{"id":491,"date":"2011-10-07T17:08:32","date_gmt":"2011-10-07T20:08:32","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=491"},"modified":"2011-10-07T17:08:32","modified_gmt":"2011-10-07T20:08:32","slug":"aids-3-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/10\/07\/aids-3-0\/","title":{"rendered":"Aids 3.0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Mat\u00e9ria publicada na <a href=\"http:\/\/http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=4095\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Unesp Ci\u00eancia<\/a> de outubro de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-499\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/10\/aids-1-545x358.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"358\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-497\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/10\/aids2-545x357.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"357\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-498\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/10\/aids3-545x358.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"358\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-500\" style=\"border: 1px solid black\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/10\/aids-4-545x356.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"356\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Depois de tr\u00eas d\u00e9cadas de luta contra o HIV,o tratamento garantiu vida longa aos pacientes; mas agora a medicina se depara com outro problema: envelhecer com a doen\u00e7a \u00e9 envelhecer mais cedo<\/strong><\/p>\n<p>Nos 30 anos que se passaram desde que os primeiros casos de Aids foram confirmados nos Estados Unidos, o papel da medicina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a evoluiu de \u201cexpectadora da cat\u00e1strofe\u201d a controladora muito eficiente da replica\u00e7\u00e3o viral, permitindo aos soropositivos viverem livres das infec\u00e7\u00f5es oportunistas e por muito mais tempo. Mas se a conquista da longevidade foi umas das principais vit\u00f3rias na luta contra a Aids, hoje a ci\u00eancia se v\u00ea mais uma vez diante de um desafio. Justamente por causa dessa conviv\u00eancia prolongada com o v\u00edrus da imunodefici\u00eancia humana, o HIV, a doen\u00e7a est\u00e1 revelando uma nova face.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o promovido, a partir de 1996, pelo uso combinado de drogas potentes, o chamado coquetel, possibilitou que muitos j\u00e1 convivam com o HIV h\u00e1 mais de dez anos, passando a sensa\u00e7\u00e3o de que os pacientes regularmente medicados teriam toda a vida pela frente como qualquer pessoa. Tal percep\u00e7\u00e3o mudou, por\u00e9m \u2013 pelo menos entre os especialistas.<\/p>\n<p>Um n\u00famero crescente de estudos mostra que \u201ca terapia anti-HIV previne as complica\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 Aids e prolonga a vida, mas n\u00e3o restabelece completamente a sa\u00fade\u201d, como frisaram os editores da revista <em>Annals of Internal Medicine<\/em> em outubro do ano passado, numa edi\u00e7\u00e3o dedicada ao tema do envelhecimento precoce ou acelerado \u2013 o mais novo verbete no l\u00e9xico de pesquisas em torno da Aids.<\/p>\n<p>O acompanhamento dessas pessoas ao longo dos \u00faltimos anos vem demonstrando que envelhecer na companhia do HIV \u00e9, infelizmente, envelhecer mais r\u00e1pido. Uma s\u00e9rie de problemas t\u00edpicos da senesc\u00eancia, como infarto, derrame, osteoporose, dem\u00eancia e c\u00e2ncer, n\u00e3o s\u00e3o apenas mais comuns numa parcela significativa desta popula\u00e7\u00e3o, como tendem a aparecer mais cedo. Tamb\u00e9m \u00e9 fato que, embora alguns destes males sejam causados pelo uso continuado da medica\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios outros est\u00e3o relacionados \u00e0 persist\u00eancia prolongada do v\u00edrus no organismo.