{"id":364,"date":"2011-09-09T21:36:09","date_gmt":"2011-09-10T00:36:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=364"},"modified":"2011-09-09T21:36:09","modified_gmt":"2011-09-10T00:36:09","slug":"floresta-de-fosseis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/09\/09\/floresta-de-fosseis\/","title":{"rendered":"Floresta de f\u00f3sseis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Mat\u00e9ria publicada na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Unesp Ci\u00eancia<\/a> de setembro de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/23\/fosseis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-365\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1-620x408.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1-620x408.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1-768x506.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1-200x132.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-1.jpg 884w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/23\/fosseis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-366\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-2-620x406.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"406\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/23\/fosseis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-367\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3-620x408.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3-620x408.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3-768x506.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3-200x132.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-3.jpg 885w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/23\/fosseis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-368\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4-620x407.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4-620x407.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4-768x505.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4-200x131.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/09\/fosseis-4.jpg 884w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>No meio do Cerrado nordestino, restos petrificados de plantas que viveram h\u00e1 mais de 250 milh\u00f5es de anos contam a hist\u00f3ria da regi\u00e3o em uma \u00e9poca em que os continentes estavam unidos e o mar chegava at\u00e9 ali<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Era um domingo como outro qualquer em Nova Iorque. Por volta das 10 h da manh\u00e3 o sol j\u00e1 impunha respeito e v\u00e1rias fam\u00edlias curtiam a praia. Crian\u00e7as brincavam na areia ou na \u00e1gua, e adultos batiam papo e bebericavam em torno de mesas de pl\u00e1stico sob a sombra das \u00e1rvores. N\u00e3o parava de chegar gente. Trilha sonora: o t\u00edpico brega nordestino.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00c0 beira do lago da Hidrel\u00e9trica de Boa Esperan\u00e7a, no rio Parna\u00edba, esta pequena cidade do interior do Maranh\u00e3o fica a mais de 500 km de dist\u00e2ncia de S\u00e3o Lu\u00eds, na fronteira com o Piau\u00ed. \u00c9 uma esp\u00e9cie de o\u00e1sis no Cerrado, que oferece divers\u00e3o e umidade aos nova-iorquenses e moradores de munic\u00edpios vizinhos que passam por ali nos finais de semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No pen\u00faltimo domingo de julho passado, por\u00e9m, estes descontra\u00eddos cidad\u00e3os interromperam por um instante o que faziam para observar a chegada de um grupo de oito forasteiros que n\u00e3o pareciam ter vindo para pegar praia. N\u00e3o mesmo. Eles estavam atr\u00e1s de f\u00f3sseis. Procuravam os restos de uma floresta fossilizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O