{"id":528,"date":"2012-05-17T15:32:47","date_gmt":"2012-05-17T18:32:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=528"},"modified":"2012-05-17T15:32:47","modified_gmt":"2012-05-17T18:32:47","slug":"culpa-nao-e-capim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2012\/05\/17\/culpa-nao-e-capim\/","title":{"rendered":"A culpa n\u00e3o \u00e9 do capim"},"content":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=4827\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mar\u00e7o de 2012<\/a> (<a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci_ses\/revista_unespciencia\/acervo\/28\/quem-diria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pdf<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/05\/render_alta1_nova.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-530\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/05\/render_alta1_nova-545x272.jpg\" alt=\"\" width=\"513\" height=\"272\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>O sol massacrante e o predom\u00ednio de gado holand\u00eas \u00e9 que prejudicam a pecu\u00e1ria leiteira no semi\u00e1rido cearense, aponta estudo da Unesp em Jaboticabal; t\u00e9cnicas de manejo poderiam amenizar o problema<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais lembra quando nem como vacas holandesas chegaram pela primeira vez a Limoeiro do Norte, cidade cearense que fica a 200 km de Fortaleza, em pleno semi\u00e1rido nordestino. Como a pecu\u00e1ria extensiva e a atividade leiteira s\u00e3o tradicionais na regi\u00e3o, para os limoeirenses \u00e9 normal ver esses animais, com seu pelo malhado em branco e preto, soltos nos pastos ou, o que \u00e9 bastante comum, descansando na sombra das \u00e1rvores, dentro de pequenas propriedades espalhadas pelo munic\u00edpio onde vivem cerca de 56 mil pessoas e quase 7 mil vacas de leite, segundo o IBGE.<\/p>\n<p>Ver essa ra\u00e7a de gado originada dos Pa\u00edses Baixos \u2013 onde o clima \u00e9 classificado como temperado mar\u00edtimo \u2013 sendo criada numa das regi\u00f5es mais t\u00f3rridas do Brasil pode ser normal para os limoeirenses, mas n\u00e3o para o zootecnista acreano Alex Sandro Campos Maia.<\/p>\n<p>\u201cFiquei muito surpreso\u201d, recorda o pesquisador da Faculdade de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias e Veterin\u00e1rias da Unesp em Jaboticabal, que na \u00e9poca da visita ao local, anos atr\u00e1s, estava ligado \u00e0 Universidade Federal Rural do Semi-\u00c1rido (Ufersa). \u201cQuando conto para meus colegas do exterior, que tamb\u00e9m trabalham com gado holand\u00eas, ningu\u00e9m acredita que isso \u00e9 poss\u00edvel.\u201d Segundo ele, existem ra\u00e7as de gado mais bem adaptadas ao calor intenso.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica chamou a aten\u00e7\u00e3o do pesquisador, que conversando com produtores locais logo descobriu que a produtividade deles \u00e9 muito baixa.<\/p>\n<p>Enquanto no Sudeste uma vaca holandesa produz em m\u00e9dia 33 quilos de leite por dia \u2013 em casos excepcionais podendo superar 40 quilos di\u00e1rios \u2013, em Limoeiro do Norte cada animal rende diariamente entre 12 e 15 quilos de leite, compara Campos Maia. \u201cN\u00e3o que eles (os produtores) reclamem\u201d, afirma. \u201cO neg\u00f3cio parece estar indo bem. Mas podia estar muito melhor.\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador constatou tamb\u00e9m que os produtores sabem que suas vacas podiam render mais leite e costumam justificar o infort\u00fanio culpando o capim, que seria de m\u00e1 qualidade \u2013 hip\u00f3tese que n\u00e3o convenceu o zootecnista. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de errado com o pasto. A folhagem \u00e9 boa\u201d, afirma.<br \/>\nDesde o princ\u00edpio, sua suspeita recaiu sobre o estresse t\u00e9rmico severo a que aquelas vacas est\u00e3o expostas. Para comprov\u00e1-lo, ele elaborou um projeto de pesquisa cujos resultados est\u00e3o prestes a ser publicados na revista <em>Applied Animal Behaviour Science.<\/em> Os resultados permitem concluir que a culpa n\u00e3o \u00e9 do capim, mas do sol e do calor acachapantes do lugar \u2013 n\u00e3o h\u00e1 holand\u00eas que aguente.