{"id":16,"date":"2009-06-13T17:50:17","date_gmt":"2009-06-13T20:50:17","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=16"},"modified":"2009-06-13T17:50:17","modified_gmt":"2009-06-13T20:50:17","slug":"o_ipe-roxo_da_luis_gois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2009\/06\/13\/o_ipe-roxo_da_luis_gois\/","title":{"rendered":"O ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/vivacomopuder\/3622324775\/sizes\/l\/\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center aligncenter\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/08\/iperoxo1.jpg\" alt=\"iperoxo.jpg\" width=\"448\" height=\"299\" \/><\/span><\/a><br \/>\nEle tem provocado suspiros e olhares contemplativos entre os que moram ou trabalham por perto. Suas ra\u00edzes est\u00e3o fincadas, sabe-se l\u00e1 h\u00e1 quantos anos, na esquina da rua Lu\u00eds G\u00f3is com o in\u00edcio absoluto da avenida Jabaquara, onde a avenida Domingos de Moraes apenas muda de nome &#8211; a tristeza do cen\u00e1rio segue a mesma. \u00c9 bem a\u00ed que passa a linha imagin\u00e1ria que divide a Vila Mariana e a Sa\u00fade (zona sul de S\u00e3o Paulo), mas h\u00e1 controv\u00e9rsias que n\u00e3o v\u00eam ao caso.<\/p>\n<p>O que interessa \u00e9 que gra\u00e7as aos seus abundantes, majestosos cachos floridos em forma de pompom, o ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is tem sido admirado e fotografado diariamente.<\/p>\n<p>-Calma, menino. Voc\u00ea n\u00e3o sabe apreciar a natureza! &#8211; ralhou a m\u00e3e com o filho adolescente que lhe pedia pressa, enquanto ela enquadrava o belo esp\u00e9cime atrav\u00e9s da lente de seu celular.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bonito, n\u00e9? &#8211; disse a senhorinha ao lado do marido t\u00e3o velho e nip\u00f4nico quanto ela e tantos outros habitantes do bairro, a maioria frequentadora do templo budista que fica ali a poucas quadras.<\/p>\n<p>Quando eu finalmente me lembrei de levar a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, o c\u00e9u estava sem gra\u00e7a. Ainda bem que n\u00e3o me faltou apoio.<\/p>\n<p>&#8211; Esse ip\u00ea t\u00e1 uma coisa de louco. Todo dia \u00e9 gente tirando foto &#8211; disse-me o mo\u00e7o de sotaque nordestino que esperava o sinal de pedestre abrir.<\/p>\n<p>Em tempos de instabilidades clim\u00e1ticas e incertezas ecol\u00f3gicas, \u00e9 um consolo constatar que o ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is floresceu precisamente quando se espera que todo ip\u00ea-roxo flores\u00e7a, pelo menos desde que algu\u00e9m pela primeira vez se deu ao trabalho de observar a \u00e9poca de flora\u00e7\u00e3o dos ip\u00eas-roxo. Ou seja, no come\u00e7o de junho.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, isso \u00e9 antes do desabrochar igualmente silencioso e festivo de seus cong\u00eaneres amarelo e branco, naturalmente mais tardios e que a esta altura (se tudo estiver correndo bem para eles) ainda devem estar ocupados com o desfazer das folhas, para descontentamento moment\u00e2neo de muitos garis, donas-de-casa e empregadas dom\u00e9sticas. Mas depois todo mundo acha uma beleza.<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Tabebuia heptaphylla<\/em> \u00e9 o nome cient\u00edfico desta esp\u00e9cie nativa da Am\u00e9rica do Sul, mas h\u00e1 diversas outras alcunhas, ou sinon\u00edmias como dizem os bot\u00e2nicos. Acho por bem pular essa parte e ir direto aos nomes vulgares, sempre mais interessantes, e que variam de estado para estado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipef.br\/identificacao\/tabebuia.heptaphylla.asp\">Segundo o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF)<\/a> de Piracicaba (SP) o ip\u00ea-roxo \u00e9 conhecido tamb\u00e9m como cabro\u00e9, grara\u00edba e ip\u00ea (RJ,SC); ip\u00ea-de-flor-roxa, ip\u00ea-piranga e ip\u00ea-preto (RJ,RS); ip\u00ea-rosa (MG); ip\u00ea-roxo-an\u00e3o (SP); ip\u00ea-uva e pau-d&#8217;arco (BA); pau-d&#8217;arco-rosa (BA); pau-d&#8217;arco-roxo (BA,MG); pe\u00fava (MS); e piuva (MS,MT). Na Argentina e no Uruguai, lapacho e no Paraguai, lapacho negro. Aqui na Lu\u00eds G\u00f3is, \u00e9 ip\u00ea-roxo mesmo.<\/p>\n<p>Tem gente que pensa que o ip\u00ea-rosa \u00e9 outra planta, mas, de acordo com o IPEF, trata-se da mesm\u00edssima esp\u00e9cie, &#8220;em cujo per\u00edodo que antecede a flora\u00e7\u00e3o as folhas caem e [depois] surgem no \u00e1pice dos ramos magn\u00edficas pan\u00edculas com numerosas flores tubulosas, de colora\u00e7\u00e3o r\u00f3sea ou roxa, perfumadas e atrativas para abelhas e p\u00e1ssaros&#8221;.