<\/p>\n<p>\u201cCom o tratamento, n\u00f3s resolvemos o pior dos problemas, que eram as infec\u00e7\u00f5es oportunistas\u201d, diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, pesquisador da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu. O paciente que faz o uso correto da medica\u00e7\u00e3o, explica ele, consegue manter a carga viral no sangue em n\u00edveis baixos ou at\u00e9 mesmo indetect\u00e1veis por muitos anos. Assim, os linf\u00f3citos CD4, que s\u00e3o o alvo do HIV, s\u00e3o poupados, e as defesas imunol\u00f3gicas do organismo seguem funcionando.<\/p>\n<p>\u201cO problema \u00e9 que existem outros s\u00edtios de replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, onde a maioria dos medicamentos n\u00e3o consegue chegar\u201d, diz o m\u00e9dico. S\u00e3o eles o sistema linf\u00e1tico e o sistema nervoso central.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O sistema linf\u00e1tico \u00e9 uma rede complexa de ductos e g\u00e2nglios distribu\u00eddos pelo corpo todo, cujas principais fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o remover o excesso de l\u00edquido dos tecidos e produzir as c\u00e9lulas imunol\u00f3gicas. O sistema nervoso central envolve o c\u00e9rebro e a medula espinhal. Refugiado nesses dois compartimentos, fora do alcance dos medicamentos, o HIV continua se replicando.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o, ainda que sem sucesso, do sistema imunol\u00f3gico a essas infec\u00e7\u00f5es localizadas gera um estado inflamat\u00f3rio que se prolonga enquanto o v\u00edrus se replica. A inflama\u00e7\u00e3o permanente se dissemina pelo corpo e acaba trazendo preju\u00edzos a v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os e tecidos, com efeitos que s\u00f3 s\u00e3o sentidos em longo prazo.<\/p>\n<p><strong>Inflama\u00e7\u00e3o permanente<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 esse estado inflamat\u00f3rio cr\u00f4nico que vai desencadear ou acelerar v\u00e1rias doen\u00e7as associadas ao envelhecimento\u201d, explica Barbosa. Pesquisas indicam que, de forma geral e com muita varia\u00e7\u00e3o individual, o processo de envelhecimento nos soropositivos tratados est\u00e1 adiantado em cerca de 15 anos em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Um dos trabalhos pioneiros nessa \u00e1rea realizados no Brasil foi feito por Barbosa no Hospital Dia Domingos Alves Meira, um centro multidisciplinar especializado no tratamento de HIV e hepatites virais, ligado \u00e0 Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu (FMB). L\u00e1 s\u00e3o acompanhados cerca de 600 portadores de HIV. Cerca de 20% deles t\u00eam tamb\u00e9m VHC, o v\u00edrus da hepatite C, doen\u00e7a que ataca o f\u00edgado e leva \u00e0 cirrose.<\/p>\n<p>Em seu doutorado, defendido em 2010, o infectologista demonstrou pela primeira vez que os pacientes coinfectados evoluem para cirrose mais r\u00e1pido que aqueles que t\u00eam apenas hepatite C. Estudos feitos em outros pa\u00edses t\u00eam mostrado que a conviv\u00eancia com o HIV pode levar a uma maior vulnerabilidade do f\u00edgado, predispondo&#8211;o a doen\u00e7as degenerativas, entre elas o c\u00e2ncer. Problemas renais tamb\u00e9m v\u00eam sendo relatados de forma mais frequente nos soropositivos.<\/p>\n<p>Outra \u00e1rea que chama a aten\u00e7\u00e3o dos infectologistas \u00e9 a das doen\u00e7as cardiovasculares, principal causa de morte na popula\u00e7\u00e3o geral no mundo todo. Nos portadores do HIV, elas tendem a se manifestar antes do esperado, como tem observado o cardiologista Jo\u00e3o Carlos Hueb, tamb\u00e9m pesquisador da FMB, num projeto de pesquisa em andamento em Botucatu e financiado pela Fapesp. \u201cN\u00e3o \u00e9 raro termos pacientes de 40 anos com um n\u00edvel de aterosclerose que estamos acostumados a ver em pessoas de 60 anos\u201d, conta.