grupo \u201calien\u00edgena\u201d era formado por cinco homens e tr\u00eas mulheres, todos usando chap\u00e9u, blusa de manga comprida, cal\u00e7a e botina. A maioria tinha pele muito clara. O mais alto carregava na m\u00e3o um martelo e o mais magro, de cabelos longos e sotaque estrangeiro, andava na frente perguntando sobre um tal barqueiro, que sabia onde ficavam \u201cas pedras que parecem madeira\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mas o rapaz n\u00e3o veio e o jeito foi esperar por uma embarca\u00e7\u00e3o maior, que s\u00f3 poderia sair \u00e0 tarde. Um mau press\u00e1gio rondava os pensamentos daquele que segurava o martelo. \u201cO n\u00edvel do rio est\u00e1 muito alto. Acho que vai estar tudo debaixo d\u2019\u00e1gua\u201d, comentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Enquanto esperavam, os forasteiros se aboletaram no quiosque de seu Alzair, um pescador cearense, nova-iorquense de cora\u00e7\u00e3o e que \u2013 como se descobriria depois \u2013 gosta muito de ler. Ao saber das inten\u00e7\u00f5es deles, seu Alzair aproveitou para tirar uma d\u00favida antiga que deixou o grupo embasbacado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ele perguntou se os tais tocos petrificados eram de antes ou depois de o Brasil se separar da \u00c1frica, referindo-se ao fen\u00f4meno geol\u00f3gico que ocorreu cerca de 150 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s e deu origem ao Oceano Atl\u00e2ntico. Antes, muito antes, responderam os paleont\u00f3logos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Era o quinto dia de uma expedi\u00e7\u00e3o que reuniu representantes da Unesp e de duas universidades federais \u2013 do Piau\u00ed (UFPI) e do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao todo, dois professores, tr\u00eas p\u00f3s-graduandos, uma aluna de gradua\u00e7\u00e3o, mais a rep\u00f3rter e o fot\u00f3grafo de Unesp Ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O saldo daquele domingo foi parecido com o dos dias anteriores, como resumiu Rodrigo Neregato, doutorando da Unesp em Rio Claro, quando j\u00e1 est\u00e1vamos de volta ao quiosque de seu Alzair, tomando cerveja enquanto o sol ca\u00eda: \u201cT\u00e1 louco, nunca vi um (estudo de) campo t\u00e3o fraco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">De fato, a maioria dos troncos f\u00f3sseis estava submersa, mas o lugar parecia promissor, a julgar pelo material achado nas bordas do lago. Roberto Iannuzzi, professor da UFRGS (o homem do martelo), n\u00e3o se abateu. \u201cTemos de voltar com o n\u00edvel da \u00e1gua mais baixo.\u201d Para Juan Carlos Cisneros, um salvadorenho radicado em Teresina, docente da UFPI, a situa\u00e7\u00e3o era trivial. \u201cO paleont\u00f3logo tem de ser\u00a0 muito insistente e ter um pouco de sorte.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>A vida sem flores<\/strong><br \/>\nH\u00e1 poucas florestas petrificadas no mundo. E a que existe na Bacia do Parna\u00edba (veja mapa na p\u00e1g. 23) \u00e9 uma das mais exuberantes e mais antigas do hemisf\u00e9rio sul. Os troncos fossilizados que este grupo de cientistas rastreia s\u00e3o joias que ajudam a entender uma parte ainda pouco estudada da hist\u00f3ria da vida no planeta.