{"id":535,"date":"2012-06-23T12:55:36","date_gmt":"2012-06-23T15:55:36","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/efeitoadverso\/?p=535"},"modified":"2012-06-23T12:55:36","modified_gmt":"2012-06-23T15:55:36","slug":"memorias-de-um-subversivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/2012\/06\/23\/memorias-de-um-subversivo\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de um subversivo"},"content":{"rendered":"<p><em>Lenda viva no meio acad\u00eamico e talentoso cronista, o m\u00e9dico Luiz Hildebrando narra os momentos mais cr\u00edticos do s\u00e9culo 20 por meio de hist\u00f3rias pessoais que ajudam a entender melhor o Brasil e sua ci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>(Texto publicado na <a href=\"http:\/\/www2.unesp.br\/revista\/?p=5282\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">edi\u00e7\u00e3o de junho\/2012 da revista Unesp Ci\u00eancia<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/06\/livro-hildebrando.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-536\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/06\/livro-hildebrando.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"287\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/06\/livro-hildebrando.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/efeitoadverso\/wp-content\/uploads\/sites\/217\/2012\/06\/livro-hildebrando-139x200.jpg 139w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a>Aos 83 anos \u2013 dos quais 60 de carreira acad\u00eamica \u2013, o m\u00e9dico e parasitologista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva \u00e9 um dos mais importantes cientistas brasileiros vivos e em atividade, ainda que pouco conhecido fora desse meio. Mas, mais importante que conhecer suas credenciais cient\u00edficas superlativas \u00e9 saber que o narrador destas <em>Cr\u00f4nicas subversivas de um cientista<\/em> um dia foi um menino que cresceu na zona sul da cidade de S\u00e3o Paulo ouvindo pelo r\u00e1dio as not\u00edcias da Segunda Guerra; foi um estudante que viveu de corpo e alma a efervesc\u00eancia pol\u00edtica dos anos 1940 e 1950; e se fez homem num mundo coberto pelas nuvens da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Intelectual combativo, militante comunista e habilidoso articulador pol\u00edtico, Hildebrando tornou-se uma das primeiras presas da ditadura militar. Expulso ainda em 1964 ap\u00f3s uma investiga\u00e7\u00e3o por \u201catividades subversivas\u201d na Faculdade de Medicina da USP, da qual era professor, ele passou mais de 25 anos \u2013 somados os dois per\u00edodos de ex\u00edlio \u2013 trabalhando no Instituto Pasteur em Paris, ao lado de figuras estelares da ci\u00eancia. De volta ao pa\u00eds h\u00e1 15 anos, como autoridade mundial em mal\u00e1ria, assumiu a tarefa de criar um centro avan\u00e7ado de pesquisas na improv\u00e1vel Porto Velho (RO), onde tamb\u00e9m ajudou a criar e dirige uma unidade da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>Estas mem\u00f3rias que saem agora pela Vieira &amp; Lent s\u00e3o uma recompila\u00e7\u00e3o de dois livros \u2013<em> O fio da meada <\/em>(Brasiliense, 1990) e <em>Cr\u00f4nicas de nossa \u00e9poca<\/em> (Paz e Terra, 2001). Nelas Hildebrando mostra que, al\u00e9m de \u00f3tima mem\u00f3ria e muita hist\u00f3ria para contar, tem ainda uma bem lapidada veia liter\u00e1ria. N\u00e3o se trata de um livro de ci\u00eancia nem de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, porque n\u00e3o pretende