<\/p>\n<p>A pesquisa prev\u00ea a avalia\u00e7\u00e3o cardiovascular de todos os pacientes com HIV atendidos no Hospital Dia. O objetivo \u00e9 conseguir isolar qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia com o v\u00edrus no risco de infarto, acidente vascular cerebral e outros eventos desta natureza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, porque h\u00e1 diversos outros fatores envolvidos comuns a qualquer pessoa, como alimenta\u00e7\u00e3o, tabagismo, hereditariedade e o envelhecimento em si; e outros ainda decorrentes dos medicamentos anti-HIV, que sabidamente tendem a reduzir o colesterol bom (HDL) e a aumentar os triglic\u00e9rides, contribuindo tamb\u00e9m para a aterosclerose.<\/p>\n<p>O estudo, que deve gerar resultados no ano que vem, vai analisar ainda a contagem de linf\u00f3citos CD4 dos pacientes e a variabilidade gen\u00e9tica do v\u00edrus que cada um deles carrega. \u201cA ideia \u00e9 tentar descobrir por que esses problemas afetam boa parte deles, mas n\u00e3o todos\u201d, explica Hueb.<\/p>\n<p>Embora a experi\u00eancia cl\u00ednica n\u00e3o deixe d\u00favida de que os soropositivos adoecem mais de doen\u00e7as cardiovasculares, os especialistas n\u00e3o falam em n\u00fameros, seja do percentual de pacientes afetados, seja do qu\u00e3o maior \u00e9 esse risco. Ainda n\u00e3o h\u00e1 estudos suficientes, e a maioria dos trabalhos j\u00e1 feitos envolve um n\u00famero limitado de pacientes. \u201cIsso vai ficar mais claro quando pudermos reunir mais evid\u00eancias e fazer metan\u00e1lises\u201d, justifica o cardiologista.<\/p>\n<p><strong>Envelhecimento cerebral<\/strong><br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as degenerativas que afetam o c\u00e9rebro dos portadores de HIV, o panorama j\u00e1 \u00e9 bem mais claro. De 30% a 60% deles t\u00eam alguma queixa cognitiva leve e outros 15% apresentam dem\u00eancia em grau moderado ou grave. Nesses casos \u00e9 muito mais f\u00e1cil isolar a causa: a inflama\u00e7\u00e3o gerada pela pr\u00f3pria presen\u00e7a do HIV, que encontra no sistema nervoso central um territ\u00f3rio livre da a\u00e7\u00e3o da maioria dos medicamentos.<\/p>\n<p>A inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica e as toxinas liberadas pelo v\u00edrus levam a danos progressivos no tecido cerebral, explica a psic\u00f3loga Fl\u00e1via Helo\u00edsa dos Santos, da Unesp em Assis, que pesquisa dist\u00farbios neurocognitivos nesses pacientes.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 perda de sinapses (as conex\u00f5es entre neur\u00f4nios) e de subst\u00e2ncia branca (respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o r\u00e1pida do impulso nervoso)\u201d, explica. As c\u00e9lulas gliais, que auxiliam o funcionamento dos neur\u00f4nios, tamb\u00e9m s\u00e3o prejudicadas. Nos casos mais avan\u00e7ados, a tomografia mostra que as les\u00f5es se concentram em regi\u00f5es espec\u00edficas do c\u00e9rebro, levando a lentid\u00e3o mental e motora, dificuldade para tomar decis\u00f5es e aumento da impulsividade.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio das outras doen\u00e7as do envelhecimento associadas ao HIV, das quais os cientistas s\u00f3 come\u00e7aram a se dar conta nos \u00faltimos anos, os dist\u00farbios neurocognitivos e a dem\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o novidade para os profissionais da \u00e1rea, mas ainda n\u00e3o recebem a devida aten\u00e7\u00e3o, segundo Fl\u00e1via. \u201cA meta principal do tratamento sempre foi manter o paciente vivo. Esse \u00e9 o olhar do m\u00e9dico, da fam\u00edlia e do pr\u00f3prio paciente\u201d, diz. \u201cN\u00e3o se costuma achar muito relevante quando ocorrem os primeiros esquecimentos, quando a fala d\u00e1 sinais de lentid\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do quadro \u00e9 bastante vari\u00e1vel entre os pacientes, explica a psic\u00f3loga. Como para qualquer pessoa que envelhece, independentemente de ter ou n\u00e3o HIV, o exerc\u00edcio mental, o grau de escolaridade, a atividade f\u00edsica e uma boa alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o fatores que exercem certa prote\u00e7\u00e3o contra o problema. