{"id":507,"date":"2011-10-12T12:44:44","date_gmt":"2011-10-12T15:44:44","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=507"},"modified":"2011-10-12T12:44:44","modified_gmt":"2011-10-12T15:44:44","slug":"uma-historia-de-amor-e-angustia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/10\/12\/uma-historia-de-amor-e-angustia\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria de amor e ang\u00fastia"},"content":{"rendered":"<p>(<em>Este texto foi originalmente publicado em 7\/10\/2011 no <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">blog da revista Unesp Ci\u00eancia<\/a>.<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Teresa e Joaquim formam um casal de meia-idade que vive em Botucatu, no interior de S\u00e3o Paulo, e na realidade n\u00e3o tem esses nomes que acabei de inventar. N\u00e3o querem ser identificados porque guardam um segredo. Ningu\u00e9m sabe que h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos eles se descobriram portadores do v\u00edrus da Aids.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m exceto a filha, uma comadre muito amiga de Teresa e os profissionais de sa\u00fade que os acompanham no Hospital Dia Domingos Alves Meira, um centro especializado no tratamento de HIV e hepatites virais da mesma cidade, ligado \u00e0 Faculdade de Medicina da Unesp.<\/p>\n<p>O filho deles, com mais de 30 anos, nem sonha com o drama dos pais, que querem poup\u00e1-lo do sofrimento. O mesmo sofrimento com o qual teve de lidar a filha, de quem foi in\u00fatil ocultar a situa\u00e7\u00e3o. Ela desconfiou de tantas idas e vindas ao m\u00e9dico, do abatimento emocional deles e dos segredos sussurrados pelos cantos da casa. Um dia botou a m\u00e3e contra parede, pediu uma explica\u00e7\u00e3o sincera e a conseguiu.<\/p>\n<p>Entrevistei Teresa e Joaquim na manh\u00e3 gelada de 1\u00ba de setembro deste ano. O infectologista que os acompanha, com quem passei quase o dia inteiro apurando a <a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reportagem de capa desta edi\u00e7\u00e3o<\/a>, j\u00e1 havia me dito como o casal contra\u00edra o HIV. Ela foi infectada por ele, que por sua vez adquiriu o v\u00edrus numa rela\u00e7\u00e3o extraconjugal desprotegida.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o quanto o casamento dos dois foi abalado por essa trai\u00e7\u00e3o de consequ\u00eancia tr\u00e1gica, n\u00e3o tive coragem de perguntar. Seja l\u00e1 o que tenha acontecido com a rela\u00e7\u00e3o deles diante desta revela\u00e7\u00e3o, o fato \u00e9 que, mesmo os tendo visto uma \u00fanica vez, para mim era evidente que o v\u00ednculo do casal estava mais s\u00f3lido do que nunca.<\/p>\n<p>Mais tarde o m\u00e9dico me diria que normalmente \u00e9 assim, quando os dois est\u00e3o infectados, a uni\u00e3o geralmente se fortalece. Quando apenas um deles contrai o v\u00edrus, a separa\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra. Tamb\u00e9m \u00e9 comum entre os soropositivos de qualquer idade, casados, solteiros ou separados, manterem sua condi\u00e7\u00e3o em segredo. O temor do estigma e da discrimina\u00e7\u00e3o ainda fala mais alto.<\/p>\n<p>Teresa estava muito abalada naquele dia. Ao contr\u00e1rio do marido, ela nunca tinha tomado os medicamentos anti-HIV porque sua contagem de linf\u00f3citos CD4 n\u00e3o havia atingido o n\u00edvel abaixo do qual o tratamento \u00e9 iniciado. Mas o \u00faltimo exame mostrava que a malfadado dia estava pr\u00f3ximo, apesar de todas as suas preces. Dizia isso com um fiapo de voz e os olhos marejados. Joaquim segurava sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos ele quase morreu por causa de repetidas pneumonias, de cuja verdadeira causa os m\u00e9dicos tardaram a suspeitar. Foi s\u00f3 quando Joaquim desenvolveu herpes, infec\u00e7\u00e3o oportunista t\u00edpica da Aids, que o exame de HIV foi pedido. O atraso no diagn\u00f3stico lhe custou a vis\u00e3o de um dos olhos, motivo pelo qual hoje ele est\u00e1 aposentado.