezas no universo da qu\u00edmica<\/em>, dirigido a trabalhadores desse setor industrial.<\/p>\n<p>Poucas semanas antes, nos Estados Unidos, o FDA (ag\u00eancia federal que regulamenta alimentos e medicamentos) publicou em seu site uma consulta p\u00fablica convidando representantes de ind\u00fastrias para discutir formas de regular produtos nanotecnol\u00f3gicos. E a Casa Branca, que coordena o programa de pesquisa e desenvolvimento National Nanotechnology Initiative (que consumiu mais de US$ 12 bilh\u00f5es desde 2000), definiu os princ\u00edpios norteadores dos processos de regula\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o de aplica\u00e7\u00f5es que envolvam nanomateriais. No documento, a &#8220;prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica e do ambiente&#8221; aparece antes da &#8220;promo\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, da inova\u00e7\u00e3o, da competitividade e da gera\u00e7\u00e3o de emprego&#8221;.<\/p>\n<p>No Brasil, o tema preocupa em especial os cientistas que usam a nanotecnologia aplicada \u00e0 sa\u00fade, \u00e1rea em que pesar riscos e benef\u00edcios \u00e9 bem mais comum que em outros ramos do conhecimento. \u00c9 o caso de Anselmo Gomes de Oliveira, da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da Unesp em Araraquara, que trabalha no desenvolvimento de medicamentos inteligentes, os chamados nanof\u00e1rmacos. A estrat\u00e9gia \u00e9 entregar o princ\u00edpio ativo de forma gradual e seletiva nos tecidos doentes, sem afetar o funcionamento dos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para isso Oliveira constr\u00f3i nanoc\u00e1psulas, nas quais uma pequen\u00edssima quantidade da droga \u00e9 revestida por um pol\u00edmero, formando uma part\u00edcula de dimens\u00f5es nanom\u00e9tricas &#8211; uma nanopart\u00edcula. Seu objetivo \u00e9 tratar doen\u00e7as oculares. Embora siga os procedimentos cl\u00e1ssicos para avaliar a toxicidade do produto, o pesquisador admite que isso talvez n\u00e3o seja o suficiente para identificar poss\u00edveis danos decorrentes especificamente da nova tecnologia empregada. &#8220;A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com o tamanho da part\u00edcula&#8221;, diz. &#8220;N\u00e3o sabemos se isso pode causar algum problema. Faz falta uma regulamenta\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Novas propriedades<\/strong><br \/>\nO di\u00e2metro de uma nanopart\u00edcula pode variar entre 1 e 100 nan\u00f4metros &#8211; por defini\u00e7\u00e3o, esta \u00e9 a escala em que a nanotecnologia opera. Com esse tamanho, em tese, uma part\u00edcula pode atravessar qualquer barreira biol\u00f3gica. Al\u00e9m disso, ela exibe propriedades f\u00edsicas e qu\u00edmicas diferentes das de uma part\u00edcula maior, de id\u00eantica composi\u00e7\u00e3o. Isso acontece por duas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiro, porque as leis da F\u00edsica Cl\u00e1ssica, que regem o mundo micro e macrosc\u00f3pico, d\u00e3o lugar \u00e0s da Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica, que explicam os fen\u00f4menos pr\u00f3ximos ou abaixo da escala at\u00f4mica &#8211; aqui, por exemplo, a gravidade n\u00e3o conta, e o comportamento dos el\u00e9trons \u00e9 de extrema import\u00e2ncia. Segundo, e talvez mais relevante, porque uma determinada quantidade de material granulado ao n\u00edvel de nanopart\u00edculas exp\u00f5e uma superf\u00edcie de contato muito maior que igual quantidade do mesmo material em part\u00edculas maiores. O resultado \u00e9 uma brutal potencializa\u00e7\u00e3o de certas propriedades, que muitas vezes nem eram notadas antes.