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel mudar a composi\u00e7\u00e3o do coquetel, incluindo drogas capazes de atingir o sistema nervoso central, embora haja dois inconvenientes: estes medicamentos causam mais efeitos colaterais e o n\u00famero total de comprimidos di\u00e1rios aumenta, o que pode comprometer a ades\u00e3o ao tratamento.<\/p>\n<p>Para propor essa mudan\u00e7a na medica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, o m\u00e9dico depende de uma avalia\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica do paciente \u2013 pr\u00e1tica que n\u00e3o \u00e9 rotina no tratamento dos portadores de HIV no Brasil. E at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo n\u00e3o havia ferramentas apropriadas para isso. Recentemente, a psic\u00f3loga de Assis concluiu um projeto no qual uma s\u00e9rie de escalas e question\u00e1rios, j\u00e1 usados para esse fim nos Estados Unidos, foi traduzida para o portugu\u00eas e adaptada \u00e0 realidade brasileira. Esses instrumentos est\u00e3o sendo aplicados, em car\u00e1ter experimental, nos pacientes atendidos no Hospital Dia de Botucatu.<\/p>\n<p><strong>Reformula\u00e7\u00e3o de diretrizes<\/strong><br \/>\nCom todos esses dist\u00farbios associados ao envelhecimento incidindo mais r\u00e1pida e frequentemente nos portadores de HIV, o tratamento da infec\u00e7\u00e3o tende a passar por mudan\u00e7as nos pr\u00f3ximos anos. \u201c\u00c9 o come\u00e7o de uma nova fase\u201d, afirma Barbosa. O tema foi um dos principais destaques da confer\u00eancia anual da Sociedade Internacional de Aids, da qual o pesquisador participou em julho passado em Roma. Segundo ele, alguns estudos j\u00e1 avaliam a possibilidade de lan\u00e7ar m\u00e3o de medicamentos que possam prevenir ou retardar o estado inflamat\u00f3rio cr\u00f4nico causado pela persist\u00eancia do HIV.<\/p>\n<p>Uma no\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que est\u00e3o por vir foi apresentada pelo infectologista Steven G. Deeks, da Universidade da Calif\u00f3rnia em S\u00e3o Francisco, numa extensa revis\u00e3o sobre o assunto na edi\u00e7\u00e3o de fevereiro passado da revista <em>Annual Review of Medicine<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cQualquer droga destinada a idosos que avance nos estudos cl\u00ednicos deve ser considerada para poss\u00edvel uso em portadores de HIV jovens tratados [&#8230;] Drogas aprovadas que tenham efeito anti-inflamat\u00f3rio e sejam usadas em idosos devem ser estudadas em indiv\u00edduos com HIV. Espera-se que modifica\u00e7\u00f5es no estilo de vida, incluindo exerc\u00edcio e mudan\u00e7as na dieta, possam provar-se ben\u00e9ficas como complemento aos regimes antivirais convencionais.\u201d<\/p>\n<p>O novo cen\u00e1rio levanta tamb\u00e9m outro debate: quando a terapia anti-HIV deve ser iniciada? Atualmente, no Brasil, algu\u00e9m diagnosticado com o v\u00edrus s\u00f3 come\u00e7a a usar os medicamentos quando a contagem de linf\u00f3citos CD4 cai abaixo de 350 c\u00e9lulas por mil\u00edmetro c\u00fabico.<\/p>\n<p>Especialistas questionam se a administra\u00e7\u00e3o mais precoce das drogas anti-HIV n\u00e3o ajudaria a combater os processos inflamat\u00f3rios decorrentes da replica\u00e7\u00e3o viral sem controle na corrente sangu\u00ednea, o que poderia retardar o avan\u00e7o de doen\u00e7as do envelhecimento que tendem a aparecer mais \u00e0 frente. Por enquanto, o in\u00edcio imediato da medica\u00e7\u00e3o, independentemente dos n\u00edveis de c\u00e9lulas CD4, \u00e9 feito apenas em pessoas acima dos 55 anos, justamente porque, para um portador de HIV nesta idade, considera-se que seu organismo j\u00e1 \u00e9 fr\u00e1gil, como o dos idosos.<\/p>\n<p>O tema come\u00e7a a repercutir no Brasil. Uma das principais novidades do pr\u00f3ximo consenso sobre o tratamento do HIV, documento orientador do Programa DST\/Aids do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a ser publicado at\u00e9 o fim do ano (o \u00faltimo \u00e9 de 2008), ter\u00e1 pela primeira vez um cap\u00edtulo espec\u00edfico sobre inflama\u00e7\u00e3o e envelhecimento precoce.