<\/p>\n<p><strong><\/strong>Estamos falando de um tempo em que nenhuma planta era capaz de dar flor. Os \u00fanicos seres vivos que voavam eram os insetos, alguns deles gigantes. Entre os vertebrados, s\u00f3 havia anf\u00edbios ou r\u00e9pteis. E ainda levaria muito, mas muito tempo, at\u00e9 nascer o primeiro dinossauro. A cabe\u00e7a desses pesquisadores est\u00e1 na era Paleozoica, mais especificamente no per\u00edodo Permiano, que na r\u00e9gua do tempo geol\u00f3gico vai de 300 milh\u00f5es a 250 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Florestas fossilizadas s\u00e3o raras porque, para que um vegetal se petrifique em vez de apodrecer, s\u00e3o necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es ambientais particulares. \u201cOs caules t\u00eam de ser impregnados por um mineral, geralmente s\u00edlica, dissolvido no meio aqu\u00e1tico\u201d, explica Iannuzzi. A origem da s\u00edlica costuma ser as cinzas de erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Neste caso, o vulc\u00e3o devia estar a muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Talvez no que hoje \u00e9 a \u00c1frica, muito mais pr\u00f3xima naquela \u00e9poca, j\u00e1 que os continentes ainda n\u00e3o haviam se separado (veja mapa na p\u00e1g 23). \u201cN\u00e3o temos evid\u00eancias de atividade vulc\u00e2nica na Bacia do Parna\u00edba, ent\u00e3o imaginamos que as cinzas se depositaram em algum lugar e depois foram carregadas at\u00e9 aqui pela \u00e1gua\u201d, diz o paleont\u00f3logo da UFGRS.<\/p>\n<p>Impregnados pela s\u00edlica cuspida por algum vulc\u00e3o paleozoico, estes tocos de madeira com peso e consist\u00eancia de pedra ajudam a imaginar o que foi a vegeta\u00e7\u00e3o daquele lugar no Permiano, muito diferente do Cerrado atual, bastante verdejante em julho, quase sempre de m\u00e9dia estatura, com troncos \u00e1speros e retorcidos.<\/p>\n<p>Naquela era remota, as donas da paisagem eram as samambaias de grande porte, com at\u00e9 15 metros de altura. Um pouco menos abundantes eram as \u00e1rvores con\u00edferas, ancestrais long\u00ednquos dos pinheiros atuais. As cavalinhas, \u201cum tipo de bambuzinho que existe at\u00e9 hoje, s\u00f3 que gigante\u201d, eram mais raras, descreve Neregato, que as estuda em seu doutorado.<\/p>\n<p>Para cada um dos grupos anteriores tamb\u00e9m h\u00e1 um doutorado em andamento. As con\u00edferas s\u00e3o o assunto de Francine Kurzawe, na UFRGS, que fazia parte da expedi\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as samambaias ficam por conta de Tatiane Marinho, na Unesp em Rio Claro, que n\u00e3o viajou porque tinha de entregar a tese por aqueles dias.<\/p>\n<p>Engana-se quem estiver imaginando a floresta f\u00f3ssil como um bosque petrificado na posi\u00e7\u00e3o vertical. O que pesquisadores encontram ao longo da viagem s\u00e3o tocos dispersos no solo, muitas vezes com uma das pontas ainda oculta sob a terra.<\/p>\n<p>Muita coisa aconteceu depois do dia remoto em que estas plantas tombaram no ch\u00e3o. Em algum momento foram soterradas por sedimentos at\u00e9 que, muito tempo depois, a eros\u00e3o as trouxe de volta \u00e0 superf\u00edcie. Nesse lento processo, os troncos rolaram. Hoje dificilmente s\u00e3o achados em \u201cposi\u00e7\u00e3o de vida\u201d. Mas, como s\u00e3o pesados, n\u00e3o devem estar muito longe do local onde j\u00e1 fincaram ra\u00edzes.<\/p>\n<p>F\u00f3sseis de plantas podem n\u00e3o parecer um assunto t\u00e3o palpitante para o leigo quanto \u00e9 a fauna pr\u00e9-hist\u00f3rica extinta. Isso de certa forma ajuda a entender por que os paleont\u00f3logos especializados em bot\u00e2nica \u2013 os paleobot\u00e2nicos, minoria na paleontologia \u2013 raramente conseguem disfar\u00e7ar uma ponta de ressentimento quando t\u00eam de explicar que n\u00e3o s\u00e3o ca\u00e7adores de dinossauros, de mamutes, nem de pregui\u00e7as gigantes. No entanto, dada a oportunidade de defender sua especialidade profissional, eles oferecem bons argumentos.