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esse aspecto, observado em particular sobre as nanopart\u00edculas met\u00e1licas, que recai a grande preocupa\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias regulat\u00f3rias. Um caso exemplar dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o dos filtros solares. Nos produtos tradicionais, o efeito que protege a pele dos raios ultravioleta se deve \u00e0 presen\u00e7a de part\u00edculas microsc\u00f3picas de \u00f3xidos de tit\u00e2nio e de zinco, que fazem parte da composi\u00e7\u00e3o dos produtos que est\u00e3o no mercado. At\u00e9 a\u00ed nenhum problema.<\/p>\n<p>A novidade \u00e9 que algumas empresas v\u00eam usando nanopart\u00edculas, de igual composi\u00e7\u00e3o, para obter maior efic\u00e1cia com uma quantidade menor do material. Pela legisla\u00e7\u00e3o atual, elas n\u00e3o precisam informar as ag\u00eancias regulat\u00f3rias sobre a mudan\u00e7a, j\u00e1 que a f\u00f3rmula qu\u00edmica do produto \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, alguns estudos sugerem que essas nanopart\u00edculas, diferentemente das de dimens\u00e3o micro, s\u00e3o facilmente absorvidas pela pele, ativando o sistema imunol\u00f3gico sem que se conhe\u00e7am ainda as consequ\u00eancias do uso prolongado do produto. H\u00e1 evid\u00eancias tamb\u00e9m de que o material n\u00e3o absorvido e levado pela \u00e1gua do banho tem impacto negativo sobre bact\u00e9rias de ecossistemas aqu\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Aparentemente, nanopart\u00edculas de prata podem ter trajeto e efeitos semelhantes. Potentes bactericidas, elas come\u00e7am a ser empregadas na fabrica\u00e7\u00e3o de azulejos de uso hospitalar, filtros de \u00e1gua, aspiradores de p\u00f3 e at\u00e9 de secadores de cabelo. &#8220;Temos de come\u00e7ar a pensar no ciclo de vida desses produtos&#8221;, afirma William Waissmann, da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica (Ensp), no Rio, um dos raros especialistas em nanotoxicologia no pa\u00eds. &#8220;\u00c9 preciso compreender que uma mesma coisa, mas em escala nano, pode ser muito diferente.&#8221;<\/p>\n<p>Um dos convidados da reuni\u00e3o promovida pela Anvisa, Waissmann est\u00e1 bem inteirado da discuss\u00e3o nos Estados Unidos porque participa anualmente das reuni\u00f5es da Sociedade Americana de Toxicologia, na qual h\u00e1 uma se\u00e7\u00e3o especial dedicada \u00e0 tem\u00e1tica nano. Segundo ele, n\u00e3o se trata de negar os avan\u00e7os cient\u00edficos, que podem trazer de fato uma s\u00e9rie de benef\u00edcios em v\u00e1rias \u00e1reas, mas de tentar aplicar algumas li\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>&#8220;A qu\u00edmica sint\u00e9tica e a combust\u00e3o do carbono deram origem a muitas coisas boas, mas tamb\u00e9m a diversos problemas de sustentabilidade que vemos hoje&#8221;, explica Waissmann. Ele compara ainda o chumbo e o benzeno, que apesar da alta toxicidade demoraram anos para ter seu uso regulado, com os nanotubos de carbono, que prometem uma revolu\u00e7\u00e3o na inform\u00e1tica, mas contra os quais j\u00e1 pesam fortes evid\u00eancias de que seu comportamento seja parecido com o do asbesto,que tamb\u00e9m sofre restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre os principais desafios para regulamentar as aplica\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas, Waissmann destaca a necessidade de agir de forma antecipat\u00f3ria. &#8220;Em vez de bater o martelo para aprovar ou rejeitar o que j\u00e1 existe, temos que fazer com que a sustentabilidade fa\u00e7a parte do projeto de desenvolvimento dos produtos.