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que m\u00e9dicos e profissionais de sa\u00fade comecem a se acercar da problem\u00e1tica, explica o infectologista Ronaldo Hallal, assessor t\u00e9cnico do programa. \u201cO carro-chefe das recomenda\u00e7\u00f5es s\u00e3o mudan\u00e7as no estilo de vida que dizem respeito \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as cr\u00f4nicas\u201d, afirma Hallal. \u201cCombater o tabagismo, incentivar a atividade f\u00edsica e a boa alimenta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 um come\u00e7o. No futuro, entretanto, medidas mais complexas talvez tenham de ser incorporadas ao tratamento da Aids. Um exemplo \u00e9 a iniciativa pioneira que est\u00e1 tomando o Hospital Dia de Botucatu, onde um ambulat\u00f3rio da cardiologia come\u00e7a a ser planejado para acompanhar o risco cardiovascular dos pacientes e trat\u00e1&#8211;los sempre que for o caso. \u201cUma vez que identificamos o problema nessas pessoas,<br \/>\ntemos o dever \u00e9tico de intervir\u201d, diz o cardiologista Jo\u00e3o Carlos Hueb.<\/p>\n<p>Outra \u00e1rea que merece aten\u00e7\u00e3o e investimento \u00e9 a ortop\u00e9dica, ressalta a infectologista Lenice Souza, tamb\u00e9m da Unesp em Botucatu e do Hospital Dia. \u201cN\u00f3s falhamos ao n\u00e3o fazer avalia\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas<br \/>\nvisando a preven\u00e7\u00e3o de osteopenia e osteoporose\u201d, admite a m\u00e9dica. A fragilidade dos ossos, que aumenta o risco de fraturas, atinge os portadores de HIV com frequ\u00eancia at\u00e9 tr\u00eas vezes maior que a popula\u00e7\u00e3o idosa n\u00e3o infectada, al\u00e9m de se manifestar mais precocemente.<\/p>\n<p>Para prevenir o avan\u00e7o dos dist\u00farbios neurocognitivos e da dem\u00eancia, que tanto podem prejudicar a qualidade de vida dos pacientes, tamb\u00e9m seria ideal que eles passassem por avalia\u00e7\u00f5es neuropsicol\u00f3gicas peri\u00f3dicas para detectar o problema logo no in\u00edcio, bem como por terapia de reabilita\u00e7\u00e3o, defende a psic\u00f3loga Fl\u00e1via Helo\u00edsa de Souza. Segundo ela, essa j\u00e1 \u00e9 uma pr\u00e1tica padr\u00e3o nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cA reabilita\u00e7\u00e3o visa criar estrat\u00e9gias para melhorar a aten\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, tentar adaptar os pacientes ao estudo ou ao trabalho, porque geralmente ocorre uma lentid\u00e3o f\u00edsica e mental, que muda a din\u00e2mica do cotidiano\u201d, explica.<\/p>\n<p>Prevenir lapsos de mem\u00f3ria \u00e9 extremamente importante para o pr\u00f3prio sucesso do tratamento, prossegue a pesquisadora. \u201cO paciente que hoje se esquece de uma chave, por exemplo, amanh\u00e3 pode n\u00e3o se lembrar de tomar o rem\u00e9dio, ou se confunde e n\u00e3o sabe se j\u00e1 tomou ou n\u00e3o. Isso \u00e9 comum e muito s\u00e9rio\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Tomar os medicamentos da forma correta \u2013 religiosamente nos mesmos hor\u00e1rios \u2013 \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o que os portadores mais ouvem dos infectologistas, porque disso depende o sucesso do tratamento. \u201cCostumo brincar com meus pacientes dizendo que o ideal era que eles desenvolvessem TOC (transtorno obsessivo-<br \/>\n-compulsivo) em rela\u00e7\u00e3o ao hor\u00e1rio dos rem\u00e9dios\u201d, diz Barbosa.<\/p>\n<p>Mesmo pequenos atrasos na ingest\u00e3o dos comprimidos podem levar a uma queda na concentra\u00e7\u00e3o das drogas no sangue. E, se isso ocorre, o HIV encontra caminho livre para se replicar, algo que \u00e9 capaz de fazer com extrema velocidade. Quanto mais se replicar, maior a probabilidade de ocorrerem muta\u00e7\u00f5es em seu c\u00f3digo gen\u00e9tico. E quanto mais muta\u00e7\u00f5es, maior a chance de alguma delas tornar o v\u00edrus resistente aos rem\u00e9dios em uso, o que requer a substitui\u00e7\u00e3o deles por outros, geralmente de maior custo (veja quadros na p\u00e1g. 22 e ao lado).