<\/p>\n<p>\u201cAs plantas refletem as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d, afirma Iannuzzi. \u201cAl\u00e9m de explicar a evolu\u00e7\u00e3o da vida vegetal no planeta, uma das principais contribui\u00e7\u00f5es da paleobot\u00e2nica \u00e9 compreender como a paisagem e o clima mudaram ao longo do tempo. Assim conseguimos saber, por exemplo, que parte da Europa j\u00e1 esteve congelada, e entender por que o Saara, hoje um deserto, um dia deu lugar a uma floresta.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de mais midi\u00e1ticos, os animais vertebrados s\u00e3o muito mais fr\u00e1geis, acrescenta o paleobot\u00e2nico. Sob condi\u00e7\u00f5es adversas, eles morrem ou migram. As plantas podem at\u00e9 sucumbir, mas deixam sementes capazes de passar longos per\u00edodos em estado dormente. S\u00f3 uma grande cat\u00e1strofe \u2013 e olhe l\u00e1 \u2013 pode impedir que elas germinem um dia.<\/p>\n<p>Na incurs\u00e3o de julho, o principal objetivo foi identificar novos s\u00edtios de ocorr\u00eancia das madeiras petrificadas. O grupo come\u00e7ou a estudar a Bacia do Parna\u00edba h\u00e1 alguns anos, por isso os tr\u00eas doutorados em fase adiantada, que se basearam em material coletado no Monumento Natural das \u00c1rvores Fossilizadas do Estado do Tocantins (veja quadro na p\u00e1g. 24). O que d\u00e1 para dizer at\u00e9 agora \u00e9 que estas plantas viveram numa grande plan\u00edcie por onde passava uma malha de rios estreitos e rasos, com clima quente e seco, alternado por esta\u00e7\u00f5es \u00famidas, possivelmente palco de grandes enxurradas (veja infogr\u00e1fico na p\u00e1g. 23).<\/p>\n<p><strong>Estresse ambiental<\/strong><br \/>\n\u201cO fato de haver uma planta dominante na paisagem \u2013 no caso, as samambaias \u2013, por si s\u00f3 \u00e9 indicativo de estresse ambiental\u201d, diz Rosemarie Rohn, da Unesp em Rio Claro, por telefone. Ela \u00e9 orientadora de Neregato e Tatiane, mas n\u00e3o p\u00f4de fazer parte da expedi\u00e7\u00e3o. Rosemarie conta com orgulho sobre as folhas coletadas por sua aluna (um golpe de sorte, pois encontrar caules \u00e9 a regra) que corrobora a ideia de um clima in\u00f3spito. \u201cAs folhas parecem uma bolsinha, a parte reprodutiva est\u00e1 totalmente protegida\u201d, diz. \u201cIsso \u00e9 sinal de estresse, provavelmente de pouca \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p>Nesta plan\u00edcie fluvial de clima aparentemente tropical havia espa\u00e7o tamb\u00e9m para pequenas praias de \u00e1gua salgada. L\u00ednguas de mar adentravam o continente pelo oeste, vindas do Oceano Pantalassa, que deu origem ao Pac\u00edfico \u2013 a Cordilheira dos Andes ainda n\u00e3o existia. Um dos pontos de parada da viagem foi uma dessas paleopraias, onde hoje fica uma pedreira da qual se extrai calc\u00e1rio, no munic\u00edpio de Pastos Bons (MA).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 a menor chance de achar troncos petrificados na pedreira, mas para os pesquisadores \u00e9 uma oportunidade de entender melhor o paleoambiente, investigando as paredes arrebentadas pela a\u00e7\u00e3o das britadeiras. \u201cEst\u00e1 vendo isso?\u201d, aponta Iannuzzi. \u201cS\u00e3o ondinhas fossilizadas.\u201d Mais adiante ele mostra uma greta de ressecamento (rachadura do solo) tamb\u00e9m fossilizada, aprisionada no sedimento, e compara com uma atual que se formava a poucos metros de dist\u00e2ncia. O barranco rochoso \u00e9 largamente fotografado pela equipe.<\/p>\n<p>Impressiona a quantidade de informa\u00e7\u00f5es que os paleont\u00f3logos conseguem deduzir a partir da observa\u00e7\u00e3o de barrancos, que eles chamam de afloramentos. Tanto que durante a viagem eles paravam v\u00e1rias vezes na estrada para analisar evid\u00eancias de dunas e de outros tipos de forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas. Alguns cent\u00edmetros de sedimentos podem significar a passagem de milh\u00f5es de anos. \u201cAs camadas de sedimento s\u00e3o como as p\u00e1ginas de um grande livro que conta a hist\u00f3ria da Terra\u201d, compara Juan Carlos Cisneros, da UFPI.