{"id":515,"date":"2011-12-11T18:04:15","date_gmt":"2011-12-11T21:04:15","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=515"},"modified":"2011-12-11T18:04:15","modified_gmt":"2011-12-11T21:04:15","slug":"poluicao-apos-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2011\/12\/11\/poluicao-apos-a-morte\/","title":{"rendered":"Polui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte"},"content":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=4284\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">novembro de 2011<\/a> (<a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/25\/quem-diria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pdf<\/a>).<\/p>\n<div id=\"attachment_516\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/luispabon\/5646093782\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-516\" class=\"size-medium wp-image-516\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2011\/12\/cemiterio-545x408.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"408\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-516\" class=\"wp-caption-text\">Foto: luispabon<\/p><\/div>\n<p><strong>Ge\u00f3logo de Rio Claro adapta m\u00e9todo de imageamento do solo para avaliar a contamina\u00e7\u00e3o ambiental gerada pelos cemit\u00e9rios, um tema tabu at\u00e9 mesmo no meio cient\u00edfico<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bom avisar logo que o assunto \u00e9 um tanto inc\u00f4modo e justamente por isso tende a ser negligenciado. Para tratar objetivamente do impacto ambiental dos cemit\u00e9rios \u00e9 preciso antes passar por cima \u2013 ainda que momentaneamente \u2013 de nada menos que o tabu da morte. Seja l\u00e1 qual for sua cren\u00e7a ou descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia p\u00f3s-t\u00famulo, o fato \u00e9 que para todos n\u00f3s \u00e9 muito mais f\u00e1cil lidar com a possibilidade, real ou fict\u00edcia, de uma alma sem corpo (alma no sentido b\u00e1sico, de anima) do que com a ideia concreta de um corpo sem alma. Mas esp\u00edritos ou fantasmas, ao que tudo indica, n\u00e3o poluem o solo ou a \u00e1gua, ao contr\u00e1rio do que pode ocorrer com o corpo humano depois que perde a vida.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 ainda mais delicado para os cientistas que se disp\u00f5em a estud\u00e1-lo, que n\u00e3o por acaso s\u00e3o poucos em qualquer pa\u00eds. Bem o sabe o ge\u00f3logo Walter Malagutti Filho, do Instituto de Geoci\u00eancias e Ci\u00eancias Exatas da Unesp em Rio Claro, que est\u00e1 investigando o grau de contamina\u00e7\u00e3o do solo abaixo das sepulturas de um cemit\u00e9rio municipal na mesma cidade e j\u00e1 concluiu trabalho semelhante na vizinha Piracicaba.<\/p>\n<p>A primeira dificuldade, explica ele, \u00e9 convencer a administra\u00e7\u00e3o do lugar a autorizar a pesquisa, algo que \u00e9 bem mais dif\u00edcil de se obter das\u00a0 necr\u00f3poles privadas, segundo Malagutti. O segundo desafio \u00e9 a coleta de dados propriamente dita. \u201cO cemit\u00e9rio \u00e9 um espa\u00e7o sagrado\u201d, justifica. \u201cOs ge\u00f3logos costumam trabalhar no campo de um jeito muito descontra\u00eddo. J\u00e1 no cemit\u00e9rio temos de trabalhar de forma muito discreta, r\u00e1pida e silenciosa. As pessoas olham feio.\u201d<\/p>\n<p>O ge\u00f3logo utiliza um m\u00e9todo el\u00e9trico para detectar abaixo da superf\u00edcie as chamadas plumas de contamina\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o como l\u00ednguas por onde se infiltra o fluido viscoso que tem origem nas sepulturas e \u00e9 resultado natural da decomposi\u00e7\u00e3o. Nesse processo, no qual atua um grande n\u00famero de bact\u00e9rias, um corpo de 70 kg pode gerar at\u00e9 40 litros do chamado necrochorume, ao longo de um per\u00edodo que varia de tr\u00eas a cinco anos ap\u00f3s o sepultamento.<\/p>\n<p>Onde h\u00e1 plumas de contamina\u00e7\u00e3o, o solo fica menos resistente \u00e0 passagem de corrente el\u00e9trica. Usando quatro eletrodos fincados no ch\u00e3o, Malagutti faz as medidas que, uma vez processadas no computador, formam uma imagem indireta dos subterr\u00e2neos do cemit\u00e9rio. O imageamento el\u00e9trico \u00e9 um m\u00e9todo diagn\u00f3stico relativamente simples e pouco invasivo, mas tem suas limita\u00e7\u00f5es, segundo o pesquisador.