ensinar nada a ningu\u00e9m. Ele n\u00e3o pretende se ocupar da Hist\u00f3ria com H mai\u00fasculo, mas das pequenas narrativas do cotidiano, que por sua vez atravessam os momentos mais conturbados da pol\u00edtica nacional e da geopol\u00edtica mundial do s\u00e9culo 20. E que o leitor revive na pele de um cientista engajado, com ideais e convic\u00e7\u00f5es de sua gera\u00e7\u00e3o, mas que sabe passar ao largo da tenta\u00e7\u00e3o da autocongratula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As cr\u00f4nicas de Hildebrando est\u00e3o cheias de pessoas e afetos. Assim, as lembran\u00e7as da av\u00f3 Chiquinha adquirem a mesma estatura das do amigo e f\u00edsico M\u00e1rio Schenberg, ou das do mestre Fran\u00e7ois Jacob, Nobel de Medicina em 1965. Em muitas\u00a0 flagramos\u00a0 o autor rindo de si mesmo, como quando decidiu pegar em armas \u2013\u00a0 aparentemente pela primeira e \u00faltima vez \u2013 para matar mosquitos.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1968, Hildebrando acabara de voltar do primeiro ex\u00edlio e ainda n\u00e3o sabia que logo depois o AI-5 o expulsaria de novo. Entediados com a vida pacata como professores na USP em Ribeir\u00e3o Preto, ele o amigo Erney Camargo \u2013 dois seres urbanos \u2013 usaram coquet\u00e9is molotov para exterminar os criadouros dos mosquitos que infestavam o c\u00e2mpus da Faculdade de Medicina (<em>leia trecho abaixo<\/em>).<\/p>\n<p>Outras hist\u00f3rias revelam os bastidores do jogo de for\u00e7as que permeava a pol\u00edtica universit\u00e1ria paulista e descrevem lances que tiveram profundo impacto no desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico do Estado e do pa\u00eds nas d\u00e9cadas seguintes. \u00c9 o caso da cria\u00e7\u00e3o da Fapesp.<\/p>\n<p>A lei org\u00e2nica do governo Carvalho Pinto que institu\u00eda a ag\u00eancia de fomento \u00e0 pesquisa de S\u00e3o Paulo \u00e9 de 1960, mas houve dificuldades para regulament\u00e1-la, em grande medida por resist\u00eancia da USP.\u00a0 A oportunidade de furar esse cerco veio quando o matem\u00e1tico italiano Jaur\u00e8s Cecconi, que trabalhava no c\u00e2mpus da universidade em S\u00e3o Carlos desde 1956, havia dado por conclu\u00edda sua miss\u00e3o no Brasil e precisava retornar a G\u00eanova, onde um\u00a0 novo contrato o aguardava. Ocorreu, por\u00e9m, que a reitoria n\u00e3o cumpriu o prometido e negou custeio da viagem de retorno para ele e a fam\u00edlia, algo que na \u00e9poca era mais comum fazer de navio.<\/p>\n<p>A not\u00edcia se espalhou e foi bater no telefone de Hildebrando, que pensou, pensou e arriscou ligar para Pl\u00ednio de Arruda Sampaio, ent\u00e3o chefe de gabinete do governo estadual, que n\u00e3o era exatamente um companheiro, mas a quem respeitava. O governador Carvalho Pinto n\u00e3o gostou nada do constrangimento sofrido pelo professor Cecconi e pagou-lhe passagens de avi\u00e3o. Como a elei\u00e7\u00e3o na USP estava pr\u00f3xima, o incidente foi a gota d\u00b4\u00e1gua para o in\u00edcio de uma articula\u00e7\u00e3o de pesquisadores, apoiada pelo Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, para colocar algu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o na reitoria. Dos intensos debates sobre o tema, que acirraram os \u00e2nimos de Mario Schenberg e do arquiteto Vilanova Artigas e tiveram grande participa\u00e7\u00e3o do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, saiu a indica\u00e7\u00e3o de Antonio Barros de Ulh\u00f4a Cintra, que se elegeu em 1961 e botou a Fapesp em funcionamento no ano seguinte.