{"id":15,"date":"2009-06-10T14:03:25","date_gmt":"2009-06-10T17:03:25","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/2009\/06\/anthropological_blues\/"},"modified":"2009-06-10T14:03:25","modified_gmt":"2009-06-10T17:03:25","slug":"anthropological_blues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2009\/06\/10\/anthropological_blues\/","title":{"rendered":"Anthropological blues"},"content":{"rendered":"<p>Em 2000, li um texto do antrop\u00f3logo Roberto DaMatta intitulado <em>O of\u00edcio do etn\u00f3logo, ou como ter &#8220;anthropological blues&#8221;<\/em>, e por ele cheguei a pensar em desistir de tudo para estudar antropologia.<\/p>\n<p>Jamais vou me perdoar por ter me desfeito daquela c\u00f3pia xerocada do cap\u00edtulo do livro <em>A aventura sociol\u00f3gica<\/em> (Zahar, 1978). Mais tarde conheci alguns antrop\u00f3logos que me confessaram ter escolhido essa \u00e1rea por causa deste texto.<\/p>\n<p>Como \u00e9 f\u00e1cil perceber, para a sorte das ci\u00eancias sociais, n\u00e3o me tornei uma antrop\u00f3loga, nem sequer tentei, mas nunca mais um texto de DaMatta passou por mim despercebido.<\/p>\n<p>Sua coluna no Estad\u00e3o de hoje fala do desastre do voo 447 da Air France, mas vai muito al\u00e9m disso. DaMatta chama a aten\u00e7\u00e3o para a contradi\u00e7\u00e3o entre ordem e progresso, curiosamente estampada na bandeira brasileira, mas que n\u00e3o deixa de ser uma cren\u00e7a universal, ou pelo menos ocidental &#8211; e sou tentada a colocar esse artigo na minha gaveta de &#8220;efeitos adversos da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica&#8221;. Eis o \u00faltimo par\u00e1grafo:<\/p>\n<p><em>O tr\u00e1gico voo 447 leva-me a repensar a equa\u00e7\u00e3o entre progresso e sofrimento. A questionar a linearidade tradicional, essencializada em l\u00f3gica e tida como natural, segundo a qual o progresso inevitavelmente ordena; a raz\u00e3o produz controle; e a uni\u00e3o entre progresso e racionalidade acabaria com a dor do mundo. F\u00e9 dif\u00edcil de abra\u00e7ar hoje em dia, quando n\u00e3o s\u00e3o religi\u00f5es ou ideologias anticapitalistas, mas um \u00f3bvio desastre ecol\u00f3gico que mostra como a ideia de progresso sem limites tem legalizado a destrui\u00e7\u00e3o do planeta. Curioso observar como numa dezena de anos a tecnologia, que consagrava a domina\u00e7\u00e3o dos outros povos pelo Ocidente iluminado, passou de rem\u00e9dio a veneno. E como um tr\u00e1gico acidente nos traz de volta a vida representada como um real, embora esquecido, vale de l\u00e1grimas. Basta viver a incerteza para reavivar a nossa fragilidade e expor uma imensa nostalgia daquele pensamento selvagem recheado de deuses e magia que era a prova mais cabal de trevas, primitivismo e ignor\u00e2ncia.<\/em><\/p>\n<p>O texto completo pode ser lido <a href=\"http:\/\/www.imil.org.br\/artigos\/em-torno-do-progresso-e-do-sofrimento\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2000, li um texto do antrop\u00f3logo Roberto DaMatta intitulado O of\u00edcio do etn\u00f3logo, ou como ter &#8220;anthropological blues&#8221;, e por ele cheguei a pensar em desistir de tudo para estudar antropologia. Jamais vou me perdoar por ter me desfeito daquela c\u00f3pia xerocada do cap\u00edtulo do livro A aventura sociol\u00f3gica (Zahar, 1978). 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