<\/p>\n<p>A resist\u00eancia viral \u00e9 um problema ainda mais s\u00e9rio nos pacientes antigos, aqueles que passaram pelas primeiras drogas anti&#8211;HIV, no fim dos anos 1980, entre elas o AZT. A mudan\u00e7a da medica\u00e7\u00e3o ao longo dos anos acabou selecionando v\u00edrus que, hoje, s\u00f3 se conseguem combater com os medicamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, a chamada terapia de terceira linha.<\/p>\n<p>Dos 210 mil pacientes em tratamento no Brasil hoje, cerca de 5 mil se encontram nessa situa\u00e7\u00e3o. Enquanto cada paciente em terapia de primeira linha (o coquetel com o qual todo paciente inicia o tratamento e, se n\u00e3o houver falha da ades\u00e3o, dificilmente vai precisar mud\u00e1-lo) custa ao governo em torno de US$ 900 por ano, na terceira linha esse custo sobe para US$ 4 mil por ano por paciente.<\/p>\n<p><strong>De tr\u00e1s para a frente<\/strong><br \/>\nTrinta anos ap\u00f3s o in\u00edcio da epidemia de Aids, especialistas se d\u00e3o conta de que a descoberta da doen\u00e7a est\u00e1 ocorrendo \u201cde tr\u00e1s para a frente\u201d, como observa o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, pesquisador da Unifesp, especialista em resist\u00eancia do HIV. No come\u00e7o, explica ele, o que se via era fim da doen\u00e7a, ou seja, a morte r\u00e1pida pela imunodefici\u00eancia (\u00e9 dele a express\u00e3o que abre a reportagem, de que o mundo era mero \u201cexpectador da cat\u00e1strofe\u201d). Hoje, com a infec\u00e7\u00e3o controlada, diz, \u201cn\u00f3s vemos o come\u00e7o, ou seja, o processo inflamat\u00f3rio que culmina como o envelhecimento prematuro do indiv\u00edduo\u201d.<\/p>\n<p>Esta nova face do HIV ainda \u00e9 pouco conhecida da popula\u00e7\u00e3o. E, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, a longevidade conquistada por meio dos rem\u00e9dios nos \u00faltimos 15 anos parece haver criado em muitos a sensa\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a est\u00e1 controlada. \u201cEssa \u00e9 uma falsa ideia\u201d, alerta Lenice Souza.<br \/>\nSegundo a m\u00e9dica, as pessoas est\u00e3o \u201cbaixando a guarda\u201d, deixando de se proteger, sobretudo os mais jovens, que n\u00e3o t\u00eam na mem\u00f3ria os horrores do in\u00edcio da epidemia. \u201cDesde o ano passado temos recebido (no Hospital Dia em Botucatu) um maior n\u00famero de homossexuais, na faixa dos 20 anos, que se infectaram recentemente\u201d, diz. O mesmo fen\u00f4meno \u00e9 notado por Ricardo Diaz na Unifesp.<\/p>\n<p>Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, referentes a 2009, mostram que o maior avan\u00e7o da epidemia vem ocorrendo entre jovens de 25 a 29 anos e idosos acima dos 60. Considerando todas as faixas et\u00e1rias, em 2009 foram registrados mais de 38 mil novos casos. Tanto a cura quanto a vacina ainda parecem distantes. \u201cO HIV \u00e9 um pat\u00f3geno de sucesso\u201d, define Diaz. Prevenir-se ainda \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00a0***<\/p>\n<p><strong>QUADRO: Vigil\u00e2ncia contra a resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Cada vez que o HIV faz uma c\u00f3pia de si mesmo, h\u00e1 uma pequena chance de esta c\u00f3pia sair com algum defeito. Isso tende a ocorrer com qualquer c\u00e9lula, inclusive as humanas, mas nosso organismo tem meios para consertar essas muta\u00e7\u00f5es. \u201cOs v\u00edrus n\u00e3o t\u00eam esse sistema de reparo\u201d, explica a bi\u00f3loga Maria In\u00eas Pardini, pesquisadora do Hemocentro da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, especialista em resist\u00eancia do HIV. Como ele se replica com alta velocidade, maior que a da maioria dos v\u00edrus, as muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais frequentes. Elas podem ser aleatoriamente boas, ruins ou indiferentes para a sobreviv\u00eancia e o desempenho virais. Entre as \u201cboas\u201d para o HIV est\u00e3o aquelas que lhe conferem resist\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o das drogas.