&#8221; Segundo ele, isso significa criar m\u00e9todos e protocolos espec\u00edficos para avaliar a toxicidade dos nanomateriais, sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o tornar excessivamente moroso o processo de inova\u00e7\u00e3o. &#8220;Ser\u00e1 preciso investir pesadamente em modelagem computacional&#8221;, aponta.<\/p>\n<p><strong>Investimento desigual<\/strong><br \/>\nMas, antes de tudo, defende, \u00e9 preciso aumentar o investimento em pesquisas que avaliem os impactos sanit\u00e1rios e ambientais. Mesmo nos Estados Unidos, onde a discuss\u00e3o est\u00e1 mais avan\u00e7ada, essa \u00e1rea recebe 40 vezes menos recursos que a dedicada ao desenvolvimento de aplica\u00e7\u00f5es. No Brasil, essa conta nunca foi feita, segundo o pesquisador.<\/p>\n<p>Outra conta importante ser\u00e1 feita depois que as aplica\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas passarem a ser reguladas de alguma forma. Afinal, quantas delas j\u00e1 fazem parte de nosso cotidiano? O dado mais recente \u00e9 de 2009 e aponta para a exist\u00eancia de pouco mais de mil produtos de consumo nos quais h\u00e1 algum nanomaterial &#8211; na maioria, nanopart\u00edculas de prata. Tr\u00eas anos antes eram cerca de 200. Reconhecidamente subestimado, o c\u00e1lculo \u00e9 do Projeto sobre Nanotecnologias Emergentes, iniciativa americana do Woodrow Wilson International Center for Scholars.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que vem sendo debatida \u00e9 o real car\u00e1ter inovador e revolucion\u00e1rio dessa nova ci\u00eancia. O conceito de medicamentos inteligentes, por exemplo, apontado como uma das grandes inova\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas, na verdade \u00e9 perseguido h\u00e1 muitas d\u00e9cadas pelas ci\u00eancias farmac\u00eauticas, lembra Anselmo Gomes de Oliveira, de Araraquara. Para ele, sem d\u00favida a manipula\u00e7\u00e3o em escala nano torna mais f\u00e1cil alcan\u00e7ar esse objetivo, &#8220;mas n\u00e3o deve levar a uma revolu\u00e7\u00e3o na medicina&#8221;, analisa. &#8220;Vejo um grande aux\u00edlio em certas \u00e1reas, principalmente no tratamento do c\u00e2ncer e de micoses sist\u00eamicas [que s\u00e3o raras, por\u00e9m dif\u00edceis de tratar]. Acho que h\u00e1 um pouco de alarde&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Opini\u00e3o semelhante tem Celso Valentim Santilli, que tamb\u00e9m se vale de materiais nanoestruturados para criar f\u00e1rmacos inteligentes, na Unesp em Araraquara. Mais c\u00e9tico, ele usa com parcim\u00f4nia o termo nanotecnologia para descrever suas pesquisas. &#8220;Prefiro dizer que fa\u00e7o ci\u00eancia dos materiais. Porque acho que um dia essa &#8216;moda nano&#8217; vai passar. E a\u00ed? Vou continuar fazendo ci\u00eancia dos materiais.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 a nanotecnologia apenas uma embalagem nova para algo que j\u00e1 existia? De certa forma, sim, avalia Elson Longo, tamb\u00e9m da Unesp em Araraquara, coordenador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia (INCT) dos Materiais em Nanotecnologia, que re\u00fane mais nove institui\u00e7\u00f5es de pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;Os vitrais que passaram a adornar as igrejas na Idade M\u00e9dia s\u00e3o coloridos por causa de nanopart\u00edculas met\u00e1licas&#8221;, conta. Ainda que n\u00e3o levassem esse nome, as nanopart\u00edculas aparecem em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria da Qu\u00edmica, o que de alguma forma ajudou a chegarmos ao atual estado da arte, explica.