<\/p>\n<p>Ainda na antiga praia que virou pedreira, enquanto a maior parte do grupo se entretinha nos barrancos, Cisneros e sua aluna de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica Domingas Maria da Concei\u00e7\u00e3o tomaram outro rumo. Come\u00e7aram a revolver fragmentos de rocha e a martel\u00e1-los de vez em quando, em busca de f\u00f3sseis de animais. \u201cO objetivo desta viagem s\u00e3o as madeiras, mas j\u00e1 que estou aqui n\u00e3o posso perder a oportunidade\u201d, justifica-se o salvadorenho, interessado em vertebrados.<\/p>\n<p>A floresta petrificada \u00e9 uma das pontas de um projeto maior, iniciado no fim do ano passado com financiamento do CNPq, que inclui tamb\u00e9m a procura por vertebrados do Permiano na Bacia do Parna\u00edba. E essa pedreira em particular tem valor hist\u00f3rico, al\u00e9m de cient\u00edfico. D\u00e9cadas atr\u00e1s, ali foram encontrados os f\u00f3sseis daquele que \u00e9 considerado o maior anf\u00edbio que j\u00e1 existiu.<\/p>\n<p><strong>Anf\u00edbio gigante<\/strong><br \/>\nNos anos 1940, o ge\u00f3logo Llewellyn Ivor Price (que apesar do nome era brasileiro) foi enviado ao interior do Maranh\u00e3o pelo governo federal para prospectar carv\u00e3o e petr\u00f3leo. O que acabou encontrando, por\u00e9m, foram partes do cr\u00e2nio e do f\u00eamur do anf\u00edbio batizado com o nome de Prionosuchus plummeri. \u201c\u00c9 um parente distante dos sapos, s\u00f3 que mais parecido com um jacar\u00e9 ou gavial. Um animal de h\u00e1bitos aqu\u00e1ticos\u201d, descreve Cisneros.<\/p>\n<p>Considerado o pai da paleontologia de vertebrados no Brasil, Price publicou a descoberta em 1948 e s\u00f3 conseguiria retornar ao local mais de 30 anos depois. Foi quando encontrou outras partes de um bicho da mesma esp\u00e9cie. Juntando as pe\u00e7as, estima-se o comprimento da criatura em pelo menos 6 metros. \u201cMas estas estimativas s\u00e3o sempre imprecisas quando n\u00e3o se tem o esqueleto completo\u201d, afirma o paleont\u00f3logo da UFPI, que est\u00e1 disposto a encontrar outras partes do anf\u00edbio e completar o quebra-cabe\u00e7a. Al\u00e9m de procurar ind\u00edcios de vertebrados terrestres, que s\u00e3o seu maior interesse.<\/p>\n<p>Martelando rochas na pedreira, o que Cisneros acabou encontrando foram pequenos fragmentos de peixes que um dia passaram por aquela antiga praia. Os peixes, por\u00e9m, s\u00e3o a especialidade de Martha Richter, uma brasileira que trabalha como curadora de paleontologia de vertebrados no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Londres.<\/p>\n<p>Colaboradora do projeto, ela esteve na regi\u00e3o em fevereiro passado. \u201cEncontramos restos de uma fauna de peixes razoavelmente diversificada, incluindo pequenos tubar\u00f5es, que chegavam pelas l\u00ednguas oce\u00e2nicas\u201d, conta Martha por telefone, desde Londres. Para ela, um dos aspectos mais importantes deste projeto ser\u00e1 reunir todos os dados relativos \u00e0 fauna e \u00e0 flora permiana em sequ\u00eancia cronol\u00f3gica. \u201cO grande desafio \u00e9 saber o que precedeu o qu\u00ea\u201d, diz.<\/p>\n<p>O Permiano durou 50 milh\u00f5es de anos, o que \u00e9 muito tempo at\u00e9 para quem est\u00e1 acostumado a trabalhar na escala geol\u00f3gica. Os pesquisadores ainda n\u00e3o sabem ao certo, mas sup\u00f5em que a floresta fossilizada tenha estado em p\u00e9 entre o in\u00edcio e a metade desse per\u00edodo (ou seja, entre 300 milh\u00f5es e 275 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s).