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia viral pode ser adquirida em consequ\u00eancia de falha na ades\u00e3o aos medicamentos, que devem ser ingeridos diariamente e rigorosamente nos mesmos hor\u00e1rios. Se as drogas j\u00e1 n\u00e3o fazem mais efeito, o m\u00e9dico logo suspeita que o paciente n\u00e3o as vem tomando corretamente. Antes de trocar os medicamentos, entretanto, o infectologista pede um exame de genotipagem do v\u00edrus, que vai identificar a muta\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. \u201cAssim ele vai saber por qual droga trocar, evitando usar alguma para a qual o v\u00edrus seja resistente\u201d, explica Maria In\u00eas. H\u00e1 23 laborat\u00f3rios no pa\u00eds mantidos pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para a realiza\u00e7\u00e3o da genotipagem do HIV. Um deles \u00e9 o do Hemocentro de Botucatu, onde Maria In\u00eas investiga tamb\u00e9m outro tipo de resist\u00eancia do v\u00edrus.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia prim\u00e1ria \u00e9 aquela que os m\u00e9dicos constatam logo no in\u00edcio do tratamento. \u201cA muta\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia pode ocorrer em qualquer tempo\u201d, diz a bi\u00f3loga. Para isso, basta que o v\u00edrus esteja se replicando. \u201cComo o paciente pode passar um bom tempo assintom\u00e1tico e sem ter o diagn\u00f3stico, n\u00f3s nunca sabemos desde quando ele est\u00e1 infectado\u201d, explica.<\/p>\n<p>Com financiamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a pesquisadora estuda as muta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia existentes nos v\u00edrus dos pacientes de uma regi\u00e3o a oeste do Estado de S\u00e3o Paulo, a \u00e1rea de abrang\u00eancia do laborat\u00f3rio que ela coordena. \u201cEstamos vendo como est\u00e1 o perfil de resist\u00eancia dos v\u00edrus circulantes\u201d, diz. A ideia \u00e9 auxiliar o programa brasileiro de Aids em futuras decis\u00f5es sobre aquisi\u00e7\u00e3o de medicamentos de nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o dispon\u00edveis no Brasil. \u201dAssim eles n\u00e3o v\u00e3o investir numa certa droga se for constatado que a maioria dos pacientes aqui j\u00e1 tem v\u00edrus resistentes a ela\u201d, acrescenta Maria In\u00eas. Segundo ela, n\u00e3o h\u00e1 outra doen\u00e7a no Brasil com grau t\u00e3o sofisticado de monitoramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00a0\u00a0***<\/p>\n<p><strong>QUADRO: Custos do tratamento no Brasil<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o fim do ano, o governo brasileiro gastar\u00e1 quase R$ 850 milh\u00f5es no fornecimento gratuito dos medicamentos anti-HIV, o que representa perto de 70% do or\u00e7amento do Programa DST\/Aids e Hepatites Virais s\u00f3 para o tratamento do HIV (hepatites virais consomem outros R$ 540 milh\u00f5es). Cerca de 210 mil portadores ser\u00e3o beneficiados.<\/p>\n<p>Outras 50 mil pessoas est\u00e3o infectadas e fazem acompanhamento pelo SUS, mas ainda n\u00e3o atingiram o crit\u00e9rio para iniciar o tratamento (em geral, contagem de linf\u00f3citos CD4 abaixo de 350 c\u00e9lulas por mil\u00edmetro c\u00fabico de sangue).<\/p>\n<p>Acredita-se que mais 50 mil soropositivos nessa mesma condi\u00e7\u00e3o fazem acompanhamento por planos de sa\u00fade. E que entre 20 mil e 30 mil pessoas iniciem a terapia anti-HIV em 2012, segundo estimativas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o gratuita de medicamento \u00e9 a face mais vis\u00edvel do programa brasileiro de Aids, reconhecido como refer\u00eancia mundial, mas seu sucesso depende tamb\u00e9m de uma sofisticada retaguarda laboratorial.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas redes de laborat\u00f3rios: uma para os exames de carga viral, outra para a contagem de linf\u00f3citos CD4 e a terceira para genotipagem viral.<\/p>\n<p>Essa \u00faltima \u00e9 essencial para os casos de resist\u00eancia do v\u00edrus. Manter essa estrutura custa cerca de R$ 38 milh\u00f5es por ano, de acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de outubro de 2011. 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