<\/p>\n<p>O grande salto, por\u00e9m, foi o desenvolvimento da microscopia eletr\u00f4nica, que permitiu enxergar a escala nanom\u00e9trica a partir dos anos 1980 (veja quadro abaixo). \u00c9 um dos principais marcos da nanotecnologia. Mas, segundo Longo, n\u00e3o se trata de uma ruptura de paradigma, e sim de uma evolu\u00e7\u00e3o. &#8220;Dar um nome novo para o que no fundo \u00e9 uma continuidade \u00e9 uma forma de atrair aten\u00e7\u00e3o e recursos&#8221;, diz. &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 incomum na hist\u00f3ria da ci\u00eancia.&#8221;<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;Nanohype&#8221;<\/strong><br \/>\n&#8220;Ningu\u00e9m vai dar ouvidos a alguma coisa nova que \u00e9 apenas levemente melhor que a antiga&#8221;, provoca David Berube, especialista em estudos da comunica\u00e7\u00e3o na Universidade do Estado da Carolina do Norte (EUA). Em 2005, ele publicou o livro <em>NanoHype &#8211; The truth behind the nanotechnology buzz<\/em> (em tradu\u00e7\u00e3o livre: Nanomoda &#8211; a verdade por tr\u00e1s do barulho da nanotecnologia), no qual apresenta resultados de suas pesquisas, financiadas pela National Science Foundation.<\/p>\n<p>Em entrevista por e-mail, Berube resume os motivos da &#8220;ret\u00f3rica hiperb\u00f3lica&#8221;, observada no discurso de diversos atores da \u00e1rea: &#8220;Burocratas buscam apoio para seus projetos. Ind\u00fastrias, principalmente as novas, querem investidores. Organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais dependem de visibilidade. Pesquisadores precisam de recursos p\u00fablicos. A nanotecnologia foi uma forma de obter fundos em grande escala para todos eles&#8221;.<\/p>\n<p>Mas os grandes amplificadores do &#8220;nanohype&#8221;, prossegue o pesquisador, t\u00eam sido os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, principalmente os eletr\u00f4nicos. &#8220;Quando a m\u00eddia digital se consolidou como fonte de informa\u00e7\u00e3o de massa, as narrativas fantasiosas atingiram o \u00e1pice. A internet est\u00e1 repleta de informa\u00e7\u00f5es imprecisas e exageradas sobre nanotecnologia&#8221;, critica.<\/p>\n<p>Tanta desinforma\u00e7\u00e3o sobre o tema motivou Peter Schulz, do Instituto de F\u00edsica da Unicamp, a escrever o livro <em>Encruzilhadas da nanotecnologia &#8211; Inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e riscos<\/em> (Vieira&amp;Lent, 2009).<\/p>\n<p>Pesquisador do grafeno, nanomaterial com potenciais aplica\u00e7\u00f5es nas \u00e1reas eletr\u00f4nica e energ\u00e9tica, Schulz lembra que &#8220;os exageros contam muitas vezes com a cumplicidade dos pesquisadores&#8221; e chama a aten\u00e7\u00e3o para &#8220;a proximidade da linguagem de certos textos t\u00e9cnicos com a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;.<br \/>\nUm dos curadores da exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Nanoaventura&#8221;, no acervo permanente do Museu Explorat\u00f3rio de Ci\u00eancias da Unicamp desde 2005, o f\u00edsico engajou-se na divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia nos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n<p>Os cientistas falham, analisa ele, em seu di\u00e1logo interno e com o p\u00fablico quando vendem a nanotecnologia como uma grande novidade que vai resolver todos os nossos problemas. &#8220;Acho digno de m\u00e9rito reconhecer que ideias dispersas na hist\u00f3ria da ci\u00eancia v\u00e3o se juntando e amadurecendo, at\u00e9 formar uma unidade e dar origem a algo realmente novo.