<\/p>\n<p>Sobre os animais, menos estudados, pouco \u00e9 poss\u00edvel dizer. O que d\u00e1 para afirmar com relativa seguran\u00e7a \u00e9 que no decorrer desses milh\u00f5es de anos o clima da Bacia do Parna\u00edba foi ficando cada vez mais quente e \u00e1rido. E aquela plan\u00edcie onde antes reinaram as samambaias se transformou num enorme deserto. Prova disso s\u00e3o os espessos blocos de arenito no topo de morros \u2013 dunas petrificadas \u2013 que avist\u00e1vamos da estrada.<\/p>\n<p><strong>Fim tr\u00e1gico<\/strong><br \/>\nO fim do Permiano \u2013 h\u00e1 250 milh\u00f5es de anos \u2013 \u00e9 marcado por uma grande trag\u00e9dia: uma extin\u00e7\u00e3o em massa muito mais devastadora do que aquela que extinguiu os dinossauros no fim do per\u00edodo Cret\u00e1ceo, 65 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. A extin\u00e7\u00e3o do Permiano foi a maior cat\u00e1strofe global de todos os tempos. Varreu do mapa mais de 90% das esp\u00e9cies de seres vivos. Os trilobitas, por exemplo, invertebrados marinhos de corpo achatado, est\u00e3o entre os que sucumbiram.<\/p>\n<p>Diferentemente do cataclismo que acabou com a vida dos dinossauros, deflagrado por um asteroide que colidiu com a Terra, a grande extin\u00e7\u00e3o em massa do Permiano teve origem em gigantescas e prolongadas erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas na Sib\u00e9ria \u2013 fen\u00f4meno conhecido como Armadilhas Siberianas.<\/p>\n<p>A quantidade de cinza expelida na atmosfera foi t\u00e3o brutal que o planeta primeiro esfriou, para depois arder em decorr\u00eancia do efeito estufa. Acredita-se que a temperatura tenha se elevado em at\u00e9 10 \u00b0C.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o durou muito tempo, acredita-se que pelo menos 80 mil anos. Grandes desertos se espalharam pela Terra no per\u00edodo Tri\u00e1ssico, que se seguiu ao Permiano. Levaria muito tempo at\u00e9 que a biodiversidade se recompusesse.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores brasileiros, a Bacia do Parna\u00edba parece ter come\u00e7ado a virar deserto bem antes disso. Provavelmente foi um fen\u00f4meno local, que talvez tenha se emendado com o processo de desertifica\u00e7\u00e3o global. \u00c9 dif\u00edcil saber, mas talvez este projeto ajude a fornecer alguma pista nesse sentido.<\/p>\n<p>\u201cA Bacia do Parna\u00edba ainda \u00e9 muito pouco explorada\u201d, afirma Martha Richter. \u201c\u00c9 importante que comece a ser estudada sistematicamente, porque \u00e9 um lugar muito interessante para entender as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ao longo do Permiano, inclusive a grande extin\u00e7\u00e3o em massa.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ela, para encontrar respostas definitivas para quest\u00f5es t\u00e3o complexas para a paleontologia \u201c\u00e9 preciso coletar f\u00f3sseis em v\u00e1rias partes do mundo e tentar correlacion\u00e1-los numa linha de tempo\u201d. \u00c9 por isso que os recentes estudos nessa regi\u00e3o do Cerrado nordestino j\u00e1 atraem a aten\u00e7\u00e3o de paleont\u00f3logos estrangeiros dedicados \u00e0 pesquisa do Permiano. O projeto brasileiro conta com colaboradores da Argentina, da \u00c1frica do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na Alemanha, pesquisadores do Museu de Hist\u00f3ria Natural de Chemnitz t\u00eam interesse especial no Brasil porque a floresta f\u00f3ssil daqui se parece com a que existe naquele pa\u00eds. Um conv\u00eanio entre a Unesp e o museu alem\u00e3o vem permitindo que p\u00f3s-graduandos brasileiros passem um tempo l\u00e1. Tatiane Marinho, doutoranda em Rio Claro, ficou dois meses em Chemnitz\u00a0 em 2008. Seu colega Rodrigo Neregato tem viagem planejada ainda para este ano.