<\/p>\n<p>A medida direta ideal, esclarece, exigiria grandes perfura\u00e7\u00f5es em meio \u00e0s sepulturas, o que obviamente est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o. \u201cO imageamento el\u00e9trico j\u00e1 \u00e9 usado para avaliar a contamina\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea causada por aterros sanit\u00e1rios. Estamos adaptando-o para os cemit\u00e9rios\u201d, diz Malagutti com muito cuidado, reconhecendo que, do ponto de vista sentimental, a compara\u00e7\u00e3o parece aviltante.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, do ponto de vista t\u00e9cnico, o impacto ambiental de um cemit\u00e9rio \u00e9 compar\u00e1vel ao de um aterro de lixo \u2013 mais precisamente de lixo hospitalar, j\u00e1 que muitos defuntos passaram antes por interna\u00e7\u00f5es e est\u00e3o impregnados de medicamentos e materiais m\u00e9dicos e cir\u00fargicos. H\u00e1 duas diferen\u00e7as importantes, entretanto, no que se refere \u00e0 escala de tempo, lembra o ge\u00f3logo: os aterros t\u00eam vida \u00fatil, ao t\u00e9rmino da qual s\u00e3o fechados. J\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o das necr\u00f3poles, por assim dizer, se renova continuamente.<\/p>\n<p><strong>Efeito cumulativo<\/strong><br \/>\nEm Rio Claro, o pesquisador tem verificado que as plumas de contamina\u00e7\u00e3o parecem mais intensas justamente nas \u00e1reas mais antigas do cemit\u00e9rio (que tem 130 anos), sugerindo um impacto maior por efeito cumulativo. O ideal, segundo ele, seria n\u00e3o fazer mais sepultamentos ali.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe se essas poss\u00edveis plumas alcan\u00e7am o len\u00e7ol fre\u00e1tico que passa 20 m abaixo da superf\u00edcie. Tal profundidade imp\u00f5e a dificuldade t\u00e9cnica de chegar at\u00e9 l\u00e1 para coletar amostras da \u00e1gua, mas, em compensa\u00e7\u00e3o, atua como fator de prote\u00e7\u00e3o. Em Piracicaba, por\u00e9m, os resultados obtidos por Malagutti foram confirmados por testes que detectaram contamina\u00e7\u00e3o do len\u00e7ol, bem mais raso nesse caso.<\/p>\n<p>Se a \u00e1gua contaminada pelo necrochorume passar por uma esta\u00e7\u00e3o de tratamento antes de chegar \u00e0s nossas torneiras, menos mal. L\u00e1 ela ser\u00e1 desinfectada (a um custo que \u00e9 pago pela sociedade, sempre \u00e9 bom lembrar). \u201cAgora imagine quantos po\u00e7os artesianos existem por a\u00ed, onde n\u00e3o \u00e9 feito controle de qualidade\u201d, aponta o pesquisador. Muitos deles podem ser usados para irrigar lavouras.<\/p>\n<p>Nos cemit\u00e9rios constru\u00eddos mais recentemente, o risco de contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 bem menor. Desde 2003, a legisla\u00e7\u00e3o estipula, entre outros itens, que eles n\u00e3o podem ocupar \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental, nem terrenos sob os quais o len\u00e7ol fre\u00e1tico passa a menos de 5 m de profundidade, al\u00e9m de dispor sobre normas para constru\u00e7\u00e3o dos jazigos a fim de evitar a infiltra\u00e7\u00e3o do necrochorume no solo.<\/p>\n<p>O problema, portanto, concentra-se nas necr\u00f3poles antigas \u2013 a esmagadora maioria. O ideal seria que elas n\u00e3o recebessem mais corpos e que novas \u00e1reas, fora da cidade, fossem abertas para esse fim e seguindo a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, defende o ge\u00f3logo da USP Alberto Pacheco, o pioneiro nessa \u00e1rea no Brasil.<\/p>\n<p>S\u00e3o dele os trabalhos que j\u00e1 mostraram s\u00e9rios problemas de contamina\u00e7\u00e3o do solo e do len\u00e7ol fre\u00e1tico em dois grandes cemit\u00e9rios da cidade de S\u00e3o Paulo: na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte) e na Vila Formosa (zona leste).<\/p>\n<p>Aposentado, Pacheco est\u00e1 escrevendo um livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre o tema para chamar a aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e do poder p\u00fablico. \u201cPrecisamos entender que, vivo ou morto, o ser humano polui o ambiente\u201d, diz ele. \u201cUsando o conhecimento da geologia e t\u00e9cnicas de gerenciamento, n\u00f3s podemos tornar os cemit\u00e9rios mais sustent\u00e1veis e evitar que um risco potencial de contamina\u00e7\u00e3o se torne um risco efetivo\u201d, resume.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de novembro de 2011 (pdf). Ge\u00f3logo de Rio Claro adapta m\u00e9todo de imageamento do solo para avaliar a contamina\u00e7\u00e3o ambiental gerada pelos cemit\u00e9rios, um tema tabu at\u00e9 mesmo no meio cient\u00edfico \u00c9 bom avisar logo que o assunto \u00e9 um tanto inc\u00f4modo e justamente por isso tende a ser negligenciado. 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