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o esperar dos nanomateriais uma revolu\u00e7\u00e3o tal como foi a da microeletr\u00f4nica no s\u00e9culo 20, Schulz acredita que eles podem, sim, facilitar revolu\u00e7\u00f5es, por exemplo, no campo das interfaces c\u00e9rebro-m\u00e1quina, no qual nanossensores t\u00eam sido de grande utilidade para os pesquisadores. Se h\u00e1 algo verdadeiramente inovador na nanoci\u00eancia, aponta, \u00e9 sua ess\u00eancia intrinsecamente interdisciplinar, pois, mais do que qualquer \u00e1rea, ela depende da efetiva intera\u00e7\u00e3o entre qu\u00edmica, f\u00edsica e biologia.<\/p>\n<p>Mas essa interdisciplinaridade ainda n\u00e3o \u00e9 completa, pelo menos quando o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 o impacto social e ambiental da nanotecnologia. \u00c9 o que pensa Paulo Martins, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas, em S\u00e3o Paulo, e coordenador da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma). &#8220;Falta a participa\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais no debate&#8221;, queixa-se.<\/p>\n<p>Soci\u00f3logo, Martins se considera um representante do que vem sendo chamado &#8220;nanoativismo&#8221;, movimento j\u00e1 com alguma express\u00e3o na Europa. Ele fundou a Renanosoma em 2004 como um f\u00f3rum independente com a miss\u00e3o de &#8220;promover o engajamento p\u00fablico visando informar e discutir a nanotecnologia com o p\u00fablico n\u00e3o-especialista&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, ele mant\u00e9m o programa semanal de entrevistas Nanotecnologia do Avesso no site &#8220;allTV&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.alltv.com.br\">www.alltv.com.br<\/a>), pelo qual j\u00e1 passaram mais de uma centena de representantes da comunidade cient\u00edfica, da ind\u00fastria, de ONGs e de governo, v\u00e1rios deles de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A principal cr\u00edtica de Martins \u00e9 dirigida a ag\u00eancias de fomento e \u00e0 forma como as verbas de pesquisa nessa \u00e1rea s\u00e3o distribu\u00eddas. &#8220;A sociedade contribui com o dinheiro e um pequeno grupo decide o que fazer com ele&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de investir mais em pesquisas sobre impactos sanit\u00e1rios e ambientais, ele advoga ainda que temas de interesse nacional, como doen\u00e7as negligenciadas e biodiversidade, deveriam estar mais presentes nos programas atuais de fomento \u00e0 nanotecnologia. &#8220;Se voc\u00ea analisar a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos do CNPq nessa \u00e1rea, por exemplo, ver\u00e1 que estamos pautados pela agenda do Primeiro Mundo.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Opini\u00e3o p\u00fablica<\/strong><br \/>\nA discuss\u00e3o sobre os rumos da nanotecnologia est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando, ainda est\u00e1 muito longe de atingir as massas, mas j\u00e1 atraiu a aten\u00e7\u00e3o de alguns cientistas interessados na percep\u00e7\u00e3o popular sobre o tema.<\/p>\n<p>Uma das pesquisas mais recentes na \u00e1rea diz respeito a brasileiros e brit\u00e2nicos. Julia Guivant, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Phil Macnaghten, da Universidade Durham (Reino Unido), compararam as interpreta\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os de cada pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 chegada das inova\u00e7\u00f5es nanotecnol\u00f3gicas, em artigo publicado em 2010 na revista <em>Public Understanding of Science<\/em>. Os resultados s\u00e3o radicalmente opostos.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos demonstraram uma desconfian\u00e7a, muitas vezes de tonalidade tr\u00e1gica, sem valorizar os potenciais benef\u00edcios, ao passo que os brasileiros exibiram uma cren\u00e7a entusiasmada nos progressos &#8220;inevit\u00e1veis&#8221; dessa ci\u00eancia, desprezando seus poss\u00edveis riscos. Nos Estados Unidos \u00e9 diferente. Sondagens semelhantes indicaram que a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos americanos \u00e9 com os postos de trabalho que a nanotecnologia pode subtrair.