<\/p>\n<p>A Bacia do Parna\u00edba n\u00e3o era muito estudada at\u00e9 recentemente mais por dificuldades de acesso e infraestrutura do que por desinteresse dos cientistas. \u201cNunca houve paleont\u00f3logos residentes na regi\u00e3o\u201d, justifica Cisneros, que se tornou o primeiro ap\u00f3s ser contratado pela UFPI h\u00e1 cerca de um ano. \u201c\u00c9 um lugar distante dos grandes centros de pesquisa, de log\u00edstica complicada para estudos de campo\u201d, complementa. Agora, tendo o pesquisador\u00a0 como base de apoio local, os projetos ganham novo ritmo.<\/p>\n<p>Em duas confort\u00e1veis caminhonetes com motoristas cedidos pela UFPI, a equipe rodou quase 2 mil quil\u00f4metros ao longo de dez dias. \u201cEssa infraestrutura facilita muito nosso trabalho\u201d, reconhece Iannuzzi. \u201c\u00c9 o tipo de viagem que n\u00e3o se pode fazer num carro s\u00f3, at\u00e9 por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, como deu para perceber\u201d, diz ele, referindo-se ao imprevisto ocorrido logo no primeiro dia da expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s atravessar com dificuldade um caminho de pedras gra\u00fadas e pontudas para chegar at\u00e9 um lugar onde havia madeiras f\u00f3sseis, um dos pneus de uma caminhonete estourou assim que alcan\u00e7ou o asfalto. Na tentativa de troc\u00e1-lo, veio a surpresa desagrad\u00e1vel. O macaco n\u00e3o aguentava o peso do ve\u00edculo, acabou entortando e n\u00e3o prestou mais. O borracheiro mais perto ficava a uns 20 km de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>QUADRO: Contrabando levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de monumento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Durante v\u00e1rios anos, as madeiras petrificadas da Bacia do Parna\u00edba foram contrabandeadas para a Europa, o Jap\u00e3o e os Estados Unidos. Depois de fatiadas e polidas, eram vendidas como tampos de mesa, molduras para rel\u00f3gios de parede, porta-copos, entre outros objetos utilit\u00e1rios ou ornamentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O material era explorado pela mineradora Pedra de Fogo, no munic\u00edpio de Filad\u00e9lfia, ao norte do Tocantins, numa \u00e1rea que abrange tr\u00eas fazendas de propriedade particular. A pol\u00edcia entrou no caso em 2000. Ainda naquele ano, o governo do Estado transformou a \u00e1rea em Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o, o chamado Monumento Natural das \u00c1rvores Fossilizadas do Estado do Tocantins (MNAFTO).<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na Justi\u00e7a, o caso envolvendo a mineradora se arrastaria ainda por v\u00e1rios anos. Em 2010, cerca de 90 toneladas de madeiras fossilizadas foram apreendidas no dep\u00f3sito da mineradora Pedra de Fogo, em Goi\u00e2nia. As fotos desse lugar, com troncos gigantes, ainda est\u00e3o no site da empresa, aparentemente abandonado: <a href=\"http:\/\/www.pedradefogo.com.br.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.pedradefogo.com.br.<br \/>\n<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A pedido da reportagem, a expedi\u00e7\u00e3o visitou uma das fazendas localizadas dentro do MNAFTO, onde, por determina\u00e7\u00e3o da Secretaria de Meio Ambiente do Tocantins, a coleta de material est\u00e1 proibida, inclusive para finalidades cient\u00edficas. O que se v\u00ea s\u00e3o apenas troncos pequenos e relativamente escassos. \u201cA \u00e1rea est\u00e1 bem degradada. O melhor j\u00e1 foi levado\u201d, comenta Roberto Iannuzzi, da UFGRS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de setembro de 2011. 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