<\/p>\n<p>Perfumadas? A ver quando as flores come\u00e7arem a despencar na cal\u00e7ada, pois n\u00e3o as alcan\u00e7o. Abelhas nunca vi, mas sei que nessas ocasi\u00f5es elas trabalham muito discretamente. Quanto \u00e0s aves, sim, de manh\u00e3 se v\u00ea passarinhos, mas na maior parte do dia prevalecem as pombas, embora elas prefiram se empoleirar nos fios el\u00e9tricos que trespassam o esqueleto da nobre \u00e1rvore. (O que n\u00e3o est\u00e1 mal, considerando as condi\u00e7\u00f5es de higiene desses ratos alados.) Fazem companhia ao ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is duas palmeiras muito altas que, vistas de baixo, mais parecem postes, um arbusto feinho e o sem\u00e1foro O-397, o \u00fanico dos cinco que n\u00e3o faz fotoss\u00edntese e enlouquece com os temporais de ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Nobre \u00e1rvore, eu disse, e com certa tristeza. Porque \u00e9 lament\u00e1vel que a nobreza de uma \u00e1rvore seja a medida do olho gordo da cobi\u00e7a humana. Assim \u00e9. Usada na fabrica\u00e7\u00e3o de vigas na constru\u00e7\u00e3o civil, quilhas de navio, instrumentos musicais, degraus de escada e at\u00e9 bolas de boliche, a madeira do ip\u00ea-roxo, bem como a de seu irm\u00e3o amarelo, segue o mesmo caminho do mogno e do pau-brasil, isto \u00e9, ladeira abaixo.<\/p>\n<p>Alguns especialistas t\u00eam lutado para proteg\u00ea-lo, por\u00e9m. Pedem que o ip\u00ea seja inclu\u00eddo na Conven\u00e7\u00e3o sobre o Com\u00e9rcio Internacional de Esp\u00e9cies Amea\u00e7adas (Cites), tal como aconteceu com o mogno em 2003, o que fez o governo brasileiro se mexer contra a explora\u00e7\u00e3o indiscriminada da tradicional madeira vermelha, como informa a <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ambiente\/ult10007u486165.shtml\">reportagem de Afra Balazina na Folha de S. Paulo em janeiro \u00faltimo<\/a>.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 cheia de ironias, at\u00e9 mesmo a vida das \u00e1rvores. Contra os abusos da lei da oferta e da procura, \u00e9 preciso criar leis para garantir a exist\u00eancia da madeira de lei em selvas inocentes cobi\u00e7adas por capitalistas selvagens. Assim, o ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is e de qualquer outra rua de qualquer cidade parece estar mais seguro que seus semelhantes das matas do Brasil e, talvez, tamb\u00e9m do resto da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que em cidades como S\u00e3o Paulo \u00e9 improv\u00e1vel que ele se reproduza naturalmente. Depende de insemina\u00e7\u00e3o artificial, coisa que um cidad\u00e3o s\u00f3 pode fazer se tiver um quintal suficientemente grande para tal empreendimento (eu n\u00e3o tenho). Vale a pena destacar, contudo, que o custo \u00e9 desprez\u00edvel. <a href=\"http:\/\/www.quebarato.com.br\/classificados\/30-sementes-de-ipe-roxo__4047787.html\">No site QueBarato!<\/a>, um pacotinho com 30 sementes de ip\u00ea-roxo sai por dez reais, com frete gr\u00e1tis, e o vendedor ainda diz que pode dar um desconto. Com 30 sementes eu podia povoar com ip\u00eas-roxo os mais de quatro quil\u00f4metros da avenida Jabaquara, t\u00e3o longa e t\u00e3o feia, a coitada. Mas eu precisaria de uma britadeira para quebrar a cal\u00e7ada e al\u00e9m do mais a prefeitura, voc\u00eas sabem.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o falei das propriedades medicinais do ip\u00ea-roxo. Pensando bem, n\u00e3o vou falar. Saiba apenas que ele as tem. N\u00e3o quero estimular a automedica\u00e7\u00e3o, nem correr o risco de que algum espertinho tente tirar lascas do seu caule, que, ali\u00e1s, \u00e9 dur\u00edssimo, desista.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que, depois da flora\u00e7\u00e3o, o ip\u00ea-roxo da Lu\u00eds G\u00f3is vai dar frutos? Tenho essa esperan\u00e7a. Dizem que eles s\u00e3o pretos, estriados, muito longos, podendo atingir at\u00e9 50 cent\u00edmetros. Mas eu sonho mesmo \u00e9 com as sementes, que, segundo o IPEF, aparecem em boa quantidade e &#8220;s\u00e3o grandes e aladas&#8221;. Estou de olho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele tem provocado suspiros e olhares contemplativos entre os que moram ou trabalham por perto. 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