<\/p>\n<p>Em comum entre esses estudos est\u00e1 o amplo desconhecimento da popula\u00e7\u00e3o sobre a natureza e as reais aplica\u00e7\u00f5es da nanotecnologia. A desinforma\u00e7\u00e3o pode estar globalizada, mas como a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica da ci\u00eancia e da tecnologia varia conforme a cultura, os pa\u00edses que resolverem prestar contas dos seus investimentos e incluir os contribuintes no debate sobre os impactos na sociedade e no ambiente ter\u00e3o de faz\u00ea-lo cada um a sua maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***<br \/>\n<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>QUADRO: Revis\u00e3o de paternidade<\/strong><\/p>\n<p>Nem o americano Richard Feynman (1918-1988), Nobel de F\u00edsica em 1965, escapou ileso \u00e0 revis\u00e3o hist\u00f3rica pela qual passa a nanotecnologia. Sua palestra &#8220;There&#8217;s plenty of room at the bottom&#8221; (H\u00e1 muito espa\u00e7o l\u00e1 embaixo), de 1959, \u00e9 largamente difundida como o evento fundador desta ci\u00eancia. Feynman teorizava sobre a possibilidade de manipular a mat\u00e9ria em n\u00edvel molecular e at\u00f4mico. Palavras vision\u00e1rias, sem d\u00favida, mas nada al\u00e9m disso, segundo o antrop\u00f3logo Chris Tourney, da Universidade da Carolina do Sul (EUA).<\/p>\n<p>Tourney \u00e9 autor de um estudo sobre a &#8220;paternidade&#8221; da nanotecnologia publicado em 2005 na revista <em>Engineering &amp; Science <\/em>&#8211; a mesma em que a palestra do f\u00edsico americano foi publicada como artigo em 1960. O antrop\u00f3logo consultou grandes expoentes da nanoci\u00eancia para saber se Feynman os havia influenciado. S\u00f3 encontrou negativas. Em compensa\u00e7\u00e3o, colheu outros nomes, como os de Gerd Binnig e Heinrich Roh-rer, premiados com o Nobel de F\u00edsica em 1986 pela inven\u00e7\u00e3o do microsc\u00f3pio de tunelamento eletr\u00f4nico, o primeiro com resolu\u00e7\u00e3o na escala nanom\u00e9trica.<\/p>\n<p>As ideias de Feynman ficaram no limbo por mais de 20 anos, demonstra Tourney. E come\u00e7aram a renascer nos anos 1980 por causa de Eric Drexler, ent\u00e3o um jovem prod\u00edgio do MIT que espertamente resgatou, de um lado, a palavra &#8220;nanotecnologia&#8221;, cunhada por um autor japon\u00eas em artigo de 1974; e de outro, a inspirada palestra de Feynman. Ambas entraram em seu livro <em>Engines of creation<\/em> (M\u00e1quinas da cria\u00e7\u00e3o), de 1986, um fantasioso ensaio sobre a possibilidade de construir m\u00e1quinas moleculares, que conquistou muitos f\u00e3s do g\u00eanero fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, dentro e fora da academia. Mas tamb\u00e9m gerou temor, ao cogitar que elas poderiam se autorreplicar sem controle, formando a chamada &#8220;meleca cinzenta&#8221; (gray goo).<\/p>\n<p>O termo &#8220;nanotecnologia&#8221; foi popularizado por Drexler, que at\u00e9 por volta dos 2000 era fonte garantida em qualquer reportagem sobre o tema. Mas por nunca ter conseguido tirar seus rob\u00f4s moleculares do papel, nem sequer provar sua viabilidade te\u00f3rica, hoje ele amarga um longo ostracismo. Saiba mais sobre essa hist\u00f3ria, inclusive sobre como a &#8220;meleca cinzenta&#8221; atemorizou o Congresso americano em 2000, no nosso blog: <a href=\"http:\/\/bit.ly\/pqrvPx\">http:\/\/bit.ly\/pqrvPx<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de agosto de 2011. 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