<\/p>\n<p><strong>A vaca foi pra sombra<\/strong><br \/>\nA pesquisa consistiu na observa\u00e7\u00e3o de oito vacas holandesas, ao longo de uma semana em outubro de 2010, numa das propriedades do munic\u00edpio cearense. Quem estava l\u00e1 de prontid\u00e3o, das 6 h da manh\u00e3 \u00e0s 6h da tarde, era Steffan Edward Oct\u00e1vio de Oliveira, na \u00e9poca aluno do \u00faltimo ano do curso de Zootecnia da Ufersa, que fez do projeto seu trabalho de conclus\u00e3o de curso, sob orienta\u00e7\u00e3o de Campos Maia. \u201cAnalisamos o efeito da radia\u00e7\u00e3o solar no comportamento das vacas\u201d, explica ele.<\/p>\n<p>As vacas tinham acesso ao pasto a partir das 6 h da manh\u00e3, depois da primeira ordenha do dia, em est\u00e1bulo, que come\u00e7ava \u00e0s 3 h. O problema \u00e9 que \u00e0s 7 h o sol j\u00e1 \u00e9 \u201cmuito forte\u201d, segundo Campos Maia. E h\u00e1 um incremento brutal nas horas seguintes. \u201c\u00c0s 7 h, a intensidade da radia\u00e7\u00e3o solar est\u00e1 em torno de 500 Watts por metro quadrado (W\/m2). Uma hora depois, esse valor chega a 900 W\/m2\u201d, acrescenta. O pico, entre 10 h e 11 h, ultrapassa 1.100 W\/m2.<\/p>\n<p>Os resultados mostraram que a partir das 8 h, quando a radia\u00e7\u00e3o solar superava 600 W\/m2, os animais procuravam a sombra e l\u00e1 ficavam, parados, a maior parte do tempo. O hor\u00e1rio em que mais comeram foi das 6 h \u00e0s 7 h, quando a radia\u00e7\u00e3o ainda estava abaixo dos 300 W\/m2. Durante a tarde, n\u00e3o lhes restava muito tempo para pastar, pois quando o sol come\u00e7ava a amainar, ao redor das 15h, eles eram reconduzidos ao est\u00e1bulo para nova ordenha e dali s\u00f3 sa\u00edam no dia seguinte.<\/p>\n<p>\u00c9 por comer pouco que as vacas n\u00e3o est\u00e3o produzindo todo o leite de que s\u00e3o capazes. Segundo o pesquisador, o sol intenso as faz perder o apetite, tal como ocorre com humanos. \u201cMetabolicamente falando, o animal faz uma conta interna, segundo a qual \u00e9 melhor ficar sem comer, mas na sombra, do que buscar alimento no sol. \u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Algumas medidas deixam claro que a decis\u00e3o das vacas \u00e9, de fato, a mais prudente. Enquanto a temperatura m\u00e9dia do solo \u00e0 sombra ficava por volta dos 30 oC, a do ch\u00e3o exposto ao sol superou os 60 oC. J\u00e1 a temperatura superficial dos animais, medida com c\u00e2meras de infravermelho, foi pelo menos 5 oC menor \u00e0 sombra em compara\u00e7\u00e3o a quando estavam debaixo do sol.<\/p>\n<p>A segunda fase da pesquisa j\u00e1 come\u00e7ou. Desta vez, o hor\u00e1rio da ordenha ser\u00e1 alterado para que o rebanho possa pastar em momentos do dia com menor radia\u00e7\u00e3o solar. Se com isso ele ficar mais tempo no pasto, a produ\u00e7\u00e3o de leite deve aumentar.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a hip\u00f3tese que Oliveira vai testar ao longo do seu mestrado, iniciado no ano passado, na Unesp em Jaboticabal. \u201cExistem sistemas de sombreamento, mas custam caro para o produtor. Estamos buscando solu\u00e7\u00f5es simples\u201d, conta o aluno. \u201cQueremos adiantar as ordenhas em uma hora e verificar se h\u00e1 resultado.\u201d Seu orientador n\u00e3o descarta a ideia de interferir um pouco mais, permitindo que o rebanho possa pastar \u00e0 noite, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Sem protetor<\/strong><br \/>\nMesmo que t\u00e9cnicas de manejo n\u00e3o aumentem a produtividade da pecu\u00e1ria leiteira de Limoeiro do Norte (o que \u00e9 pouco prov\u00e1vel), poupar o rebanho holand\u00eas do sol\u00a0 do semi\u00e1rido deve pelo menos amenizar um problema de sa\u00fade bovina comum na regi\u00e3o: o c\u00e2ncer de pele. \u201cCerca de 10% dos animais que vi l\u00e1 tinham a doen\u00e7a, \u00e0s vezes em est\u00e1gio avan\u00e7ado. \u00c9 um n\u00famero muito alto\u201d, diz Campos Maia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada na Unesp Ci\u00eancia de mar\u00e7o de 2012 (pdf). 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