<\/p>\n<p>Quando Hildebrando \u00e9 exilado pela segunda vez e retorna a Paris, em 1968, enfia a cara na gen\u00e9tica de parasitas e d\u00e1 passos cient\u00edficos importantes, pelos quais o Instituto Pasteur investe nele. Aqui, o leitor que n\u00e3o vem das ci\u00eancias biol\u00f3gicas pode n\u00e3o entender muito bem a descri\u00e7\u00e3o dos experimentos no laborat\u00f3rio, as hip\u00f3teses de trabalho ou resultados obtidos, mas isso n\u00e3o prejudica o fluxo da narrativa, porque importam menos as tecnicalidades que acompanham as perguntas da ci\u00eancia do que o percurso, as convic\u00e7\u00f5es e os percal\u00e7os que levam o pesquisador at\u00e9 elas.<\/p>\n<p>\u201cMilhares \u2013 milh\u00f5es mesmo \u2013 de outros jovens que viveram os mesmos acontecimentos permaneceram indiferentes ou tomaram posi\u00e7\u00f5es opostas\u201d, reflete o m\u00e9dico na p\u00e1gina 47. \u201cEnt\u00e3o, se nos interessa saber como e por que um adolescente insignificante, perdido num ponto do mapa-m\u00fandi, virou isso ou aquilo, ou n\u00e3o virou nada, \u00e9 preciso se interessar pelo molho servido com o prato principal.\u201d<\/p>\n<p>Seu livro \u00e9, portanto, puro molho, temperado e maturado ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, de sabor ao mesmo tempo suave e intenso. Pois o prato principal, a Hist\u00f3ria mai\u00fascula, ele deixa humildemente para os\u00a0 historiadores.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00f4nicas subversivas de um cientista<\/strong><br \/>\nLuiz Hildebrando; Vieira &amp; Lent; 480 p\u00e1gs.; R$ 68<\/p>\n<p><strong>Trecho<\/strong><br \/>\nA ideia para sair do buraco veio num domingo, na hora do aperitivo, Erney e eu sentados na varanda, olhando as vacas ao longe. \u2013 A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que vejo \u00e9 virar ecologista, disse. Erney engasgou com seu u\u00edsque e quase se afogou num acesso de tosse. Ele era al\u00e9rgico \u00e0 palavra. Tudo o que fazia lembrar a natureza o enchia de urtic\u00e1ria.<\/p>\n<p>(\u2026) \u2013 Escuta, Astolfo voc\u00ea n\u00e3o pensa que a situa\u00e7\u00e3o do Culex aqui\u00a0 \u00e9 inadmiss\u00edvel? Uma faculdade de Medicina que se orgulha, com raz\u00e3o, de ser uma das melhores do pa\u00eds. Com um ensino de parasitologia de primeira qualidade e infestada de Culex! \u00c9 vergonhoso!<\/p>\n<p>(\u2026) Astolfo n\u00e3o sabia o que era [coquetel molotov]. N\u00e3o estava escrito nos seus livros. Sem fornecer a origem de minhas compet\u00eancias, explico o princ\u00edpio. No laborat\u00f3rio preparamos sete \u201cmolotovs\u201d (\u2026) Abro caminho entre a vegeta\u00e7\u00e3o. Um fogar\u00e9u, vinte metros \u00e0 direita, me anuncia que Erney lan\u00e7ou o ataque.<\/p>\n<p>(\u2026) O cheiro de carne queimada de mosquito invade o ar \u2013 se \u00e9 que mosquito queimado cheira a alguma coisa. Lan\u00e7o meu segundo coquetel e espero. Depois me aproximo com o lat\u00e3o de \u00f3leo diesel. Chego mais perto\u2026 E o que vejo? Uma cabe\u00e7a de cobra jararacu\u00e7u, assustada pelo fogo, emerge da superf\u00edcie da \u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lenda viva no meio acad\u00eamico e talentoso cronista, o m\u00e9dico Luiz Hildebrando narra os momentos mais cr\u00edticos do s\u00e9culo 20 por meio de hist\u00f3rias pessoais que ajudam a entender melhor o Brasil e sua ci\u00eancia. 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