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, Teresa e Joaquim se consideram pessoas de sorte pela qualidade do atendimento que recebem no Hospital Dia Domingos Alves Meira. Criado em 2004, o centro leva o nome de seu fundador e coordenador, um veterano e obstinado infectologista que batalhou muito para colocar em pr\u00e1tica uma unidade multidisciplinar cujo pilar principal \u00e9 a medicina humanizada. Al\u00e9m do tratamento padr\u00e3o, os pacientes \u00a0recebem assist\u00eancia odontol\u00f3gica, psicol\u00f3gica, fisioter\u00e1pica, sempre de gra\u00e7a pelo SUS. Brasil afora, nem todo lugar tem essa estrutura e n\u00e3o por acaso vem gente de longe para se tratar em Botucatu.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Nada do que Teresa e Joaquim me contaram naquele dia foi usado por mim na reportagem, que trata de uma nova faceta da Aids, ainda pouco conhecida pela popula\u00e7\u00e3o, mas que j\u00e1 preocupa os especialistas. A longevidade conquistada pelo tratamento com o potente coquetel de medicamentos gerou um novo problema. A conviv\u00eancia prolongada com o v\u00edrus leva o organismo a envelhecer precocemente. Doen\u00e7as t\u00edpicas da senesc\u00eancia, como infarto, derrame, dem\u00eancias, osteoporose, c\u00e2ncer, entre outras, s\u00e3o mais comuns nos soropositivos e, al\u00e9m disso, costumam se manifestar mais cedo.<\/p>\n<p>Minha conversa com o casal passou muito longe desses problemas, que eram o foco principal da reportagem. Percebi que eles nem desconfiavam disso, que suas preocupa\u00e7\u00f5es eram mais imediatas: o in\u00edcio do tratamento dela, o hor\u00e1rio dos rem\u00e9dios dele, a manuten\u00e7\u00e3o do segredo no c\u00edrculo familiar e social, ficar bem f\u00edsica e emocionalmente, na medida do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Teresa e Joaquim n\u00e3o entraram explicitamente na reportagem, mas n\u00e3o me sa\u00edram da cabe\u00e7a ao longo dos dias que levei para escrev\u00ea-la. Sentia-me a portadora de muitas m\u00e1s not\u00edcias e imaginava qual seria a rea\u00e7\u00e3o deles e de tantas outras pessoas na mesma condi\u00e7\u00e3o quando lessem o que eu estava escrevendo. Fiquei angustiada. Pela primeira vez eu escrevia uma mat\u00e9ria sobre uma doen\u00e7a desejando fortemente que os portadores dessa doen\u00e7a nunca a lessem.<\/p>\n<p>Mas espero que a reportagem sirva para refor\u00e7ar o alerta incans\u00e1vel dos m\u00e9dicos, para o qual a sociedade em geral parece j\u00e1 um pouco dessensibilizada, infelizmente. O sucesso do tratamento tem feito muita gente baixar a guarda, expondo-se ao risco da infec\u00e7\u00e3o, como se bastasse um punhado de comprimidos fornecidos pelo governo para remediar o problema e ter uma vida normal. Grande engano.<\/p>\n<p>A Aids pode n\u00e3o ser mais a senten\u00e7a de morte que era nos anos 1980, mas \u00e9 importante ressaltar que o tratamento resolve apenas uma parte dos problemas: as infec\u00e7\u00f5es oportunistas que se instalam no organismo debilitado pelo v\u00edrus. Isso n\u00e3o permite supor, entretanto, que a doen\u00e7a esteja controlada. Os especialistas ainda n\u00e3o sabem muito bem como prevenir e contornar o envelhecimento precoce causado pela persist\u00eancia do HIV em regi\u00f5es do corpo que os medicamentos n\u00e3o alcan\u00e7am, por exemplo, o c\u00e9rebro. As pesquisas nessa \u00e1rea est\u00e3o s\u00f3 come\u00e7o.<\/p>\n<p>Leia a reportagem <a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/24\/aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui, em pdf<\/a>. Desde j\u00e1 agrade\u00e7o a todos que puderem ajudar a divulg\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Este texto foi originalmente publicado em 7\/10\/2011 no blog da revista Unesp Ci\u00eancia.) &nbsp; Teresa e Joaquim formam um casal de meia-idade que vive em Botucatu, no interior de S\u00e3o Paulo, e na realidade n\u00e3o tem esses nomes que acabei de inventar. N\u00e3o querem ser identificados porque guardam um segredo. 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